segunda-feira, 23 de setembro de 2019

EIS A PRIMAVERA


I
         O homem emergiu da natureza por intermédio da cultura, que consiste em todas as crenças, ideias, linguagens, costumes, artes, instituições, tecnologias etc. Desde a primeira ferramenta (feita de pedra ou madeira), ele passou a ser humano. O processo foi demorado e difícil no começo, de completa dependência do meio natural, onde nossos ancestrais coletavam e caçavam para a sobrevivência. Com a descoberta e implementação da agricultura, avançamos para outro estágio, de exploração da natureza. O próprio termo “cultura” se origina do latim “colere”, que significa “cultivar plantas”. A demanda por recursos naturais se acelerou desde as comunidades agrícolas à era industrial, quando o poder extrativista ganhou maioridade, iniciando-se uma corrida de exploração econômica e de destruição ambiental.

II
         O fato de o homem se tornar independente da natureza traz algumas consequências negativas para a vida (de ambos), que hoje se sabe comparáveis ao suicídio. Esse saber, todavia, não foi assimilado pela humanidade, que potencializa sua capacidade destrutiva ao se organizar em estados nacionais (cujo maior objetivo e aumentar continuamente o PIB.

III
         Antes que a morte chegue a Terra, ainda é possível aprender sobre sua capacidade de renovação (ou regeneração) a partir da posição em que se encontra na órbita translacional. Com a maior ou menor distância do Sol, ela esfria abaixo de 0ºC ou esquenta acima de 50ºC. Entre inverno e verão, duas estações representam um equilíbrio: primavera e outono.

IV
         Hoje é chegada a primavera no hemisfério sul. Os campos ainda se tornam verdes, as matas se cobrem de flores, os pássaros cantam... No hemisfério norte, o outono chega tão agradável em sua cor e doura.

V
         O processo de aculturação nos afastou da natureza, tornando-nos incapazes de usufruí-la de uma forma harmônica. Na cultura moderna, pós-industrial, perdemos a capacidade de nos renovar ciclicamente, não mais experimentamos uma primavera em nossos espíritos (quase sempre enfastiado pela mesmice). Toda passagem de ano nos ilude com uma mudança, quando fazemos festa, mas, outra vez, a realidade nos apreende em seguida.

VI
         O retorno à natureza é materialmente impossível, na medida em que já foi ultrapassada a área de sua intersecção com a cultura humana. Felizmente, não é tarde para buscarmos uma reaproximação espiritual com ela. Nestes dias, temos mais uma oportunidade de nos permitir um rejuvenescimento com flores, borboletas, pássaros, manhãs azuis...

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

PERCEPÇÃO E CURA


        Um critério irrefutável de normalidade é a pessoa buscar o prazer e evitar a dor. Freud denominou essa tendência de Princípio do Prazer (ou Princípio da Realidade, quando se considera o mundo exterior).
    O sofrimento psíquico parece ter como um de seus sintomas o não querer se livrar dele. O indivíduo se afasta dos demais membros de sua família, de seu círculo de amigos ou colegas de trabalho, enfim, dos ambientes sociais a que pertence obrigatoriamente. A causa da doença não mais denuncia um problema exógeno, como pensa muita gente grande, mas reporta ao interior do próprio indivíduo.
         Destarte, o que é anormal no depressivo, por exemplo?
         Em primeiro lugar, a inverter a ordem acima, constitui a forma como o indivíduo reage às injunções de seu entorno social e, em segundo, a ocultação do desastre instaurado em sua psique.
         A percepção da doença, o que é paradoxal, ocorre pelos outros que circundam o universo singular do depressivo. Tal percepção, em muitos casos conhecidos, representa a parte inicial e indispensável para o processo da cura. Nesse aspecto, reescreve-se o bordão foucaultiano, “vigiar e punir”, para “perceber e curar”.
         O indivíduo com o problema psíquico tem que despertar da letargia, do solipsismo em que vive (via de regra). Ele necessita desejar visceralmente não querer o sofrimento – antes que a patologia evolua para pior.

domingo, 15 de setembro de 2019

A FALÁCIA DO RELATIVISMO


      Alguns psicólogos, no afã de ampliar ad infinitum o campo de sua atuação, asseguram-nos que os conceitos de normal e patológico são “extremamente relativos” (BOCK, 2008).
Os vieses culturais, por mais diferentes que se apresentam entre duas sociedades, entre dois povos, não permitem a avaliação pelo relativismo extremo. Obviamente, esses estudiosos tomam uns poucos exemplos como referência de suas generalizações apressadas.
A essa falácia pseudocientífica se juntam antropólogos e sociólogos.
HARRIS (2013) cita um caso de relativismo:

Se descobríssemos uma nova tribo na Amazônia amanhã, nenhum cientista assumiria a priori que essas pessoas teriam saúde física e prosperidade material excelentes. O que faríamos seria averiguar a expectativa de vida da tribo, sua ingestão diária de calorias, a porcentagem de mulheres mortas no parto, a prevalência de doenças infecciosas, a presença de cultura material etc. Tais questões teriam respostas, e elas provavelmente revelariam que viver na Idade da Pedra exige alguns sacrifícios. Porém, notícias de que esse bom povo gosta de imolar seus primogênitos para deuses imaginários fariam alguns antropólogos (talvez a maioria deles) dizerem que essa tribo possui um código moral alternativo, tão válido e irrefutável quanto o nosso.

O filósofo e neurocientista contemporiza que “alguns antropólogos têm se recusado a seguir seus colegas nesse princípio intelectual”.
O exemplo de uma tribo da Amazônia é extremo, uma exceção para o grande número de sociedades que habitam o planeta nestes dias e que se assemelham no espectro de suas culturas. Toda diversidade é pouco para ignorar as similitudes. Afinal, trata-se do mesmo homo sapiens.

BOCK, Ana Mercês Bahia. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia / Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado, Maria de Lourdes Trassi Teixeira. – 14ª edição – São Paulo: Saraiva, 2008, p. 348.

HARRIS, Sam. A paisagem moral: Como a Ciência pode determinar os valores humanos / Sam Harris; tradução Claudio Angelo. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2013, pp. 26 e 27.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

DIA 31 DE AGOSTO


        O dia 31 de agosto não constava no Calendário Juliano, criado pelo ditador Júlio César no ano 46 a. C. Os senadores da República decidiram fazer uma homenagem ao político com o nome de um mês. Quintilis ganhou a nova denominação de Julius.
O início do ano mudara antes, de 1º de março para 1º de janeiro. Dessa forma, o mês quinto passou a ser o sétimo.
Esse descompasso linguístico persiste até hoje, demonstrável nos radicais (que sofreram metaplasmo ou não) de setembro, outubro, novembro e dezembro. Antes da mudança do primeiro do ano de março para janeiro, esses meses representavam sétimo, oitavo, noveno e décimo na sequência dos ordinais.



       Quatro décadas mais tarde, o imperador César Augusto exigiu uma homenagem semelhante à atribuída a Júlio César. Condição imposta: o mês dedicado a ele seria subsequente a Julius, com o mesmo número de dias.
A solução mais simples foi emprestar um dia de um mês anterior e somar aos trinta dias de Sextilis, que passou à denominação de Augustus.
O Senado Romano fazia alguma coisa mais que festas e tramoias: puxava o saco de quem mandava de fato na república ou no império.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

INDIVIDUALISMO E DOENÇA


        O homem é um animal social, isso se sabe desde antes de Aristóteles dizer algo nesse sentido. Para ser mais preciso, desde antes do que se convencionou denominar “civilização”, o homo sapiens evoluiu graças à capacidade de se organizar em grupos cada vez maior. A propósito, a civilização pode ter alterado a natureza humana a ponto de não constituir um exagero nietzschiano responsabilizá-la por uma degeneração (que mina suas bases).
         O tecido social não oculta mais seus pontos de fragilidade, de ruptura, onde as células do mal se desenvolvem por “geração espontânea”. Certamente, o homem primitivo não trazia em seu pool genético qualquer propensão ao individualismo radical bastante observado nestes dias.
         A tendência ao solipsismo é incontornável. As pessoas passam a se isolar em apartamentos (cujo significado é separação, afastamento). Mesmo conectadas na grande rede de computadores, elas são cada vez mais individualistas – e solitárias.  Nesse estado, ou internalizam os efeitos do isolamento, como solidão, depressão, loucura e morte, ou os exterioriza em palavras e gestos antissociais, como maledicência, espezinhamento (troll), violência e morte.
         Sigmund Freud escreveu em O futuro de uma ilusão (ensaio magnífico) que “todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização”, que esta “tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto”. O problema (que se agiganta na pós-modernidade) consiste no contrário: os indivíduos não abrem mão de seus instintos e pulsões, que são racionalizados como a própria vontade, o próprio Eu.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

FILOSOFAR


A filosofia sofre a pecha de ser uma atividade intelectual sem resultados positivos, para não dizer inútil de cara. Essa visão do senso comum prepondera na Academia, ainda dominada pelo conhecimento técnico e científico.
         Em seu último romance, Hereges (p. 24), Leonardo Padura assim descreve o personagem Mario Conde:

Conde começou a viver uma fase de prosperidade econômica que durou vários anos e que lhe permitiu dedicar-se, até com certo desregramento, às atividades que mais lhe agradavam na vida: ler um bom livro e comer, beber, ouvir música e filosofar (falar merda, para ser claro) com seus mais velhos e encarniçados amigos.

         A transcrição desse excerto do ficcionista cubano me serve de mote para dizer que, na realidade, as pessoas não leem bons livros e filosofam tampouco. A maioria delas vive a comer, a beber e a ouvir música.
         Não posso perguntar que tipo de música mais se ouve em nosso país, qual a sua qualidade artística, ou que bem efetivo propicia a seus ouvintes, sob pena de receber comentários desaforados por intermédio das redes.
         Essa pergunta e tantas outras que povoam o meu, o nosso dia a dia, não são em vão, na medida em que vêm imediatamente antes de uma escolha, de um sim ou de um não. O pensar sobre as próprias escolhas, antes de fazê-las de uma forma inconsequente, significa filosofar (tão necessário à existencialidade humana).

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

FOGO PARA ILUMINAR


       O fogo foi descoberto por uma espécie anterior ao homo sapiens. Provavelmente, a nossa espécie foi obrigada a fazer a mesma descoberta em algum momento de sua evolução, para a própria sobrevivência. Numa ordem apenas imaginada para as funções múltiplas desse elemento natural, a de iluminar o ambiente se coloca em primeiro grau de importância.
         Ontem, ao visitar o museu da Colônia Witmarsum, no município de Palmeira (PR), chamou-me a atenção os tipos de lamparinas, lampiões e lanternas reunidos sobre um mesmo móvel. Os modelos vários aumentavam em simpleza e rusticidade assim que recuavam no tempo, talvez um século, um milênio talvez. Todos foram de uso cotidiano em épocas pretéritas, desde muito antes da eletricidade.
         A coleção me fez lembrar o candeeiro que fazíamos no Rincão dos Machado, cuja simplicidade era tanta que já caiu no esquecimento de seus usuários idosos. A luminária consistia numa mecha de pano retorcido, geralmente o resto de lençol de algodão, uma vasilha de lata ou alouçada (um prato inservível) e banha como combustível. Seu uso ocorria nas horas de escassez extrema, quando o querosene era produto de luxo.
         A Colônia Witmarsum, todavia, não conheceu o candeeiro rústico do rincão, ou seus moradores antigos não acharam conveniente transformá-lo em peça de museu.
         O advento da eletricidade decretou o fim de todas as luminárias, que diminuíam a escuridão de noites remotas em círculos concêntricos cada vez mais amplos – à medida que um modelo melhor era desenvolvido para conter e controlar o fogo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

NOTÍCIA TRISTE

A notícia da morte de Fábio Barcelos Paiva me deixou triste no dia de ontem. (Ainda que tardiamente, expresso meu sentimento de pesar à família enlutada.)
Penso o homem como um ser trágico, nem tanto porque está fadado a morrer um dia, mas principalmente porque sabe de sua morte inexorável e nada pode fazer para evitá-la.
A tragédia é maior, quando Moira se antecipa, no momento em que a pessoa menos a espera, distraída com as alegrias da vida.
Ao ler sobre o asfixiamento sofrido pelo Fábio no interior de um silo de soja, recordei-me de outros dois trabalhadores que morreram da mesma forma, nos silos da já extinta Cooperativa Tritícola Santiaguense (bairro Belizário). Salvo engano, foi no ano de 1978.
Como morava na rua Padre Artur, bem próximo dos silos, pude acompanhar o resgate dos dois corpos do interior da montanha de grãos (em que o secador criava um ponto de sucção).
Esses fatos trágicos deveriam servir de "start" para uma nova postura dos empregadores públicos ou privados, que tornasse prioridade a instrução, o conhecimento que previne o acidente.
O empregado precisa lidar com as máquinas depois de muito bem instruído, obviamente, mas necessita saber um pouco mais sobre si mesmo. As empresas dispõem de tempo e espaço para envolver seus "colaboradores" em atividades pensadas para esse fim.
A razão humana, mais que estar a serviço do capital, da produção de riqueza, tem a função de ampliar a vida em todas as suas dimensões, malgrado a finitude trágica que sabemos demarcá-la no tempo e no espaço.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

IMPOSIBLE NO LLORAR



A Argentina, imposible no llorar, passa por uma crise econômica, cujo precedente remonta à década de 1990. (Para a Carta Capital, todavia, o problema se deve ao governo de Mauricio Macri.) O atual presidente assumiu em dezembro de 2015, inicialmente a cortar os gastos públicos (uma herança dos doze anos kircheneristas). Em maio de 2016, quando estive em Buenos Aires, La Nación publicava que, depois de um arrocho tremendo, “la Casa Rosada decidió abrir la caja”. O ajuste fiscal não foi suficiente para assegurar a inflação e consequente desvalorização do dinheiro argentino, o que forçou o governo a pedir socorro ao FMI. O resultado desse fracasso em recuperar a economia é a volta quase certa de Cristina Kirchner (como vice). Buenos Aires, a cada ano que passa, perde um pouco de sua beleza e de sua altivez cultural. Imposible no llorar!

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A RAZÃO: AQUÉM DE TODO DOMÍNIO


          A Revolução Francesa, ainda pensam os últimos idealistas, representou a primeira e grande oportunidade para instituir o reino da razão. O feito chancelaria uma nova idade histórica para o mundo ocidental, em que os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade tornar-se-iam realidade finalmente.
         Ressentimento, ódio e vingança foram sentimentos e atos que dominava o indivíduo envolvido na Revolução, cuja razão era incapaz de qualquer controle sobre ele. Em meio ao furor revolucionário, qualquer expressão de racionalidade (independentemente de sua amplitude) corria o risco de sofrer o corte inventado pelo doutor Guillotin.
         Confúcio ensinava que o homem, para pôr em ordem sua sociedade, deve pôr em ordem a si mesmo primeiramente. Esse sábio viveu há mais de dois milênios. Todas as revoluções, ao contrário, intentam uma transformação social de grande alcance sem mudar o indivíduo.
       Uma das poucas cabeças dominadas pela razão na França era sustentada por Antoine Lavoisier na época da Revolução. Por sua influência, a Academia de Ciência rejeitara um aparelho que detectava a emissão de ondas de calor, invenção apresentada por um médico nascido na Prússia. Seu nome era Jean-Paul Marat.
Marat jamais esqueceria essa recusa e, quando elevado pelo povo à condição de líder (ao lado de Danton e Robespierre), prendeu e decapitou Lavoisier.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

ANSIEDADE E GOZO


     ANSIEDADE E GOZO
(NÃO NECESSARIAMENTE NESSA ORDEM)

       O conhecimento só se efetiva no momento em que uma tese é comprovada pelos fatos reais e vice-versa (quando a realidade observada permite depreender suas categorias como verdadeiras).
         As redes sociais já constituem, por excelência, o modo parecer, ao mesmo tempo em que geram mais ansiedade em seus usuários compulsivos. Estes se definem como hedonistas (por um lado), ou como ansiosos (por outro). Hedonistas ou ansiosos, todavia, não representam classes separadas de indivíduos, uma vez que trocam de posição, a depender das circunstâncias em que se encontram eles.
         O esforço de parecer bem no dia a dia, sob as imposições do lar, do trabalho, do estudo e da condição financeira, por exemplo, enfatiza um estado contrário, de anseio por uma casa melhor, por um emprego mais gratificante, por férias, por viagens, por escolhas novas etc. Os ansiosos veem o melhor acontecer com os outros. A ansiedade que os massacra cotidianamente se escancara na urgência da postagem salvadora, que consiste em ostentar hedonisticamente. Aeroportos (a partir do check-in de conexão no Facebook), edifícios majestosos, pratos especiais, praias paradisíacas, tudo identificado apenas com legendas do tipo “fui!”, “de boa!”, “lindo!” e “gratidão!”. Tais postagens justificam o parecer para poucos e retroalimentam a ansiedade para uma maioria de interlocutores (mergulhados na azáfama cotidiana até o pescoço).
         As redes sociais potencializam a ansiedade demorada e o gozo momentâneo, em vista da textualização de uma e de outro. A aparente superficialidade com que os atores da comunicação se interagem requer um estudo sério, que confira cientificidade ao que foi exposto acima.

domingo, 28 de julho de 2019

A VERDADE


O ESTADO SE MOBILIZA CONTRA 
OS TRAFICANTES DE DROGA.
A SOCIEDADE DEVERIA SE MOBILIZAR 
CONTRA O CONSUMO. 

sábado, 27 de julho de 2019

PROTÁGORAS: O MAIOR

     O filósofo da Antiguidade verdadeiramente grande foi Protágoras, malgrado a avalanche de críticas dirigida contra ele por todos os pensadores, que repercutem os antissofistas Sócrates e Platão.
      Em tempo pós-moderno, também caracterizado pelo relativismo, o nome de Protágoras é citado com frequência, como prova de que cada pessoa (e sua interpretação de seres, coisas e fenômenos) é depositária da verdade.
        Karl Popper me abriu os olhos para esse reducionismo histórico sobre o pensamento de Protágoras. O homo mensura – “o homem é a medida de todas as coisas” – não pode ser interpretado como se cada um, em separado, pudesse ser o detentor da verdade. Segundo Popper, não é só isso.
        A filosofia teve origem como uma proposta racional de acabar com o mito, com a deificação da natureza. Com exceção de Marx, Nietzsche, Freud e os neoateístas contemporâneos, os pensadores continuam a acreditar numa divindade, num absoluto de todas as medidas. Entre eles, Parmênides e Platão são radicais defensores de que só os deuses possuem conhecimento.
Não há relativismo no argumento de Protágoras, mas a especificação de que “o conhecimento humano deve ser tomado como nosso padrão”, uma vez que “nada sabemos sobre os deuses”. As ciências, por exemplo, constituem o corpus de conhecimento elaborado pela razão.
         Protágoras rompe com a fabulação anterior, que foi ab origine o grande propósito da filosofia, o de dar ao homem a autêntica e definitiva autonomia. 

quarta-feira, 24 de julho de 2019

ALMA DE POETA


A alma racional 
subsume 
(a sensitiva e) 

a vegetativa 
- alma da planta.
Alma completa
por outras almas
- alma de poeta.



(Na praça central de Santiago, Rio Grande do Sul, cada poeta ganhou uma árvore. A mim foi destinado um pinheiro, que ganha meu abraço toda vez que visito a Terra dos Poetas.)

terça-feira, 23 de julho de 2019

LIÇÃO INESQUECÍVEL



         A recomendação insistente dos pais de que o fogo queima não é levado a sério pela criança, pelo menos a ponto de evitar a primeira queimadura autoprovocada por ela. O conhecimento de mundo transmitido de uma forma teórica, discursiva, via de regra, apenas se efetiva com a experiência pessoal.
         Até os quatorze anos, cansei de ouvir dos adultos que era feio roubar, aliás, um dos dez mandamentos bíblicos já preceitua a moral correta “não roubarás”. Com a idade acima, roubei um cadeado grande, novo, amarelo como o ouro, que se encontrava aberto no portão lateral de uma casa momentaneamente vazia.
         Naquele ano de 1973, vendia doce para minha tia. A casa em que morávamos na Francisco Brandão distava meio quilômetro da zona do meretrício. Não ganhava troco algum por esse trabalho, uma vez que tinha obrigação para com os parentes que me hospedavam na cidade. Caso quisesse ir ao Cinema Imperial no domingo (para ver filme de faroeste), obrigava-me a vender garrafa nos botecos da Bento Gonçalves.
         A zona constituía o mercado certo para o pudim de pão que eu mal equilibrava numa bandeja de lata. No meio da tarde, as prostitutas me compravam toda a oferta, enquanto se embelezavam para outro comércio na próxima noite.
         No dia do roubo, a casa da Gringa arejava sozinha, não respondendo minhas palmas na porta da frente. Ao contorná-la pelo lado, eis que a ocasião se oferece ao menino do interior, dotado até então de um caráter impoluto.
Com certa dificuldade, guardei o objeto em meu bolso. Em casa, escondi-o dentro da malinha de papel, sob as roupas dobradas. Na verdade, roubara algo que não usaria certamente. Assim que retornei da escola no outro dia, um dos primos veio ao meu encontro com a pergunta avassaladora “Onde você escondeu o cadeado?”. O rubor tingiu meu rosto branquelo antes que balbuciasse qualquer coisa muito próxima da confissão. Ele disse mais: “A mulher está esperando por você, vai lá para devolver-lhe o cadeado”.
         De repente, o mundo ficou pequeno ante a vergonha que tomou conta de mim. Alguns riam, outros fechavam o cenho ao me verem naquela situação embaraçosa ao extremo. A saída menos desonrosa foi devolver o cadeado para sua dona.
         Trêmulo como uma vara verde, pedi-lhe desculpas. Em seguida, Gringa me dirigiu um sermão sobre não roubar mais, cujo conteúdo moral passou a constituir minha personalidade doravante. Ela flagrara minha ação reprovável de outra casa, e só não registrou um Boletim de Ocorrência por compaixão. Sua filha, disse-me ela, era minha colega de aula, onde talvez sofresse constrangimento ainda maior, a ponto de dar outro rumo à minha vida. Ela manteve a discrição. Uma pessoa que gostaria de reencontrá-la já velhinha nestes dias.
         A experiência foi como um fogo que me marcasse o ser para a vida toda. Nunca mais peguei às escondidas o que pertencesse aos outros. Com um comportamento assim orientado, desenvolvi uma ojeriza pelos ladrões contumazes, do assaltante à mão armada ao político corrupto e corruptor.

terça-feira, 16 de julho de 2019

UMBIGUISMO E ALTERIDADE

         Muitas pessoas são analfabetas, outras tantas são alfabetizadas apenas e desistem dos estudos regulares, (via de regra) forçadas pela necessidade de sobreviver economicamente. Elas correm entre a casa e o trabalho, entre o trabalho e a casa, entre a casa e o lugar de diversão...
         No início da Alegoria da Caverna, Sócrates (o alterego de Platão) pede para seu interlocutor imaginar “a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância”. Dentro de uma morada subterrânea, às sombras, viveriam os homens ignorantes. Libertos da caverna, à luz do Sol, desfrutariam os sábios e virtuosos. A dicotomia platônica representa dois mundos: o sensível e o inteligível.
         A maioria referida no primeiro parágrafo, segundo a alegoria de Platão, tomaria a ilusão como real. Ela não teria consciência da ideia do bem, por exemplo, ou num sentido moderno, mal saberia o que é alteridade.
         Ao rodar pela cidade, encontramos operários na construção, balconistas na loja, catadores de papel, entre outros trabalhadores, cuja renda é limitada pela falta de instrução. Sem noção do próprio limite, essas pessoas até se sentem felizes – sentimento que constitui uma impossibilidade para outras com empregos melhores.
         Na hipótese de um meteoro estiver em rota de colisão com a Terra, a colocar em risco a vida humana, os moradores no “subterrâneo” nada saberiam até o momento do impacto. Mesmo que ouvissem alguma notícia pelos meios de comunicação, talvez caíssem de joelhos, dobrados pela crença num castigo dos céus. Uma minoria, no entanto, ocupar-se-ia com a empresa de desviar o meteoro (de posse de uma tecnologia desenvolvida por ela).

         A possibilidade de salvar a humanidade no caso acima passa pelo saber, cujo impulso “é forte demais para que ainda sejamos capazes de estimar uma felicidade sem conhecimento ou a felicidade de uma ilusão firme” – no dizer de Nietzsche. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

BRASIL POP


BRASIL POP

         A cultura musical predominante no Brasil é popular. Para ser bem-sucedido, o artista vai aonde o povo está. O senso comum, por sua maioria açambarcante, determina o que roda nas mídias. No último mês, a canção mais ouvida no Brasil é Todo mundo vai sofrer, da funkeira Marília Mendonça.
         Até há cinco minutos, não ouvira essa artista popular, nem por descuido ao zapear no rádio e da televisão, ou acessar algumas plataformas digitais.
         A letra de Todo mundo vai sofrer é paupérrima, de uma simplicidade piegas, muito semelhante a tudo o que viceja midiaticamente no país. O Google me apresenta o poema seguinte:

A garrafa precisa do copo
O copo precisa da mesa
A mesa precisa de mim
E eu preciso da cerveja

Igual eu preciso dele na minha vida
Mas quanto mais eu vou atrás
Mais ele pisa
Então já que é assim
Se por ele eu sofro sem pausa
Quem quiser me amar
Também vai sofrer nessa bagaça

Quem eu quero não me quer
Quem me quer não vou querer
Ninguém vai sofrer sozinho
Todo mundo vai sofrer

         Pelo viés gramatical, o texto é verborrágico (notadamente o refrão), ao gosto dos usuários da língua inculta. Pelo viés poético, não há ritmo algum; exceto a personificação da garrafa, do copo e da mesa, nenhuma figura de linguagem.
          Uma análise do conteúdo, melhor do que a forma, demonstra a pobreza que caracteriza a música popular brasileira. O tema não poderia ser mais adequado: o sentimento de quem foi traído ou deseja algo que não pode ser seu, reconhecido pela expressão chula “dor de corno”. A novidade pouco romântica, de que “ninguém vai sofrer sozinho/ todo mundo vai sofrer”, lava a alma do desprezado, conquista a galera e salva a produção artística.
         Uma pessoa dotada de caráter nobre, com o mínimo de amor próprio, não corre atrás de quem a despreza, tampouco se vinga em inocente (ao arrastá-lo para infortúnio semelhante). O eu-lírico revela uma fraqueza diametralmente oposta a qualquer sucesso na empresa de controlar o próprio querer, a própria vontade.
         A predominância do pop no Brasil ocorre pela falta de uma cultura mais refinada, impedida de se desenvolver por (des)razões várias, como o analfabetismo, a política, o mercado...   

AZULÍSSIMA E FRIA


O Bom Retiro pranteia a morte de uma pessoa muito estimada pela comunidade. A igreja se torna pequena para abrigar todos os presentes ao rito cristão da despedida. O sino bate repetidamente três vezes, enquanto a tarde cai azulíssima e fria.
         Durante o velório, uma hora atrás, deixei o salão e fui ao cemitério. (Não sei explicar este gosto de visita-lo sem a presença dos vivos.) O vento farfalhava as árvores debruçadas sobre o muro tomado de limo, para quebrar a mudez sepulcral que envolvia túmulos e vias de pedra grês. Outra vez, vi todas as fotos em sépia dos falecidos nos últimos setenta anos (desde a construção do cemitério). Mais que ver, li o nome e as datas de início e fim da vida de cada um.
         O primeiro ato de minhas reflexões, entre um sepulcro e outro, resumia-se a recordar como eram as pessoas ali fotografas em seu tempo. Caso não as tivesse conhecido, num segundo ato, pensar no que fizeram em vida, na causa de morrerem mais cedo (algumas) Mesmo não as conhecendo outrora, num terceiro ato, concluir que os dados biográficos (impressos na louça) são um ponto em que se apoia a lembrança de seus parentes. Fotos e datas constituem agora o único registro contra o esquecimento inexorável.
         No fim da avenida central (que começa no portão de entrada), encontro o túmulo de alguém que me é muito especial. Nesse momento, a racionalidade cede lugar à emoção, o filósofo volta a ser gente sensível, e meus olhos manam uma dor que persiste depois de treze anos. As rosas artificiais me parecem demasiadamente tristes para enfeitar o nicho com a foto da minha mãe. Ela gostava tanto de flores naturais.
         O cortejo deixa a igreja, segue pela estrada a rezar o Terço. O cemitério o espera com o portão aberto. O vento continua a violar o silêncio da tarde – azulíssima e fria.

DUELO NA MADRUGADA


DUELO NA MADRUGADA
(uma fábula pós-moderna)


         Os automóveis percorrem a avenida lado a lado, palavras provocativas se batem no espaço entre as duas janelas abertas. O calor daqueles que as emitem aquece as armas coladas ao corpo dos homens. Meio quilômetro à frente, os carros param no meio da pista.
Uma faca de lâmina comprida desce na mão do primeiro homem. O revólver continua na cintura, louco para ser empunhado firmemente pelo segundo homem. Impetuosa, emocional, ela avança decidida a cortar sem a perícia necessária. O talho atinge o braço esquerdo e o abdômen. Não há distância suficiente para perfurar mortalmente, tampouco o permite o tempo. O revólver reage com eficiência precisa: um, dois e três disparos a queima-roupa.
O Trinta-e-Oito ainda fumega dentro da madrugada fria, seguro por uma mão que vacila entre a raiva e a dor. Ele reconhece que não observou o código de honra dos duelos antigos, quando havia paridade de armas. Por isso, a demora a entrar em ação, já a caracterizar legítima defesa.
A faca repica no asfalto e se acomoda em seu nicho intocável. Logo será clicada por jornalistas e blogueiros, vista como um símbolo de sangue, de assassinato.  Seu aço branco reflete a primeira claridade da manhã.
Após presenciar o duelo, um carro foge avenida afora, e o outro se dirige ao hospital (seu condutor está cortado no braço e abdômen). Eles foram cúmplices ao pararem em plena pista de rolamento, como a demarcar a arena para o combate entre as duas armas.