quarta-feira, 19 de junho de 2019

RINCÃO DOS MACHADO: UM CADINHO DO MUNDO


          Os últimos cem anos registram uma transformação social, econômica e cultural no Rincão dos Machado, que servem como amostra de aspectos comuns à evolução de toda a história humana. Sem reduzir o universal à minha aldeia (como o sugeriu Leon Tolstoi), esclareço a sentença acima com a referência de quem esteve presente no torvelinho de algumas mudanças.

         Há um século, o rincão não passava de um espaço devoluto, fundo de uma fazenda gigantesca, onde o gado vivia como bicho bravio. Uma relação escassa de artifícios, como um forno de pedra, um palanque de cerne de angico, uma taipa na restinga e pouco mais, atesta a presença de dois ou três moradores antigos. Mais conhecidos do Epa(minondas), eles pertenceram a uma época anterior. Dessa forma, a chegada de Firmino Machado, à frente de sua família numerosa, demarca o início da ocupação efetiva do rincão – feito que se repete desde as primeiras comunidades agrícolas.
         O vínculo consanguíneo fortaleceu a unidade moral do clã dos Machado, cuja autoridade maior era Firmino, pai, avô, bisavô, irmão, cunhado, tio, ascendente de quem estabeleceu novas famílias na localidade. Todos o respeitavam sem a necessidade de sua palavra resoluta, nunca opressora. Esse sistema social também remonta às comunidades primitivas, que dependiam de deveres (e valores) para sobrepor-se aos excessos pulsionais de seus integrantes mais jovens.
         O vô Firmino trabalhava muito, como o exigia todo pioneirismo fundador. O domingo, todavia, ele reservava ao descanso, quando mais se cansava atrás de veado em suas terras e no outro lado do rio. A propósito, esse instinto de caçador obedecia ao gene moldado evolutivamente ao longo do Paleolítico. Alguns anos depois de sua morte, o Rincão dos Cervos ganhou a denominação toponímica hoje conhecida: Rincão dos Machado.
         As casas no rincão eram construídas com a madeira tirada no mato nativo, que cobria encostas e várzeas à beira do Rosário. Os alimentos postos à mesa resultavam do trabalho duríssimo de todos por meses a fio, com o preparo da roça, plantio, limpeza e colheita. A tecnologia disponível em pouco se distinguia da empregada por agricultores sumérios: foice, arado pula-toco, cavadeira, enxada, braço, sangue e suor. Entre o Tigre e o Eufrates, produzia-se com a ajuda da água (trazida por um sistema de irrigação); no rincão, necessitava-se do fogo (controlado por aceiros).
         O trigo representava a base da agricultura: uma parte atendia ao consumo de subsistência, e a outra excedente transformava-se em moeda de troca. Mais tarde, a planta passou a cair de rendimento, o que forçou a sua substituição pela soja. Logo o mercado mundial fez desse feijão exótico (no rincão) uma commodity. O trator tomou o lugar dos bois de canga. O campo limpo, antes exclusivo para a criação, fez-se lavoura. A produção quintuplicou, para o regozijo de todos. Acertadamente, o rincão não abandonou o plantio do feijão tradicional, do milho, da mandioca, de frutas e verduras diversas.
         A tecnificação agrícola e a eletricidade (que chegou tardiamente em meados dos anos oitenta) são responsáveis pela nova fisionomia do rincão, a arrancá-lo do estágio agrário em que foi gestado social, econômica e culturalmente. Ele ainda passa por um processo de urbanização, de globalização, malgrado o número reduzido de habitantes. Alguns Machado, que foram embora antes dessa transformação radical, hoje recordam o rincão perdido no tempo, paraíso bárbaro da infância.
As mudanças ocorrem num fluxo que se acelera continuamente. Depois da sua revolução industrial, o rincão passa a se conectar com a Internet. Nos próximos cem anos, tudo poderá acontecer de uma forma casual ou determinada, como o despovoamento humano, acerca do qual o rincão também representa uma amostra. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

CORPO E ALMA


ERRO MILENAR

         O mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis, não obstante o esforço humano de torná-lo o pior dos mundos possíveis. A esse pensar e fazer o pior dos mundos possíveis, que ninguém antes de Nietzsche percebeu tratar-se do verdadeiro niilismo, inclui-se a divisão entre corpo e alma.
         Na Antiguidade, em torno de dois milênios e meio antes do presente, Platão filosofava sobre a existência e a imortalidade da alma – inteligível, perfeita e divina. O corpo, ao contrário, não passava de um “acidente exterior”, que deveria ser adequado por intermédio da ginástica a hospedar sua antípoda ilustre. A aproximação entre ambos era provisória. Uma vez que o corpo pertencia ao sensível, uma sombra no fundo da caverna. Platão instaura o dualismo.
         Na Idade Média, o corpo foi desprezado, flagelado e, com a Inquisição, queimado em praça pública pela Igreja Católica. Grande obstáculo para a vida ascética, o corpo era tido como a prova material do pecado. A alma que não aprendesse a dominá-lo arderia eternamente no inferno. A dualidade criada por Platão ganhou uma interpretação mística no neoplatonismo e se consagra como dogma nas religiões cristãs.
         A modernidade começa com Descartes ao propor um método seguro para conhecer a verdade: a dúvida. O filósofo racionalista começa bem, como um pirrônico tardio. Todavia, ele logo chega à primeira certeza, o “cogito ergo sum” (“penso, logo existo”). A partir da constatação indubitável do eu pensante, a racionalidade conclui que o pensamento não necessita de uma extensão no espaço, de uma experiência sensorial, de um corpo. Nesse aspecto, há um retrocesso a Platão. Corpo e alma são substâncias diferentes, sem relação uma com a outra (exceto pela mediação da glândula pineal). O corpo é uma máquina, que se desgasta e chega ao fim. A alma é imortal.
         Na contemporaneidade, o corpo começa a recuperar sua importância perdida com o discurso de Zaratustra de Nietzsche: “Corpo sou eu inteiramente, e nada mais; e a alma é apenas uma palavra para um algo do corpo”. A crítica nietzschiana à fé e à razão ao mesmo tempo vem ao encontro do processo secular, que está em curso com o propósito de assegurar um mínimo de sensatez à civilização ocidental.
         A separação entre corpo e alma criou um desajuste com consequências duradouras para a saúde do homem. O corpo, por sua vulnerabilidade natural aos males, foi desde cedo estudado pelas ciências médicas. Muitas doenças foram evitadas ou curadas, e muitos órgãos foram operados ou transplantados, a propiciar uma vida mais longa, com maior qualidade. A alma era imortal, acreditava-se desde dois milênios e meio antes do presente. Essa crença justifica de uma forma indireta o surgimento de algumas doenças, como a ansiedade e a depressão.
         O corpo e a alma se amalgamam em tempo pós-moderno, quando necessitamos repensar este mundo e refazê-lo o melhor dos mundos possíveis. Talvez ainda não seja tarde para uma realização tão extraordinária.

REMEMBER


NATUREZA, ARTIFÍCIO E UM SENTIMENTO


         A tecnologia exerce uma atração em mim desde a infância, quando vivia cercado pela natureza excedente do rincão. Toda vez que o ronco de um motor cortava o silêncio da manhã, eu saía para fora na expectativa de ver algo diferente. Eufórico, gritava para as irmãs me ajudarem a identificar o monomotor a cruzar a abóboda azul.
         Aos onze anos, conheci a cidade no outro lado do horizonte. O mundo se ampliava para além das linhas alcançadas pelos meus olhos carentes de lonjuras. Em meio a tanto barulho, movimento e reflexo, de repente me vi desorientado num âmbito completamente outro.
         No segundo dia, um avião cruzou o céu muito próximo da casa em que estava hospedado no Alto da Boa Vista. Ao vê-lo tão baixo, corri na direção em que ele sumia por detrás dos eucaliptos. Sem me dar conta, atravessei uma colina (hoje completamente urbanizada), passei por duas ou três cercas de arame, até enterrar minha botinas na lama de um açude grande que desbordava inutilmente.
         Em meu retorno, fui recepcionado por uma turma que se formara logo depois de alguém me ver correndo na direção do aeroporto. Não entendi a zombaria toda, a assimilar o riso sem o rubor que acompanha o momento da humilhação. Ainda tinha a ingenuidade de uma criança, de uma criança nascida e criada no interior antes da eletricidade, do rádio e da televisão.
         Em Curitiba, há dois aeroportos: Afonso Pena (para voos internacionais) e Bacacheri (para aviões de pequeno porte). Todas as noites, ouço e vejo as aeronaves passarem muito próximas do prédio em que estudo filosofia, no centro da Capital. Todos os dias, ouço e vejo jatinhos e monomotores a cavaleiro do meu bairro. Ainda sou tomado pelo prazer de ouvir o ronco dos motores desses aviões grandes e pequenos, de vê-los suspensos no ar como por milagre.
         O rincão me trazia dentro naqueles anos distantes. À medida que passei a conhecer o mundo, ele foi se apequenando em sua dimensão geocultural. Hoje está protegido dentro de mim, virou um sentimento.  

sexta-feira, 7 de junho de 2019

EXTINÇÃO DE MASSA


EXTINÇÃO EM MASSA: O HOMEM
NÃO ESCAPARÁ DA PRÓXIMA


As pessoas precisam aprender a olhar para a vida como unidade de conteúdo, malgrado a diversidade das formas.
Froilam de Oliveira

         A última do feed de noticias: “De acordo com um relatório do Breakthrougt National Center for Climate Restoration, a civilização humana pode ser devastada até 2050. Calor infernal e colapso de ecossistemas inteiros”.
         O alarme com o acúmulo de Dióxido de Carbono (CO2) na atmosfera da Terra procede de uma lembrança impregnada no DNA da vida. No final do Período Permiano (Era Paleozoica), houve a maior extinção em massa já existente no planeta. Não fosse os 10% das espécies que sobreviveram, a vida teria sido completamente exterminada.
         O que aconteceu por volta de 252 milhões de anos atrás?
         A geologia é leitura confiável, bem como a paleontologia. Com base nessas ciências, começo falando sobre a relação nem sempre harmoniosa entre a crosta e o manto terrestre (sob nossos pés). O manto é a camada mais extensa do globo, localizada logo abaixo da crosta, a parte endurecida de 0 a 40 km de espessura. A alta pressão e temperatura impedem que o manto se solidifique, constituindo-se numa “geleca extraviscosa”1. No interior do manto, há correntes de lava que se deslocam de um lado para outro, para cima e para baixo, rios loucos e violentos (não necessariamente nessa ordem).
         No final do Permiano, as lavas irromperam na região da Sibéria. Não existiam vulcões como os conhecemos hoje, em forma de cone no alto das montanhas. Eles eram aberturas no chão, com quilômetros de extensão, que expeliam o material vindo de baixo por anos, décadas e séculos. A lava representava um perigo evitável pelo simples afastamento, mas o calor e os gases tóxicos afetavam quase todo o planeta.
         O CO2 expelido pelas erupções siberianas causou um efeito estufa de grandes proporções, queimando a vida mais sensível, a começar pelos grandes anfíbios e répteis. Cerca de 90% das espécies foram extintas. Um efeito mais devastador que a extinção ocorrida no final do Cretáceo, há 66 milhões de anos, quando os dinossauros foram exterminados quase que abruptamente.
         O homem potencializa a emissão de CO2, somando-se aos outros emissores naturais. Todavia, ele o é de uma forma consciente, sabe que suas ações são escatológicas, levam ao fim da própria espécie. Isso vai acontecer certamente, mais cedo ou mais tarde do que profetizam os catastrofistas.
         A lembrança das antigas extinções em massa (em número de cinco) não foi de todo apagada da memória celular da vida. Graças à evolução da consciência, o homem é o único que sabe antecipadamente sobre sua própria extinção futura. Isso não é um privilégio, senão um motivo de assombro e de angústia.

1.  Assim se expressa Steve Brusatte em Ascensão e queda dos dinossauros (2019, p. 21).

segunda-feira, 3 de junho de 2019

PRIMEIRA CRÔNICA AO POETA (IN MEMORIAM)

ORACY DORNELLES


         Oracy Dornelles faleceu domingo, no começo do mês em que completaria 89 anos de idade. O poeta tinha uma existência mais longa, como ele mesmo dizia em tom de pilhéria. Inicialmente, parnasiano (com o rigor formal de seus versos); simbolista (com o caráter pessoal, idiossincrásico); modernista (com a exploração dos aspectos fônicos, morfológicos, sintáticos e semânticos das palavras e frases); e, por último, flertou com a tecnologia digital (a produzir “infopoemas”).
         Nossa amizade se iniciou no ano de 1983, quando o encontrava na sala de Arquivo da Prefeitura, nos bancos da Praça Moysés Vianna, ou na sua casa pintada de sol. O Oracy lia seus poemas mais recentes para mim, com ênfase nos recursos literários. Um tanto receoso, mostrava-lhe os meus. Toda vez honestíssimo nas avaliações, ele me apontava os erros e acertos: ruim, bom ou espetacular. Graças à compreensão de suas críticas, sem melindre ou empáfia, tornei-me poeta de fato.
         Na Universidade, escolhi a magnus opus oracyana, para escrever o artigo científico Intertextualidade nos cantares ares de Oracy Dornelles. O texto foi incluído no livro O que importa em Oracy, publicado em 2003 com Fátima Friedriczewski e Júlio Prates. A alusão indireta a outros textos nos poemas do Oracy exige do leitor conhecimento de mitologia (egípcia, judaica, grega e moderna), história, filosofia, arte, metalinguística etc.
         Desde Ponteiros de palavra, venho fazendo referência a Oracy, com a admiração própria de um influenciado verdadeiro. Um desses tributos consiste no soneto monossilábico Ora: ora/ só/ ora/ com// ora/ cor/ ora/ som// ora/ céu/ ora// ser/ ora/ cy. Sempre me fiz presente nas várias ocasiões em que a Prefeitura, o Centro Cultural e a Casa do Poeta renderam homenagens ao poeta em vida.
         Na Santiago que conheci há mais tempo, havia um poeta só. Ele vinha e ia por uma via de pó, pedra e poesia. Esse poeta era Oracy Dornelles, a vir e ir pela Duque de Caxias. A propósito, a Rua dos Poetas deverá homenageá-lo com uma estátua monumental – a destacar sua cabeleira (encimada por uma boina), seu paletó, seu livro na mão, seus passos seguidos pelos cachorros fiéis.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

FILOSOFIA E FELICIDADE

O senso comum faz uma ideia equivocada da filosofia, a considerar (do alto de suas opiniões e preconceitos) o filosofar uma coisa inútil, sem resultados práticos. Ele pergunta, algumas vezes, pelos interesses fundamentais ou por uma tarefa específica dessa área do conhecimento. Clément Rosset responde que há um objetivo filosófico em plena contemporaneidade: “curar o homem da sua loucura”.
        Uma retrospectiva rápida do pensamento grego destaca um dos princípios fundadores da filosofia, o qual se atualiza continuamente: conhece-te a ti mesmo. A dificuldade de se chegar a uma resposta definitiva não é motivo para relegar o autoconhecimento a uma exoticidade oriental. A ignorância sobre si pode constituir o mal causador de outros males que afetam o homem na atualidade. E é.
        Depois de Sócrates, Aristóteles elege a felicidade como bem supremo. Tudo o que fazemos visa a um fim, direta ou indiretamente – e esse fim é a felicidade (ou realização). Em Ética a Nicômaco (2002, p. 25), o estagirita disserta:

Chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado por causa de outra coisa. [...] Ora, parece que a felicidade, acima de outra coisa, é considerada como esse sumo bem.

         O pensador observa, todavia, que relacionar a felicidade ao bem supremo pode parecer uma trivialidade, que não esclarece o que seja ela. Para responder, ele sugere que se saiba qual é a função do homem, isto é, qual o elemento racional a se exteriorizar de suas ações da alma. Tais ações são bem executadas? São virtuosas?
        Para Aristóteles, é a excelência que faz o homem feliz. Não é um objeto, uma meta separada do ser que busca, mas o próprio buscar algo, o próprio fazer algo e fazê-lo bem. Ele reforça esse aspecto da areté: “As coisas nobres e boas da vida só são conquistadas pelos que agem retamente”. Sua ética é irrepreensível, ao qualificar todas as ações virtuosas como aprazíveis em si mesmas.
        O homem contemporâneo, a exemplo de outros períodos históricos, continua a buscar a felicidade com frenesi, independentemente de sua condição existencial. Nessa empresa irrealizável, ele estabelece uma separação rígida entre o presente e o futuro. Mais grave ainda: separa o Eu que deseja e do objeto desejado. Dessa forma, determina, antecipadamente, a impossibilidade de êxito.
        O tempo é um só (passado,) presente e futuro. Ser e felicidade também.
        Uma percepção que contemple a unicidade acima foi completamente obnubilada pelo condicionamento da sociedade de consumo, cujo efeito contrário é o de associar a felicidade à compra de coisas, de mercadorias. Nesse sentido, Zygmunt Bauman assevera que nessa corrida pela felicidade “não existe linha de chegada” (A arte da vida, 2009, p. 17).
        Antes de cair de exaustão (para não dizer vítima do estresse, da ansiedade, da loucura), sem conseguir alcançar o sonho de ser feliz, o homem pode mudar seu modo de existência. A filosofia dispõe de um corpus de saber irrefutável para orientá-lo em suas novas escolhas, em suas novas ações. Mais que conhecimento estabelecido, a filosofia instiga a filosofar.     

segunda-feira, 27 de maio de 2019

DESCARTES, DÚVIDA E CERTEZA


         René Descartes não é o “pai da modernidade”. Esta já estava em andamento desde a invenção da imprensa (por Johannes Gutenberg), as grandes navegações, o renascimento, a revolução copernicana, a reforma religiosa, Nicolau Maquiavel, Michel de Montaigne e Francis Bacon, entre outros eventos que rompiam com o paradigma medieval.
   Depois de comprovado o heliocentrismo* (por Nicolau Copérnico), da indução e dos ídolos da mente (pensados por Bacon), todo o conhecimento passa a ser questionado, o que levou Descartes a instaurar a dúvida como método epistemológico.
         O fracasso da crença, da fé dogmatizante, abre espaço para a razão, que se entrona no poder com duas certezas peremptórias, que pertencem à metafísica: Eu e Deus.
    O duvidar racional ficou a meio caminho de um desenvolvimento pleno, falha que superestima a importância de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Ludwig Wittgenstein, dos frankfurtianos, enfim, do pensamento chamado pós-moderno.

* O feito de Copérnico causou o que ficou conhecida como primeira frustração da humanidade, o fim de uma ilusão, notadamente alimentada pela Igreja Católica, de que a Terra era o centro do mundo – conforme reza o mito bíblico. (A segunda frustração seria provocada por Charles Darwin, e a terceira por Freud.)

sábado, 25 de maio de 2019

INGOVERNABILIDADE: UM BICHO CABELUDO


      A crise política brasileira escancara um problema maior – a ingovernabilidade, que está a ameaçar nossa democracia cantada e decantada.
        O primeiro assombro do senso comum (guiado por meia dúzia de intelectuais e pela mídia) é com o fascismo, com a tirania.
        A seta do tempo, contudo, aponta para o outro lado, da ingovernabilidade, da anarquia.
        O Brasil talvez se constitua hoje o caso mais evidente dessa crise que se estende e se aprofunda, seguido de perto pela Argentina.
        O germe dessa ingovernabilidade se aloja em muitos outros países democráticos, independentemente do seu sistema de governo.
        No Reino Unido, sua presença é identificada na indecisão pelo Brexit e consequente demissão da Primeira-Ministra, Theresa May.
        Na França, ele se esconde nas costuras dos coletes amarelos, para o desconforto de Emmanuel Macron.
        Nos Estados Unidos da América, quem diria, a ingovernabilidade perdurou por 35 dias, com o “shutdown”. Vozes dissonantes são ouvidas na maior democracia do mundo, a clamar pelo impeachment de seu presidente. Uma coisa inusitada para a cabeça de Tio Sam.
        Na República dos Bruzundangas, o bichinho já está cabeludo, resistente a toda intenção de governabilidade efetiva.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

EM ZUGZWANG



Uma cena do filme Limite vertical, protagonizada por três alpinistas (pai e filhos), ilustra uma situação em que o estresse é elevado ao paroxismo, quando se é obrigado a tomar uma decisão extremamente difícil.  
Um acidente provocado por terceiros, que escalavam a montanha como amadores, resultou que todos ficassem pendurados numa única corda junto ao paredão rochoso. Na iminência de o gancho se soltar com o peso, o pai faz uma manobra com o corpo, e os dois rapazes abaixo dele despencam para a morte. A filha não consegue a fixação de outro gancho, e o pai ordena o filho (imediatamente acima) para apanhar a faca e cortar a corda. Com a faca na mão, Peter reluta em obedecer à ordem fria e calculista. Sujeito às emoções mais intensas, ouve a súplica de sua irmã para que não solte o pai. O gancho vai aguentar – diz Annie chorosa.
O filme é interrompido deliberadamente, para que o espectador decida se cortaria ou não a corda caso estivesse no lugar de Peter.
Ainda desconhecendo o desfecho da célula dramática, sou instado a responder sim ou não e por quê.
Confortavelmente sentado num sofá, minha resposta hipotética (qualquer que seja ela) talvez não corresponda à exigida pelo momento cumulado de tensão, de emoções prementes e contraditórias. Certamente, ficaria dividido entre obedecer a meu pai (lançando-o no abismo) e esperar um pouco mais.
Incapaz de ter o mesmo discernimento racional do pai, sob o domínio emocional, Peter cortará a corda, todavia forçado pelo instinto de sobrevivência pessoal (ante o qual inexiste princípio ético que contemple a alteridade).
Sem viver o risco de morte semelhante ao encenado em Limite Vertical, posso adiantar que hesitaria mais tempo em cortar a corda, a ponto de cairmos os três ou de nos salvarmos por um acaso minimamente possível.

* * *

A cena dramatizada pelo filme me fez lembrar de outro acidente famoso, o naufrágio do navio Titanic (também transformado em filme). Os alpinistas, pai e filhos, subiam o paredão rochoso a cantarolar uma canção dos anos sessenta. Felizes com o que faziam naquele momento. De repente, segundos depois, os três se encontram prestes a cair para a morte. O filósofo Clèment Rosset escreve em A lógica do pior sobre a "potência cômica" suscitada pelo ocorrido na noite de 14 para 15 de abril de 1912. Antes de se chocar contra um iceberg no Atlântico, a orquestra do navio tocava alegremente valsas, galopes e polcas. Com o inafundável Titanic a sossobrar, os músicos trocam o repertório para  alguns cânticos: Mais perto de Ti, meu Deus, mais perto de Ti. No caso de Limite vertical, os personagens trocam a cantoria pelo choro.
As situações em que nos deparamos com problemas sérios são muitas ao longo da vida. "Viver é negócio muito perigoso", diz Riobaldo em Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Da parte que me cabe, algumas situações eu jamais enfrentaria, exatamente pelo perigo apresentado por elas. Nunca escalaria montanhas com cordas, mosquetões, grampos... A queda de um metro já é suficiente para me machucar. 
Dentro do automóvel, a dirigir numa velocidade de 80km/h, equivale a subir um metro numa escalada vertical. A 100km/h, a cinco metros. A 120km/h, a vinte e cinco metros. A 140km/h, a 625 metros. Quanto maior a velocidade, mais perigoso se torna o acidente (uma possibilidade não descartável).

quinta-feira, 16 de maio de 2019

IGREJA PROGRESSISTA E ORDEM FRANCISCANA: UMA CONEXÃO INACREDITÁVEL


A “morte de Deus”, de que Nietzsche se referia em seus livros, não foi e não é levada a termo pelo processo de secularização, ou pelos ateístas mais contundentes, senão pela massa cristã e por aqueles que a lideram sob um hábito.
Há algum tempo, essa gente invoca o nome de um “senhor”  que não responde mais.
Ontem um grupo de frades franciscanos (ou marxistas?) foram à rua protestar contra a descentralização de verba para a universidade pública (apenas anunciada pelo governo federal).
Essa conexão doutrinária entre a igreja progressista e a ordem franciscana constitui mais uma prova de autoria pela morte de Deus.
Michel Onfray está certo: “A descrença no cristianismo anda de mãos dadas com a crença no socialismo”.

terça-feira, 14 de maio de 2019

O ÔNUS REFLEXIVO


A criança não sabe nos primeiros anos de vida que morrerá um dia, até que alguém lhe conte uma história, ou lhe diga a verdade sobre a morte. Mais tarde, ela testemunha a “partida” de uma pessoa da família. Outros entes queridos morrem em sequência, a confirmar que esse é o destino de todos, inclusive dela mesma.
A consciência tem um ônus reflexivo: a inexorabilidade do próprio fim.
Ao pensar (e escrever) sobre o conteúdo acima, ocorre-me a ideia de que nossa espécie, designada de humanidade, à semelhança do indivíduo que passa saber de sua morte (mais ou menos próxima), também adquire a certeza de sua extinção à medida que desenvolve a consciência e conhece o mundo. Outras espécies pertencentes ao mesmo gênero já desapareceram, como os neandertais (há tão somente trinta mil anos).
Independentemente de todo progresso que vier alcançar em longevidade, a humanidade caminha sem volta para o próprio fim. A presunção de permanência (ou imortalidade) ainda reflete um arroubo de juventude. Logo a certeza será irrefutável.
A morte de nossa espécie (porque única) significará o fim do gênero homo a que ela pertence filogeneticamente.  

segunda-feira, 13 de maio de 2019

BANCA DE REVISTA



      As calçadas e as praças das cidades grandes cediam espaço para as bancas de revista. Essas lojinhas eram frequentadas até o final do século passado em razão da venda de jornais diários. As mídias visuais ainda não interferiam no hábito (e preferência) da leitura dos gêneros jornalísticos.
Mais que jornais, revistas superlotavam as estantes, balcões e expositores (que se expandiam para fora da loja). Crianças se alfabetizavam na perspectiva de ler histórias em quadrinho, que amalgamavam fruição e conhecimento de mundos. Todo leitor tinha lá seus personagens preferidos: Tarzan, Zorro, Tex Willer, Fantasma, Superman, Home-Aranha, Conan, Batman, entre outros.
 Novas gerações, todavia, que tiveram a televisão como baby-sitter, não acorreram às lojas frequentadas um dia pelos parentes adultos. Com o advento da Internet, houve uma invasão de máquinas e aparelhos que ameaçam a extinção do papel como interface de leitura analógica.
As bancas não vendem mais jornais e revistas. O comércio agora é de cheetos, refrigerantes, balas e chicletes. O prazer gastronômico e a diminuição da leitura provam a indiferença pós-moderna com os prazeres do espírito.

terça-feira, 7 de maio de 2019

A INTERFERÊNCIA DOS CACHORROS NA TAXA DE FECUNDIDADE PÓS-MODERNA


A taxa de fecundidade no país está em queda acelerada. Para justificar esse fenômeno social (traduzido em números) há uma soma de causas, umas mais relevantes que outras.
Ao pensar sobre o que leva as mulheres (os casais) a terem menos filhos nestes dias, ocorre-me uma resposta simples (ainda não expressa pelos estudiosos): adoção de cachorros. Nenhum senso foi realizado para mensurar o costume, mas ele é visível ao se observar a realidade.
No fim da tarde do sábado, fui andar no parque. Ao longo da pista de asfalto, era forçado a diminuir a passada ou até mesmo parar, porque um cachorrinho vinha em sentido contrário (conduzido pelo dono abobalhado). Não eram cinco, dez ou cinquenta cachorros, mas centenas, milhares. Sem condições para uma caminha tranquila, deliberei por mudar o dia, a evitar o fim de semana.
À noite, depois da caminha malsucedida, compareci a um jantar na casa de amigos. Prato principal: Knödel (massa de pão sobre costelas de porco). Depois de quatro garrafas de vinho, papo reforma do mundo, eis que o relacionamento com cachorros passa a ser o assunto da hora. Seis, doze, sessenta minutos, duas horas, exclusivamente a falar dos bichos criados dentro de casa. Em silêncio, limitava-me a bocejar e a ouvir os outros.
Naquele momento, ainda não dispunha da informação de que no Reino Unido foi proibida a venda de filhotes de cachorros (e gatos) em pet shops. Certamente, repassaria aos demais convivas, para gerar entre eles um mal-estar, uma aporia.

Uma de minhas teses é radical: há algum tempo, a taxa de fecundidade baixa levou à adoção de cachorro, mas agora é a adoção de cachorro que interfere na taxa de fecundidade. Outra ideia ainda menos simpática: o fato de criar animais denuncia dois aspectos da vida pós-moderna: solidão e misantropia (tema para outro texto).

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CONSIDERAÇÕES NECESSÁRIAS


Sobre Agostinho:

I – Agostinho escreve “Deus criou o Céu e a Terra” em diversos momentos de suas produções teológicas. Diferentemente de Platão, a quem deve influência, o cristão retoma a narrativa de alguns mitos cosmogônicos (os quais sustentaram e ainda sustentam algumas religiões). Essa premissa mítica “Deus criou o Céu e a Terra”, de Copérnico às últimas descobertas astronômicas, tampouco como metáfora faz sentido.

II – No último parágrafo da página 5, do texto 05, sobre Santo Agostinho, lê-se “O ser humano, sendo temporal, não pode compreender com a sua sabedoria a eternidade divina. Alcança, no máximo, por iluminação, um saber negativo do ser divino, pois a eternidade não é absolutamente temporal”. O que explicita esse excerto? O homem só pode conhecer Deus por aquilo que ele não é – o saber negativo.  Na página 7, do mesmo texto, afirma-se que “o ser de Deus é”. Quem é que afirma esse saber positivo? Afinal, conhece-se Deus por aquilo que ele não é ou por aquilo que ele é?

III – Agostinho valora a filosofia grega, sobretudo Platão, que ele destaca como o maior filósofo. Sobre Aristóteles, o teólogo tem como “superior a muitos platônicos, mas inferior em estilo a Platão”. Para aclarar tal ambiguidade, convém separar a frase em duas proposições: 1) Aristóteles é superior a muitos platônicos, isto é, superior aos seguidores de Platão; e 2) Aristóteles é inferior em estilo a Platão, isto é, igual ou superior em tudo mais. Não é exatamente o que se pressupõe ou subentende do texto? Por último, qual a relevância do estilo para a filosofia ou para a ciência?




Sobre Tomás de Aquino:

I – Tomás de Aquino concebe que o corpo e a alma sejam entidades distintas uma da outra, mas não divisíveis. Os termos “entidades”, “distintas” e “divisíveis” foram traduzidos ao pé da letra do texto escolástico? Sim ou não? A afirmação de que “o corpo e a alma sejam entidades distintas, mas não divisíveis” soa como um sofisma, para não dizer, com Rudolf Carnap, sem sentido.

II – Tomás de Aquino denomina o corpo e a alma como “substâncias incompletas”, que, juntas, formam uma substância. Um corpo sem alma não é um corpo, mas um cadáver em processo de desintegração. A alma, por sua vez, visto que se complementa com o corpo, não deveria ter o mesmo destino finalista de seu complemento? O escolástico acredita, todavia, que a alma humana sobrevive à morte. O corpo deixa de existir, e a alma adquire completude, autonomia. É isso?

III – Tomás de Aquino atribui ao homem uma “alma racional”, qualitativamente superior à “alma sensitiva” dos animais. A alma racional subsume, segundo ele, a alma sensitiva e vegetativa (das plantas). Todos os seres viventes têm alma, ao contrário do que Descartes pensaria quatro séculos mais tarde. A questão é: quando o homem adquiriu uma alma racional? Desde o início (como conta o mito)? Início de quê? Quando o ancestral genético do homem deixou de ser um animal, para se tornar humano, dotado de uma alma racional? Há seis/sete milhões de anos (com a separação dos gêneros Pan e Homo da subfamília homininae)? Há quatro milhões (com a evolução do bipedalismo)? Há dois milhões (com o fabrico das primeiras ferramentas)? Há trezentos mil anos (com o surgimento do homo sapiens)? Há setenta-noventa mil (com a mais antiga revolução cognitiva)? Há dez-catorze mil (com a domesticação de plantas e animais)? Há cinco mil (com a descoberta da escrita)? Quando? Quando? Quando?  Não teria sido quando se fez palavra a imaginação mítico-teológica?

domingo, 28 de abril de 2019

RETROCESSO NO PENSAMENTO BRASILEIRO


       O presidente da República acha um desperdício bancar os estudos filosóficos, sociológicos e históricos na Universidade Federais. O corte no investimento nas humanas irá beneficiar as áreas científicas e tecnológicas, que, segundo ele, apresentariam “retorno imediato”.
       Seus opositores políticos reagem com a teoria conspiratória de que o governo não quer gente pensante, que desenvolva senso crítico – a ponto de constituir uma ameaça ao establishment. Em épocas pretéritas, essa teoria se sustentava em argumentos que pareciam verdadeiros. Nunca comprovada a posteriori, ela passou ao domínio da esquerda como um de seus preconceitos mais estimados. Márcia Tiburi o expressa agora, numa interpretação arguta do discurso de Jair Bolsonaro.
               A intervenção no ensino superior não se destina a manter nossa juventude alienada, tampouco a alocar recursos para outras áreas, como medicina, veterinária e engenharia. Por trás dessa justificativa, esconde-se a verdade maior, oficializada pela influência de Olavo de Carvalho: pôr fim aos nichos marxistas(-leninistas-trotkistas-stalinistas-gramscistas-castristas-chavistas-lulistas), que resistem dentro das nossas universidades públicas, notadamente nos cursos de Filosofia, Sociologia e História.
                A política educacional a ser colocada em prática pelo governo verificar-se-á um retrocesso no pensamento brasileiro, o ainda incipiente pensamento brasileiro. Por que não mudar e fiscalizar o currículo dos cursos acima?

quinta-feira, 25 de abril de 2019

ANTICRISTO E ECLESIASTES


O professor de Introdução à Filosofia pede-nos uma relação de todos os livros, que julgamos importantes para compor uma biblioteca ideal.
Na hora seguinte, cada um de nós lê o título e autor dos livros escolhidos.
Ao ouvir meus colegas, percebo que (em sua maioria) possuem um universo de leitura bastante reduzido. Alguns livros são citados por simples lembrança de citações já feitas na sala por outros professores. 
Em minha turma, 15 colegas são frades franciscanos, carmelitas ou postulantes conventuais. Alguns deles relacionaram O Anticristo, de Friedrich Nietzsche. A Bíblia não foi lembrada por eles.
O livro de Nietzsche, como é do conhecimento de quem leu Nietzsche, consiste nas mais contundentes marteladas dadas pelo filósofo ao Cristianismo.
Malgrado meu neoateísmo, incluí como leitura importante o Eclesiastes, por ser um libelo contra a vaidade.
O professor não percebeu a contradição, ou a ignorou – como atitude mais sábia.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

DE MASI E UMA DIGRESSÃO UTÓPICA


         
          O livro Uma simples revolução, de Domenico De Masi, compõe-se de oitenta e um capítulos curtos, de alguma forma conectados à ideia principal: trabalho, ócio e criatividade.
       Em 2999 (terceiro capítulo), De Masi avança sua análise sociológica em um milênio, para nos apresentar a “civilidade ociosa”. Segundo ele, “a introspecção, a amizade, o amor, a brincadeira, a beleza e a convivência têm, enfim, prevalecido sobre as lutas por poder, dinheiro e posse de bens materiais”.
         Na passagem do terceiro ao quarto milênio, o homem terá a cabeça mais desenvolvida, em razão de teletrabalhar, tele-estudar, teledivertir-se e teleamar – o que o incapacitaria de executar um passo de dança. Por que não teledançar?
         Por trás da ficção científica, assoma-se um gigantesco otimismo – profissão de fé em De Masi. Sua “civilidade” do ócio criativo constitui a primeira utopia pós-industrial. Como seria possível uma era de introspecção, amizade, amor, ludicidade, beleza e convivência depois de um “cataclismo biotecnológico”, que aconteceria no século XXV?
         De Masi se junta a Platão, Al-Farabi, Thomas Morus, Tommaso Capanella, Étienne Cabet, H.G. Wells, Italo Calvino, Gene Roddenberry (criador de Star Trek), entre muitos outros idealistas.
         Antes de superestimar uma era de ociosidade, baseada na ociosidade incipiente do último meio século, o sociólogo interpõe o que seria uma solução de continuidade: o cataclismo biotecnológico (já citado acima). Exceto que esse acontecimento terrível destruiria os bancos de dados da história humana desde o ano 2000 (com o registro eletrônico), nenhuma palavra a mais.
         Não obstante o pessimismo com que antevejo nosso futuro, essa solução de continuidade me parece mais factível e influente. Outra coisa: o homem viveu – e vive – sua parcela de introspecção, amizade, amor, beleza, convivência...

segunda-feira, 22 de abril de 2019

NOTRE DAME: UM SÍMBOLO DA SOLIDEZ


A igreja de Notre Dame foi atingida por um incêndio na semana passada. Suas gárgulas horrendas, com a função de vomitar água, aspiraram fogo, elemento mais violento (mítico e historicamente associado ao castigo, à purgação).
         Antes de acabar o rescaldo, pessoas de diferentes partes do globo passaram a fazer doações milionárias para a recuperação da catedral famosa. O presidente da França falou no local em criar um fundo nacional (e além-fronteiras) com o mesmo objetivo. Dificilmente, ele poderá usar dinheiro público, o que provocaria o recrudescimento dos “coletes amarelos”. Nenhuma palavra da riquíssima Igreja Católica – a propósito.
       A reação de franceses, no entanto, já revela características pós-modernas, como a perda da aura do objeto artístico (segundo Walter Benjamin). O último discurso é de um humanismo radical: gente é mais importante que obras de arquitetura, escultura, pintura ou símbolos religiosos. Os problemas sociais estão a exigir maior atenção que as produções culturais. A parte superior de Notre Dame, diga-se de passagem, serviu de residência para Quasimodo, o corcunda romanceado por Victor Hugo.
         A liberdade, um dos grandes ideais iluministas, assegura aos doadores privados a justificativa de seu mecenato. Mesmo assim, eles não estão livres de crítica, desde que estas não involuam para ameaça ou atentado.

LIBIDO (AQUÉM DO CONCEITO)


A libido é mais que um conceito na teoria dos instintos de Sigmund Freud. Assim como a própria teoria consiste na descrição da coisa instintiva, não a coisa real, a particularidade descrita como “libido” não passa de uma aproximação psicanalítica. A coisa existe, isto é, a energia associada à sexualidade humana. Todo processo de aculturação para redirecionar a libido, ou até mesmo eliminá-la, resulta numa doença mental e psicossomática. A perversão sexual, inclusive praticada por indivíduos celibatários, constitui prova da existência e da força libidinal.

Referências: 

CUNHA. J.A. Dicionário de termos de psicanálise de Freud; tradução e organização de Jurema Alcides Cunha. Porto Alegre: Editora Globo, 1978, pp. 116-118.

VALAS, Patrick. Freud e a perversão; tradução de Dulce Duque Estrada. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1990.




quinta-feira, 18 de abril de 2019

PRESENTE DEPRECIADO


        O queixume de que o mundo atual é o pior dos mundos possíveis ganha uma dimensão epidêmica (que ameaça a saúde integral das pessoas atingidas pelo meme viral). Pari passu com um excesso de sensibilidade, denuncia-se uma debilidade moral, misto de cansaço e medo – por trás da queixa sistemática.
         Depois da vida, cujo valor é incomensurável, a liberdade constitui a prerrogativa fundamental do ser humano. Ela pode servir de referência de como o mundo contemporâneo é imensamente melhor que os mundos passados. Como apoio, eis o que escreve Domenico de Masi:

Se pensarmos bem, o progresso nada mais é que um longo percurso da humanidade rumo à libertação deliberada da fadiga física, em primeiro lugar, e do estresse intelectual, em segundo. Das origens da nossa história até a Idade Média, o homem conseguiu conquistar a libertação da escravidão. Da Idade Média até a primeira metade do século XX, libertou-se da fadiga. Desde a Segunda Guerra Mundial, visa à libertação do trabalho em si.

         O boom tecnológico das últimas décadas, com a máquina a realizar o trabalho de um número cada vez maior de mãos e mentes, tem propiciado um aumento do tempo livre. Novo problema: o que fazer com o tempo livre? Agora o homem não sabe ou não decide como usufruir fora do trabalho. Seu comportamento por omissão permite o preenchimento de uma agenda atribulada, onde toda liberdade é zerada pelas próprias escolhas.
         Nesse mundo em que a liberdade conquistada se perde, em razão do moral baixo, da falta de coragem e discernimento, o discurso recorrente aponta para mundos outros (onde o mito do paraíso perdido ainda faz sentido). O presente sofre uma depreciação injusta, doentia.

MASI, Domenico De. Uma simples revolução; tradução de Yadyr Figueiredo. Rio de Janeiro: Sextante, 2019, p.74.