quarta-feira, 29 de maio de 2019

FILOSOFIA E FELICIDADE

O senso comum faz uma ideia equivocada da filosofia, a considerar (do alto de suas opiniões e preconceitos) o filosofar uma coisa inútil, sem resultados práticos. Ele pergunta, algumas vezes, pelos interesses fundamentais ou por uma tarefa específica dessa área do conhecimento. Clément Rosset responde que há um objetivo filosófico em plena contemporaneidade: “curar o homem da sua loucura”.
        Uma retrospectiva rápida do pensamento grego destaca um dos princípios fundadores da filosofia, o qual se atualiza continuamente: conhece-te a ti mesmo. A dificuldade de se chegar a uma resposta definitiva não é motivo para relegar o autoconhecimento a uma exoticidade oriental. A ignorância sobre si pode constituir o mal causador de outros males que afetam o homem na atualidade. E é.
        Depois de Sócrates, Aristóteles elege a felicidade como bem supremo. Tudo o que fazemos visa a um fim, direta ou indiretamente – e esse fim é a felicidade (ou realização). Em Ética a Nicômaco (2002, p. 25), o estagirita disserta:

Chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado por causa de outra coisa. [...] Ora, parece que a felicidade, acima de outra coisa, é considerada como esse sumo bem.

         O pensador observa, todavia, que relacionar a felicidade ao bem supremo pode parecer uma trivialidade, que não esclarece o que seja ela. Para responder, ele sugere que se saiba qual é a função do homem, isto é, qual o elemento racional a se exteriorizar de suas ações da alma. Tais ações são bem executadas? São virtuosas?
        Para Aristóteles, é a excelência que faz o homem feliz. Não é um objeto, uma meta separada do ser que busca, mas o próprio buscar algo, o próprio fazer algo e fazê-lo bem. Ele reforça esse aspecto da areté: “As coisas nobres e boas da vida só são conquistadas pelos que agem retamente”. Sua ética é irrepreensível, ao qualificar todas as ações virtuosas como aprazíveis em si mesmas.
        O homem contemporâneo, a exemplo de outros períodos históricos, continua a buscar a felicidade com frenesi, independentemente de sua condição existencial. Nessa empresa irrealizável, ele estabelece uma separação rígida entre o presente e o futuro. Mais grave ainda: separa o Eu que deseja e do objeto desejado. Dessa forma, determina, antecipadamente, a impossibilidade de êxito.
        O tempo é um só (passado,) presente e futuro. Ser e felicidade também.
        Uma percepção que contemple a unicidade acima foi completamente obnubilada pelo condicionamento da sociedade de consumo, cujo efeito contrário é o de associar a felicidade à compra de coisas, de mercadorias. Nesse sentido, Zygmunt Bauman assevera que nessa corrida pela felicidade “não existe linha de chegada” (A arte da vida, 2009, p. 17).
        Antes de cair de exaustão (para não dizer vítima do estresse, da ansiedade, da loucura), sem conseguir alcançar o sonho de ser feliz, o homem pode mudar seu modo de existência. A filosofia dispõe de um corpus de saber irrefutável para orientá-lo em suas novas escolhas, em suas novas ações. Mais que conhecimento estabelecido, a filosofia instiga a filosofar.     

segunda-feira, 27 de maio de 2019

DESCARTES, DÚVIDA E CERTEZA


         René Descartes não é o “pai da modernidade”. Esta já estava em andamento desde a invenção da imprensa (por Johannes Gutenberg), as grandes navegações, o renascimento, a revolução copernicana, a reforma religiosa, Nicolau Maquiavel, Michel de Montaigne e Francis Bacon, entre outros eventos que rompiam com o paradigma medieval.
   Depois de comprovado o heliocentrismo* (por Nicolau Copérnico), da indução e dos ídolos da mente (pensados por Bacon), todo o conhecimento passa a ser questionado, o que levou Descartes a instaurar a dúvida como método epistemológico.
         O fracasso da crença, da fé dogmatizante, abre espaço para a razão, que se entrona no poder com duas certezas peremptórias, que pertencem à metafísica: Eu e Deus.
    O duvidar racional ficou a meio caminho de um desenvolvimento pleno, falha que superestima a importância de Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Ludwig Wittgenstein, dos frankfurtianos, enfim, do pensamento chamado pós-moderno.

* O feito de Copérnico causou o que ficou conhecida como primeira frustração da humanidade, o fim de uma ilusão, notadamente alimentada pela Igreja Católica, de que a Terra era o centro do mundo – conforme reza o mito bíblico. (A segunda frustração seria provocada por Charles Darwin, e a terceira por Freud.)

sábado, 25 de maio de 2019

INGOVERNABILIDADE: UM BICHO CABELUDO


      A crise política brasileira escancara um problema maior – a ingovernabilidade, que está a ameaçar nossa democracia cantada e decantada.
        O primeiro assombro do senso comum (guiado por meia dúzia de intelectuais e pela mídia) é com o fascismo, com a tirania.
        A seta do tempo, contudo, aponta para o outro lado, da ingovernabilidade, da anarquia.
        O Brasil talvez se constitua hoje o caso mais evidente dessa crise que se estende e se aprofunda, seguido de perto pela Argentina.
        O germe dessa ingovernabilidade se aloja em muitos outros países democráticos, independentemente do seu sistema de governo.
        No Reino Unido, sua presença é identificada na indecisão pelo Brexit e consequente demissão da Primeira-Ministra, Theresa May.
        Na França, ele se esconde nas costuras dos coletes amarelos, para o desconforto de Emmanuel Macron.
        Nos Estados Unidos da América, quem diria, a ingovernabilidade perdurou por 35 dias, com o “shutdown”. Vozes dissonantes são ouvidas na maior democracia do mundo, a clamar pelo impeachment de seu presidente. Uma coisa inusitada para a cabeça de Tio Sam.
        Na República dos Bruzundangas, o bichinho já está cabeludo, resistente a toda intenção de governabilidade efetiva.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

EM ZUGZWANG



Uma cena do filme Limite vertical, protagonizada por três alpinistas (pai e filhos), ilustra uma situação em que o estresse é elevado ao paroxismo, quando se é obrigado a tomar uma decisão extremamente difícil.  
Um acidente provocado por terceiros, que escalavam a montanha como amadores, resultou que todos ficassem pendurados numa única corda junto ao paredão rochoso. Na iminência de o gancho se soltar com o peso, o pai faz uma manobra com o corpo, e os dois rapazes abaixo dele despencam para a morte. A filha não consegue a fixação de outro gancho, e o pai ordena o filho (imediatamente acima) para apanhar a faca e cortar a corda. Com a faca na mão, Peter reluta em obedecer à ordem fria e calculista. Sujeito às emoções mais intensas, ouve a súplica de sua irmã para que não solte o pai. O gancho vai aguentar – diz Annie chorosa.
O filme é interrompido deliberadamente, para que o espectador decida se cortaria ou não a corda caso estivesse no lugar de Peter.
Ainda desconhecendo o desfecho da célula dramática, sou instado a responder sim ou não e por quê.
Confortavelmente sentado num sofá, minha resposta hipotética (qualquer que seja ela) talvez não corresponda à exigida pelo momento cumulado de tensão, de emoções prementes e contraditórias. Certamente, ficaria dividido entre obedecer a meu pai (lançando-o no abismo) e esperar um pouco mais.
Incapaz de ter o mesmo discernimento racional do pai, sob o domínio emocional, Peter cortará a corda, todavia forçado pelo instinto de sobrevivência pessoal (ante o qual inexiste princípio ético que contemple a alteridade).
Sem viver o risco de morte semelhante ao encenado em Limite Vertical, posso adiantar que hesitaria mais tempo em cortar a corda, a ponto de cairmos os três ou de nos salvarmos por um acaso minimamente possível.

* * *

A cena dramatizada pelo filme me fez lembrar de outro acidente famoso, o naufrágio do navio Titanic (também transformado em filme). Os alpinistas, pai e filhos, subiam o paredão rochoso a cantarolar uma canção dos anos sessenta. Felizes com o que faziam naquele momento. De repente, segundos depois, os três se encontram prestes a cair para a morte. O filósofo Clèment Rosset escreve em A lógica do pior sobre a "potência cômica" suscitada pelo ocorrido na noite de 14 para 15 de abril de 1912. Antes de se chocar contra um iceberg no Atlântico, a orquestra do navio tocava alegremente valsas, galopes e polcas. Com o inafundável Titanic a sossobrar, os músicos trocam o repertório para  alguns cânticos: Mais perto de Ti, meu Deus, mais perto de Ti. No caso de Limite vertical, os personagens trocam a cantoria pelo choro.
As situações em que nos deparamos com problemas sérios são muitas ao longo da vida. "Viver é negócio muito perigoso", diz Riobaldo em Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Da parte que me cabe, algumas situações eu jamais enfrentaria, exatamente pelo perigo apresentado por elas. Nunca escalaria montanhas com cordas, mosquetões, grampos... A queda de um metro já é suficiente para me machucar. 
Dentro do automóvel, a dirigir numa velocidade de 80km/h, equivale a subir um metro numa escalada vertical. A 100km/h, a cinco metros. A 120km/h, a vinte e cinco metros. A 140km/h, a 625 metros. Quanto maior a velocidade, mais perigoso se torna o acidente (uma possibilidade não descartável).

quinta-feira, 16 de maio de 2019

IGREJA PROGRESSISTA E ORDEM FRANCISCANA: UMA CONEXÃO INACREDITÁVEL


A “morte de Deus”, de que Nietzsche se referia em seus livros, não foi e não é levada a termo pelo processo de secularização, ou pelos ateístas mais contundentes, senão pela massa cristã e por aqueles que a lideram sob um hábito.
Há algum tempo, essa gente invoca o nome de um “senhor”  que não responde mais.
Ontem um grupo de frades franciscanos (ou marxistas?) foram à rua protestar contra a descentralização de verba para a universidade pública (apenas anunciada pelo governo federal).
Essa conexão doutrinária entre a igreja progressista e a ordem franciscana constitui mais uma prova de autoria pela morte de Deus.
Michel Onfray está certo: “A descrença no cristianismo anda de mãos dadas com a crença no socialismo”.

terça-feira, 14 de maio de 2019

O ÔNUS REFLEXIVO


A criança não sabe nos primeiros anos de vida que morrerá um dia, até que alguém lhe conte uma história, ou lhe diga a verdade sobre a morte. Mais tarde, ela testemunha a “partida” de uma pessoa da família. Outros entes queridos morrem em sequência, a confirmar que esse é o destino de todos, inclusive dela mesma.
A consciência tem um ônus reflexivo: a inexorabilidade do próprio fim.
Ao pensar (e escrever) sobre o conteúdo acima, ocorre-me a ideia de que nossa espécie, designada de humanidade, à semelhança do indivíduo que passa saber de sua morte (mais ou menos próxima), também adquire a certeza de sua extinção à medida que desenvolve a consciência e conhece o mundo. Outras espécies pertencentes ao mesmo gênero já desapareceram, como os neandertais (há tão somente trinta mil anos).
Independentemente de todo progresso que vier alcançar em longevidade, a humanidade caminha sem volta para o próprio fim. A presunção de permanência (ou imortalidade) ainda reflete um arroubo de juventude. Logo a certeza será irrefutável.
A morte de nossa espécie (porque única) significará o fim do gênero homo a que ela pertence filogeneticamente.  

segunda-feira, 13 de maio de 2019

BANCA DE REVISTA



      As calçadas e as praças das cidades grandes cediam espaço para as bancas de revista. Essas lojinhas eram frequentadas até o final do século passado em razão da venda de jornais diários. As mídias visuais ainda não interferiam no hábito (e preferência) da leitura dos gêneros jornalísticos.
Mais que jornais, revistas superlotavam as estantes, balcões e expositores (que se expandiam para fora da loja). Crianças se alfabetizavam na perspectiva de ler histórias em quadrinho, que amalgamavam fruição e conhecimento de mundos. Todo leitor tinha lá seus personagens preferidos: Tarzan, Zorro, Tex Willer, Fantasma, Superman, Home-Aranha, Conan, Batman, entre outros.
 Novas gerações, todavia, que tiveram a televisão como baby-sitter, não acorreram às lojas frequentadas um dia pelos parentes adultos. Com o advento da Internet, houve uma invasão de máquinas e aparelhos que ameaçam a extinção do papel como interface de leitura analógica.
As bancas não vendem mais jornais e revistas. O comércio agora é de cheetos, refrigerantes, balas e chicletes. O prazer gastronômico e a diminuição da leitura provam a indiferença pós-moderna com os prazeres do espírito.

terça-feira, 7 de maio de 2019

A INTERFERÊNCIA DOS CACHORROS NA TAXA DE FECUNDIDADE PÓS-MODERNA


A taxa de fecundidade no país está em queda acelerada. Para justificar esse fenômeno social (traduzido em números) há uma soma de causas, umas mais relevantes que outras.
Ao pensar sobre o que leva as mulheres (os casais) a terem menos filhos nestes dias, ocorre-me uma resposta simples (ainda não expressa pelos estudiosos): adoção de cachorros. Nenhum senso foi realizado para mensurar o costume, mas ele é visível ao se observar a realidade.
No fim da tarde do sábado, fui andar no parque. Ao longo da pista de asfalto, era forçado a diminuir a passada ou até mesmo parar, porque um cachorrinho vinha em sentido contrário (conduzido pelo dono abobalhado). Não eram cinco, dez ou cinquenta cachorros, mas centenas, milhares. Sem condições para uma caminha tranquila, deliberei por mudar o dia, a evitar o fim de semana.
À noite, depois da caminha malsucedida, compareci a um jantar na casa de amigos. Prato principal: Knödel (massa de pão sobre costelas de porco). Depois de quatro garrafas de vinho, papo reforma do mundo, eis que o relacionamento com cachorros passa a ser o assunto da hora. Seis, doze, sessenta minutos, duas horas, exclusivamente a falar dos bichos criados dentro de casa. Em silêncio, limitava-me a bocejar e a ouvir os outros.
Naquele momento, ainda não dispunha da informação de que no Reino Unido foi proibida a venda de filhotes de cachorros (e gatos) em pet shops. Certamente, repassaria aos demais convivas, para gerar entre eles um mal-estar, uma aporia.

Uma de minhas teses é radical: há algum tempo, a taxa de fecundidade baixa levou à adoção de cachorro, mas agora é a adoção de cachorro que interfere na taxa de fecundidade. Outra ideia ainda menos simpática: o fato de criar animais denuncia dois aspectos da vida pós-moderna: solidão e misantropia (tema para outro texto).

sexta-feira, 3 de maio de 2019

CONSIDERAÇÕES NECESSÁRIAS


Sobre Agostinho:

I – Agostinho escreve “Deus criou o Céu e a Terra” em diversos momentos de suas produções teológicas. Diferentemente de Platão, a quem deve influência, o cristão retoma a narrativa de alguns mitos cosmogônicos (os quais sustentaram e ainda sustentam algumas religiões). Essa premissa mítica “Deus criou o Céu e a Terra”, de Copérnico às últimas descobertas astronômicas, tampouco como metáfora faz sentido.

II – No último parágrafo da página 5, do texto 05, sobre Santo Agostinho, lê-se “O ser humano, sendo temporal, não pode compreender com a sua sabedoria a eternidade divina. Alcança, no máximo, por iluminação, um saber negativo do ser divino, pois a eternidade não é absolutamente temporal”. O que explicita esse excerto? O homem só pode conhecer Deus por aquilo que ele não é – o saber negativo.  Na página 7, do mesmo texto, afirma-se que “o ser de Deus é”. Quem é que afirma esse saber positivo? Afinal, conhece-se Deus por aquilo que ele não é ou por aquilo que ele é?

III – Agostinho valora a filosofia grega, sobretudo Platão, que ele destaca como o maior filósofo. Sobre Aristóteles, o teólogo tem como “superior a muitos platônicos, mas inferior em estilo a Platão”. Para aclarar tal ambiguidade, convém separar a frase em duas proposições: 1) Aristóteles é superior a muitos platônicos, isto é, superior aos seguidores de Platão; e 2) Aristóteles é inferior em estilo a Platão, isto é, igual ou superior em tudo mais. Não é exatamente o que se pressupõe ou subentende do texto? Por último, qual a relevância do estilo para a filosofia ou para a ciência?




Sobre Tomás de Aquino:

I – Tomás de Aquino concebe que o corpo e a alma sejam entidades distintas uma da outra, mas não divisíveis. Os termos “entidades”, “distintas” e “divisíveis” foram traduzidos ao pé da letra do texto escolástico? Sim ou não? A afirmação de que “o corpo e a alma sejam entidades distintas, mas não divisíveis” soa como um sofisma, para não dizer, com Rudolf Carnap, sem sentido.

II – Tomás de Aquino denomina o corpo e a alma como “substâncias incompletas”, que, juntas, formam uma substância. Um corpo sem alma não é um corpo, mas um cadáver em processo de desintegração. A alma, por sua vez, visto que se complementa com o corpo, não deveria ter o mesmo destino finalista de seu complemento? O escolástico acredita, todavia, que a alma humana sobrevive à morte. O corpo deixa de existir, e a alma adquire completude, autonomia. É isso?

III – Tomás de Aquino atribui ao homem uma “alma racional”, qualitativamente superior à “alma sensitiva” dos animais. A alma racional subsume, segundo ele, a alma sensitiva e vegetativa (das plantas). Todos os seres viventes têm alma, ao contrário do que Descartes pensaria quatro séculos mais tarde. A questão é: quando o homem adquiriu uma alma racional? Desde o início (como conta o mito)? Início de quê? Quando o ancestral genético do homem deixou de ser um animal, para se tornar humano, dotado de uma alma racional? Há seis/sete milhões de anos (com a separação dos gêneros Pan e Homo da subfamília homininae)? Há quatro milhões (com a evolução do bipedalismo)? Há dois milhões (com o fabrico das primeiras ferramentas)? Há trezentos mil anos (com o surgimento do homo sapiens)? Há setenta-noventa mil (com a mais antiga revolução cognitiva)? Há dez-catorze mil (com a domesticação de plantas e animais)? Há cinco mil (com a descoberta da escrita)? Quando? Quando? Quando?  Não teria sido quando se fez palavra a imaginação mítico-teológica?

domingo, 28 de abril de 2019

RETROCESSO NO PENSAMENTO BRASILEIRO


       O presidente da República acha um desperdício bancar os estudos filosóficos, sociológicos e históricos na Universidade Federais. O corte no investimento nas humanas irá beneficiar as áreas científicas e tecnológicas, que, segundo ele, apresentariam “retorno imediato”.
       Seus opositores políticos reagem com a teoria conspiratória de que o governo não quer gente pensante, que desenvolva senso crítico – a ponto de constituir uma ameaça ao establishment. Em épocas pretéritas, essa teoria se sustentava em argumentos que pareciam verdadeiros. Nunca comprovada a posteriori, ela passou ao domínio da esquerda como um de seus preconceitos mais estimados. Márcia Tiburi o expressa agora, numa interpretação arguta do discurso de Jair Bolsonaro.
               A intervenção no ensino superior não se destina a manter nossa juventude alienada, tampouco a alocar recursos para outras áreas, como medicina, veterinária e engenharia. Por trás dessa justificativa, esconde-se a verdade maior, oficializada pela influência de Olavo de Carvalho: pôr fim aos nichos marxistas(-leninistas-trotkistas-stalinistas-gramscistas-castristas-chavistas-lulistas), que resistem dentro das nossas universidades públicas, notadamente nos cursos de Filosofia, Sociologia e História.
                A política educacional a ser colocada em prática pelo governo verificar-se-á um retrocesso no pensamento brasileiro, o ainda incipiente pensamento brasileiro. Por que não mudar e fiscalizar o currículo dos cursos acima?

quinta-feira, 25 de abril de 2019

ANTICRISTO E ECLESIASTES


O professor de Introdução à Filosofia pede-nos uma relação de todos os livros, que julgamos importantes para compor uma biblioteca ideal.
Na hora seguinte, cada um de nós lê o título e autor dos livros escolhidos.
Ao ouvir meus colegas, percebo que (em sua maioria) possuem um universo de leitura bastante reduzido. Alguns livros são citados por simples lembrança de citações já feitas na sala por outros professores. 
Em minha turma, 15 colegas são frades franciscanos, carmelitas ou postulantes conventuais. Alguns deles relacionaram O Anticristo, de Friedrich Nietzsche. A Bíblia não foi lembrada por eles.
O livro de Nietzsche, como é do conhecimento de quem leu Nietzsche, consiste nas mais contundentes marteladas dadas pelo filósofo ao Cristianismo.
Malgrado meu neoateísmo, incluí como leitura importante o Eclesiastes, por ser um libelo contra a vaidade.
O professor não percebeu a contradição, ou a ignorou – como atitude mais sábia.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

DE MASI E UMA DIGRESSÃO UTÓPICA


         
          O livro Uma simples revolução, de Domenico De Masi, compõe-se de oitenta e um capítulos curtos, de alguma forma conectados à ideia principal: trabalho, ócio e criatividade.
       Em 2999 (terceiro capítulo), De Masi avança sua análise sociológica em um milênio, para nos apresentar a “civilidade ociosa”. Segundo ele, “a introspecção, a amizade, o amor, a brincadeira, a beleza e a convivência têm, enfim, prevalecido sobre as lutas por poder, dinheiro e posse de bens materiais”.
         Na passagem do terceiro ao quarto milênio, o homem terá a cabeça mais desenvolvida, em razão de teletrabalhar, tele-estudar, teledivertir-se e teleamar – o que o incapacitaria de executar um passo de dança. Por que não teledançar?
         Por trás da ficção científica, assoma-se um gigantesco otimismo – profissão de fé em De Masi. Sua “civilidade” do ócio criativo constitui a primeira utopia pós-industrial. Como seria possível uma era de introspecção, amizade, amor, ludicidade, beleza e convivência depois de um “cataclismo biotecnológico”, que aconteceria no século XXV?
         De Masi se junta a Platão, Al-Farabi, Thomas Morus, Tommaso Capanella, Étienne Cabet, H.G. Wells, Italo Calvino, Gene Roddenberry (criador de Star Trek), entre muitos outros idealistas.
         Antes de superestimar uma era de ociosidade, baseada na ociosidade incipiente do último meio século, o sociólogo interpõe o que seria uma solução de continuidade: o cataclismo biotecnológico (já citado acima). Exceto que esse acontecimento terrível destruiria os bancos de dados da história humana desde o ano 2000 (com o registro eletrônico), nenhuma palavra a mais.
         Não obstante o pessimismo com que antevejo nosso futuro, essa solução de continuidade me parece mais factível e influente. Outra coisa: o homem viveu – e vive – sua parcela de introspecção, amizade, amor, beleza, convivência...

segunda-feira, 22 de abril de 2019

NOTRE DAME: UM SÍMBOLO DA SOLIDEZ


A igreja de Notre Dame foi atingida por um incêndio na semana passada. Suas gárgulas horrendas, com a função de vomitar água, aspiraram fogo, elemento mais violento (mítico e historicamente associado ao castigo, à purgação).
         Antes de acabar o rescaldo, pessoas de diferentes partes do globo passaram a fazer doações milionárias para a recuperação da catedral famosa. O presidente da França falou no local em criar um fundo nacional (e além-fronteiras) com o mesmo objetivo. Dificilmente, ele poderá usar dinheiro público, o que provocaria o recrudescimento dos “coletes amarelos”. Nenhuma palavra da riquíssima Igreja Católica – a propósito.
       A reação de franceses, no entanto, já revela características pós-modernas, como a perda da aura do objeto artístico (segundo Walter Benjamin). O último discurso é de um humanismo radical: gente é mais importante que obras de arquitetura, escultura, pintura ou símbolos religiosos. Os problemas sociais estão a exigir maior atenção que as produções culturais. A parte superior de Notre Dame, diga-se de passagem, serviu de residência para Quasimodo, o corcunda romanceado por Victor Hugo.
         A liberdade, um dos grandes ideais iluministas, assegura aos doadores privados a justificativa de seu mecenato. Mesmo assim, eles não estão livres de crítica, desde que estas não involuam para ameaça ou atentado.

LIBIDO (AQUÉM DO CONCEITO)


A libido é mais que um conceito na teoria dos instintos de Sigmund Freud. Assim como a própria teoria consiste na descrição da coisa instintiva, não a coisa real, a particularidade descrita como “libido” não passa de uma aproximação psicanalítica. A coisa existe, isto é, a energia associada à sexualidade humana. Todo processo de aculturação para redirecionar a libido, ou até mesmo eliminá-la, resulta numa doença mental e psicossomática. A perversão sexual, inclusive praticada por indivíduos celibatários, constitui prova da existência e da força libidinal.

Referências: 

CUNHA. J.A. Dicionário de termos de psicanálise de Freud; tradução e organização de Jurema Alcides Cunha. Porto Alegre: Editora Globo, 1978, pp. 116-118.

VALAS, Patrick. Freud e a perversão; tradução de Dulce Duque Estrada. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1990.




quinta-feira, 18 de abril de 2019

PRESENTE DEPRECIADO


        O queixume de que o mundo atual é o pior dos mundos possíveis ganha uma dimensão epidêmica (que ameaça a saúde integral das pessoas atingidas pelo meme viral). Pari passu com um excesso de sensibilidade, denuncia-se uma debilidade moral, misto de cansaço e medo – por trás da queixa sistemática.
         Depois da vida, cujo valor é incomensurável, a liberdade constitui a prerrogativa fundamental do ser humano. Ela pode servir de referência de como o mundo contemporâneo é imensamente melhor que os mundos passados. Como apoio, eis o que escreve Domenico de Masi:

Se pensarmos bem, o progresso nada mais é que um longo percurso da humanidade rumo à libertação deliberada da fadiga física, em primeiro lugar, e do estresse intelectual, em segundo. Das origens da nossa história até a Idade Média, o homem conseguiu conquistar a libertação da escravidão. Da Idade Média até a primeira metade do século XX, libertou-se da fadiga. Desde a Segunda Guerra Mundial, visa à libertação do trabalho em si.

         O boom tecnológico das últimas décadas, com a máquina a realizar o trabalho de um número cada vez maior de mãos e mentes, tem propiciado um aumento do tempo livre. Novo problema: o que fazer com o tempo livre? Agora o homem não sabe ou não decide como usufruir fora do trabalho. Seu comportamento por omissão permite o preenchimento de uma agenda atribulada, onde toda liberdade é zerada pelas próprias escolhas.
         Nesse mundo em que a liberdade conquistada se perde, em razão do moral baixo, da falta de coragem e discernimento, o discurso recorrente aponta para mundos outros (onde o mito do paraíso perdido ainda faz sentido). O presente sofre uma depreciação injusta, doentia.

MASI, Domenico De. Uma simples revolução; tradução de Yadyr Figueiredo. Rio de Janeiro: Sextante, 2019, p.74.

sexta-feira, 29 de março de 2019

(I)MOBILIDADE URBANA


        


         A mobilidade urbana é definida pelo texto institucional (Lei nº 12.587, de 2012) como a “condição em que se realizam os deslocamentos de pessoas e cargas no espaço urbano”. Da vila à metrópole, as atividades econômicas e sociais crescem sem o devido controle gestor, via de regra, a gerar um problema de mobilidade.
         Em Curitiba, a exemplo de outras grandes cidades brasileiras, o aumento populacional ocorre acelerada e desordenadamente. Malgrado as melhorias urbanísticas realizadas nas últimas décadas, os problemas de mobilidade urbana começam a surgir em razão do aumento exponencial da frota de veículos automotores. De acordo com números do Detran (de dezembro de 2017), já circulam mais de dois milhões e trezentos mil veículos dentro da região metropolitana. A capital paranaense, conforme um ranking publicado na revista Exame em 2014, encima a relação de mais carros por habitante.
         Entre os problemas de mobilidade em Curitiba, o congestionamento de vias em determinados horários do dia é o mais preocupante, cuja solução não apresenta uma perspectiva de médio a longo prazo. As dificuldades impostas pela redução do espaço (quase inteiramente ocupado) passam a interferir no tempo que se é gasto (ou perdido) com o ir e vir.
         O tempo é dinheiro, preceituava a doutrina capitalista desde Benjamin Franklin. Em plena modernidade “líquida” (denominação de Zygmunt Bauman), tempo é vida. As horas que se perdem num congestionamento estão na contramão da fluidez, da liberdade e do consumo (do próprio ócio). A demora aumenta a pressa, e esta diminui a qualidade de vida.
         A despeito de toda a infraestrutura de mobilidade de Curitiba, os problemas surgem, mais facilmente observados por aqueles que vêm de fora (não condicionados pelo diferencial urbanístico da cidade). Ao aumento da frota veicular se somam algumas condutas mal-educadas dos condutores – responsáveis por atrasar ainda mais a mobilidade no trânsito. 

segunda-feira, 25 de março de 2019

CRONOS E KAIRÓS: O MENINO MESMO E OUTRO


Os outros meninos do rincão me chamavam de Gringo, em razão da cor clara da minha pele, olhos e cabelos. Nos momentos em que ralhavam comigo, o apelido racista vinha acompanhado de um adjetivo pouco lisonjeiro – não correspondente ao asseio que me era imposto pela mãe.
Ela procedia da serra, de uma família italiana, cujos pais e avós atravessaram o Atlântico de navio nas últimas décadas do século XIX. Anteriormente, o rincão era povoado apenas por “brasileiros”, de origem portuguesa. Minha mãe foi a primeira a romper com essa homogenia de “pelo duro”.
         O pejorativo com que fui tratado na infância, contudo, não me marcou negativamente (hoje caracterizado como bullying). A diferença, por outro lado, não se transformou em orgulho para mim. Um misto de ignorância e rigor com que todos vivíamos no rincão não nos permitia avançar para um estágio de maior sensibilidade (já em desenvolvimento nos centros urbanos).
         A educação severa dos pais me preparou para a vida, sem imprimir qualquer desajuste em minha personalidade. O respeito por eles continuou a crescer como uma forma (inconfessável) de amor, principalmente a partir de quando os deixei para estudar na cidade.
         O rincão mudou deveras, por conta da passagem inexorável de Cronos (o tempo sem retorno). Inobstante as mudanças por que passei, ainda me sinto muito bem toda vez que volto lá, onde reencontro meu pai, meu irmão, a casa, o lugar... Kairós (o tempo cíclico) me proporciona essa felicidade de ser o mesmo e ser outro. Menino e livre-pensador.  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

AS DUAS FACES DO MITO


A sustentabilidade é um mito de transição da modernidade para um período historial ainda não definido. Ele apresenta duas faces (diferente de Jano): uma que sorri; e outra que chora. Noutras palavras, salvação e tragédia.
Por que esse mito se sobressai nos últimos anos?
Pessoas acreditam nele, embora se dividam, repito, entre otimistas e pessimistas.
Em comum com os mitos antigos, medievais e modernos, o da sustentabilidade consiste numa narrativa que tenta explicar a contradição vivida pela sociedade: consumismo versus preservação ambiental. Ação pulsional versus idealismo.
A desmitificação virá com demora, já transfigurada na nêmesis do triunfo provisório sobre a natureza: a insustentabilidade.
Por que “triunfo provisório”?
O agente humano terá solução de continuidade. Sob o sol ou sobre o gelo, ele deixará de agir contra o meio ambiente. Do subsolo à atmosfera, do prado à floresta, do córrego ao oceano, o planeta há de se recuperar dos danos antropocêntricos.
Antes que a face sorridente do mito desapareça (às sombras imponderáveis do ocaso), a razão deverá atuar no feito da sustentabilidade real.

CONFISSÕES DE UM NIETZSCHIANO


I
A filosofia significa para mim um despertar, que me faz abrir os olhos para a realidade, para o mundo. Antes do pensamento e da reflexão, filosofar é ver o que é. Minha autoiniciação tem local e tempo memoráveis: Porto Alegre, 1981. Nos últimos 38 anos, portanto, em nenhum momento me ocorreu a dúvida se deveria considerar ou não a leitura de Krishnamurti a primeira prova de que filosofava desde então.

II
O conhecimento dos grandes pensadores (suas ideias principais, seus sistemas) não é filosofar propriamente. As leituras me auxiliam a elaborar um discurso pessoal, uma fala e uma escrita sobre o que partilhar com os outros. Em Nietzsche, por exemplo, absorvo o que fecha com a minha reflexão filosófica, a qual tampouco é dirigida pela academia. Mesmo assim, reconheço a importância de chancelar meus textos com o aposto “filósofo”. Por isso, estudo filosofia à distância na Unisul desde 2012 e passei a frequentar a Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus, em Curitiba, no ano presente.

III
A turma a que pertenço é constituída 85,7% de frades e postulantes, todos internos em conventos franciscanos. Os demais somos três: outro homem da minha geração, uma menina e eu. Estou feliz por viver essa experiência maravilhosa de receptividade, humildade, tolerância. Entre os professores, três são teólogos, que seguem Platão, os santos da Igreja Católica, Descartes e outros não indicados a um nietzschiano, neo-ateu.

REDES SOCIAIS E ANSIEDADE



   Uma matéria publicada no último número da Superinteressante sobre a ansiedade vem ao encontro da análise que tenho feito das redes sociais, mais precisamente do Facebook. Ao postar “As pessoas que não vão à praia também são felizes”, resumi dois quadros que se pintam nestes dias (ainda não contemplados pelos sociólogos de plantão).
               Ao ver a foto de alguém diante do mar azul, verde (ou marrom), com a legenda “Gratidão!” no limite do enigmático, sou levado a pensar nas ações ou afasias representadas no quadro que é visto e no que é subentendido.
                 Para descrevê-los, apoio-me em excertos da matéria referida acima. Em relação ao primeiro quadro

“As redes sociais permitem reconstruir, ainda que virtualmente, o tipo de comunidade antiga onde todos conheciam uns aos outros”, afirma o antropólogo (Robin Dunbar). Mas essa reprodução não é perfeita: o convívio nas redes sociais não tem a sincronicidade de uma mesa de bar... Além disso, as redes alimentam mais uma fonte de ansiedade da vida contemporânea: excesso de escolhas.

                 O autor da matéria acerta com todas as palavras:

Em tese, mais escolhas significam mais liberdade, e mais liberdade eleva o bem-estar. Mas não foi isso o que psicólogo americano Barry Schwartz descobriu em seus estudos. “Ela (a capacidade de escolha) provoca paralisia, em vez de liberdade”... Com tantas opções, fica difícil decidir – o que gera ansiedade.

               O problema transcende a responsabilidade da escolha, que se desestrutura com a projeção das escolhas preteridas, talvez mais exitosas, com possibilidades mil. Para passar a limpo essa dúvida, as pessoas exaltam exponencialmente suas escolhas com atualizações diárias no Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp...
    Quanto ao segundo quadro, composto por aqueles que não conseguem ostentar a felicidade de suas opções de vida, a matéria também traz algumas pérolas:

Por um lado, isso é bacana. Ficamos sabendo que pessoas de quem gostamos estão vivendo bem. Por outro, isso traz desconforto: cadê você na foto? Será que você está aproveitando sua vida tão bem quanto os seus amigos? Com as redes sociais, o medo de ficar de fora ficou tão comum que até recebeu uma sigla: “FoMO”, de fear of missing out... Sentimos remorso, como se a felicidade alheia fosse nossa miséria.

                  De acordo com o autor, as redes sociais gerariam ansiedade, porque mostram toda hora o que você está perdendo. À exceção do YouTube, outras plataformas têm impacto negativo sobre horas de sono, solidão, bullying, FoMO, ansiedade e depressão.
                  Para minorar esse efeito indesejável (causado pela exposição exacerbada de felicidade), foi que postei no dia 8 de fevereiro de 2019: “Quem não vai à praia também é feliz”. Lamentavelmente, a postagem provocou reações adversas de alguns usuários que se encontravam na praia.


HORTA, Mauricio. A epidemia da ansiedade; Superinteressante; ed. 399, pp. 22-33 fevereiro, 2019.