quinta-feira, 22 de abril de 2021

CRÔNICA DA ILHA DO MEL

Uma ilha tem o inconveniente de estar isolada por água, pensa o senso comum do continente.

Esse pensamento me ocorreu ao ver uma ilha distante a primeira vez - com olhos de um interiorano.

O ilhéu, por sua vez, pode ter o mesmo ponto de vista, de se sentir isolado, sempre a depender de uma embarcação para sair da ilha, ao encontro da cidade grande (com suas benesses exclusivas). As dificuldades impostas pelo isolamento, não raro, justificam vontade e esforço no sentido de mudar da ilha.

Entretanto, há outra possibilidade, que é do domínio do insular, o isolamento, de sentir-se bem na sua ilha.

Na terceira vez que venho à Ilha do Mel, conheço quem não mais deseja voltar ao continente. Ele é feliz aqui, malgrado o modo de existência mais simples.

Ante a extensão de água (em torno de 4,5 km), que separa Ilha do Mel e Pontal do Sul, concluo pela variável em favor do ilhéu. Nesta terceira visita à ilha, percebo o quanto a vida aqui pode ser melhor.

ILHA DO MEL E OUTRAS ILHAS


As histórias de ilha me encantam desde menino, quando li uma adaptação de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. A literatura foi e continua sendo um caminho para meu espírito aventureiro.

Limitado pelo rio (norte e oeste), pela Serra (sul) e pelos coxilhões (leste), o Rincão dos Machado representa uma ilha, onde estabeleço um distanciamento voluntário.

De tempo em tempo, necessito do sossego do rincão, nem que seja para ouvir o vento ou o silêncio e ver o céu azul das manhãs ou estrelado das noites limpas.

Hoje contemplo a faixa de mar que separa a ilha do continente. As vagas se desfazem em espumas na areia ou chicoteiam os rochedos nos extremos da praia.

Esta é a terceira vez que venho à Ilha do Mel, em sua parte mais conhecida como Encantadas. O topônimo é derivado de uma lenda, mas expressa uma sensação real como um prazer indescritível de se estar fora do redemoinho incômodo da vida pós-moderna.

Na ilha, o distanciamento é visual, na medida em que o continente está lá, separado por milhas de água. O distanciamento também é auditivo, na medida em que a algaravia da cidade grande é silenciada pelo marulho das ondas.

Os dois sentidos acima, todavia, não determinam o que a insularidade oferece de melhor: a tranquilidade (estado isento de agitações, inquietações ou perturbações).

A literatura criou ilhas, para que o homem pudesse se aventurar utopicamente. Em sua criação, ela imitou a realidade, a seguir os passos de Safo, a poetisa grega que compunha para lira na ilha de Lesbos. A pintura se isolou no Taiti com Paul Gaugin, para se libertar da França civilizada. A ciência fez sua maior descoberta nas ilhas de Galápagos com Charles Darwin, longe do glamour da Inglaterra vitoriana.

A Ilha do Mel poderá se transformar em literatura, em poesia. Antes que isso aconteça, ela é real, lugar onde é possível um modo de existência simples.


quarta-feira, 14 de abril de 2021

AMOR EM TEMPOS DIFÍCEIS

 

        O amor em tempos difíceis continua a conjunção de astros, o ramalhete de flores, o amálgama de metais raros, a combinação de doces saborosíssimos, enfim, a soma de muitos sentimentos, qualidades ou atitudes que o constituem desde muito.

       Ao dizer “flor”, por exemplo, o poeta diz cherry blossom, cravo, gérbera, rosa, violeta... Esses nomes são hipônimos de flor, o hiperônimo. Ao dizer amor, o poeta diz cumplicidade, eroticidade, fidelidade, gentileza, reciprocidade... Essas flores compõem o grande ramalhete, cuja beleza e perfume excedem qualquer limitação temporal.

       A rosa que se quebra ou murcha compromete o ramalhete por inteiro. As outras flores são insuficientes para mantê-lo belo e fragrante. A fidelidade que se nega ao outro, ao ser amado, impossibilita o amor por inteiro.

       Aquele que ama verdadeiramente sabe o significado e a relevância de cada flor, de cada sentimento, qualidade ou atitude para o todo. O bom jardineiro não desiste de suas flores, simplesmente porque o tempo não é favorável a elas. O amante pega atalhos, quando a reta do tempo linear se entorta, ou quando o tempo circular vira rotina viciosa.

         O amor é a possibilidade de saltar para fora do tempo, seja este difícil ou não, sombrio (segundo uma denominação de Hannah Arendt) ou não, ao viver o instante – e sua eternidade.  

 

EMPREENDEDORISMO

 

        O termo “empreendedorismo” significa, stricto sensu, o processo de iniciativa empresarial nos diversos setores da economia. Num mundo dominado pela técnica e pelo mercado, faz muito sentido a figura do empreendedor.

   O problema não é a definição do que seja empreendedor, empreendedorismo (conhecimento generalizado), todavia, as dificuldades que se interpõem entre o projeto empreendido e a sua realização concreta. Isso é expresso na proposta de Cléber Prigol.

         Ante a constatação empírica dos óbices por ele enfrentados, meu interlocutor queixa-se da quase impossibilidade de empreender no Brasil. Não encontro palavras para minimizar seu desencanto, pelo contrário, tenho a dizer-lhe coisas pouco agradáveis.

         Todo empreendimento, com algumas exceções, como no agronegócio e na construção civil, sofre absurdamente com a pandemia – fator que ultrapassa os entraves criados por uma política econômica incerta. Tais entraves preexistiam à COVID, determinados por uma crise não reconhecida, malgrado de espectro global.

         Ao contrário do agro e da construção (com financiamentos retornáveis), setores, como transporte e hotelaria, ficaram reféns do problema sanitário.

         Nosso país é incomparavelmente menor que os Estados Unidos. Não possuímos lastro para injetar trilhões na economia. Como recuperá-la se ainda persiste a causa maior que provoca sua queda inexorável?

         O empreendedor necessita destinar sua vontade mais resiliente num novo projeto. Para elaborá-lo, ele terá tempo de sobra (numa perspectiva, ora animadora, ora pessimista).   

SOBRE A MORTE

 

         Alana me sugere o tema mais perturbador entre os demais: a morte. A jovem me diz que tem refletido muito nos últimos dias, ante a perda de pessoa próxima para a pandemia. Nunca estamos preparados para “algo que é natural”, no entendimento correto da minha colega de filosofia.

         Três aspectos em relação à morte exigem uma distinção: a morte como experiência de cada um com seu ente querido; a morte como horizonte inexorável, fonte de angústia profunda; e, por último, a morte como catástrofe física e psicológica. A angústia, cujo âmbito é a consciência, regride para o instintual, que Freud chamou de Thanatos.

         Sobre o primeiro aspecto, a perda do pai, da mãe, do irmão ou do filho não encontra consolo nas palavras, tampouco é mitigada pela crença em uma vida-além. Quem está de fora não consegue empatizar com o outro, que se encontra preso ao círculo de sofrimento. Em tempo de pandemia, esse círculo ocorre com uma frequência nunca vivenciada anteriormente – o que poderá diminuir seu conteúdo de dor. Ademais, a vida continua com seus desejos, suas vontades, suas razões.

         O segundo aspecto está relacionado à condição do ser único que sabe de sua finitude: o homem. A morte pertence a sua existência, tem um sentido para ele (na contramão de tudo mais), que é autopreservação, autorrealização, Eros.

         A terceira consideração me remete à morte como um espectro antes de sua aparição. A morte ainda não chegou, malgrado o prazo a todos, a exemplo do protagonista do filme O sétimo selo (de Ingmar Bergman). Essa espera gera medo, pavor e doença, males que têm na fé e na razão meros paliativos.

         As três abordagens acima não esgotam o tema, uma análise demorada exigida pelo tema. Resumo-as pelo viés da relação social (afetiva), da consciência existencial e da patologia. Assim mesmo, espero ter tocado em alguns pontos axiais desse assunto delicado e (repito) perturbador.

O QUE É A VERDADE?


        A pergunta “o que é a verdade?” se tornou uma obsessão do intelecto humano. Nenhuma resposta o satisfez até o presente. Entre os sábios, há quem responda com o silêncio – o que torna a verdade mais enigmática, mais desejada.

           A pergunta em si pressupõe um atributo da verdade, um ser ela mesma. Antes de constituí-la ontologicamente, deve-se inverter a questão: a verdade é?

           A verdade é algo independente do homem e de sua linguagem?   

           A afirmação dessa independência não escancara uma forma de alienação? Parte do mal no mundo não se origina do sim, que personifica ou que deifica a verdade?

           Na antiguidade, a verdade foi atribuída à physis (natureza, cosmo). Na Idade Média (com domínio exclusivo da mítica judaico-cristã), a verdade foi elevada a Deus. Na Modernidade, ela foi atribuída à razão.

           A Modernidade, todavia, passa a olhos vistos, e a verdade se dilui (ou se liquidifica, segundo Bauman) com o niilismo contemporâneo, num novo período civilizacional caracterizado pela pós-verdade.

           Neste período, está em curso a desmitificação da verdade, ou de sua ideia, de seu valor pressuposto. Em Nietzsche, Para além de bem e mal, pode ser lido: “Por que não preferir a não verdade?”.

           Ademais, a crença na verdade não propiciou uma existência melhor, conforme prometiam seus avatares, filósofos, teólogos e cientistas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

REFLEXÃO

 


DISCURSO HIPÓCRITA

 

       Católicos e evangélicos são cristãos, dizem seguir a Cristo. Essa proposição é verdadeira ou falsa?

    A primeira parte (oração) é falsa: “Católicos e evangélicos são cristãos”.

          Por quê?

          Como será verificado a seguir, católicos e evangélicos acreditam ser cristãos, mas o negam com valores outros, com a obra realizada por eles.

      A segunda oração é verdadeira, porque católicos e evangélicos dizem seguir a Cristo, malgrado contradizê-lo na prática.

        Muitas passagens bíblicas constituem argumento de autoridade às considerações acima, como a expressa em Mateus 6:19-21:

 

Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, onde os ladrões os desenterram e roubam. Mas entesourai para vós tesouros no céu, onde não os consome a ferrugem, nem a traça, e onde os ladrões não os desenterram, nem roubam. Porque onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração.

 

        Com a mesma clareza e entendimentos, lê-se em Mateus, 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de amar a este, e desprezar aquele. Não podeis servir a Deus e às riquezas”.

    Deus e riquezas são antípodas, portanto, inconciliáveis.

    Todavia, a passagem mais luminosa, coerente com as duas supracitadas, pode ser lida igualmente em Mateus, 22:15-21. Jesus responde aos fariseus que o inquiriam se era correto dar tributo a Cesar. Com uma moeda, que trazia a imagem e inscrição do imperador romano, Jesus não cai na armadilha e afirma com sabedoria: “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”.

        O que é que se dá a Cesar?

        O dinheiro.

      O dinheiro pode ser dado a Cesar, sem problema. Em contrapartida, a Deus se dá o bem imaterial, que transcende esta vida e conduz o cristão para a vida-além, o reino do outro mundo (como afirmou Jesus ante Pilatos).

        A desculpa de padres e pastores é de que eles mesmos, homens que se dizem cristãos, necessitam de dinheiro para viver nestes dias. A necessidade e o dinheiro já existiam nos tempos de João Batista e de Jesus de Nazaré. Por que não viver como eles, autênticos pregadores?

      O discurso hipócrita, que coaduna prosperidade material e preceitos cristãos, como o fez o bispo Edir Macedo, serve como prova do que Nietzsche constatou há um século e pico: “Deus está morto!”.

       Esse discurso só é possível em vista da lacuna aberta pela não inclusão de qualquer um dos versículos supracitados nas missas e cultos nestes dias.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

ELEIÇÕES

 

I – PESQUISAS PRÉ-ELEITORAIS – O resultado das eleições deve ser confrontado com as pesquisas publicadas anteriormente. Caso a margem de erro for pequena, renda-se homenagem ao acerto, à seriedade dos institutos responsáveis, bom como aos órgãos de imprensa que divulgaram a pesquisa. Caso contrário, com disparidade considerável entre previsão e resultado, justifica-se uma campanha (pública ou privada) contra o caráter tendencioso do instituto que elaborou a pesquisa e do órgão midiático que fez a divulgação.

II – CAMPANHA ACUSATÓRIA – O eleitor brasileiro já é constituído moralmente pelo meme* “falcatrua”, facilmente identificado em seus representantes no governo, não mais se importa com as acusações pré-eleitorais de que esse ou aquele candidato cometeu algum crime no exercício de seu cargo anterior. Nenhum eleitor reconsidera o voto em vista de acusações feitas contra seu candidato. A imoralidade é banalizada.

III – TEMPO PERDIDO – Os críticos esclarecidos ainda não ousaram questionar a morosidade do processo eleitoral no Brasil. Ao tempo perdido com esse processo, soma-se a demora na fase posterior ao pleito, de formação e de adaptação do novo governo. O país para no mínimo por seis meses, uma vez que seus políticos de carreira se encontram em campanha, em suas bases eleitorais, ou se acomodando aos cargos a que foram eleitos.

* Meme: o termo foi cunhado por Richard Dawkins em 1976, no seu O gene egoísta, e vem da palavra grega “mimeme” (que significa “algo que é imitado”). O meme está para a cultura como o gene, para a biologia.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

O DESAPARECIMENTO DE BÁRBARA

 


Muitas hipóteses buscam uma explicação para o desaparecimento de uma pessoa. Numa escala de 1 a 10, do menor ao maior grau de gravidade, a hipótese menos grave é de que o desaparecido está bem em algum lugar, a esconder-se dos seus; e a mais grave, ele foi sequestrado e morto. As hipóteses intermediárias são variações entre a vontade própria e a ação criminosa de terceiro(s). As determinantes dessa vontade seguem um grau de autonomia cada vez menor, da extravagância à depressão profunda.

O desaparecimento de Bárbara Machado Padilha de Tupanciretã, Rio Grande do Sul, com base no que já se sabe até agora, indica que foi um ato deliberado por ela. Sua motivação, todavia, permanece um mistério. Segundo os comentários do marido e de uma amiga, Bárbara era saudável, normal. Sim, até fazer o que fez. A decisão de fugir acusa uma anormalidade, que é agravada pelo fato de efetivá-la sem os documentos. Essa “loucura” parece se repetir no Posto Castelinho, em Santa Maria, quando Bárbara sai da loja de conveniência e segue a pé.

O fato de deixar em casa seus documentos é sintomático. Um dos casos mais famosos de desaparecimento, protagonizado por Carlos Sanches Ortiz de Salazar, fugido de Sevilha em 1996 e encontrado 20 anos depois a viver numa floresta próxima à Toscana, ainda conservava os documentos. De Salazar, com 26 anos na época, escondia a depressão de que era vítima (não obstante ser médico e psicólogo). No momento em que foi identificado, ele expressou o desejo de continuar recluso e desapareceu outra vez.

Bárbara fugiu sem documentos, cartões ou sacola de roupas, algo que sugere duas hipóteses: menos grave, saiu com a intenção de voltar logo; e, mais grave, sua intenção é desaparecer para sempre, com ou sem uma nova identidade. Ao prosseguir a pé sua fuga, num local bastante afastado do centro de Santa Maria, enfatizo, confirma uma forma de insensatez. Para que Bárbara compraria água e chocolate na conveniência? Para caminhar sem destino, como indica o último registro das câmeras, ou seguir viagem para outra cidade? A posse do celular endossa a intenção de um novo contato, pelo menos para sua acolhida em Santa Maria.

O celular não faz sentido na hipótese de Bárbara seguir o exemplo do médico espanhol, a se isolar na mata. Logo ficaria sem carga. Nesse caso, a polícia não poderia suspender as buscas tão somente porque é chegada a noite. Não há policial disponível? Patrulha de voluntários. A lei não permite? A lei está errada, não pode preceder à vida de uma pessoa. A propósito, Bárbara corre um perigo óbvio, factível: ser encontrada antes por homens maus. Dessa forma, a hipótese menos grave se aproxima da mais grave, a fechar uma escala circular.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

MONTANHA ACIMA

 

          Nietzsche criou duas metáforas para representar a trajetória do homem ao além-do-homem: a da corda estendida sobre um abismo e a da subida em direção ao alto, à montanha acima da cidade e de sua praça.

       Desde antes de ler Nietzsche pela primeira vez, concebi a busca da sabedoria como uma caminhada, exatamente como pensara o filósofo há mais de um século. Ele afirma (lembro duas vezes) que quanto mais você se eleva, menor se afigura aos que continuam embaixo, seja por estes são ludibriados por uma ilusão de ótica, seja por inveja.

         Uma vida é demasiado curta, a tomar como referência nossa cultura, para se chegar ao topo, mais próximo da luz que deve irradiar por lá. No entanto, desde já gozo de uma visão que se aclara  à medida que subo mais e mais. Nessa visão, incluem-se aqueles que sequer começaram a subida, por falta de coragem, tibieza, despeito ou presunção. Eles se encontram (ou se perdem) no rasteiro do sopé, incapazes de se desvencilharem do peso sobre seus ombros.

         Uma aporia me perturba ao longo da caminhada: ainda sinto compaixão pelos meus semelhantes (por um lado) e uma vontade inquebrantável de subir ainda mais (por outro). Aquele sentimento me puxa para baixo, ao contrário da força ativa, que me torna mais livre e mais seguro. Todos devem se conduzir pelas próprias pernas, fazer seu próprio caminho – algo que depende de um querer determinado.

         Na altura em que me encontro, o vento é fresco e o estar-só uma condição muito agradável. Tudo abaixo se apequena, visto pela compreensão ampliada continuamente. Tudo acima ganha em claridade. A julgar pelo bem que experimento desde agora, o alto é o meio do caminho, é descer outra vez, qual o personagem liberto da caverna na alegoria de Platão.

         Em meio à luta dos homens lá embaixo, correrei o risco de ser incompreendido como o foi Zaratustra, tomado como um excêntrico, um herege, uma ameaça aos valores tradicionais, às "verdades" instauradas pelo hábito. Já convivi com eles nas primeiras duas décadas da minha vida. Ainda jovem, portanto, iniciei esta caminhada. 

sábado, 3 de outubro de 2020

SER-AÍ (CRÔNICA DE CURITIBA)

    Hoje caminhei pelo centro de Curitiba. Esse passeio se tornara uma rotina antes de ir para o Rio Grande do Sul em março. Minha residência anterior distava uma quadra da Boca Maldita, o coração da capital, lugar em que encontro alguns conhecidos.

     A loja das Livrarias Curitiba me acolhe como cliente especial. O Luiz se encontrava no calçadão, a expor seus quadros de ipês carregados de amarelo. O Plá e a Flor, sua companheira, talvez viessem mais tarde, para vender suas frases filosóficas.

     Sentado num banco, entre os canteiros de flores, reencontrei um amigo do peito, poeta que vivifica as palavras com a própria existência. Ele me contou uma história muito triste sobre seu filho viciado, que o incomoda há dez anos. Estava sem celular pela décima vez, afanados pelo adotivo para pagar as dívidas da droga. Malgrado dois infartos, ele desabafou que renasceria com a morte do rapaz, um destino de médio prazo.

     Um tanto impressionado com seu desabafo, deixei-o ali sob a manhã fechada de sábado. O homem é boníssimo, mas sofre as consequências de escolhas pretéritas. Menos mal que essa dor que o atormenta possa se constituir num leitmotiv para sua poesia, metaforizado em doçura.

     O movimento na XV era intenso naquela hora da manhã. Milhares de pessoas num ir e vir sem fim, pleno de liberdade. Cada uma delas, todavia, personagem real de um drama maior ou menor, de um drama inimaginável.

    Retorno pensativo para casa no Bacacheri, onde resolvo escrever esta crônica. Assim penso demonstrar textualmente minha empatia, meu ser-aí (no sentido hegeliano) propenso à intersubjetividade.


terça-feira, 15 de setembro de 2020

GRANDE CONSTITUIÇÃO TURCA

Como a Turquia ainda consegue ser um Estado laico, se quase a totalidade da população é islâmica?

Essa questão desafiadora ocorreu-me ontem, quando assistia ao filme Mucize (O milagre)*. O professor Mahir voluntariou-se para dar aulas num vilarejo distante entre as montanhas do oeste turco. Ao chegar lá, depois de uma longa caminhada, Mahir constata que não há escola desde sempre. Seus moradores são analfabetos e vivem segundo um sistema moral fundamentado na tradição. Antes de tomar o trem de volta, Mahir decide ficar e construir a escola, com apenas uma condição: a inclusão das meninas. As instalações foram erguidas rapidamente com a ajuda de “bandoleiros”, gente do lugar que vive à revelia da lei.

            Sem o conhecimento necessário, sou instado a pensar de acordo com o estereótipo de que os países islâmicos do Oriente são governados teocrática e ditatorialmente, cujos exemplos mais conhecidos são o Afeganistão, a Arábia Saudita e o Irã. A Turquia, todavia, representa uma bela exceção. Esse país é democrático, ordenado juridicamente por uma das melhores constituições do mundo (reeditada em 1982).

            Num tempo em que os regimes democráticos do Ocidente se permitem laivos conservadores, de fundamentalismo religioso, de recaída fascista, de inclinação de direita ou de esquerda, a Turquia continua o Estado democrático, secular. Embora o presidente Recep Tayyip Erdogan tenha apoiado o domínio muçulmano, com a conversão de igreja ortodoxa cristã em mesquita, a constituição turca transcenderá a esse político. Obviamente, o país sofre outras ameaças políticas, como a organização marxista dos curdos e a tensão com a Grécia.

             A laicidade da Turquia, ouso dizer, representa uma das maiores barreiras intercontinentais para o avanço islâmico em direção ao Ocidente.

                   

* Filme turco lançado em 2015, dirigido por Mahsun Kirmizigul. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

ANA SAUDADE (conto)

        A trilha molhada até a várzea não firma os tamanquinhos já gastos de Nenê e Menina. Ana os segue de perto, a pedir que os pequenos tomem cuidado para não cair no barro. Mais abaixo, os três pegam uma estrada melhor entre o morro e o Rosário.

        A caminhada não termina na Sédia, onde moram famílias com mais haveres. Nenê sonha de olhos abertos, azuis como a nesga de céu que se mostra por trás das nuvens:

        – Mãe, por que a gente não se muda pra cá?

      Ana sorri com a pergunta, balança a cabeça negativamente. A menina adivinha seu desejo inconfessável? Outra coisa a preocupa nesta tarde, como tantas tardes dos últimos dois anos. Otávio prometeu-lhe escrever do Rio de Janeiro. Uma carta veio há dois Natais. A saudade continua a crescer no peito como um espinheiro.

       Nenê e Menina diminuem o passo, admirados com o movimento da vila.

         Andem! Andem! Não querem ver o trem? Na volta, vamos à igreja.

           Ainda falta meia hora para chegarem à estação do Curussu.

           Sobre a ponte, Menina joga uma pedra no rio. Inutilmente, o guri vira a cabeça para ouvir o choque da pedra com a água. A ponte é alta demais. Com os tamancos na mão, corre para alcançar a mãe e a irmã.

           Uma subida longa do outro lado do rio exige força na perna. A conversa cansa mais agora, mas assim que eles chegam ao plano, Menina indaga a mãe:

           – O trem vem daonde?

           – Já te disse dez vezes, Menina. O trem vem de Porto Alegre e vai para São Borja.

           – Um dia quero ir pra São Borja.

           – Eu quero pra Porto Alegre – Nenê o contraria.

           – O trem não demora, depressa!

           A ponte da ferrovia, segmentos da linha férrea e a estação de Curussu são vistas do morro. O coração parece sair pela boca dos meninos. A paisagem é muito diferente da serra onde moram, rodeada de canavial e mataria.

           Um apito é ouvido. A locomotiva faz sua aparição, como se flutuasse no meio da fumaça produzida por ela. O ritmo das explosões e do bater metálico das bielas diminui a frequência. A parada está próxima. Ana e os filhos chegam finalmente.

           Alguns passageiros descem, outros sobem para dentro dos vagões. A viagem termina, inicia-se ou continua (para aqueles que permaneceram no trem). Ana, Nenê e Menina assistem estupefatos ao movimento da estação.

           O ritmo das explosões e do bater das bielas aceleram. A locomotiva expele fumaça para todos os lados. As rodas começam a girar num chiado ensurdecedor. O trem parte boqueirão afora. Curussu volta a fazer silêncio.

           Ninguém ouve o coração de Ana, quando se dirige ao responsável pela estação. Ela veio muitas vezes à espera da carta de Otávio, o filho que foi embora e não dá notícia há dois anos. O ferroviário procura entre os envelopes que tem nas mãos.

           – Nada, dona Ana!


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O FIM DA HUMANIDADE

 


Ao cabo de uma jornada de trinta anos de viagem espacial, alienígenas chegam à Terra, o planeta com vida no sistema solar. Para a sorte dos visitantes, encontram apenas vestígios recentes da espécie humana. Certamente, os homens se oporiam a uma civilização mais inteligente, cujo objetivo da viagem é de colonizar o planeta.

         Caso ainda sobrevivessem, os homens se surpreenderiam três vezes com essa “invasão”: os alienígenas são criaturas bastante distintas das imagens criadas na Terra para representá-los fisicamente; eles já alcançaram o nível 2 da Escala de Kardashev*, mais inteligentes; e não são agressivos, malgrado o objetivo colonizador. Tais características impactariam contra o preconceito antropocêntrico.

          Depois de uma exploração rápida nos lugares demarcados pelas ruínas, os alienígenas concluem as causas da extinção humana: pandemias sucessivas e uma guerra nuclear. As máscaras formam montanhas nos lixões (não eliminados pelo fogo) e cobrem a superfície de lagos, mares e oceanos. A radioatividade ainda está presente no ar e nas coisas sólidas. Os exploradores deduzem a partir de todos os sinais preservados, que a pandemia causou a guerra, e as duas somadas precipitaram o fim da humanidade.

         Décadas antes do presente, em que os alienígenas chegam à Terra, um pensador humilde imaginou os atores deste cenário escatológico: a China desenvolveria um micro-organismo dez vezes mais letal que o Coronavírus; os Estados Unidos, com as provas dessa criação, atacariam os laboratórios chineses. A guerra entre as duas superpotências seria deflagrada instantânea e devastadoramente, o que significa dizer a morte de bilhões de pessoas. Outros bilhões morreriam antes, atingidos pela pandemia. Os bilhões restantes sofreriam o ataque de ambos os males.

         Quando esse catastrofista escreveu sobre o futuro, alguns dos leitores o ignoraram simplesmente. Toda distopia repugna os espíritos otimistas, não importa se ela vem seguida de uma utopia: a da chegada dos alienígenas para povoar a Terra com uma nova civilização.

* Nicolai Kardashev, astrofísico russo, calculou (em 1964) que as civilizações se dividem em três tipos, segundo a quantidade total de energia à disposição.

            Tipo I – civilização capaz de aproveitar a energia total de seu planeta;           

            Tipo II – civilização capaz de aproveitar o total de energia de uma estrela;

            Tipo III – civilização capaz de aproveitar a energia de uma galáxia inteira.

            A civilização humana estaria próxima de 0,7.

            Outros tipos foram acrescentados à Escala de Kardashev.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

OS VIZINHOS: UMA ALEGORIA DE MIA COUTO


        O conto Os vizinhos, de Mia Couto, tem um enredo interessante, a servir de alegoria na descrição de um problema que se agrava em nossa sociedade, em (des)razão do individualismo radical e da dualidade ideológica (insuflada pela chamadas fake News).
         Na impossibilidade de transcrever o conto todo, publicado no livro Na berma de nenhuma estrada, cito o primeiro parágrafo:

As famílias se davam, cordiais, uma e sabugo. Não havia dia que não trocassem favores, emprestassem alegrias, esmiudaçassem conversa. Aquilo era como se não houvesse paredes. Ou que não tivessem ouvidos: digamos que uma família única distribuída em duas casas (p. 151)

        As duas famílias partilhavam do mesmo cão de guarda. Os filhos se namoriscavam, a trocarem bilhete no começo e travesseiro mais adiante.
         Tudo ia muito bem, “até que começaram as notícias”. A televisão insistia em conflitos étnicos, coisa que as famílias não sabiam muito bem. Todavia, “as notícias se adensaram como as nuvens de novembro”. Todos já sabiam o que significava étnico. Não bastassem os aspectos rácicos, com variantes religiosas, as notícias falavam em conflito.
         O noticiário acabava em discussão, o que justificou a não mais verem em comum a televisão.
         Um dia, o vizinho da esquerda bateu à porta do outro, a perguntar-lhe: “Desculpe, vizinho, mas você tem raça?”. O outro respondeu que sim. Não lhe disse que se tratava da outra raça, verdadeiramente pura, para evitar mal-entendido. Mesmo assim, complementou que em sua casa já comentavam sobre a etnia do outro.
        O terceiro passo foi o de as portas se fecharem uma para outra (como metáfora dos próprios corações).
         O narrador comenta que “ninguém lhes deu essa ordem de separação”. O noticiário os condicionava a ela. Os dois lados se perguntavam como foram amigos anteriormente. A religião de cada família era diferente.

A distância foi dando lugar ao ódio. E à convicção de que a culpa dos males mundiais residia ali ao lado. Desgraças passadas e futuras só tinham uma única e fácil explicação: os outros, ali à mão de serem condenados (p. 153)

         Até que um dos vizinhos resolveu matar o seu próximo. No escuro, com a arma na mão, prestes a atacar o outro, sofreu o ataque do cão. O vizinho que seria atacado se virou e, não reconhecendo a ação agressiva, achou interessante retomar uma conversa com o outro. Os dois gostaram do reencontro e combinaram alternar os passeios com o cão nas noites próximas.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

MADRUGADA

Os galos já cantaram trinta vezes nesta madrugada. Eles cantam do alto de suas árvores, onde se protegem de predadores que subsistem na memória filogenética da espécie.
Nada me foi negado, exceto o sono. Pelo contrário, meu coração está a exigir um novo sim, uma nova afirmação da vida.
A ouvir o canto dos galos (ante a perspectiva do dia), penso que o melhor caminho é a estrada, onde amealho horizontes.

AS PESSOAS...


Caro leitor, você lê acima um tipo de enunciado que repercute muito nas redes sociais. Todavia, seu significado denuncia duas falácias e uma presunção. 
As falácias são de generalização: "quase ninguém é amigo de ninguém" e "as pessoas". A presunção: o sujeito enunciador é o único certo, ao se colocar aquém das pessoas que o  "tratam conforme o interesse delas". 
O pressuposto é que ele trata as demais pessoas da outra forma, conforme o interesse delas e não conforme seu próprio interesse.
O fato de existir amizade no mundo real não é uma exceção. como é expresso pelo modalizador discursivo "quase". É inegável que existe amizades e amizades.
Uma psicologia mais profunda verá por trás do discurso desse sujeito, o desejo individualista de terra arrasada, de catastrofismo intersubjetivo.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

NIETZSCHE DISTORCIDO



       No livro Nietzsche para estressados, Allan Percy seleciona 99 sentenças do filósofo alemão e as transforma em autoajuda.
         Sem uma razão deliberada, rompi o plástico que protegia o volume (há alguns anos intacto) e o abri aleatoriamente para conhecer seu conteúdo. O primeiro excerto que leio no alto da página 24 é

As pessoas nos castigam por
nossas virtudes. Só perdoam
sinceramente nossos erros

         Não casualmente, um dos livros que releio nestes dias é Assim falou Zaratustra, em que a beleza e a sabedoria se encontram unificadas num texto sem comparação na história da filosofia. No discurso de Zaratustra, Das moscas do mercado, o sábio sugere a alguém com “ouvidos delicados” que se afaste do mercado, onde há o “barulho dos grandes atores e o zumbido das moscas venenosas”.
         A título de esclarecimento, os “ouvidos delicados” pertencem a alguém capaz de ouvir Zaratustra sobre a verdade de que o homem é algo a ser superado. Alguém propenso a ser um espírito livre. Os “grandes atores” são aqueles que falam para o povo, sacerdotes, pastores, políticos, filósofos, jornalistas... As “moscas” são os homens de rebanho, intolerantes à grandeza, ressentidos...
Salvo pequenas variantes de tradução (sem alterar o conteúdo), o excerto correto é

Eles te castigam por todas
as virtudes. Perdoam-te
sinceramente apenas – os erros

A distorção feita pelo autor de Nietzsche para estressados é considerável, a tomar em consideração as pessoas envolvidas no discurso. Há a substituição de “eles” (homens de rebanho) por “as pessoas”. Quem são essas pessoas? Mais grave ainda é a troca de alguém possuidor de uma qualidade que o distingue do povo (para quem se dirige Zaratustra), por “nós”. Quem são esses tomados pelo pronome nós (diferentes das pessoas que castigam)?
Esse “nós” do autor também comporta as pessoas acusadas de não tolerarem a virtude nos outros. Zaratustra diria que todas as pessoas envolvidas no excerto distorcido por Percy são eles, homens de rebanho, moscas do mercado. O próprio autor, que é coach, constituir-se-ia num barulhento grande ator, a representar para os leitores.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

TARDÍGRADO NO SOL?



            O Canal TILT do UOL, a versar sobre tecnologia, não é sério com a publicação da matéria: “Mancha achada no meio do Sol poderia ou não ser um tardígrado?”.
         A astronomia é uma ciência que evolui atrás de hipóteses cada vez mais difíceis de serem comprovadas (principalmente ao tratar de outras galáxias). No caso acima descrito, a pergunta beira o ridículo.
         Em primeiro lugar, não é no “meio do Sol”, a significar um determinado ponto de sua superfície. Não se diz de qualquer objeto na Terra, visto do espaço, que ele está no meio da Terra. Em segundo, mesmo que você (leitor) seja leigo no assunto, começa a leitura (pelo título mal formulado), a esperar uma análise da ESA (Agência Espacial Europeia) ou da NASA, não de internautas bobalhões.
         Após as imagens divulgadas do Sol por essas agências, a mais importante observação desses “especialistas” de plantão foi comparar uma das manchas solares com um tardígrado, e se esse micro-organismo (0,5mm de comprimento) poderia sobreviver no Sol.
         Uma das características conhecidas do tardígrado é sua adaptação à alta temperatura, certamente não superior à da água fervente. A ebulição desse líquido ocorre a 100ºC ao nível do mar, todavia a temperatura da fotosfera solar é de aproximadamente 6.000ºC. Um pouco mais da metade dessa temperatura é suficiente para fundir os metais mais resistentes.
         Essa matéria do UOL é só mais um exemplo do que é publicado amiúde nos sites com maior acesso no mundo virtual. A sanha sensacionalista (para vender) não tem limite, a atender a demanda sem limite da ignorância.