sexta-feira, 12 de outubro de 2018
IDEOLOGIAS INSUSTENTÁVEIS
Em suas Reflexões autobiográficas, Eric Voegelin elenca três razões para alimentar
grande repulsa às grandes ideologias,
como o positivismo, o marxismo e o nacional-socialismo. A princípio, ele
reconhece que foi influenciado por Max Weber, para quem a honestidade
intelectual era indispensável em um homem de ciência.
A
primeira razão é exatamente a desonestidade intelectual daqueles que constroem
edifícios ideológicos, já examinados por uma ampla bibliografia. Aqui é
oportuno destacar Raymond Aron, autor de O
ópio dos intelectuais, em que disseca o marxismo e seu fascínio sobre a intelligentsia.
Basta ler a
bibliografia pertinente, para saber por que são insustentáveis (as ideologias).
Se, mesmo assim, um indivíduo opta por aderir a uma delas, impõe-se de imediato
a suposição de sua desonestidade intelectual (VOEGELIN, 2007, p. 80).
Um
cientista social competente e um ideólogo, para o filósofo, são incompatíveis.
O
segundo motivo de sua repulsa é o morticínio de pessoas, provocado por essas
ideologias, que a História mesma provou não se adequarem à condição basilar dos
seres humanos. Qual era a graça de matar por “diversão”, assim pergunta o
pensador (2007, p. 81):
A brincadeira é
conquistar uma pseudo-identidade com a afirmação do próprio poder, o que se faz
preferencialmente matando alguém, e esta pseudo-identidade passa a servir de
substituta ao ego humano que se perdeu.
O
terceiro motivo diz respeito “destruição da linguagem”, que caracteriza todo
ideólogo marxista (por exemplo). Ele se deixaria seduzir pelas dificuldades dos
escritos de Hegel, a explorar “as possibilidades de interpretação da realidade
a partir deste ou daquele ângulo de seu sistema”. O problema é que o faz sem
questionar as premissas que estão erradas. Para ocultá-las, o hegeliano conta
com o desconhecimento dos antecedentes em Plotino e no misticismo neoplatônico
do século XVII.
Para
Voegelin, é mais evidente a falsidade das premissas no marxismo. Não apenas por
distorcer os conceitos de Hegel, tomando-os como “predicados da ideia em
enunciados sobre fatos”, como por recusar o diálogo com o argumento etiológico
de Aristóteles, que trata das causas de todos os seres e coisas.
Com
o objetivo de destruir a humanidade do homem em benefício do “homem
socialista”, Marx precisava evitar o problema etiológico. Ele teve sorte nesse
intento em vista da “degradação cultural do universo acadêmico e intelectual no
final do século XIX e início do XX”.
A condenação radical
do conhecimento histórico e filosófico deve ser identificada como um fator
importante em nosso ambiente político-social, porque aqueles que a ditam não
podem sequer ser chamados de impostores intelectuais – seu horizonte de
consciência é por demais limitado para que estejam conscientes de sua desonestidade
objetiva (VOEGELIN, 2007, p. 85).
Na
contracorrente da tendência charlatã, Max Weber escreveu em 1904-1905 ensaios esclarecedores,
que levou Voegelin a rejeitar o marxismo como indefensável cientificamente.
REFERÊNCIA:
VOEGELIN,
Eric. Reflexões autobiográficas;
tradução Maria Inês de Carvalho; notas Martim Vasques da Cunha. – São Paulo: É
Realizações, 2007
terça-feira, 24 de julho de 2018
O VIZINHO PRESO
A Avenida Canadá, que passa
a cem metros do endereço onde me hospedo em Curitiba, leva ao bairro Santa
Cândida, mais exatamente à sede da Polícia Federal. A nova residência do Lula
da Silva dista uns 20 quarteirões daqui, espaço que pode ser percorrido a pé
(se não valesse a pena tirar o carro da garagem).
Em plena manhã azul, brisa
agradável vindo da Serra do Mar, penso que é arriscado fazer uma
visita ao ex-presidente, com a probabilidade de voltar frustrado de lá. Essa
frustração se daria menos por não vê-lo (em sua cela especial), mas por sabê-lo
prestes a ganhar a liberdade – a partir de uma decisão monocrática de algum
juiz do Supremo.
Dessa forma, sou exatamente o oposto dos lulistas , que querem
porque querem ver o Lula (objeto de sua idolatria) livre e outra vez na
presidência do Brasil.
Da sacada do apartamento, vejo pessoas no parque sob o
sol claro e doce desta manhã. Além da Canadá, o céu é disputado pelas imensas
araucárias e pelas torres de cimento, num quadro bastante ilustrativo da
dicotomia natureza – artifício.
CRÔNICA DE CURITIBA
Um dos sonhos da minha adolescência
contemplava Curitiba como a cidade em que gostaria de morar um dia. (O país era
o Canadá.) Naqueles anos, sequer havia atravessado o Uruguai, o Pelotas ou o
Mampituba, não tendo uma justificativa para a minha escolha.
O tempo passou. Com ele, passei alguns
trechos inesquecíveis. No Rio de Janeiro, algumas cidades me foram oferecidas
para exercer a nova profissão. Não vacilei ao fazer a escolha: Curitiba. Pelo
caminho mais reto possível, o sonho virou realidade.
Meados dos anos oitenta, a capital do
Paraná ostentava epítetos interessantes: Cidade Sorriso; Capital Ecológica...
Ela fora administrada por Jaime Lerner, grande urbanista que reestruturou a
cidade (fazendo-a turisticamente mais atrativa). Não me cansava de elogiá-la
para os meus conterrâneos gaúchos.
Curitiba foi meu único endereço ao longo
de nove anos. Nela vivi grandes momentos da minha vida profissional, intelectual
e emocional (ainda que seja possível separar tais categorias existenciais). No
ano de 1994, fui embora da cidade, transferido para o Mato Grosso do Sul e de
volta à terra natal na sequência. Malgrado a distância, nunca deixei de pensar em
Curitiba.
O eterno
retorno, um dos conceitos mais obscuros de Nietzsche, trata das repetições que
ocorrem no universo e, mais humanamente, em nossas vidas (algumas vezes percebidas
por nós como produtos do acaso, do destino ou até mesmo da própria escolha). O
importante é a aceitação dessa inexorabilidade, que o filósofo chamou de amor fati.
Por
que faço acima uma referência à filosofia nietzschiana? Certamente, para
justificar o fato de que retornei para Curitiba há dez dias.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
CONDICIONAMENTO RELIGIOSO
O Grande Houaiss traz a
significação seguinte para o termo condicionamento:
FISL PSIC processo de associar, pela repetição, um estímulo a uma reação não
natural, de tal modo que a exposição a tal estímulo passe a provocar essa reação.
Em Considerações neoateístas (2016), publico um exemplo para ilustrar o
processo condicionante:
Uma criança santiaguense, antes mesmo de ser
alfabetizada pelos pais ou pela escola, é apresentada à Bíblia – o livro ditado
pelo deus judaico-cristão. Dessa forma, ela passa a ter uma iniciação, um
condicionamento na religião em que fora batizada nos primeiros anos de vida.
Outra criança, nascida em Gardez (Afeganistão), antes mesmo de ser alfabetizada
pelos pais ou pela escola, conhece o Corão – o livro ditado pelo deus do
islamismo... O resultado é bastante diferente: um novo cristão aqui e um novo
islâmico lá.
Em razão de meu espírito crítico, filosófico, pergunto por que as duas
crianças acima creem em religiões diferentes, em deuses diferentes. Outros
exemplos são tão numerosos quanto o número de religiões no mundo.
Numa postagem no Facebook, publiquei a foto de uma garrafa de vinho
sobre Ser e tempo de Martin Heidegger.
Uma das interlocutoras me escreve: “Deste-me uma boa ideia. Já me fartei de romeu e julieta, vou abrir meu vinho...
Quanto à leitura, vou para a Bíblia, que já é de praxe”. Em comentário
anterior, ela fora categórica: “Eu nasci crendo em Deus e sou católica por
opção depois de já crer”.
Seu condicionamento real confirma os dois exemplos hipotéticos da minha
transcrição acima. Ainda mais, denuncia um autoengano, de que um Eu se apossa
do conteúdo do próprio condicionamento, isto é, a crença.
terça-feira, 29 de maio de 2018
INTERVENÇÃO?
O Art. 142 da Constituição Federal assim se expresso verbalmente:
As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições
nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na
disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se
à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de
qualquer destes, da lei e da ordem.
Apenas para enfatizar o tema do meu texto, destaco duas informações no artigo transcrito acima: “sob a autoridade suprema do Presidente da República” e (as FA) “destinam-se à garantia da lei e da ordem”. Não há necessidade de hermenêutica para a interpretação objetiva (literal) dos enunciados entre aspas. Todo cidadão é capaz de fazê-lo, independentemente de seu grau de escolaridade.
Num
regime presidencialista, a questão “por que as FA estariam subordinadas única e
exclusivamente ao Chefe do Executivo?” se reduz a um truísmo, algo que responde
a si mesmo. Tal exclusividade, penso, constitui um legado monárquico na
organização do estado moderno.
O
emprego das FA para manutenção da lei e da ordem é muito diferente de
intervenção militar, não apenas em razão da constitucionalidade e do objeto
contra o qual se direciona a ação. Nestes dias, parece haver uma convergência
de GLO (efetivada por ordem do presidente Temer) e intervenção na política
(desejada por uma parcela da população brasileira).
O
histórico de intervenções militares no Brasil republicano pode ser resumido a
três momentos: 1) a proclamação em 1889, gênese da própria república; 2) o
Tenentismo na década de 20, que culminou com o fim da República Velha; e 3) o
anticomunismo nos 60, que pôs fim aos ensaios de João Goulart para uma
república popular. Em relação à GLO, os brasileiros puderam acompanhar
recentemente as operações de pacificação em bairros do Rio de Janeiro.
Por
mais grave que seja a crise política (e econômica) que atinge o país, a
intervenção militar equivale a incinerar a Constituição Federal, a lei maior, e
consentânea destituição dos ocupantes atuais dos três poderes (Executivo,
Legislativo e Judiciário). Esse revés democrático é demasiadamente cedo para
acontecer, a observar friamente o contexto nacional; e demasiadamente tarde,
segundo o contexto internacional.
terça-feira, 8 de maio de 2018
DESARMAMENTO VERSUS ARMAMENTO
Um
espírito verdadeiramente crítico necessita colocar a si mesmo sob uma análise, com
isso a superar o vulgo em sua tendência de ver no outro e de transferir a ele os
defeitos próprios. Para ilustrar o conteúdo do expresso acima, cito a relação
entre mim e o partido Novo.
O
primeiro valor defendido pela organização política a que sou filiado é o das
liberdades individuais. Isto é extraordinário: “o governo não deve decidir por
nós questões que são importantes para o nosso destino”. Logo após o direito à
vida, penso desde muito que a liberdade é o mais importante. Liberdade com o
pressuposto da responsabilidade.
Uma
das bandeiras mais radicais do meu partido é a revogação do estatuto do
armamento. Não posso agitá-la nas esquinas, ou defendê-la em meu discurso, na
medida em que tenho uma posição definida quanto ao uso generalizado de armas em
nossa sociedade. Essa bandeira, todavia, não impediu minha filiação ao partido.
Outras são mais importantes.
Os
pais de nossos pais diziam que os homens tinham respeito uns pelos outros,
porque andavam armados naqueles idos. Esse arrazoado é insuficiente ao
determinar a causa do respeito. Esse predicado das inter-relações tinha
antecedentes socioculturais, valores outros, ou internalizados pela família, ou
impostos pelo estado.
Hoje
a vida é pontuada pela mudança contínua, não há um tempo que tenha uma caracterização bem definida. Os dotados de uma
visão mais observadora – entre os quais me incluo sem qualquer presunção – percebemos
que, em meio à incerteza, à indeterminação, ao medo, novas necessidades surgem
no lugar dos valores essenciais. O respeito de que se orgulhavam nossos avós
não se observa nestes dias (de crise moral que afeta sociedade e estado).
O
aumento da violência é um dado inquestionável, não obstante as pessoas andarem
desarmadas. A revogação do estatuto e a liberação do uso de armas por todos (em
razão do direito individual de cada um), todavia, não assegura a pacificação e
a harmonia sociais. Não bastasse a falta de respeito em todos os âmbitos, a
violência é potencializada pela droga (que se restringia ao álcool em tempos
avoengos).
A
distância entre o cidadão de bem e o criminoso diminui consideravelmente com a
existência da arma de fogo, com grande chance de o criminoso roubar a arma de
sua vítima. A oposição pode ocorrer entre dois cidadãos de bem, que, dominados
por uma pulsão faz de um ou outro um assassino em alguns segundos.
Entre
escolher a liberdade de o indivíduo consumir droga e a interferência do estado
para coibir o tráfico violento ao extremo, não tenho outra opção. A segurança
do todo não pode depender do direito da parte. (A propósito, por que não
medidas políticas sobre o consumidor inclusive?)
Dessa
forma, continuo a defender a liberdade, que deve ser exercida com restrições em
certos aspectos – como o considerado acima. Espero que este posicionamento não
provoque minha desfiliação sumária, mas que sirva de autocrítica para o partido
Novo.
quarta-feira, 2 de maio de 2018
CRÔNICA DE FOZ DO IGUAÇU
Foz do Iguaçu é, pela quarta vez, o destino de minha viagem. Ora a trabalho (1986 e 1987), ora a passeio (1988 e 2018), o lugar continua a me atrair com uma força inexplicável, que, em princípio, atribuo à aproximação entre natureza e artifício (como também ocorre de uma forma soberba em Rio de Janeiro).
Outras pessoas são igualmente atraídas pelo conjunto de pontos turísticos existente nas três fronteiras. Apenas nesse domingo, calcula-se que 16 mil turistas visitaram as cataratas do Iguaçu. Um número bem maior cruzou a Puente de la Amistad, e outros tantos conheceram a hidrelétrica gigantesca de Itaipu (a considerar o fim de semana).
Decorrentes da aglomeração humana, as filas são extensas e muito cansativas. Talvez seja esse o único senão desagradável do passeio. Nem a última suba do dólar foi sentida pelos consumistas mais afoitos.
A segunda-feira (que seria chuvosa de acordo com uma das previsões) amanheceu azulíssima, com a temperatura outonal. A partir deste meio-dia, meu destino tem seu sentido mudado, a apontar para Santiago - a terra onde sou poeta.
quarta-feira, 25 de abril de 2018
EIS UMA VERDADE:
A crença noutro mundo,
numa vida além da morte, constitui a maior desgraça para este mundo, para esta
vida. Obviedade que parece escapar da percepção daqueles que creem, especialistas
na execração da Terra (que Nietzsche já rechaçara como o verdadeiro niilismo).
Depois de Platão, o cristianismo se tornou o arauto oficial dessa depreciação, a transformar o paraíso (ab origine) em inferno.
Por mais de um milênio, logrou sucesso em instituir o pecado, a dor, o sofrimento.
Felizmente, a razão humana reagiu à insanidade a ela atribuída, a tempo de fundar o verdadeiro humanismo, agora assegurado por um processo de secularização irreversível.
Depois de Platão, o cristianismo se tornou o arauto oficial dessa depreciação, a transformar o paraíso (ab origine) em inferno.
Por mais de um milênio, logrou sucesso em instituir o pecado, a dor, o sofrimento.
Felizmente, a razão humana reagiu à insanidade a ela atribuída, a tempo de fundar o verdadeiro humanismo, agora assegurado por um processo de secularização irreversível.
terça-feira, 17 de abril de 2018
PALAVRAS DE SABEDORIA
Caro
leitor, não considere esse título uma pretensão descabida antes de chegar ao
fim das linhas abaixo. Sua paciência e credibilidade serão recompensadas,
prometo-lhe de antemão. O presente texto poderá estimular uma reflexão em sua
consciência.
Minha escolha pelo conhecimento, ao
invés de acumular bens materiais (como geralmente ocorre com a maioria das
pessoas), exigiu-me muita leitura e atenta observação da realidade, dos seres,
coisas, fenômenos, tudo o que me cercava no tempo e no espaço.
Todas as veredas que percorri em busca
de sabedoria, as mais difíceis possíveis como o de conhecer a mim mesmo,
trouxeram-me a este caminho mais amplo e claro sob o sol do bem. À semelhança
do homem liberto na alegoria platônica, superei a ignorância de que somos
dotados ab origine e passei a
compreender minhas antigas crenças e preconceitos.
A nova condição, todavia, desenvolveu
em mim a responsabilidade de voltar (sempre que possível) ao interior da
caverna, para dar aos outros o testemunho da claridade. A forma preferida como
cumpro esse ofício remonta aos anos oitenta, quando comecei a expressar na
escrita o pouco que tinha conhecimento. No impedimento de dar uma camisa ao
outro (porque disponho de poucas em meu guarda-roupa), ofereço-lhe ideias. Assim
penso fazer o bem.
Lamentavelmente, como previsto por
Platão, não sou bem recebido por meus semelhantes mais necessitados, que teimam
em viver presos às correntes do dia a dia de uma forma empedernida, ignara.
Neste aspecto, o Brasil consiste numa imensa caverna, não apenas pelas
religiões (que vicejam), não apenas pelas políticas (que governam), não apenas
pelo crime (que assombram)...
Froilam de Oliveira
17 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
LULISMO: MANIFESTAÇÃO DE IRRACIONALIDADE
O irracionalismo político já constitui uma realidade no Brasil, a imitar a Alemanha na época nazista. A grande diferença é que lá, ele unificou a nação em torno de um líder e aqui, divide a nossa sociedade. O lulismo (petismo) é um fenômeno que escancara a participação do inconsciente na tessitura viva da realidade, a ignorar as difíceis conquistas da consciência (tomadas como marcas do avanço civilizatório). Inicialmente, pensei se tratar de anarquismo, estratégia dos lulistas para detonar com o establishment, por eles identificado como obra de uma elite (ainda chamada de “burguesia”). Sem uma crise de grandes proporções, que coloque em dúvida o sistema até então dominante, o socialismo não tem chance de chegar ao poder.
Em seus primórdios, o lulismo empregou o “jeitinho brasileiro”, de malícia exclusiva, na medida em que não havia mais a possibilidade de uma revolução armada (comum a outros tempos). Seus arrivistas passaram a discursar sobre a democracia, regime aperfeiçoado e instituído pelo país mais capitalista do mundo, os Estados Unidos. Nesse aspecto, eles poucos se importavam com a contradição nunca percebida pela legião de apedeutas que caiu na armadilha. Após algumas derrotas eleitorais, a oposição lulista conseguiu chegar ao Planalto, a despeito do melhor momento econômico por que atravessava o país. O primeiro “pograma” no novo governo, o Fome Zero, exemplifica a contradição já reconhecida na América Latina: a fome passa a constituir a geografia humana da América Latina socialista/socialista, notadamente Cuba* e Venezuela.
Os brasileiros deveríamos saber o que aconteceu ao longo dos governos lulistas. Infelizmente, uma parte da sociedade ainda resiste, a empunhar uma bandeira vermelha, crentes na inocência de seu grande líder. Políticos, juristas, jornalistas, professores, intelectuais, todos que o seguiam de perto, não mais se confundem como anarquistas ou socialistas. Muitos enriqueceram com a simples aproximação do poder, alçando-se a uma condição material acima da maioria (que constituiria a classe tão odiada em seus discursos). O medo de perder as regalias alcançadas não dispensando as formas ilícitas, penso agora, amplia-se para algo maior, mais assustador. Na falta de referências filosóficas, sociológicas ou psicanalíticas, denomino o fenômeno a tomar corpo de irracionalismo.
* Sugiro a leitura do romance O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura.
quarta-feira, 28 de março de 2018
MINHA LEITURA DE AUGUSTO CURY
Augusto Cury é,
provavelmente, o segundo autor brasileiro mais lido em âmbito nacional – atrás
de Paulo Coelho. Esse dado não pressupõe que haja muitos leitores no país, cujo
deficiente de leitura aumentou consideravelmente com a massificação de computadores
e celulares.
Do campeão de venda acima
citado, consegui chegar ao fim de O
alquimista, um livro muito aquém da crítica. Da extensa obra de Augusto
Cury, adquiri dois títulos: Inteligência
Multifocal e Ansiedade (como
enfrentar o mal do século). O primeiro fui obrigado a abandonar já nas
primeiras páginas, e o segundo leio apenas para destacar as passagens em que o
autor, não raro, expressa sua imodéstia ou seu blefe pseudocientífico.
Em cada página de seu livro
é possível destacar uma referência às próprias teorias, seja a da Inteligência
Multifocal, seja a da Síndrome do Pensamento Acelerado. Ele considera tal
síndrome como o “mal do século”, a despeito do século contar tão somente com 15
anos em sua primeira edição. Com frequência, para fazer valer suas ideias,
escreve que grandes pensadores e cientistas estão equivocados:
O processo de
construção de pensamentos e todas as suas implicações psicológicas e
sociológicas não foram estudados sistematicamente por brilhantes pensadores
como Freud, Jung, Roger, Skinner, Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, Nietzsche,
Jean-Paul Sartre, Hegel, Kant, Descartes, entre outros (p. 31).
Líderes espirituais,
políticos, juristas, médicos comentem erros seriíssimos porque creem que o
pensamento é instrumento da verdade (p. 42).
Neurologistas,
psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos, ao observar crianças e adolescentes
agitados, inquietos, com dificuldade de concentração e rebeldes a normas
sociais, chegam a diagnósticos errados, atribuindo tais comportamentos ao
transtorno de déficit de atenção ou hiperatividade, quando a grande maioria
desses pacientes é vítima da Síndrome do Pensamento Acelerado (p. 46).
O blefe pseudocientífico de
Cury consiste num misto de tautologia e paráfrase de ideias já existentes, como
nos excertos abaixo:
Tudo o que mais
detestamos ou rejeitamos será registrado com maior poder, formando janelas
traumáticas, que denomino killer (p. 31).
Estamos na era do
conhecimento, da democratização da informação, mas nunca produzimos tantos
repetidores de informações, em vez de pensadores (p. 33).
A construção de
pensamento não é unifocal, mas multifocal, não dependendo apenas da vontade
consciente, ou seja, do Eu, mas de fenômenos inconscientes (p. 35).
... o primeiro ato do
teatro psíquico ocorre em milésimos de segundo e não através da atuação do Eu,
mas através de dois atores inconscientes, o gatilho e as janelas da memória (p. 40).
Com
o objetivo específico de destacar outras passagens do livro, que justifiquem o
culto a si mesmo e os disparates de seu autor, continuarei a leitura de Ansiedade. Farei um esforço para chegar
à última página e reescrever este texto posteriormente. Não é pretensão
desmascarar o autor em pauta, coisa que outros mais capacitados não conseguiram
com uma crítica mais elaborada. Preocupa-me, todavia, a baixa qualidade da
leitura de meus compatriotas.
sábado, 24 de março de 2018
ESQUERDA ARRIVISTA
A História tem nos
ensinado qual a estratégia pseudodemocrática da esquerda para chegar ao poder.
Nada diferente do que os teóricos, velada ou abertamente, vêm instruindo desde
muito.
Primeiro seus seguidores pensam (Marx deve inconfessadamente a
Prudhomme) e agem como anarquistas, com o intuito de provocar uma crise em seus
países. Nessa linha, realçam uma distinção de classes e fomentam o ódio aos
melhores estabelecidos economicamente. O discurso de Marilena Chauí contra uma classe
média, a despeito da condição etílica em ela se encontrava, constitui prova do
que expresso no período anterior.
Depois, por intermédio da política, elaboram
programas sociais e os aprovam com a consequente obtenção do apoio do povo
(pior estabelecido economicamente).
A Venezuela é hoje o exemplo mais conhecido
de “transformação”, com a crise instituída e com o socialismo dando as caras. O
próximo passo seria o comunismo, um sistema de organização social que nem a
força do Exército Vermelho conseguiu impor aos cidadãos do leste europeu.
A
partir da debacle soviética, o sonho da esquerda na Venezuela (no Brasil e no mundo)
depreende um ressentimento, um passadismo rançoso, um deboche com a própria
História.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
POR QUE LEIO BAUMAN?
Nos
últimos anos, venho fazendo as melhores leituras da minha vida. Não poderia ser
diferente, levando-se em conta a evolução intelectual a que me submeto ao dialogar com grandes pensadores
contemporâneos. O texto científico me causa tanta fruição quanto o filosófico e
o literário, porque vejo com olhos iguais a verdade e a beleza.
Entre
os autores que mais me exigem atenção, cito os seguintes: Richard Dawkins, Sam
Harris, Jared Diamond, Yuval Harari, Luk Ferry, Daniel Dennett, Edgar Morin, André
Comte-Sponville, Michel Onfray e Zygmunt Bauman. Não abandonei aqueles que
despertaram em mim o gosto pelo conhecimento (no princípio dos anos oitenta):
Friedrich Nietzsche, Charles Darwin, Sigmund Freud, Bertrand Russel, J. Krishnamurti,
Erich Fromm e outros. Esses grandes revolucionários continuam sendo
imprescindíveis para uma melhor compreensão da realidade.
Por
que gosto muito de Zygmunt Bauman? O pensador polonês disserta sobre assuntos
atualíssimos, sobre problemas de um planeta “negativamente globalizado”, que
não mais admitem soluções locais. Leio Bauman, porque ele critica nossa
sociedade, altamente consumista, a qual confunde felicidade com essa corrida
frenética atrás das coisas. Leio Bauman, porque ele percebe claramente o fim do
espírito sociável e sua antípoda nefasta, o individualismo radical. Leio
Bauman, porque ele se debruça sobre a ética, certamente o campo mais fecundo e
ao mesmo tempo necessário da filosofia prática. Leio Bauman, porque ele se
adianta às minhas reflexões.
Ontem
concluí a leitura de Tempos líquidos,
o décimo livro do sociólogo (e filósofo) polonês a enriquecer minha estante. Nele
é questionada a falta de segurança que assombra a modernidade líquida, a qual
ainda alimenta quixotescamente uma “guerra contra o terrorismo”. Outro capítulo
é destinado a analisar o paradoxo do capitalismo, que extrai sua energia vital
da remoção de ativos, “asset stripping”, como uma cobra que se alimenta do
próprio rabo. Em seguida, escreve sua a evolução da democracia, a luta contínua
para associar direitos sociais a direitos políticos. O último capítulo, A utopia na era da incerteza, o autor
constata que “você já não espera seriamente fazer do mundo um lugar melhor para
se viver”, “a insegurança veio para ficar”.
O
laboratório em que Bauman elabora seu pensamento é o mesmo que disponho aqui e
agora. Para acessá-lo, basta ir até a janela deste apartamento e observar o
movimento de pessoas e automóveis lá embaixo.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
COMENTÁRIOS (IM)PERTINENTES
APORIA POLÍTICA
Sou
de direita. Penso e defendo um Estado mínimo. O Estado, como se apresenta no
atual momento histórico, caminha a passos largos para a bancarrota (ruína,
falência, quebra). Ao terceirizar alguns serviços essenciais, as empresas
contratadas planejam faturar dez vezes mais que o justo (em razão de seu
cliente ser exatamente o Estado). Isso resulta num maior gasto aos cofres
públicos. Qual a solução?
COLETA DE LIXO
Santiago
já exemplifica o dilema exposto acima. O município não mais tinha condições de
coletar e tratar todo o lixo produzido na área urbana (um exagero que responde
pelo consumismo desenfreado). A alternativa foi terceirizar, repassando para os
munícipes uma taxa para cobrir a nova despesa. O que poucos onerados sabem é
que entrará em vigor um aumento exorbitante dessa taxa, mais exatamente 33%% para as coletas residenciais e 140%% para as coletas comerciais.
RODOVIAS E ESTRADAS
O aumento de taxas e impostos é tão somente
uma das provas de que o Estado (em todos os âmbitos) se encontra em crise. As
rodovias e estradas da nossa região também comprovam a ineficiência (pela
péssima gestão) ou impotência (pela falta de recursos) do estado do Rio Grande
do Sul e do município de Santiago. A RS-377 entre Santiago e São Francisco de
Assis, mais exatamente entre a entrada para Vila Kraemer e Picada do Padre,
está quase intransitável, forçando muitos condutores de veículos a fazer a
volta por São Vicente. As estradas do interior santiaguense são empedrados
naturais, coisa que nunca aconteceu em administrações passadas.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
PADRES MITÓFILOS (OU MENTIROSOS)
Os missionários da Companhia de Jesus que desembarcaram no
continente há pouco descoberto pelos navegadores europeus, não encontravam aqui
um terreno propício para impor a doutrina cristã. Alguns deles, a propósito, foram
sacrificados pelos nativos, que ainda viviam num estágio de selvageria (cujo ápice
evolutivo chegava ao arco e flecha).
Não foram poucos os mitos (ou mentiras) que os padres contaram
aos “índios”, no afã de persuadi-los a aceitar o mito maior (a mentira maior). Um
desses mitos auxiliares é facilmente destacável na catequese ministrada na
povoação de São Tomé (fundada em três lugares e tempos distintos).
A crença existente entre os donos da terra de que o apóstolo
São Tomé já estivera entre eles há muitos séculos era exatamente um desses
mitos acessórios, uma mentira que não resistiu ao veredito do conhecimento
posterior. Os padres a contaram como meio de justificar suas próprias presenças
em meio aos “índios”. São Tomé, reza o mito, teria vindo anteriormente, para
anunciar a visita futura dos evangelizadores da Companhia de Jesus.
Os homens de sotaina, não desconfiavam os novos crentes,
adiantavam-se, como aves pressagas, ao fim da liberdade e da vida natural das
nações indígenas. A conversão ao cristianismo representava o primeiro ato dessa
destruição humana, que mancha o passado da humanidade de uma forma inapagável.
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
POLUIÇÃO AUDITIVA
Ultimamente,
pessoas bem intencionadas protestam contra templos cristãos bem intencionados, que
oram e cantam em volume muito alto.
A
boa intenção dos reclamantes é o silêncio, algo cada vez mais escasso no
cenário urbano. A boa intenção dos evangélicos (pastores e fiéis) é de “arrebanhar”
mais seguidores para sua igreja. Não cabe aqui chamá-los de hipócritas
(ignorantes do que o mestre ensina em Mateus 6.5-7, sobre a maneira correta de
orar a Deus). A propósito, se Deus é onipotente, onipresente e onisciente, por
que aqueles que creem nesses atributos divinos se reúnem em algum lugar (ou
para pedir, ou para agradecer a ele)?
No
confronto das boas intenções acima expostas, caso me fosse dado prerrogativas
de juiz, decidiria pelo seguinte: toda pregação e cantoria não podem transpor
os limites físicos do templo (que deverá ter isolamento acústico, à maneira dos
clubes sociais).
Malgrado
a impossibilidade do silêncio absoluto, toda emissão de som necessita de controle,
sob pena de ocorrer o contrário: o incômodo auditivo, a poluição.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
ELEIÇÕES DE 2018
Os
(pseudo)democratas enchem a boca para discursar sobre a importância das
eleições diretas, como ato popular inexcedível. Uma demagogia sem vergonha, que
menospreza a inteligência e o senso ético ainda existentes no citado e explorado
povo brasileiro.
O
voto, todos sabemos, nada faz mais que chancelar uma escolha feita dentro dos
partidos políticos, hoje uma das instituições com menor índice de credibilidade
no país. Depois das urnas, os eleitos se reúnem em torno das bancadas
estanques, dos próprios partidos ou do Congresso (no caso do Legislativo), bem
como dentro do Planalto, onde se encastela parte do governo (no caso do
executivo). Nos dois casos, deixa-se de ser observada a vontade do povo ao
longo de quatro anos a mais.
A
última eleição em âmbito nacional constitui a prova da tese desenvolvida acima.
O eleitor não tinha outra escolha, já polarizada entre Dilma Rousseff e Aécio
Neves. Impeachment da presidente
(nunca “presidenta”) e cassação do outro (impedida pelo corporativismo assegurado
pela maioria).
E
Michel Temer, o presidente que assumiu com ou sem “golpe”, o que fez de
coerente com a escolha popular (que o alçou a vice-presidente)?
Os
mesmos (pseudo)democráticos não reconhecem que há um abismo entre o Estado e a
sociedade civil, por conta daqueles que conduzem temporariamente a res publica.
A propósito, o Brasil está longe de ser uma república em que o cidadão comum
tenha a mesma condição democrática que o funcionário do Estado.
Para
concluir, exponho uma ideia que me perturba por sua originalidade e pessimismo:
as eleições de 2018 não resolverão os problemas políticos e econômicos dos bruzundangas.
Pensem
nisso, enquanto lhes digo até a próxima postagem.
domingo, 15 de outubro de 2017
Um grupo de intelectuais brasileiros responde afirmativamente, baseando-se na arte conceitual, cuja tendência é de valorizar a ideia e não os aspectos materiais.
Dessa forma, o expectador é levado a interagir com a obra para compreender as intenções do artista.
Quem produziu o corpo humano? Deus, creem os criacionistas. A natureza, respondem os evolucionistas. Pouca diferença faz saber quem é o autor.
Se o corpo nu é arte, tudo mais o é: uma árvore, um cão dormindo, um carrapato, uma flor... Isso significaria o fim do próprio conceito de arte, muito além do que Michel Archer chamou de "fim das certezas".
A obra de arte, independentemente de toda definição, necessita da intervenção do homem como artista, único capaz de produzi-la com um propósito não apenas estético.
O corpo nu pode ser interface ou instrumento para alguma manifestação ou performance artística: tatuagem, pintura, joia, roupa, dança, imitação, fotografia etc.
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