sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FILOSOFAR


A filosofia sofre a pecha de ser uma atividade intelectual sem resultados positivos, para não dizer inútil de cara. Essa visão do senso comum prepondera na Academia, ainda dominada pelo conhecimento técnico e científico.
         Em seu último romance, Hereges (p. 24), Leonardo Padura assim descreve o personagem Mario Conde:

Conde começou a viver uma fase de prosperidade econômica que durou vários anos e que lhe permitiu dedicar-se, até com certo desregramento, às atividades que mais lhe agradavam na vida: ler um bom livro e comer, beber, ouvir música e filosofar (falar merda, para ser claro) com seus mais velhos e encarniçados amigos.

         A transcrição desse excerto do ficcionista cubano me serve de mote para dizer que, na realidade, as pessoas não leem bons livros e filosofam tampouco. A maioria delas vive a comer, a beber e a ouvir música.
         Não posso perguntar que tipo de música mais se ouve em nosso país, qual a sua qualidade artística, ou que bem efetivo propicia a seus ouvintes, sob pena de receber comentários desaforados por intermédio das redes.
         Essa pergunta e tantas outras que povoam o meu, o nosso dia a dia, não são em vão, na medida em que vêm imediatamente antes de uma escolha, de um sim ou de um não. O pensar sobre as próprias escolhas, antes de fazê-las de uma forma inconsequente, significa filosofar (tão necessário à existencialidade humana).

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

FOGO PARA ILUMINAR


       O fogo foi descoberto por uma espécie anterior ao homo sapiens. Provavelmente, a nossa espécie foi obrigada a fazer a mesma descoberta em algum momento de sua evolução, para a própria sobrevivência. Numa ordem apenas imaginada para as funções múltiplas desse elemento natural, a de iluminar o ambiente se coloca em primeiro grau de importância.
         Ontem, ao visitar o museu da Colônia Witmarsum, no município de Palmeira (PR), chamou-me a atenção os tipos de lamparinas, lampiões e lanternas reunidos sobre um mesmo móvel. Os modelos vários aumentavam em simpleza e rusticidade assim que recuavam no tempo, talvez um século, um milênio talvez. Todos foram de uso cotidiano em épocas pretéritas, desde muito antes da eletricidade.
         A coleção me fez lembrar o candeeiro que fazíamos no Rincão dos Machado, cuja simplicidade era tanta que já caiu no esquecimento de seus usuários idosos. A luminária consistia numa mecha de pano retorcido, geralmente o resto de lençol de algodão, uma vasilha de lata ou alouçada (um prato inservível) e banha como combustível. Seu uso ocorria nas horas de escassez extrema, quando o querosene era produto de luxo.
         A Colônia Witmarsum, todavia, não conheceu o candeeiro rústico do rincão, ou seus moradores antigos não acharam conveniente transformá-lo em peça de museu.
         O advento da eletricidade decretou o fim de todas as luminárias, que diminuíam a escuridão de noites remotas em círculos concêntricos cada vez mais amplos – à medida que um modelo melhor era desenvolvido para conter e controlar o fogo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

NOTÍCIA TRISTE

A notícia da morte de Fábio Barcelos Paiva me deixou triste no dia de ontem. (Ainda que tardiamente, expresso meu sentimento de pesar à família enlutada.)
Penso o homem como um ser trágico, nem tanto porque está fadado a morrer um dia, mas principalmente porque sabe de sua morte inexorável e nada pode fazer para evitá-la.
A tragédia é maior, quando Moira se antecipa, no momento em que a pessoa menos a espera, distraída com as alegrias da vida.
Ao ler sobre o asfixiamento sofrido pelo Fábio no interior de um silo de soja, recordei-me de outros dois trabalhadores que morreram da mesma forma, nos silos da já extinta Cooperativa Tritícola Santiaguense (bairro Belizário). Salvo engano, foi no ano de 1978.
Como morava na rua Padre Artur, bem próximo dos silos, pude acompanhar o resgate dos dois corpos do interior da montanha de grãos (em que o secador criava um ponto de sucção).
Esses fatos trágicos deveriam servir de "start" para uma nova postura dos empregadores públicos ou privados, que tornasse prioridade a instrução, o conhecimento que previne o acidente.
O empregado precisa lidar com as máquinas depois de muito bem instruído, obviamente, mas necessita saber um pouco mais sobre si mesmo. As empresas dispõem de tempo e espaço para envolver seus "colaboradores" em atividades pensadas para esse fim.
A razão humana, mais que estar a serviço do capital, da produção de riqueza, tem a função de ampliar a vida em todas as suas dimensões, malgrado a finitude trágica que sabemos demarcá-la no tempo e no espaço.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

IMPOSIBLE NO LLORAR



A Argentina, imposible no llorar, passa por uma crise econômica, cujo precedente remonta à década de 1990. (Para a Carta Capital, todavia, o problema se deve ao governo de Mauricio Macri.) O atual presidente assumiu em dezembro de 2015, inicialmente a cortar os gastos públicos (uma herança dos doze anos kircheneristas). Em maio de 2016, quando estive em Buenos Aires, La Nación publicava que, depois de um arrocho tremendo, “la Casa Rosada decidió abrir la caja”. O ajuste fiscal não foi suficiente para assegurar a inflação e consequente desvalorização do dinheiro argentino, o que forçou o governo a pedir socorro ao FMI. O resultado desse fracasso em recuperar a economia é a volta quase certa de Cristina Kirchner (como vice). Buenos Aires, a cada ano que passa, perde um pouco de sua beleza e de sua altivez cultural. Imposible no llorar!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A RAZÃO: AQUÉM DE TODO DOMÍNIO


          A Revolução Francesa, ainda pensam os últimos idealistas, representou a primeira e grande oportunidade para instituir o reino da razão. O feito chancelaria uma nova idade histórica para o mundo ocidental, em que os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade tornar-se-iam realidade finalmente.
         Ressentimento, ódio e vingança foram sentimentos e atos que dominava o indivíduo envolvido na Revolução, cuja razão era incapaz de qualquer controle sobre ele. Em meio ao furor revolucionário, qualquer expressão de racionalidade (independentemente de sua amplitude) corria o risco de sofrer o corte inventado pelo doutor Guillotin.
         Confúcio ensinava que o homem, para pôr em ordem sua sociedade, deve pôr em ordem a si mesmo primeiramente. Esse sábio viveu há mais de dois milênios. Todas as revoluções, ao contrário, intentam uma transformação social de grande alcance sem mudar o indivíduo.
       Uma das poucas cabeças dominadas pela razão na França era sustentada por Antoine Lavoisier na época da Revolução. Por sua influência, a Academia de Ciência rejeitara um aparelho que detectava a emissão de ondas de calor, invenção apresentada por um médico nascido na Prússia. Seu nome era Jean-Paul Marat.
Marat jamais esqueceria essa recusa e, quando elevado pelo povo à condição de líder (ao lado de Danton e Robespierre), prendeu e decapitou Lavoisier.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANSIEDADE E GOZO


     ANSIEDADE E GOZO
(NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM)

       O conhecimento só se efetiva no momento em que uma tese é comprovada pelos fatos reais e vice-versa (quando a realidade observada permite depreender suas categorias como verdadeiras).
         As redes sociais já constituem, por excelência, o modo parecer, ao mesmo tempo em que geram mais ansiedade em seus usuários compulsivos. Estes se definem como hedonistas (por um lado), ou como ansiosos (por outro). Hedonistas ou ansiosos, todavia, não representam classes separadas de indivíduos, uma vez que trocam de posição, a depender das circunstâncias em que se encontram eles.
         O esforço de parecer bem no dia a dia, sob as imposições do lar, do trabalho, do estudo e da condição financeira, por exemplo, enfatiza um estado contrário, de anseio por uma casa melhor, por um emprego mais gratificante, por férias, por viagens, por escolhas novas etc. Os ansiosos veem o melhor acontecer com os outros. A ansiedade que os massacra cotidianamente se escancara na urgência da postagem salvadora, que consiste em ostentar hedonisticamente. Aeroportos (a partir do check-in de conexão no Facebook), edifícios majestosos, pratos especiais, praias paradisíacas, tudo identificado apenas com legendas do tipo “fui!”, “de boa!”, “lindo!” e “gratidão!”. Tais postagens justificam o parecer para poucos e retroalimentam a ansiedade para uma maioria de interlocutores (mergulhados na azáfama cotidiana até o pescoço).
         As redes sociais potencializam a ansiedade demorada e o gozo momentâneo, em vista da textualização de uma e de outro. A aparente superficialidade com que os atores da comunicação se interagem requer um estudo sério, que confira cientificidade ao que foi exposto acima.

domingo, 28 de julho de 2019

A VERDADE


O ESTADO SE MOBILIZA CONTRA 
OS TRAFICANTES DE DROGA.
A SOCIEDADE DEVERIA SE MOBILIZAR 
CONTRA O CONSUMO. 

sábado, 27 de julho de 2019

PROTÁGORAS: O MAIOR

     O filósofo da Antiguidade verdadeiramente grande foi Protágoras, malgrado a avalanche de críticas dirigida contra ele por todos os pensadores, que repercutem os antissofistas Sócrates e Platão.
      Em tempo pós-moderno, também caracterizado pelo relativismo, o nome de Protágoras é citado com frequência, como prova de que cada pessoa (e sua interpretação de seres, coisas e fenômenos) é depositária da verdade.
        Karl Popper me abriu os olhos para esse reducionismo histórico sobre o pensamento de Protágoras. O homo mensura – “o homem é a medida de todas as coisas” – não pode ser interpretado como se cada um, em separado, pudesse ser o detentor da verdade. Segundo Popper, não é só isso.
        A filosofia teve origem como uma proposta racional de acabar com o mito, com a deificação da natureza. Com exceção de Marx, Nietzsche, Freud e os neoateístas contemporâneos, os pensadores continuam a acreditar numa divindade, num absoluto de todas as medidas. Entre eles, Parmênides e Platão são radicais defensores de que só os deuses possuem conhecimento.
Não há relativismo no argumento de Protágoras, mas a especificação de que “o conhecimento humano deve ser tomado como nosso padrão”, uma vez que “nada sabemos sobre os deuses”. As ciências, por exemplo, constituem o corpus de conhecimento elaborado pela razão.
         Protágoras rompe com a fabulação anterior, que foi ab origine o grande propósito da filosofia, o de dar ao homem a autêntica e definitiva autonomia. 

quarta-feira, 24 de julho de 2019

ALMA DE POETA


A alma racional 
subsume 
(a sensitiva e) 

a vegetativa 
- alma da planta.
Alma completa
por outras almas
- alma de poeta.



(Na praça central de Santiago, Rio Grande do Sul, cada poeta ganhou uma árvore. A mim foi destinado um pinheiro, que ganha meu abraço toda vez que visito a Terra dos Poetas.)

terça-feira, 23 de julho de 2019

LIÇÃO INESQUECÍVEL



         A recomendação insistente dos pais de que o fogo queima não é levado a sério pela criança, pelo menos a ponto de evitar a primeira queimadura autoprovocada por ela. O conhecimento de mundo transmitido de uma forma teórica, discursiva, via de regra, apenas se efetiva com a experiência pessoal.
         Até os quatorze anos, cansei de ouvir dos adultos que era feio roubar, aliás, um dos dez mandamentos bíblicos já preceitua a moral correta “não roubarás”. Com a idade acima, roubei um cadeado grande, novo, amarelo como o ouro, que se encontrava aberto no portão lateral de uma casa momentaneamente vazia.
         Naquele ano de 1973, vendia doce para minha tia. A casa em que morávamos na Francisco Brandão distava meio quilômetro da zona do meretrício. Não ganhava troco algum por esse trabalho, uma vez que tinha obrigação para com os parentes que me hospedavam na cidade. Caso quisesse ir ao Cinema Imperial no domingo (para ver filme de faroeste), obrigava-me a vender garrafa nos botecos da Bento Gonçalves.
         A zona constituía o mercado certo para o pudim de pão que eu mal equilibrava numa bandeja de lata. No meio da tarde, as prostitutas me compravam toda a oferta, enquanto se embelezavam para outro comércio na próxima noite.
         No dia do roubo, a casa da Gringa arejava sozinha, não respondendo minhas palmas na porta da frente. Ao contorná-la pelo lado, eis que a ocasião se oferece ao menino do interior, dotado até então de um caráter impoluto.
Com certa dificuldade, guardei o objeto em meu bolso. Em casa, escondi-o dentro da malinha de papel, sob as roupas dobradas. Na verdade, roubara algo que não usaria certamente. Assim que retornei da escola no outro dia, um dos primos veio ao meu encontro com a pergunta avassaladora “Onde você escondeu o cadeado?”. O rubor tingiu meu rosto branquelo antes que balbuciasse qualquer coisa muito próxima da confissão. Ele disse mais: “A mulher está esperando por você, vai lá para devolver-lhe o cadeado”.
         De repente, o mundo ficou pequeno ante a vergonha que tomou conta de mim. Alguns riam, outros fechavam o cenho ao me verem naquela situação embaraçosa ao extremo. A saída menos desonrosa foi devolver o cadeado para sua dona.
         Trêmulo como uma vara verde, pedi-lhe desculpas. Em seguida, Gringa me dirigiu um sermão sobre não roubar mais, cujo conteúdo moral passou a constituir minha personalidade doravante. Ela flagrara minha ação reprovável de outra casa, e só não registrou um Boletim de Ocorrência por compaixão. Sua filha, disse-me ela, era minha colega de aula, onde talvez sofresse constrangimento ainda maior, a ponto de dar outro rumo à minha vida. Ela manteve a discrição. Uma pessoa que gostaria de reencontrá-la já velhinha nestes dias.
         A experiência foi como um fogo que me marcasse o ser para a vida toda. Nunca mais peguei às escondidas o que pertencesse aos outros. Com um comportamento assim orientado, desenvolvi uma ojeriza pelos ladrões contumazes, do assaltante à mão armada ao político corrupto e corruptor.

terça-feira, 16 de julho de 2019

UMBIGUISMO E ALTERIDADE

         Muitas pessoas são analfabetas, outras tantas são alfabetizadas apenas e desistem dos estudos regulares, (via de regra) forçadas pela necessidade de sobreviver economicamente. Elas correm entre a casa e o trabalho, entre o trabalho e a casa, entre a casa e o lugar de diversão...
         No início da Alegoria da Caverna, Sócrates (o alterego de Platão) pede para seu interlocutor imaginar “a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância”. Dentro de uma morada subterrânea, às sombras, viveriam os homens ignorantes. Libertos da caverna, à luz do Sol, desfrutariam os sábios e virtuosos. A dicotomia platônica representa dois mundos: o sensível e o inteligível.
         A maioria referida no primeiro parágrafo, segundo a alegoria de Platão, tomaria a ilusão como real. Ela não teria consciência da ideia do bem, por exemplo, ou num sentido moderno, mal saberia o que é alteridade.
         Ao rodar pela cidade, encontramos operários na construção, balconistas na loja, catadores de papel, entre outros trabalhadores, cuja renda é limitada pela falta de instrução. Sem noção do próprio limite, essas pessoas até se sentem felizes – sentimento que constitui uma impossibilidade para outras com empregos melhores.
         Na hipótese de um meteoro estiver em rota de colisão com a Terra, a colocar em risco a vida humana, os moradores no “subterrâneo” nada saberiam até o momento do impacto. Mesmo que ouvissem alguma notícia pelos meios de comunicação, talvez caíssem de joelhos, dobrados pela crença num castigo dos céus. Uma minoria, no entanto, ocupar-se-ia com a empresa de desviar o meteoro (de posse de uma tecnologia desenvolvida por ela).

         A possibilidade de salvar a humanidade no caso acima passa pelo saber, cujo impulso “é forte demais para que ainda sejamos capazes de estimar uma felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma ilusão firme” – no dizer de Nietzsche. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

BRASIL POP


BRASIL POP

         A cultura musical predominante no Brasil é popular. Para ser bem-sucedido, o artista vai aonde o povo está. O senso comum, por sua maioria açambarcante, determina o que roda nas mídias. No último mês, a canção mais ouvida no Brasil é Todo mundo vai sofrer, da funkeira Marília Mendonça.
         Até há cinco minutos, não ouvira essa artista popular, nem por descuido ao zapear no rádio e da televisão, ou acessar algumas plataformas digitais.
         A letra de Todo mundo vai sofrer é paupérrima, de uma simplicidade piegas, muito semelhante a tudo o que viceja midiaticamente no país. O Google me apresenta o poema seguinte:

A garrafa precisa do copo
O copo precisa da mesa
A mesa precisa de mim
E eu preciso da cerveja

Igual eu preciso dele na minha vida
Mas quanto mais eu vou atrás
Mais ele pisa
Então já que é assim
Se por ele eu sofro sem pausa
Quem quiser me amar
Também vai sofrer nessa bagaça

Quem eu quero não me quer
Quem me quer não vou querer
Ninguém vai sofrer sozinho
Todo mundo vai sofrer

         Pelo viés gramatical, o texto é verborrágico (notadamente o refrão), ao gosto dos usuários da língua inculta. Pelo viés poético, não há ritmo algum; exceto a personificação da garrafa, do copo e da mesa, nenhuma figura de linguagem.
          Uma análise do conteúdo, melhor do que a forma, demonstra a pobreza que caracteriza a música popular brasileira. O tema não poderia ser mais adequado: o sentimento de quem foi traído ou deseja algo que não pode ser seu, reconhecido pela expressão chula “dor de corno”. A novidade pouco romântica, de que “ninguém vai sofrer sozinho/ todo mundo vai sofrer”, lava a alma do desprezado, conquista a galera e salva a produção artística.
         Uma pessoa dotada de caráter nobre, com o mínimo de amor próprio, não corre atrás de quem a despreza, tampouco se vinga em inocente (ao arrastá-lo para infortúnio semelhante). O eu-lírico revela uma fraqueza diametralmente oposta a qualquer sucesso na empresa de controlar o próprio querer, a própria vontade.
         A predominância do pop no Brasil ocorre pela falta de uma cultura mais refinada, impedida de se desenvolver por (des)razões várias, como o analfabetismo, a política, o mercado...   

AZULÍSSIMA E FRIA


O Bom Retiro pranteia a morte de uma pessoa muito estimada pela comunidade. A igreja se torna pequena para abrigar todos os presentes ao rito cristão da despedida. O sino bate repetidamente três vezes, enquanto a tarde cai azulíssima e fria.
         Durante o velório, uma hora atrás, deixei o salão e fui ao cemitério. (Não sei explicar este gosto de visita-lo sem a presença dos vivos.) O vento farfalhava as árvores debruçadas sobre o muro tomado de limo, para quebrar a mudez sepulcral que envolvia túmulos e vias de pedra grês. Outra vez, vi todas as fotos em sépia dos falecidos nos últimos setenta anos (desde a construção do cemitério). Mais que ver, li o nome e as datas de início e fim da vida de cada um.
         O primeiro ato de minhas reflexões, entre um sepulcro e outro, resumia-se a recordar como eram as pessoas ali fotografas em seu tempo. Caso não as tivesse conhecido, num segundo ato, pensar no que fizeram em vida, na causa de morrerem mais cedo (algumas) Mesmo não as conhecendo outrora, num terceiro ato, concluir que os dados biográficos (impressos na louça) são um ponto em que se apoia a lembrança de seus parentes. Fotos e datas constituem agora o único registro contra o esquecimento inexorável.
         No fim da avenida central (que começa no portão de entrada), encontro o túmulo de alguém que me é muito especial. Nesse momento, a racionalidade cede lugar à emoção, o filósofo volta a ser gente sensível, e meus olhos manam uma dor que persiste depois de treze anos. As rosas artificiais me parecem demasiadamente tristes para enfeitar o nicho com a foto da minha mãe. Ela gostava tanto de flores naturais.
         O cortejo deixa a igreja, segue pela estrada a rezar o Terço. O cemitério o espera com o portão aberto. O vento continua a violar o silêncio da tarde – azulíssima e fria.

DUELO NA MADRUGADA


DUELO NA MADRUGADA
(uma fábula pós-moderna)


         Os automóveis percorrem a avenida lado a lado, palavras provocativas se batem no espaço entre as duas janelas abertas. O calor daqueles que as emitem aquece as armas coladas ao corpo dos homens. Meio quilômetro à frente, os carros param no meio da pista.
Uma faca de lâmina comprida desce na mão do primeiro homem. O revólver continua na cintura, louco para ser empunhado firmemente pelo segundo homem. Impetuosa, emocional, ela avança decidida a cortar sem a perícia necessária. O talho atinge o braço esquerdo e o abdômen. Não há distância suficiente para perfurar mortalmente, tampouco o permite o tempo. O revólver reage com eficiência precisa: um, dois e três disparos a queima-roupa.
O Trinta-e-Oito ainda fumega dentro da madrugada fria, seguro por uma mão que vacila entre a raiva e a dor. Ele reconhece que não observou o código de honra dos duelos antigos, quando havia paridade de armas. Por isso, a demora a entrar em ação, já a caracterizar legítima defesa.
A faca repica no asfalto e se acomoda em seu nicho intocável. Logo será clicada por jornalistas e blogueiros, vista como um símbolo de sangue, de assassinato.  Seu aço branco reflete a primeira claridade da manhã.
Após presenciar o duelo, um carro foge avenida afora, e o outro se dirige ao hospital (seu condutor está cortado no braço e abdômen). Eles foram cúmplices ao pararem em plena pista de rolamento, como a demarcar a arena para o combate entre as duas armas.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

RINCÃO DOS MACHADO: UM CADINHO DO MUNDO


          Os últimos cem anos registram uma transformação social, econômica e cultural no Rincão dos Machado, que servem como amostra de aspectos comuns à evolução de toda a história humana. Sem reduzir o universal à minha aldeia (como o sugeriu Leon Tolstoi), esclareço a sentença acima com a referência de quem esteve presente no torvelinho de algumas mudanças.

         Há um século, o rincão não passava de um espaço devoluto, fundo de uma fazenda gigantesca, onde o gado vivia como bicho bravio. Uma relação escassa de artifícios, como um forno de pedra, um palanque de cerne de angico, uma taipa na restinga e pouco mais, atesta a presença de dois ou três moradores antigos. Mais conhecidos do Epa(minondas), eles pertenceram a uma época anterior. Dessa forma, a chegada de Firmino Machado, à frente de sua família numerosa, demarca o início da ocupação efetiva do rincão – feito que se repete desde as primeiras comunidades agrícolas.
         O vínculo consanguíneo fortaleceu a unidade moral do clã dos Machado, cuja autoridade maior era Firmino, pai, avô, bisavô, irmão, cunhado, tio, ascendente de quem estabeleceu novas famílias na localidade. Todos o respeitavam sem a necessidade de sua palavra resoluta, nunca opressora. Esse sistema social também remonta às comunidades primitivas, que dependiam de deveres (e valores) para sobrepor-se aos excessos pulsionais de seus integrantes mais jovens.
         O vô Firmino trabalhava muito, como o exigia todo pioneirismo fundador. O domingo, todavia, ele reservava ao descanso, quando mais se cansava atrás de veado em suas terras e no outro lado do rio. A propósito, esse instinto de caçador obedecia ao gene moldado evolutivamente ao longo do Paleolítico. Alguns anos depois de sua morte, o Rincão dos Cervos ganhou a denominação toponímica hoje conhecida: Rincão dos Machado.
         As casas no rincão eram construídas com a madeira tirada no mato nativo, que cobria encostas e várzeas à beira do Rosário. Os alimentos postos à mesa resultavam do trabalho duríssimo de todos por meses a fio, com o preparo da roça, plantio, limpeza e colheita. A tecnologia disponível em pouco se distinguia da empregada por agricultores sumérios: foice, arado pula-toco, cavadeira, enxada, braço, sangue e suor. Entre o Tigre e o Eufrates, produzia-se com a ajuda da água (trazida por um sistema de irrigação); no rincão, necessitava-se do fogo (controlado por aceiros).
         O trigo representava a base da agricultura: uma parte atendia ao consumo de subsistência, e a outra excedente transformava-se em moeda de troca. Mais tarde, a planta passou a cair de rendimento, o que forçou a sua substituição pela soja. Logo o mercado mundial fez desse feijão exótico (no rincão) uma commodity. O trator tomou o lugar dos bois de canga. O campo limpo, antes exclusivo para a criação, fez-se lavoura. A produção quintuplicou, para o regozijo de todos. Acertadamente, o rincão não abandonou o plantio do feijão tradicional, do milho, da mandioca, de frutas e verduras diversas.
         A tecnificação agrícola e a eletricidade (que chegou tardiamente em meados dos anos oitenta) são responsáveis pela nova fisionomia do rincão, a arrancá-lo do estágio agrário em que foi gestado social, econômica e culturalmente. Ele ainda passa por um processo de urbanização, de globalização, malgrado o número reduzido de habitantes. Alguns Machado, que foram embora antes dessa transformação radical, hoje recordam o rincão perdido no tempo, paraíso bárbaro da infância.
As mudanças ocorrem num fluxo que se acelera continuamente. Depois da sua revolução industrial, o rincão passa a se conectar com a Internet. Nos próximos cem anos, tudo poderá acontecer de uma forma casual ou determinada, como o despovoamento humano, acerca do qual o rincão também representa uma amostra. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

CORPO E ALMA


ERRO MILENAR

         O mundo em que vivemos é o melhor dos mundos possíveis, não obstante o esforço humano de torná-lo o pior dos mundos possíveis. A esse pensar e fazer o pior dos mundos possíveis, que ninguém antes de Nietzsche percebeu tratar-se do verdadeiro niilismo, inclui-se a divisão entre corpo e alma.
         Na Antiguidade, em torno de dois milênios e meio antes do presente, Platão filosofava sobre a existência e a imortalidade da alma – inteligível, perfeita e divina. O corpo, ao contrário, não passava de um “acidente exterior”, que deveria ser adequado por intermédio da ginástica a hospedar sua antípoda ilustre. A aproximação entre ambos era provisória. Uma vez que o corpo pertencia ao sensível, uma sombra no fundo da caverna. Platão instaura o dualismo.
         Na Idade Média, o corpo foi desprezado, flagelado e, com a Inquisição, queimado em praça pública pela Igreja Católica. Grande obstáculo para a vida ascética, o corpo era tido como a prova material do pecado. A alma que não aprendesse a dominá-lo arderia eternamente no inferno. A dualidade criada por Platão ganhou uma interpretação mística no neoplatonismo e se consagra como dogma nas religiões cristãs.
         A modernidade começa com Descartes ao propor um método seguro para conhecer a verdade: a dúvida. O filósofo racionalista começa bem, como um pirrônico tardio. Todavia, ele logo chega à primeira certeza, o “cogito ergo sum” (“penso, logo existo”). A partir da constatação indubitável do eu pensante, a racionalidade conclui que o pensamento não necessita de uma extensão no espaço, de uma experiência sensorial, de um corpo. Nesse aspecto, há um retrocesso a Platão. Corpo e alma são substâncias diferentes, sem relação uma com a outra (exceto pela mediação da glândula pineal). O corpo é uma máquina, que se desgasta e chega ao fim. A alma é imortal.
         Na contemporaneidade, o corpo começa a recuperar sua importância perdida com o discurso de Zaratustra de Nietzsche: “Corpo sou eu inteiramente, e nada mais; e a alma é apenas uma palavra para um algo do corpo”. A crítica nietzschiana à fé e à razão ao mesmo tempo vem ao encontro do processo secular, que está em curso com o propósito de assegurar um mínimo de sensatez à civilização ocidental.
         A separação entre corpo e alma criou um desajuste com consequências duradouras para a saúde do homem. O corpo, por sua vulnerabilidade natural aos males, foi desde cedo estudado pelas ciências médicas. Muitas doenças foram evitadas ou curadas, e muitos órgãos foram operados ou transplantados, a propiciar uma vida mais longa, com maior qualidade. A alma era imortal, acreditava-se desde dois milênios e meio antes do presente. Essa crença justifica de uma forma indireta o surgimento de algumas doenças, como a ansiedade e a depressão.
         O corpo e a alma se amalgamam em tempo pós-moderno, quando necessitamos repensar este mundo e refazê-lo o melhor dos mundos possíveis. Talvez ainda não seja tarde para uma realização tão extraordinária.

REMEMBER


NATUREZA, ARTIFÍCIO E UM SENTIMENTO


         A tecnologia exerce uma atração em mim desde a infância, quando vivia cercado pela natureza excedente do rincão. Toda vez que o ronco de um motor cortava o silêncio da manhã, eu saía para fora na expectativa de ver algo diferente. Eufórico, gritava para as irmãs me ajudarem a identificar o monomotor a cruzar a abóboda azul.
         Aos onze anos, conheci a cidade no outro lado do horizonte. O mundo se ampliava para além das linhas alcançadas pelos meus olhos carentes de lonjuras. Em meio a tanto barulho, movimento e reflexo, de repente me vi desorientado num âmbito completamente outro.
         No segundo dia, um avião cruzou o céu muito próximo da casa em que estava hospedado no Alto da Boa Vista. Ao vê-lo tão baixo, corri na direção em que ele sumia por detrás dos eucaliptos. Sem me dar conta, atravessei uma colina (hoje completamente urbanizada), passei por duas ou três cercas de arame, até enterrar minha botinas na lama de um açude grande que desbordava inutilmente.
         Em meu retorno, fui recepcionado por uma turma que se formara logo depois de alguém me ver correndo na direção do aeroporto. Não entendi a zombaria toda, a assimilar o riso sem o rubor que acompanha o momento da humilhação. Ainda tinha a ingenuidade de uma criança, de uma criança nascida e criada no interior antes da eletricidade, do rádio e da televisão.
         Em Curitiba, há dois aeroportos: Afonso Pena (para voos internacionais) e Bacacheri (para aviões de pequeno porte). Todas as noites, ouço e vejo as aeronaves passarem muito próximas do prédio em que estudo filosofia, no centro da Capital. Todos os dias, ouço e vejo jatinhos e monomotores a cavaleiro do meu bairro. Ainda sou tomado pelo prazer de ouvir o ronco dos motores desses aviões grandes e pequenos, de vê-los suspensos no ar como por milagre.
         O rincão me trazia dentro naqueles anos distantes. À medida que passei a conhecer o mundo, ele foi se apequenando em sua dimensão geocultural. Hoje está protegido dentro de mim, virou um sentimento.  

sexta-feira, 7 de junho de 2019

EXTINÇÃO DE MASSA


EXTINÇÃO EM MASSA: O HOMEM
NÃO ESCAPARÁ DA PRÓXIMA


As pessoas precisam aprender a olhar para a vida como unidade de conteúdo, malgrado a diversidade das formas.
Froilam de Oliveira

         A última do feed de noticias: “De acordo com um relatório do Breakthrougt National Center for Climate Restoration, a civilização humana pode ser devastada até 2050. Calor infernal e colapso de ecossistemas inteiros”.
         O alarme com o acúmulo de Dióxido de Carbono (CO2) na atmosfera da Terra procede de uma lembrança impregnada no DNA da vida. No final do Período Permiano (Era Paleozoica), houve a maior extinção em massa já existente no planeta. Não fosse os 10% das espécies que sobreviveram, a vida teria sido completamente exterminada.
         O que aconteceu por volta de 252 milhões de anos atrás?
         A geologia é leitura confiável, bem como a paleontologia. Com base nessas ciências, começo falando sobre a relação nem sempre harmoniosa entre a crosta e o manto terrestre (sob nossos pés). O manto é a camada mais extensa do globo, localizada logo abaixo da crosta, a parte endurecida de 0 a 40 km de espessura. A alta pressão e temperatura impedem que o manto se solidifique, constituindo-se numa “geleca extraviscosa”1. No interior do manto, há correntes de lava que se deslocam de um lado para outro, para cima e para baixo, rios loucos e violentos (não necessariamente nessa ordem).
         No final do Permiano, as lavas irromperam na região da Sibéria. Não existiam vulcões como os conhecemos hoje, em forma de cone no alto das montanhas. Eles eram aberturas no chão, com quilômetros de extensão, que expeliam o material vindo de baixo por anos, décadas e séculos. A lava representava um perigo evitável pelo simples afastamento, mas o calor e os gases tóxicos afetavam quase todo o planeta.
         O CO2 expelido pelas erupções siberianas causou um efeito estufa de grandes proporções, queimando a vida mais sensível, a começar pelos grandes anfíbios e répteis. Cerca de 90% das espécies foram extintas. Um efeito mais devastador que a extinção ocorrida no final do Cretáceo, há 66 milhões de anos, quando os dinossauros foram exterminados quase que abruptamente.
         O homem potencializa a emissão de CO2, somando-se aos outros emissores naturais. Todavia, ele o é de uma forma consciente, sabe que suas ações são escatológicas, levam ao fim da própria espécie. Isso vai acontecer certamente, mais cedo ou mais tarde do que profetizam os catastrofistas.
         A lembrança das antigas extinções em massa (em número de cinco) não foi de todo apagada da memória celular da vida. Graças à evolução da consciência, o homem é o único que sabe antecipadamente sobre sua própria extinção futura. Isso não é um privilégio, senão um motivo de assombro e de angústia.

1.  Assim se expressa Steve Brusatte em Ascensão e queda dos dinossauros (2019, p. 21).

segunda-feira, 3 de junho de 2019

PRIMEIRA CRÔNICA AO POETA (IN MEMORIAM)

ORACY DORNELLES


         Oracy Dornelles faleceu domingo, no começo do mês em que completaria 89 anos de idade. O poeta tinha uma existência mais longa, como ele mesmo dizia em tom de pilhéria. Inicialmente, parnasiano (com o rigor formal de seus versos); simbolista (com o caráter pessoal, idiossincrásico); modernista (com a exploração dos aspectos fônicos, morfológicos, sintáticos e semânticos das palavras e frases); e, por último, flertou com a tecnologia digital (a produzir “infopoemas”).
         Nossa amizade se iniciou no ano de 1983, quando o encontrava na sala de Arquivo da Prefeitura, nos bancos da Praça Moysés Vianna, ou na sua casa pintada de sol. O Oracy lia seus poemas mais recentes para mim, com ênfase nos recursos literários. Um tanto receoso, mostrava-lhe os meus. Toda vez honestíssimo nas avaliações, ele me apontava os erros e acertos: ruim, bom ou espetacular. Graças à compreensão de suas críticas, sem melindre ou empáfia, tornei-me poeta de fato.
         Na Universidade, escolhi a magnus opus oracyana, para escrever o artigo científico Intertextualidade nos cantares ares de Oracy Dornelles. O texto foi incluído no livro O que importa em Oracy, publicado em 2003 com Fátima Friedriczewski e Júlio Prates. A alusão indireta a outros textos nos poemas do Oracy exige do leitor conhecimento de mitologia (egípcia, judaica, grega e moderna), história, filosofia, arte, metalinguística etc.
         Desde Ponteiros de palavra, venho fazendo referência a Oracy, com a admiração própria de um influenciado verdadeiro. Um desses tributos consiste no soneto monossilábico Ora: ora/ só/ ora/ com// ora/ cor/ ora/ som// ora/ céu/ ora// ser/ ora/ cy. Sempre me fiz presente nas várias ocasiões em que a Prefeitura, o Centro Cultural e a Casa do Poeta renderam homenagens ao poeta em vida.
         Na Santiago que conheci há mais tempo, havia um poeta só. Ele vinha e ia por uma via de pó, pedra e poesia. Esse poeta era Oracy Dornelles, a vir e ir pela Duque de Caxias. A propósito, a Rua dos Poetas deverá homenageá-lo com uma estátua monumental – a destacar sua cabeleira (encimada por uma boina), seu paletó, seu livro na mão, seus passos seguidos pelos cachorros fiéis.