terça-feira, 28 de abril de 2020

LIÇÃO AOS TERRAPLANISTAS (IV)


SETE MANEIRAS DE PROVAR 

A REDONDEZ DA TERRA



            Alguns sites lincados ao Google enumeram sete formas ou fatos que provam ser a Terra redonda. Dois deles são muito comuns, malgrado a consistência indubitável de seus experimentos: o eclipse lunar e a observação de um barco sobre o horizonte marinho.
            Antes da prova matemática produzida por Eratóstenes, Aristóteles observara que durante os eclipses lunares, a sombra da Terra na face do satélite é curvada, a persistir curvada durante todo o fenômeno, com o planeta a girar continuamente. Caso a Terra tivesse outra forma, a sombra se modificaria ao longo do eclipse.  
            O segundo fato é observado durante o deslocamento de um barco sobre a linha do horizonte marinho. A embarcação não desaparece em razão da distância, a ficar menor cada vez menor; todavia, desaparece o casco primeiro e depois a vela. No oceano, esse horizonte-limite se repete vezes indefinidas, a provar a curvatura das águas.
            A terceira forma é obtida com o olhar atento para as estrelas, para as constelações. A posição das estrelas se modifica em relação ao Equador, quando observadas de diferentes lugares da Terra. Caso estivesse certo, o terraplanista, as estrelas não mudariam de posição de qualquer ponto de observação. As mudanças observadas só são possíveis em razão da esfericidade do planeta.
            A quarta prova é obtida com a medição da sombra de um palito. Pegue um palito com 30 centímetros de comprimento e coloque-o a 90º no chão, às 10 horas em um dia ensolarado, e meça o comprimento da sombra. O comprimento das sombras será diferente, e com esses valores é possível calcular a circunferência da Terra, como fez Eratóstenes na Grécia Antiga.
            A quinta forma de verificação é a mais simples, que Platão condenaria por se basear num dos sentidos. Quanto mais alto subimos, mais distante vemos a nossa volta. Caso a Terra fosse plana, com o auxílio de binóculos veríamos prédios de outras cidades ou montanhas que estão próximas de nós, todavia, isso não acontece. A esfericidade da Terra nos impede de observar o que está além do horizonte. Em Colônia do Sacramento, em dias claros, é possível divisar os prédios mais altos de Buenos Aires sobre a linha d’água do rio da Prata.
            A sexta maneira consiste em observar a curvatura da Terra de um avião em maiores altitudes. Por mais que atravesse longas distâncias, não há relato de que houve um corte vertical nessa curvatura, que continua sempre curva até completar uma volta no planeta. Este é fotografado das estações espaciais, há muito observado pelos astronautas, que também provam a esfericidade do globo terrestre.
            A última prova é fundamentada numa inferência silogística, que parte da observação dos demais planetas do Sistema Solar, todos esféricos. Esse dado é suficiente como primeira premissa. A segunda dá conta que a Terra pertence ao Sistema Solar, e a conclusão é de que também este planeta tem formato esférico.
            A matéria de um dos sites conclui que em épocas pretéritas, cuja informação era muito difícil de se obter, “é até aceitável que alguém fosse ludibriado com a história da Terra plana”; todavia, com as facilidades que hoje propiciam uma rápida pesquisa, não pode haver dúvida sobre o formato esférico do nosso planeta.

LIÇÃO AOS TERRAPLANISTAS (III)


      
ESTRUTURA E COMPOSIÇÃO DA TERRA

        A Terra é um planeta rochoso, a orbitar o Sol numa zona chamada Cachinhos Dourados, que propiciou o surgimento e a evolução da vida. A camada mais externa, a atmosfera, é formada por gases (nitrogênio, oxigênio, hélio, gás carbônico, entre outros), vapor d’água, microrganismos, poeira e fuligem. Abaixo da atmosfera, mares e oceanos formam uma camada líquida, a hidrosfera. Os continentes e ilhas são a parte emersa da crosta terrestre. Sob a crosta, o manto e o núcleo completam a estrutura da Terra.
       A Crosta é a parte sólida que envolve o planeta. Ela tem uma espessura que varia entre 5 e 70 km e se divide em grandes placas tectônicas. O Manto é constituído por vários tipos de rochas que, devido às altas temperaturas, encontram-se em um estado pastoso chamado de magma. Sua espessura vai até 2900 km de profundidade, dividido em duas camadas: o Manto Superior e o Manto Inferior. O Núcleo é a parte central do planeta, também dividido: Núcleo Externo, líquido, de 2900 a 5150 km; e Núcleo Interno, sólido (devido à altíssima pressão), até 6378 km. Num corte completo do planeta, a crosta e o manto são mais ou menos circulares, a circundar o núcleo esférico.
      A crosta é composta por ferro, magnésio, silício, alumínio, oxigênio, cálcio, potássio e óxidos combinados. O manto é composto, principalmente, de ferro e silício. O núcleo externo é composto de ferro metálico e outros elementos, como enxofre, silício, oxigênio, potássio e hidrogênio; e o núcleo interno, composto de ferro e níquel. Os elementos acima citados representam a maior percentagem na composição do planeta, o que não exclui a existência de outros tantos, nomeados pela tabela de Dmitri Mendeleev1.

1. Dmitri Mendeleev (1834 – 1907), foi um químico e físico russo, criador da primeira versão da tabela periódica.
                   

LIÇÃO AOS TERRAPLANISTAS (II)


          
 ORIGEM, FORMATO E VELOCIDADE DA TERRA

         A Terra se formou entre 4,5 e 5 bilhões de anos antes do presente, sob os impactos das explosões solares, que decorriam das primeiras fusões de Hidrogênio. Os elementos mais pesados a girar em torno da estrela, submetidos ao calor intenso, agregavam-se em partículas de poeira, que colidiam entre si no disco protoplanetário. A concentração dessas partículas sólidas deu origem a objetos maiores, que continuaram a colidir entre si num processo de acareação.
            Não obstante os desenhos diferentes das rochas que se juntavam ao planetesimal, este adquiriu o formato esférico, em razão do movimento em torno do próprio eixo e do atrito com o material que o circundava ab origine. Um punhado de argila, para adquirir forma arredondada, basta friccioná-lo na palma das mãos ou sobre uma superfície plana. No caso do planeta, as mãos são representadas pela força gravitacional e pela velocidade de escape. A propósito, todos os astros celestes conhecidos são esferoides. A Terra não seria diferente.
            O movimento de rotação (em torno do próprio eixo) faz com o globo terrestre tenha um leve achatamento nos polos. O diâmetro entre um polo e outro é 43 quilômetros menor do que o diâmetro no Equador, que é de 12.756,2 km. Vênus, vista da Terra como se fosse uma estrela, a Estrela d’alva, tem diâmetro um pouco menor: 12.104 km. A Lua, 3.474,2 km. O Sol, 1.392.700 km (aproximadamente 109,18 vezes o diâmetro da Terra).
            A definição de diâmetro é fundamental para o objetivo deste texto, que é o de convencer os terraplanistas de seu equívoco: “qualquer corda que passa no centro de uma circunferência”1. Qualquer corda significa dizer que pode ser traçada de qualquer ponto da circunferência. A Linha Equador, no caso de nosso planeta, constitui a circunferência referencial para a medida de seu diâmetro. O Meridiano de Greenwich é outra. Qualquer ponto desse meridiano pode servir de base para uma corda que passe no centro do globo e encontre o mesmo meridiano do outro lado. A medida dessa corda (diâmetro) variará entre 12.756,2 km e 12.713,2 km.
            Outro aspecto interessante do planeta terrestre consiste em sua velocidade de translação e de giro sobre o próprio eixo. A primeira é de 107.200 km/h, a completar a volta em torno do Sol num ano. A velocidade de rotação é de aproximadamente 1675 km/h (medida na Linha do Equador), a completar a volta em torno de seu eixo num dia.
           
1.        Dicionário Houaiss

LICÃO AOS TERRAPLANISTAS (I)



A ESFERICIDADE DA TERRA

       O longo caminho que a humanidade percorreu desde sua origem é orientado pelo conhecimento adquirido acerca do mundo, da natureza e da vida. O homem contempla o céu ensolarado ou pontuado de estrelas em dias e noites sucessivos, e pergunta “o que é?”, “como é?” e “por que é?” o universo fora (e dentro) de si.
       Os filósofos pré-socráticos, também considerados os primeiros físicos, formularam respostas com base em elementos originais – não mais oriundos da fabulação, da ação de algum deus. Tais elementos, terra, água, ar e fogo, foram considerados por Aristóteles1 inclusive, que determinaria um lugar natural para cada um deles. Outros pensadores, como Anaximandro de Mileto2, que disse ser o ápeiron (ilimitado) o princípio de todas as coisas, e Demócrito de Abdera3, que intuiu a existência do átomo, a denominá-lo de pequena substância infinita e eterna.
        No que concerne à cosmologia, a concepção do mundo ainda era geocêntrica para os gregos antigos. Tales de Mileto4, por exemplo, concebia a Terra como um disco achatado, a flutuar sobre a água. Esse primeiro filósofo também foi o primeiro terraplanista da civilização ocidental. Um século depois de Aristóteles, também geocentrista, todavia, nasceu Eratóstenes de Cirene5, que estudou na academia fundada por Platão6.
        Eratóstenes (matemático, poeta, filósofo, geógrafo e astrônomo) entrou para a história da evolução cognitiva por calcular a circunferência e o diâmetro da Terra. Desde então, 2,3 milênios antes do presente, a forma esférica do nosso planeta é irrefutável. O que é uma esfera? Objeto redondo, “cuja superfície apresenta pontos com a mesma distância do ponto interior central”7. Posteriormente, outros estudiosos precisariam a medição do globo terrestre.
        Segundo os cálculos de Eratóstenes, a circunferência terrena teria 40.000 quilômetros. Seu erro foi tão somente de 70 quilômetros. Para comprovar a medida dessa circunferência, um avião decola de qualquer aeroporto da Terra e sempre chega do outro lado do mesmo aeroporto (depois de voar 40.070 quilômetros em linha reta).
       No século XVI, Nicolau Copérnico8 comprovou a ideia de Eratóstenes e deslocou a Terra do centro do Sistema Solar para uma das órbitas planetárias que circundam o Sol. O heliocentrismo se constitui numa das maiores descobertas já realizadas pelo intelecto humano. Outras tantas ocorreram depois, principalmente no século XX, que não deixa a menor sombra de dúvida sobre o conhecimento já adquirido acerca do mundo, da natureza, da vida.

1.     Filósofo nascido em Estagira, na Trácia (384 – 322 a. C), criador da ciência empírica.

2.     Filósofo pré-socrático, nascido em Mileto (610 – 547 a.C), discípulo de Tales.
3.     Filósofo nascido em Abdera (460 – 370 a.C.), discípulo de Leucipo.
4.     Primeiro filósofo, nascido em Mileto (625 – 558 a. C.).
5.     Estudioso nascido em Cirene (276 – 194 a.C.).
6.     Filósofo ateniense (427/28 – 348/347 a.C.), fundou a Academia, escreveu diálogos.
7.     Dicionário de língua portuguesa de Evanildo Bechara.
8.     Monge, matemático e astrônomo polonês (1973 – 1543), escreveu De revolutionibus orbium coelestium. 

terça-feira, 10 de março de 2020

O QUE CABE À FILOSOFIA NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO



     Esse foi o tema da aula inaugural do Curso de Pós-graduação em Filosofia da PUC/PR.
     O filósofo OSWALDO GIACOIA JÚNIOR proferiu uma palestra-resposta à questão acima. Ele é professor da UNICAMP, estudioso de Nietzsche (citado mais de 16 vezes na primeira parte da palestra).
       A filosofia deve sair de uma situação de espera (imposta pela tecnociência) e acompanhar o grande diálogo intercultural (que surge como uma nova perspectiva no mundo globalizado).
       Como exemplo desse diálogo, o professor Giacoia cita A QUEDA DO CÉU, escrito a quatro mãos por Davi Kopenawa, líder indígena da Amazônia, e Bruce Albert, etnógrafo francês. O livro apresenta o pensamento yanomami.

(Os alunos de Filosofia da FAE fomos convidados a assistir essa aula inaugural na PUC.)

COMPAIXÃO OU INDIFERENÇA?


      Numa cidadezinha do interior (como Pien), na hipótese de alguém amanhecer dormindo na rua, certamente irá despertar a atenção e a solidariedade das pessoas.
       Numa grande cidade, como Curitiba, a realidade é outra:
malgrado muita gente em situação de rua, os transeuntes, num vir e ir sem fim, passam indiferentes.
  Essa indiferença já ultrapassou o sentimento de impotência, que a precedeu quem sabe um dia. O problema dos outros nada mais significa ante os próprios problemas.

CRÔNICA DA ILHA DO MEL



    A lenda das Encantadas, por mais inverossímil se apresente ao racionalista, figura uma verdade inegável: a Ilha do Mel é de uma beleza arrebatadora.
    As criaturas míticas escolheram viver aqui, antes da chegada do homem, porque o lugar as atraía por suas praias, morros, matas, pedras, grutas...
        De um lado da ilha, a serenidade das águas da baía; de outro, o mar de fora, com suas ondas vigorosas (que fazem flutuar os rochedos).
   A mata nativa ocupa grande parte da geografia, preservada cuidadosamente pelo invasor humano, que soube se instalar sem colocá-la abaixo. O turismo e a pesca são suficientes para a estabilidade socioeconômica dos insulares.
     Sob as árvores copadas, as trilhas frescas e macias interligam, residências, bares, restaurantes, pousadas... num trânsito sem automóveis ou animais de tração.
       As luzes distantes do continente não interferem no brilho das estrelas, que parecem mais próximas esta noite.
  O descrito acima torna aceitável a narrativa das Encantadas, que se lê numa placa grande, em frente ao píer de entrada da ilha.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

CAMPO - CIDADE



    Como poucos indivíduos, vivo uma constante mudança do espaço, representada pelos opostos campo – cidade.
        Antes de vir para Curitiba, morei um ano e meio no rincão, para onde retorno assim que se me oferece uma oportunidade.
Entre 2 e 8 de novembro, lá estava, acolhido pela casa paterna. Para mim, já consiste um prazer preparar o almoço para o pai e o irmão no fogão a lenha. Desde cedo, é uma alegria ver o sol iluminar o dia, a ouvir os animais em volta da casa, no arvoredo, no campo aquém e além dos alambrados.
Na semana seguinte, outra vez me vejo imerso nesta cidade grande, a caminhar por seus logradouros e parques, a dirigir por suas amplas avenidas, a frequentar seus eventos culturais, shoppings, livrarias, restaurantes...
A mudança contínua entre campo e cidade, entre natureza e artifício, não esgota em mim a saudade de lá (a estar aqui) e tampouco a necessidade de estar aqui de tempo em tempo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

RINCÃO TERRUNHO

       Caio Fernando Abreu referiu-se carinhosamente a Santiago como Passo da Guanxuma. Assim ele se expressou na crônica belíssima Raiz no Pampa, cuja motivação foi a ida à Terra dos Poetas para a inauguração de sua foto na galeria dos escritores santiaguenses no Centro Cultural.
        Antes de querer imitar Caio, também atribuo um nome afetivo para o lugar em que nasci e para onde retorno com frequência: Rincão. A primeira referência topográfica foi Rincão dos Machado, depois rincão apenas, que designa ainda o rincão e Santiago ao mesmo tempo. À medida que me afasto do rincão terrunho, conduzido pelos móveis universais da cultura, mais necessidade tenho de retornar a ele (para beber de sua água).
        O rincão já foi o universo inteiro durante minha infância. Eu pertencia a ele em toda minha pequenez, não determinante para ignorar a beleza que o constituía naturalmente: campos, matas, sangas, açudes, o rio Rosário, cavalos, bois, pássaros, manhãs azuis... Com o meu crescimento e, consequente, partida para mundos maiores, o rincão migrou para dentro de mim (a aumentar sua dimensão afetiva com a distância).
        Hoje deixo Curitiba rumo à minha Santiago, onde devo lançar Claro & Profundo – Poemas Reunidos na XXI Feira do Livro (no dia 9 de novembro, às 19 horas). Depois de 25 anos, viajo de ônibus outra vez, para curtir a alegria do retorno mais demoradamente (como o fazia em minha juventude).
        O rincão dentro de mim é poesia, uma metáfora que me remete à realidade de um lugar, ao qual ainda pertenço de certa forma. Esse voltar a Santiago, como escreveu Caio, é “um assunto espiritual”.

        Curitiba, 1º de novembro de 2019.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

DUAS OBSERVAÇÕES (AOS CITADORES DE NIETZSCHE)


          Nietzsche nunca foi citado antes com a frequência destes dias. Duas observações depreendem desse modismo: o filósofo é mal interpretado cada vez mais; e seus citadores ignoram a contradição em citá-lo à revelia.
         Mais de 90% desses pretensos nietzschianos são religiosos, cristãos em sua maioria, que deveriam evitar a contundência da filosofia do martelo. Caso observassem a coerência, eles citariam Platão, Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Duns Escoto, entre outros.
      Inobstante a liberdade de todo sujeito do enunciado, que é inquestionável nestes dias, a citação de Nietzsche exige honestidade intelectual, atributo que distingue os nietzschianos dos quatro costados. 
            Nenhum cristão há de concordar com o aforismo 15 de O Anticristo:
No cristianismo, nem a moral nem a religião possuem qualquer ponto de contato com a realidade. Apenas causas imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, o “livre-arbítrio” – ou o “não livre”); apenas efeitos imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “castigo”, “perdão dos pecados”). Uma relação entre criaturas imaginárias (“Deus”, “espírito”, “alma”); uma ciência natural imaginária (antropocêntrica; carência completa da noção de causas); uma psicologia imaginária (apenas mal-entendidos acerca de si mesmo, interpretações de sensações gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, dos estados do nervus sympathicus, com a ajuda da linguagem de sinais da idiossincrasia moral-religiosa – “arrependimento”, “remorso”, “tentação do Demônio”, “proximidade de Deus”, uma teleologia imaginária (“o reino de Deus”, “o Juízo Final”, “a vida eterna”). – Esse puro mundo de ficções se distingue muito a seu desfavor do mundo dos sonhos pelo fato de que este reflete a realidade, enquanto ele a falsifica, desvaloriza, nega.

         Nietzsche é citado pelos cristãos, via de regra, de uma forma descontextualizada. A propósito, essa prática não exclui a própria Bíblia, sempre recortada versículo a versículo (segundo o interesse do pregador ou sermonista).
          Nada como ser nietzschiano. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

A POESIA E SEUS ELEMENTOS


    O Modernismo revolucionou as artes, sobretudo a literatura, a romper com as normas acadêmicas. A poesia se libertou dos padrões anteriores, da estrofação regular, dos versos isossilábicos, do ritmo, da rima.
     Essa liberdade, todavia, não é definitiva, radical, na medida em que os próprios poetas modernistas continuam a produzir formalmente como desde sempre.
        Carlos Drummond de Andrade era modernista, iniciador da segunda geração (a propósito), e constitui o melhor exemplo do que afirmo no parágrafo acima. Ele publicou vários sonetos e outras formas fixas de poema.
         Uma prova disso:

                     O mundo é grande
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

        O primeiro, o terceiro e o quinto versos contam seis sílabas poéticas, com tonicidade na segunda, quarta e sexta sílabas; poéticas. O segundo verso, tonicidade na quarta e oitava; o quarto verso, na segunda, sexta e oitava sílabas; e o sexto verso, na segunda, quarta e oitava sílabas.
      Não bastasse o paralelismo, que é a repetição da mesma estrutura frasal, o ritmo do poema também é determinado pela métrica (com acentuação nas mesmas sílabas):

2 – 4 – 6
      4        8
2 – 4 – 6
2        6 – 8
2 – 4 – 6  
2 – 4        8

         Todo iniciante na arte literária deve compreender que liberdade formal não implica escrever poesia como se fosse prosa, simplesmente a mudar de linha antes de chegar ao fim. Um poema com estrofes regulares e versos irregulares é um monstrengo, independentemente de seu conteúdo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

NÚMERO 1



       O que você acha (ou pensa) sobre essa pintura?
      Caso seu julgamento for depreciativo, saiba que o quadro é um dos mais caros da história: U$ 149,70 milhões de dólares (vendido pela Sotheby’s de Nova Iorque).
         O autor é Jackson Pollock (1912-56), pintor norte-americano, eminente representante do expressionismo abstrato.
         A arte de Pollock, segundo Lucie-Smith (1945), “era uma afirmação dos direitos de sonhos em contraposição ao mundo exterior de fatos; [...] uma rejeição ao mecanismo”.
         Ele poderia pintar antes do surgimento da tecnologia, como pintaria durante ou depois da revolução industrial. Não dependeu de técnicas já consagradas, tampouco teve referência a tudo o que fora realizado esteticamente.
         Palavras do artista:

Minha pintura não vem do cavalete, mal estico a tela antes de pintar. Prefiro prendê-la, sem chassi, sobre a parede ou o piso duro. Preciso da resistência de uma superfície firme. Sinto-me mais à vontade no chão, mais próximo, mais parte da pintura, porque assim posso caminhar ao seu redor, trabalhar dos quatro lados e literalmente me fazer presente nela.

         A grande inovação de Pollock era seu tratamento dado ao espaço (Lucie-Smith, 1945):

Temos consciência da superfície da pintura, mas também do fato que a maior parte da caligrafia parece flutuar um pouco atrás dessa superfície, num espaço deliberadamente comprimida e privada de perspectiva.

         Muita coisa é possível dizer sobre artista e obra. Caso você não entenda nada, por favor, não os julgue depreciativamente.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

REDES SOCIAIS: UMA SUBCULTURA DA APARÊNCIA


           


           O Facebook, o Instagram, o Whats, entre outras redes virtuais efetivam a subcultura da aparência, cuja linguagem é baseada na imagem. O verbal, depois de sofrer toda sorte de fragmentação, está à beira de ser inexoravelmente extinto.
        A conveniência para que tal ocorra também se  caracteriza pela estratégia pós-moderna de falsear o real, onde o ego do novo aculturado digitalmente se debate em meio à mediocridade, à insignificância.
         A (auto)imagem publicada segue um padrão, qual seja, o de ilustrar o espetacular, sem precisar onde, quando, como ou por quê. Essa falta de referência cria o glamour, na medida em que deixa transparecer certa naturalidade (facilmente observada como embuste, camuflagem). Exemplo recorrente: o usuário publica uma selfie ante uma construção majestosa ou ante o mar verde.
         O contexto de espaço e de tempo é apenas aludido pela imagem, seguida ou não da expressão interjetiva “gratidão!”. A relevância insinuada para si com a imagem de fundo, que pode ser qualquer praia do planeta, denuncia-se com a interjeição aposta.
         O texto apresenta como que uma incoerência profunda: a naturalidade de se encontrar numa praia distante é negada pelo que fica subentendido com a interjeição. O que se subentende por “gratidão!”?  Aquele que a expressa, malgrado exaltar sua condição de turista, expõe de forma inconsciente o esforço pessoal quase impossível de estar inacreditavelmente ali.
         Muito há que se dizer dessa subcultura, a qual é produto da pós-modernidade, tempo de radicalização individualista, e em que prevalece o parecer como modo de existência.

domingo, 20 de outubro de 2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

domingo, 13 de outubro de 2019

CRÔNICA DE GUARAQUEÇABA

A água da baía é interrompida por dezenas de ilhas, e a linha do horizonte se desenha com a sobreposição de vários recortes da serra que se estende na lonjura.
Os golfinhos brincam de aparecer e desaparecer na superfície morna da baía para a exclamação dos turistas, e o céu é incomparavelmente azul como as manhãs de outubro.
A cidadezinha se alonga entre a praia e o morro (coberto por uma mataria exuberante), com edificações coloridas de vermelho, amarelo, azul e branco. Restaurantes, cafés, mercearias, hotéis e pousadas fazem um cerco ao pier. Num plano mais elevado, localiza-se a prefeitura, a câmara, a igreja católica e o templo evangélico. Malgrado o isolamento geográfico, os guaraqueçanos são bem abrigados por sua religiosidade cristã.
Um dos costumes ancestrais, que precede a chegada dos portugueses, conservou-se através dos séculos: o direito ao ócio. Até a meia-tarde, os homens permanecem à sombra, descansados da vida. Outro traço cultural distintivo do interiorano consiste em cumprimentar uns aos outros na rua, não mais observado nos habitantes da cidade grande.
A sede constitui porto de partida para diversos pontos turísticos, que são acessados por lanchas voadeiras: Ilha das Peças, Parque Nacional do Superagui, Ilha Rasa, Ilha Pinheiro, Salto Morato, Sebuí, Ilha dos Papagaios, Ilha das Gamelas, Ilha Trepa-Pau, Ilha dos Porcos, Ilha das Bananas, Ilha das Laranjeiras e diversas reservas naturais.
Guaraqueçaba expõe um aspecto interessante do turismo nestes dias, ainda atraído pelo glamour da Europa, da Oceania e dos Estados Unidos. As viagens de longa distância passaram a representar o poder consumista de uma classe de pessoas que emerge do anonimato econômico e social.
Poucos desses viajantes internacionais (curitibanos) conhecem Guaraqueçaba, que não fica do outro lado do mundo, mas do outro lado da baía.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

MORAL CONSTITUÍDA E MORAL CONSTITUINTE


       O aspecto mais interessante no estudo da moral é a contradição entre o que foi estabelecido como norma de conduta e a sua transgressão sistemática.
A primeira explicação para compreender a relação norma–desobediência é genealógica: aquilo que se consubstancia como desobediência vem antes da instauração normativa, não o contrário.
A prática de matar o próprio semelhante (quase exclusiva do homo sapiens), por exemplo, precede a todo estatuto que preceitua o não matar. O assassinato, ainda que esporádico, desde sempre exigiu sua negação como norma para o bem da sociedade, do clã à humanidade como um todo. Apenas a guerra rompe com o direito natural à vida.
Em todas as culturas em que os homens mentem, há necessidade de se impor normativamente o não mentir. No âmbito jurídico, a prática adquire denominações eufemísticas, como falta com a verdade, falso testemunho, crime de perjúrio etc. Mentiras que podem sofrer sanções, em razão dos danos causados ao outro (pessoa ou instituição).
Notadamente, assassinato e mentira são incomparáveis pela gravidade do mal que causam um e outra. Ao matar seus semelhantes numa guerra, o homem mente a si mesmo sobre certos perigos que corre ele, os parentes, amigos e compatriotas se não tomar a iniciativa.
Duas morais são possíveis em relação à mentira: a constituída e a constituinte. A primeira consiste na norma expressa, de que o homem deve falar a verdade e somente a verdade (como num juramento legal). A segunda não está posta, flerta com a verdade, permissiva, muito próxima do engano consentido (bem como do autoengano).
Os exemplos da moral constituinte são tão numerosos quanto às intenções e aos discursos que permeiam as relações interpessoais. O simples “bom dia!” num ambiente de trabalho, onde a concorrência para subir dentro da empresa é acirrada, encobre maledicência, inveja, ódio. Nas redes sociais, a interjeição “linda!” sob a selfie não parece plenamente honesta. O incitamento do pastor aos fiéis para que estes abram suas carteiras, além do dízimo, justifica que assim é a vontade de Deus. Ad nauseam.
Algumas mentiras ganham estatuto de verdade, quando não é possível a omissão, o silêncio. Elas são necessárias para viabilizar o entendimento, elevar a autoestima, lucrar com o negócio, manter o relacionamento etc. O nome dessas permissividades é moral constituinte.

domingo, 6 de outubro de 2019

CARTA ABERTA


CARTA ABERTA AOS MEUS PARENTES
ESQUERDISTAS

      Esta carta se endereça aos meus parentes que, por um motivo obscuro, preferem se filiar à esquerda, ao socialismo, ao comunismo, malgrado a comprovação histórica de fracasso desse espectro político (do qual a debacle soviética constitui seu exemplo mais irrefutável). Ludwig von Mises atribui à ignorância, à inveja e ao ódio essa sanha anticapitalista, que contradiz, a propósito, o modus vivendi abertamente capitalista em que vivem todos.
      Minha proposta é de pedir-lhes uma tarefa simples: abrir o Manifesto do Partido Comunista, página 50 (ou em torno de), e ler as medidas de Marx e Engels para o advento de um mundo melhor. Certamente, vocês já realizaram uma leitura atenta do conteúdo comunista dos pensadores supracitados, a compartilhar com cada uma de suas premissas.
      Eis a relação de medidas que foi publicada no Manifesto do Partido Comunista, em 1848, fomento de revoluções em diversos pontos do planeta, com a construção de estados totalitários:

1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesas do Estado.
2. Pesado imposto progressivo.
3. Abolição do direito de herança.
 4. Confiscação da propriedade de todos os emigrantes * e rebeldes.
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, através de um banco nacional com capital de Estado e monopólio exclusivo.
6. Centralização do ** sistema de transportes nas mãos do Estado.
7. Multiplicação das fábricas nacionais, dos instrumentos de produção, arroteamento e melhoramento dos terrenos de acordo com um plano comunitário.
8. Obrigatoriedade do trabalho para todos, instituição de exércitos industriais, em especial para a agricultura.
9. Unificação da exploração da agricultura e da indústria, atuação com vista à eliminação gradual da diferença *** entre cidade e campo.
10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas na sua forma hodierna. Unificação da educação com a produção material, etc.

      À exceção da última medida, cujas metas o capitalismo evolui continuamente para atender melhor do que seu sistema de economia antagônico, pergunto-lhes se concordam com os disparates enumerados na citação acima.
      Para esclarecimento (tema bem dissertado por Kant), limito-me a analisar a primeira medida: “expropriação da propriedade fundiária e emprego das rendas fundiárias para despesa do estado”. Com expropriação proposta, como a terra produziria rendas para o estado? O estado teria que depender de pessoas físicas ou jurídicas que trabalhassem na terra ou que a explorassem sem a produção de riqueza para essas pessoas.
      Quem pagaria o “pesado imposto progressivo” – expresso na segunda medida?
      Uma Europa comunista, coerente com a medida 4, não daria refúgio a tantos emigrantes africanos e asiáticos como o faz nestes dias a Europa capitalista. A propósito, quais seriam os “rebeldes”?
      Involuntariamente, ultrapassei o proposto na medida 1, traído pela indignação de ver o absurdo fazer tantos adeptos. Neste aspecto, penso que os parentes entenderão minha intenção honesta, cujo grau de alteridade não pode ser refutado pelo direito que cabe a cada um de vocês.
      Um abraço a todos!
     
      Curitiba, 6 de outubro de 2019.


Froilam de Oliveira    

quinta-feira, 3 de outubro de 2019


AGENDA CHEIA: NARCISISMO E SOLIDÃO


   O tempo é de pessoas com suas agendas cheias, independentemente do status social de cada uma delas. Elas não mais dispõem de horário vago de compromissos cotidianos ou excepcionais.
        Para a confirmação desse fenômeno pós-moderno, basta que você organize um evento qualquer e convide seus amigos e conhecidos. A maioria dará uma desculpa de não comparecimento, de algo inadiável já marcado anteriormente.
        Você corre o risco de contar com poucas presenças ou com nenhuma delas, o que não mede a importância do evento, ou sua importância como organizador do evento.
        Da forma mais delicada possível, com salamaleques verbais, mente-se sobre a agenda lotada. O contexto desse autoengano é o direito que cada um dá à própria liberdade. Por trás desse comportamento indiscutível, agiganta-se o narcisismo.
        O autoisolamento narcísico, via de regra, involui para um estado em que a pessoa, ao perder a referência do outro, percebe-se sozinha no mundo e passa a sofrer de solidão.