sábado, 24 de junho de 2017

PESSIMISTA OU REALISTA?

Não sei se sou mais pessimista que realista, ou vice-versa. Os brasileiros chegam a um consenso: diretas já. Todos creem (à exceção de mim) que novas eleições resolverão os nossos problemas políticos, não obstante o grau de irresolubilidade que tenham alcançado nestes dias. Não penso assim. Dentro de um ano, novo processo eleitoral será aberto, com a possibilidade de ser conduzido pela “soberana vontade do povo”. E daí? Uma nova equipe de governo (presidente, ministros e secretários), por acaso, será composta apenas por pessoas incorruptas e incorruptíveis? A Lava-Jato continuará inconclusa, ou dará origem a outras operações do gênero. Os otimistas que me perdoem, vítimas fáceis da demagogia e do fisiologismo de nossos políticos. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

UMA ESTRADA


Uma estrada é a melhor metáfora para a vida. Tal associação semântica precede a existência do primeiro poeta que a empregou na Antiguidade. 
Da parte que me cabe, já aludi mais de uma vez a ela, sem me importar em ser pouco original. Algum aspecto da vida (e da estada), de repente, adquire a significação de algo que escapou à vista até então. 
Ao deixar a cidade nessa manhã, senti o prazer quase indescritível de estreitar a relação estrada–vida, tornando-a mais real que metafórica. 
Por um momento, desejei isto mesmo: dirigir por uma estrada sem destino, despreocupado com o vem pela frente ou com o que fica para trás. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MELINDRES FERIDOS...

Pessoas que acreditam num deus pessoal (tratado de “senhor” pelos cristãos), de quando em vez, interpelam-me nas redes sociais, exigindo mais respeito à sua fé, à sua religião. Elas se incomodam com a naturalidade da forma como me expresso sobre a não existência de um deus pessoal, a ilusão que significa noutras palavras sua fé e a grande mentira pregada pela sua religião. A recíproca não é verdadeira, na medida em que não me incomoda a forma debochada com que tratam minha descrença, o ateísmo de um modo geral. Pelo contrário, acho até engraçado me dizerem que não há ateu em avião que cai. Como saber a rápida conversão na iminência da morte? Os acidentes aéreos, salvo raríssimas exceções, não há sobreviventes. Na contracapa de meu livro Considerações neoateístas, faço referência a essa ironia, cujo contraponto é extraordinário: nenhum avião interrompeu sua queda por motivo das súplicas e orações feitas a um deus pessoal. Por uma questão de ética, todavia, não baixo o nível, para rebater argumentos já ultrapassados, preconceituosos, obsoletos. Há um processo de secularização em andamento desde Nicolau Copérnico, passando pelos empiristas, Iluminismo, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Albert Einstein, Bertrand Russel, Círculo de Viena, genética e neoateístas do século XXI, que apresenta um novo paradigma, fundamentado no espírito filosófico e científico. Sou apenas um arauto desse processo civilizacional, que não tem a voz cálida para se desculpar com os melindres feridos.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

COMENTÁRIOS DIVERSOS



O grande mal realizado por Marx foi deflagrar a dualidade burguesia versos proletariado, que a era pós-industrial se encarregou de eliminá-la de vez. É risível, que alguns marxistas (burgueses) continuam a repetir feito papagaio essa fórmula de criar o conflito social.

Entre os livros mais importantes da história humana, cito A revolução dos corpos celestes, de Nicolau Copérnico, A origem das espécies, de Charles Darwin, e A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud. Coincidentemente, os três livros são responsáveis pelas três grandes frustrações da civilização ocidental, provocadas com as descobertas, respectivamente, do heliocentrismo, da evolução das espécies pela seleção natural e do inconsciente.

À exceção da rádio da URI, as demais são, ou de tendência católica, ou evangélica.
Semana passada, alguém apresentou um programa radiofônico, em que discorreu sobre o Milagre do Sol, ocorrido na Cova de Iria, em Fátima, Portugal. Segundo ele, católico fervoroso, Lisboa era a cidade mais descrente do mundo, governada por comunistas ateus. Tais autoridades chegaram a prender Lúcia, Francisco e Jacinta, as três crianças que viram Nossa Senhora de Fátima.
Não havia comunista em Lisboa na época, senão democratas que implantaram a república portuguesa em 1910.
Um dos pontos fortes da nova constituição normatizava sobre o programa de laicização e secularização da república recém-constituída.
Ainda na monarquia, derrubada pela revolução republicana, a Igreja Católica praticamente governava (sob a beneplácita omissão do rei D. Manuel II).
Diante da inadmissibilidade das congregações organizadas pela igreja e da Companhia de Jesus, foi inevitável o choque entre a instituição religiosa e o governo.
O apresentador do programa deveria conhecer um pouco de história, saber que desmistifica a realidade.

A chuva continua a cair no Rio Grande do Sul, fazendo os rios subirem muito acima de seus leitos naturais, além de suas margens, onde residem teimosamente os homens.

CONTRADIÇÕES VEGETARIANAS



O jovem diz ser vegano, fazendo uma careta de nojo diante da costela assada (posta à mesa), no entanto, não curte a salada de aboborinha verde.

A senhora diz ser defensora dos animais, que sofrem horrores ao serem mortos. Ela chega a citar o filósofo Peter Singer, para dar maior credibilidade a seu argumento, no entanto, aderiu ao colágeno hidrolisado como última tentativa de emagrecer, ter pele, unha e cabelo perfeitos. O colágeno é extraído do osso e da cartilagem do boi, que deve ser morto antes de fornecer a matéria-prima para a tal “bebida da beleza”.

Em Curitiba, tive um colega de trabalho que não se alimentava de carne por uma questão ética (dizia ele): era contra a matança de animais, no entanto, usava sapato de couro, cinto de couro, carteira de couro...

terça-feira, 6 de junho de 2017

DESEMPREGO E OCIOSIDADE



Keynes* já foi ultrapassado pela chamada 3ª Revolução Industrial, que chega ao Brasil com benfazejo atraso e morosidade. Caso ela viesse antes e com rapidez, maior seria o desemprego (seja nos centros industriais, seja no campo). A automatização diminui o emprego de braços humanos – produzindo mais. A massa de desempregados (condenada à pobreza pelo sistema capitalista) será obrigada a viver ao lado de um maior número de pessoas ociosas (beneficiadas pelo mesmo sistema).
* John Maynard Keynes (1883 – 1946) foi um economista britânico, adepto de uma política econômica de estado intervencionista. Um de seus dogmas pregava que a retomada dos investimentos reduz o desemprego.
P.S.: Temer é keynesiano.

O ESTADO IDEAL

Segundo Platão, o Estado nasce em razão da não autarquia de cada indivíduo, isto é, o homem não se basta a si mesmo e tem necessidade dos serviços de muitos outros homens. 
Em primeiro lugar, são imprescindíveis os serviços de todos aqueles que provêm às necessidades materiais, desde o alimento até as vestes e a habitação. No liberalismo atual, o mercado desempenha em grande parte essa função.
Em segundo lugar, são necessários os serviços de alguns homens responsáveis pela guarda e defesa da Cidade (Estado). Hoje todos reclamam da falta de segurança.
Em terceiro lugar, é necessário a dedicação de alguns poucos homens que saibam governar adequadamente. 
A Cidade, portanto, necessita de três classes sociais: 1) a dos lavradores, artesãos e comerciantes (agricultura, indústria e comércio); 2) a dos guardas (polícias e forças armadas); 3) a dos governantes (políticos).
(Baseado no livro História da Filosofia, de Giovanni Reale e Dario Altiseri.)

sábado, 27 de maio de 2017

VERDADES NEOATEÍSTAS


1 – Todo deus foi criado pelo homem – à sua imagem e semelhança.
2 – No começo, rendeu-se culto ao deus criado, transformando-o em ser sagrado; mais tarde acreditou-se que ele é que criou o homem à sua imagem e semelhança.
3 – As melhores qualidades observadas no homem foram atribuídas a deus, que as manifestaria em mais alto grau.
4 – O mundo é ciclo perpétuo (caos e ordem são meras interpretações antropocêntricas).
5 – O big bang é tão somente um algoritmo químico-físico que deu origem ao universo em que vivemos, delimitado pelo espaço-tempo já conhecido pelo homem.
6 – Outros universos foram, são e serão possíveis, originados a partir de outros algoritmos.
7 – Nesses universos, a vida foi, é ou será um fenômeno possível (da bactéria ao além-do-homem).
8 – Não há mundo-além e tampouco vida depois da morte.
9 – A alma é imanente ao corpo, também sujeita à temporalidade.
10 – Você é um algoritmo do ser. 
P.S.: Os algoritmos são criados pelo próprio fenômeno, como, por exemplo, a evolução da vida neste planeta.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

EU (DIVIDIDO EM DOIS)

Tu pensas e tens certeza de que teu eu é indivisível, inviolável, senhor absoluto de tua própria individualidade. O eu é o centro, a base centralizadora de todas as percepções de teu corpo, de tua consciência.
A verdade precisa ser dita (nem que faça o mundo em estilhaços, no caso em pauta, o eu): sinto muito te dizer que és sujeito e objeto de um autoengano.
Teu eu é dividido em dois: o eu que vive a experiência e o eu da narrativa. Por acaso, sabias disso? Não sabias, certamente. Não te recrimines por isso, todavia, a ignorância é a regra.
Na cadeira odontológica, quando o dentista coloca a broca em tua boca e desgasta o dente (mesmo não estando dolorido, em razão da anestesia), teu eu é o da experiência. Nesse momento, o desconforto que tu sentes pode ser quantificado por um nível alto (numa escala de 0 a 10).
Depois da experiência, passado um tempo qualquer, o eu da narrativa avalia a experiência, com tendência a ignorar sua duração, fazendo uma média entre o desconforto/dor e o final, com o problema resolvido. Dessa forma, a experiência narrada baixa o nível do desconforto/dor.
Para Harari (2016) “o eu da narrativa não agrega experiências – ele tira uma média entre elas”. Em seu livro Homo Deus, Harari cita os estudos feitos por Daniel Kahneman (Nobel de Economia) e Donald Redelmeier (Universidade de Toronto).
         Cito Harari, por puro academicismo. O que realmente queria dizer dispensa o  último parágrafo acima.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ALGORITMO, DATAÍSMO...

Abaixo transcrevo uma das últimas páginas de Homo Deus (2016), de Yuval Noah Harari*:

“Na Babilônia antiga, quando enfrentavam um dilema difícil, as pessoas subiam ao topo do templo local na escuridão da noite e observavam o céu. Os babilônios acreditavam que as estrelas controlam nosso destino e predizem nosso futuro. Observando-as, eles decidiam se casavam, aravam o campo e iam para a guerra. Suas crenças eram traduzidas em procedimentos práticos.
“Religiões baseadas em escrituras, como o judaísmo e o cristianismo, contam uma história diferente. ‘As estão mentindo. Deus, que criou as estrelas, revelou toda a verdade na Bíblia. Então parem de observar as estrelas – em vez disso, leiam a Bíblia.’ Essa também era uma recomendação prática. [...]
“Na sequência, vieram os humanistas, com uma história totalmente nova: ‘Os humanos inventaram Deus, escreveram a Bíblia e agora a interpretam de mil maneiras diferentes. Assim, eles próprios são a fonte de toda a verdade. Você pode ler a Bíblia como uma criação humana inspiradora, mas não é obrigado a isso. Se está diante de um dilema, ouça apenas você mesmo e siga sua voz interior’. O humanismo dava então instruções práticas detalhadas de como ouvir a si mesmo, recomendando ações tais como observar o pôr do sol, ler Goethe, manter um diário particular, ter conversa de coração aberto com um bom amigo e realizar eleições democráticas.
“Durante séculos , os cientistas aceitavam também essas diretrizes humanistas. [...]
[...] “Depois de Darwin, os biólogos começaram a explicar que sentimentos são algoritmos complexos aprimorados pela evolução para ajudar os animais a tomar decisões importantes. Nosso amor, nosso medo ou nossa paixão não são fenômenos espirituais nebulosos que servem apenas para compor poesia. Em vez disso, eles encapsulam milhões de anos de sabedoria prática. Quando você lê a Bíblia, está sendo aconselhado por alguns sacerdotes e rabis que viveram na antiga Jerusalém. Em contrapartida, quando presta atenção a seus sentimentos, está seguindo um algoritmo que a evolução desenvolveu durante milhões de anos. [...]
“No século XXI, no entanto, os sentimentos já não são mais os melhores algoritmos no mundo. Estamos desenvolvendo algoritmos superiores que utilizam um poder computacional inédito e bases de dado gigantescas. Os algoritmos do Google e do Facebook sabem não apenas como você se sente, como sabem 1 milhão de outras coisas a seu respeito. [...] O humanismo ordenava: ‘Ouçam seus sentimentos!’; o dataísmo agora ordena: ‘Ouçam os algoritmos! Eles sabem como você se sente!’.
“’Quer saber quem você realmente é?’, pergunta o dataísmo. ‘Então esqueça as montanhas e os museus. Você já obteve sua sequência de DNA? Não?! Vá e faça isso hoje mesmo.’”
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Yuval Noah Harari nasceu em 1976, em Israel. É autor de Sapiens: Uma breve história da humanidade. É ph.D. em história pela Universidade de Oxford e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

O RICO, O POBRE E O QUE RI

         A riqueza material transforma o homem num ser quase inatingível para a massa. Os olhos (mais importante órgão da percepção sensorial) do homem rico veem num plano acima dos olhos do pobre.
         Para onde e o que olha o rico? Ele olha para o horizonte mais distante, sobre o qual brilha o sol do liberalismo. Abaixo de sua visão, o outro não passa de uma silhueta pouco identificável.
         Para onde e o que olha o pobre? Ele olha para cima, à procura do olhar do outro (entre a soberba e a indiferença).
         O que é risível no rico? Sua incapacidade de esconder os vícios de caráter, comuns à massa a que ele pertencia antes (menos evoluída econômica e culturalmente).  
         O que é risível no pobre? Seu anseio patológico de parecer rico, a ostentar objetos e comportamentos que identificam o outro.
         Quem pode rir do rico e do pobre, sem denunciar a hipocrisia (do tipo “uvas verdes”) ou o complexo de vira-lata?
         Alguém que superou os valores mais caros da sociedade de consumo, que compreendeu a diferença entre ter e ser, que possui coisas indispensáveis para viver (pobre na aparência), que continua a buscar os bens imateriais propiciados pela sabedoria (rico na essência), que transita entre pobre e rico com igual naturalidade, que pode parecer um tanto presumido...
         Seu riso, todavia, faz-se acompanhar de empatia, vista raramente pelo homem condicionado ao âmbito do ter, pobre ou rico.  

domingo, 21 de maio de 2017

A MATTER OF FAITH




Ontem vi mais um filme na NETFLIX: A matter of Faith. Esse título me chamou a atenção, aumentada com a descrição breve: “A crença de uma aluna cristã é abalada durante as aulas de biologia, mas seu pai entra em cena para impedir que ela abandone a fé”.

O filme é fiel ao país de origem, um dos mais cristãos do planeta, em que metade da população acredita piamente que “Deus escreveu um livro” (Sam Harris).

A universidade em que estuda Rachel promove um debate curricular entre o professor de biologia e o pai da aluna, respectivamente na defesa da evolução e do cristianismo. Antes do debate, no entanto, a jovem universitária sai em defesa de sua religião.

Não há necessidade de considerar o desfecho do filme. Decepcionado, fui pesquisar sobre seu diretor: Rich Christiano, um cristão convicto.