sábado, 31 de janeiro de 2009

BOM RETIRO

Não viajei nestas férias. Gostaria de ter ido a Porto Alegre, visitar pessoas e procurar livros de poesia nos sebos. Gostaria de ter nadado em alguma praia do sul. Gostaria de, finalmente, ter conhecido Buenos Aires, Ushuaia, Titicaca, Macho Pichu... Outra vez, fiquei em Santiago. Fui duas vezes ao Rincão dos Machado. Sábado passado, 24, reuni os parentes na casa do meu pai. Churrasco e bolo de aniversário. Hoje a festa foi no Bom Retiro: Bodas de Diamante dos meus tios Ladi e Nida. Ótima oportunidade para rever pessoas. Por elas, abro mão de certas convicções e escrevo
O amor é a soma de tantos sentimentos, os mais nobres que caracterizam o coração humano: confiança, fidelidade, tolerância, amizade, entre outros. Isso o distingue da paixão, que consiste num arroubo emocional, mescla de libido e fantasia. O amor é real, nasce a partir de uma experiência afetiva, desenvolve-se na conjunção de duas personalidades afins e estabiliza-se ao longo de uma vida em comum.
Há exatamente sessenta anos, iniciava-se a união matrimonial entre Leonida e Aladi. A promessa que fizeram diante de Deus está sendo cumprida, como o testemunham seus filhos Alnei, Fermino, Almir e Luís Carlos; suas noras Ivonete, Enedir, Jussara e Lucinda; netos Cléber, Alex, Bruno, Giorgio, Glauber, André e Rafael; neta Fabiana; e bisneta Bibiana. Todos os parentes e amigos, pessoas conhecidas do casal, são testemunhas do voto que hoje se renova pela sexagésima vez. A singularidade dessas bodas merece o registro no mais duro dos cristais e na mais valiosa das gemas – o diamante.
O amor que une Nida e Ladi, porque é verdadeiro, orientado pelos preceitos cristãos, transcendeu todos os obstáculos que surgiram inoportunamente. Essa aliança inquebrantável representa a própria felicidade do casal e de seus descendentes. Um exemplo, principalmente para os mais jovens, de bem-querer, tolerância, confiança, fidelidade e tantos nobres sentimentos que constituem a fórmula do amor.

Dedico esta postagem aos meus tios Aladi Soares de Oliveira e Leonida Rebelo de Oliveira, pelos 60 anos de casamento. Muitas felicidades!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

COMENTÁRIO ABERTO

Em Observando a Natureza, Dr. Disconzi compara o espermatozoide que consegue fecundar o óvulo com um supercampeão, uma vez que a distância que percorre de A para B pode ser equivalente a 500 quilômetros. Transcrevo o comentário que fiz em seu blog: Sobrevive o mais forte (mais rápido, mais sadio) descobriu Darwin. O leopardo que corre mais consegue alcançar a gazela, consegue se alimentar, consegue vencer seu oponente na disputa pela fêmea e consegue passar adiante sua carga genética. Em contrapartida, a gazela que consegue fugir do leopardo, consegue reproduzir. O homem, a partir de sua concepção, passa a negar o evolucionismo natural. Os doentes, os fracos, os covardes, todos conseguem se reproduzir, protegidos pelo grupo social.
.
O T. aborda no seu blog a questão do desarmamento. Para concordar com o blogueiro, cito um aforismo de Publius Flavius Vegetius Renatus: Si vis pacem para bellum (Se quereis a paz, preparai-vos para a guerra). Para um romano, esse discurso era lógico. Para os grandes exércitos da modernidade, o poderio bélico é conditio sine qua non. À exceção dessa representação armada, de âmbito nacional (ou supranacional), as sociedades deveriam ter o desarmamento como princípio norteador da boa convivência entre seus indivíduos.
O maior mal, todavia, não está na arma de fogo em si. Ele se abriga no coração dos homens, onde é germinal. Na hora de a violência se transformar em ação, até um espeto pode se constituir numa arma perigosa. Não foi isso o que aconteceu em Santiago há pouco tempo?
.
A seleção da Eliziane Pivoto Mello para mestrado em Ecologia é um acontecimento raro em nossa cidade. (Essa jovem tem cidadania múltipla, regional, e, por sua opção ecológica, passa a ser uma cidadã universal.) Graduada em Ciências Biológicas, pós-graduada em Docência Superior e Leitura, Análise, Produção e Reescrita Textual, a Lizi não terá dificuldade em se tornar mestra nessa área ainda emergente do conhecimento. Esforçada e inteligente, também fará doutorado.

FORO = FÓRUM

Caso vivêssemos na Roma antiga, certamente falaríamos e escreveríamos "forum". Como o português, a "última flor do Lácio, inculta e bela", teve origem do latim vulgar levado à Península Ibérica, por soldados e padres romanos (em fases distintas), a palavra sofreu um metaplasmo. Por sua dinamicidade, a língua tende à simplificação, à economia. Assim, a forma etimológica "forum" declinou para "foro", mais popular. Todavia, continuou sendo utilizada como opção erudita (grafada com o sinal diacrítico sobre o "o", obedecendo à regra da acentuação). Na comunicação, o que mais interessa é a acepção, o significado, tanto faz falarmos ou escrevermos "foro" ou "fórum".
Quanto à mudança do Fórum (ou Foro) de Santiago para a av. Batista Bonoto Sobrinho, sou contra (pelos mesmos motivos que seria se se tratasse da Prefeitura e Banco do Brasil, por exemplo).

UMA CRÔNICA BELÍSSIMA

Ao revisar as provas da próxima edição do Expresso Ilustrado, deparo-me com esta crônica belíssima do Márcio Brasil:
..................Sem avisar, sem esperar
Clarissa gostava da casa arrumada e as coisas no lugar. Tinha dado trabalho, mas tudo estava como ela queria. Se vez por outra deixava a bolsa no sofá da sala era por preguiça, mas sabia que ao acordar, ela continuaria por lá. No mais, tudo era regrado. As plantas bem cuidadas. As roupas nos cabides e gavetas certas. O piso era brilhoso, as cortinas na posição que ela gostava, sem iluminar tanto, sem escurecer muito, a meio tom. Se ia para o quarto, apagava a luz da sala e vice-versa. Tudo era impecável, tudo estava no lugar. Até mesmo os diversos cadernos do jornal de domingo, nada de espalhá-los pelo sofá ou em cima da mesa. Ela era feliz assim, com suas regras e com seu mundo perfeito. Clarissa vivia só, sim, mas estava bem acompanhada. Até que veio um vento, desses que surgem de repente. A poeira se espalhava pelo piso alvo. Outras pegadas pelo chão. As cortinas saiam do lugar, ora claro, ora escuro. Gavetas desarrumadas, roupas fora do lugar, pedaços de jornal por toda a parte. Um vento que desalinhava os cabelos de Clarissa e que eriçava os pêlos de seu braço, causava arrepios, sussurrava em seu ouvido e que não se importava com as regras da casa. E do jeito que chegou, alvoroçado, foi embora, serenado. Restou a Clarissa alinhar os cabelos, cuidar das plantas, ajeitar as gavetas, limpar o piso, verificar as cortinas, pôr ordem na casa, rever suas regras e apagar as luzes da sala. Tudo de volta no lugar como antes. Tudo limpo e bem organizado. Mas seu coração tinha virado numa bagunça...
.
A frase final, "Mas seu coração tinha virado uma bagunça", constitui um achado, que transforma o narrado até ela em prelúdio.
Não faço essa postagem como paga das palavras gentis do meu amigo. Não há preço para um sentimento tão nobre. A doçura não me envaidece, ainda que seja outro a destacá-la.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

POEMA-PIADA

O poema-piada é um gênero poético. Muito criticado por Mário de Andrade, fez fama na pena de Oswald de Andrade. Em seu primeiro livro, Alguma poesia, o grande Carlos Drummond de Andrade também recorre ao poema curto, com humor. Para não ficar apenas nos Andrade, cito nosso Mário Quintana:
A morte é a libertação total:
a morte é quando a gente pode,
afinal, estar deitado de sapatos.
.
Muitos de meus poemas se classificam nesse gênero:
.
graffite
.
no muro da esquina

havia
uma putice
que dizia
engraçado
é dançar pelado
..................de sapato

.
diad'ódio
.
hamas
odeia

CENTAURUS A


Astrônomos da ESA (Agência Espacial Européia) conseguiram obter uma visão mais precisa da galáxia Centaurus A (NGC 5128), graças a registros de três equipamentos com diferentes comprimentos de onda. A imagem, colorida artificialmente, mostra os jatos emanados pelo buraco negro central da galáxia. Esta é a galáxia gigante mais próxima da Via Láctea.

JACKSON POLLOCK

Nesta quarta-feira, a página inicial do Google presta uma homenagem a Jackson Pollock, um dos maiores pintores norte-americanos (28 de janeiro de 1912 - 11 de agosto de 1956). Expressionista, Pollock desenvolveu uma técnica pouco utilizada na pintura abstrata, o "dripping" (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre telas imensas. O movimento que fazia com o recipiente da tinta formava traços significativos, pictóricos. O artista é o maior representante da pintura de ação (action painting).

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

LA MÚSICA


Era um mago del arpa. En los llanos de Colombia, no había fiesta sin él. Para que la fiesta fuera fiesta, Mesé Figueredo tenía que estar allí, con sus dedos bailanderos que alegraban los aires y alborotaban las piernas.
Una noche, en algún sendero perdido, lo asaltaron los ladrones. Iba Mesé Figueredo camino de una boda, a lomo de mula, en una mula él, en la otra el arpa, cuando unos ladrones se le echaron encima y lo molieron a golpes.
Al día siguiente, alguien lo encontró. Estaba tirado en el camino, un trapo sucio de barro y sangre, más muerto que vivo. Y entonces aquella piltrafa dijo, con un resto de voz:
- Se llevaron las mulas.
Y dijo:
- Y se llevaron el arpa.
Y tomó aliento y se rió:
- Pero no se llevaron la música.
............
(Eduardo Galeano - Patas arriba)

graffite

no muro da esquina
havia
uma putice
que dizia
engraçado é dançar
pelado
de sapato

poema-piada

a mulher
insistia no chapéu
em yôga

o jeito
de sentar
à maharishi

com acento
diferencial

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

RITUAL CANORO

os galos
cantam às quatro
e cincoenta
às cinco e vinte
minutos depois
e depois se aquietam
para ciscar
....................o dia

HERMES

Hermes era o deus dos ladrões e do comércio. Aos sete dias, roubou os bois de Apolo, sendo perdoado por este que se encantara com a flauta tocada pelo irmão menor. Hera o admirava pela inteligência, mesmo sendo filho de Zeus, seu marido, com a deusa Maia. Mais tarde, para proteger vendedores e compradores, inventou a balança.
http://www.mundodosfilosofos.com.br/mercurio.htm

COOPERATIVA TRITÍCOLA

O principal assunto no interior, entre agropecuaristas, continua sendo a situação financeira da Cooperativa Tritícola Santiaguense. A maioria dos meus parentes são agricultores, filhos e netos dos sócios fundadores da Cooperativa (1956). Eles se dividem na hora de opinar sobre os destinos da entidade. Para uns (mais otimistas), a presidência de Irmo Sagrillo seria a salvação. Para outros, não. O Sagrillo, dizem estes, não seria tão ingênuo de querer levantar uma vaca moribunda, já na vasca da morte. A propósito, o Expresso Ilustrado publicou uma das melhores charges já elaboradas pelo jornal
(O chargista poderia ter desenhado a vaca já esticada no chão, sem prejuízo do texto verbal, um insight extraordinário do João Lemes.)
Um dos argumentos decisivos, expostos por um advogado presente ao meu aniversário, foi o de que nenhum produto agrícola deverá ser entregue na Tritícola, onde seria comercializado prioritariamente para pagar dívidas com os credores. Dessa forma, a melhor opção é negociar com outras cooperativas da região, preferencialmente à vista.
Uma das tetas que mais leite deu ainda continua alimentando, quiçá, os próprios devedores que contribuíram (e contribuem) para a derrocada financeira da cooperativa: os supermercados. Duvido que todos os clientes, entre os quais aqueles que continuam a dever, paguem à vista seus carrinhos cheios ao passar pelo caixa. Muita gente boa comeu por longos anos às custas do trabalho diuturno dos sócios que produziam arduamente, para serem descontados em até 18% de umidade e impureza na soja que entregavam em sua cooperativa.

EU JÁ SABIA

Em Comentário Aberto, de 11 de janeiro de 2009, postei neste blog:
Em sua última postagem, Rafael Nemitz escreve: "2009 será lembrado pelo ano da Copa Santiago ou pela Copinha de Santiago?" Fui assistir à abertura. Logo após a apresentação das equipes, avaliei que esta edição, pela ausência dos Atléticos, do Fluminense, do Vitória, do Goiás, do Peñarol, do Defensor, do Cerro Porteño, seria uma copa com menor qualidade. Em seguida, vendo o Grêmio jogar e perder para o Cerro (do Uruguai), tive certeza que restavam apenas dois times campeões: Cruzeiro e Internacional. Ótima chance para o nosso Cruzeirinho.
Com a desclassificação inesperada do Cruzeiro, apenas um time poderia (e pôde) ganhar a copa: Internacional. Mesmo sendo um gremista roxo, digo, azul, vislumbrei essa possibilidade, provando um conhecimento rápido e lúcido. Isso me livrou do incômodo de ir ao estádio para ver o grenal. Inter campeão invicto. O Grêmio deste ano apresentou o pior futebol já jogado no Alceu Carvalho. Perdeu o grenal e foi goleado pelo Juventude (na disputa pelo terceiro lugar).
Na Copa São Paulo, também fomos desclassificados pela péssima atuação da defesa gremista principalmente. Que triste perspectiva para o time profissional!
Há pouco, lendo as notícias esportivas no Correio do Povo (online), soube que o Inter também venceu o grenal no Efipan. Tenho ou não motivos para me preocupar?

domingo, 25 de janeiro de 2009

FARÓIS PARA TRÁS


Não sei quem disse ser a experiência comparável a faróis voltados para trás, mas o que disse vem de encontro ao que tenho pensado em torno dos meus cinquenta anos. Isto mesmo: de encontro (e não ao encontro). O dito está claro: a experiência chega tarde, para que traga grandes vantagens ao indivíduo que a adquire. Não foi a apreciação que fiz por ocasião do meu quinquagésimo aniversário. Se é verdadeiro que haja essa luz voltada para trás, que bom. Pelo menos há uma luz. A luz que tanto imaginei um dia poder emanar, não em proveito próprio, uma vez que a experiência me possibilita caminhar no escuro, mas em benefício daqueles que vêm atrás. Não há experiência sem a transcendência do egocentrismo. Não há luz (para frente ou para trás), independentemente da idade mais avançada. Ao escrever isso, por exemplo, penso que já ilumino. Meu grande interesse é de orientar com a claridade que emana do ser em contínuo processo de evolução.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

CINQUENTA ANOS

Amanhã, 24 de janeiro, este colunista festeja seu quinquagésimo aniversário. Por mais recato que eu quisesse manter, ao extremo de não fazer qualquer referência à data, uma emoção maior excede meu autocontrole e requer a palavra. Ao longo desta semana, oscilei entre o silêncio e a enunciação, decidindo-me a escrever sobre meus 50 anos. Astronomicamente, 50 anos equivale a 50 voltas da Terra em torno do Sol e a 1.863 dias, ou voltas do planeta sobre seu eixo. Psicologicamente, o meu tempo apresenta diversos aspectos, do mais simples ao mais complexo. Para expressá-lo satisfatoriamente, eu necessitaria de quilômetros de prosa. O espaço que disponho aqui me permite um breve comentário (que o faço em forma de uma alegoria campeira). Aos 50 anos, cavalo e cavaleiro andam ao tranquito nesta longa estrada. O cavalo (corpo) se estropia de quando em vez, mas o cavaleiro (alma) é calmo, solidário. Os problemas físicos de um são compensados pela inteligência de outro. Houve uma fase em que o então potro corria campo afora, quase escapando do controle de seu dono inexperiente. Cedo aprendeu, todavia, que sua liberdade tinha um freio, determinado pelas próprias limitações e pelas limitações daquele que sempre o conduzia. Em fase subsequente, era o cavaleiro que gostava de correr a toda brida, mas o cavalo troteava apenas. Nem sempre o conjunto foi harmônico. Em certas encruzilhadas, quando o instinto apontava para um lado, a razão impunha o rumo oposto. Hoje já não divergem mais. Trazem a mesma doçura nos olhos. Ao completar 50 anos neste sábado, estarei no Rincão dos Machado, onde reencontro o campo e o céu dos meus sonhos.
(Coluna do Expresso Ilustrado desta sexta-feira)

COPA SANTIAGO

Ouvi a entrevista com o professor Júlio Rafael, presidente do Cruzeiro de Santiago, e falei com um dos dirigentes do Grêmio. Antes de analisar o que disseram sobre a nossa Copa de Futebol Juvenil, faço as seguintes considerações:
- Na solenidade de abertura, com a apresentação das equipes, vislumbrei que o nível futebolístico da copa cairia bastante em relação aos anos anteriores.
- Muitos santiaguenses também perceberam isso.
- Pelo número de torcedores no estádio, conclui-se que há um visível desinteresse dos santiaguenses pela copa (o que não pode ser atribuído ao nível confirmado pelos placares dos jogos envolvendo o Cruzeiro e a dupla grenal).
- Mesmo se recuperando do péssimo resultado da primeira rodada, o Grêmio veio com uma equipe muito ruim, aquém das expectativas de um gremista exigente.
- Por que a organização da copa não planeja o adiantamento de uma rodada anterior à semi-final, evitando que esta ocorra sem intervalo com a final?
O professor Júlio enfatizou a importância da dupla grenal para o sucesso da nossa copa. Sem Grêmio e Inter, o evento está fadado ao fracasso, isto é, ao prejuízo financeiro. O futebol que se dane. A propósito, da minha conversa com um dos diregentes do Grêmio destaco duas de suas observações:
- A copa poderia ser realizada em menos tempo, o que reduziria os gastos. Deixo a palavra com os organizadores.
- A redução da idade em um ano para os atletas participantes não resolverá o problema de ausência reclamado este ano. O torneio em São Paulo não concorre com a nossa copa (segundo o membro da comissão gremista).
- Os melhores jogadores da dupla grenal, por exemplo, preferem ficar concentrados com os profissionais, hospedados em hotéis, do que vir a Santiago, onde não têm tão boas acomodações.
- Meu interlocutor, a despeito de sua apreciação, ressaltou que foram bem recebidos e acomodados no 5º R P Mon. São os meninos que treinam para craques futuros, exigindo mordomias acima das oferecidas em Santiago.
Para finalizar esta postagem, apresento o seguinte problema à futura diretoria do Cruzeiro (cujo presidente deverá ser o ex-prefeito Chicão): ou ela traz grandes equipes para a próxima edição, trabalhando diplomaticamente mais com tal objetivo, ou regionaliza o âmbito dos participantes, gastando menos (o que decretaria o fim das conquistas alcançadas até ao presente, principalmente nos âmbitos desportivo e midiático).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

INCLUSÃO DIGITAL

Nossa sociedade vive uma fase de transição nestes dias, de uma grande transição, de uma histórica transição: a substituição da escrita impressa no papel para a escrita eletrônica. O fenômeno se assemelha à descoberta e emprego da imprensa no século XV. Penso que apenas uma parcela muito pequena de pessoas sabe disso. Gêneros textuais consagrados pelo uso rapidamente são adequados ao ambiente digital, ganhando em velocidade, interatividade, não-linearidade, espacialidade, opções semiológicas etc. Os detentores da tecnologia inventada por Johann Gutemberg a exploraram por muito tempo (até ao presente), ou para ampliar seu poder político (quando em função do estado), ou para conservar o poder eclesiástico (em função da igreja), ou para mercantilização (nas mãos de grupos editoriais). A Internet veio para provocar o que os modernos linguistas denominam como "radicalização do uso da escrita". Infelizmente, 99% dos usuários da Rede continuam fissurados nas salas de bate-papo, msn, orkut... Não se aventuram no hipertexto, apenas como leitura, pesquisa; tampouco pensam, como nós, blogueiros, em produzir algo que se pareça com um dos gêneros conhecidos (notícia, opinião, poema etc.). Posso morder a língua, mas ouso dizer que a inclusão digital não acabará com o analfabetismo, por exemplo.

POESIA NOS MUROS

A URI, sob a coordenação do curso de Letras, desenvolve um projeto fantástico, de grafar poesia nos muros da nossa cidade. Apenas em Curitiba e numa escola de Francisco Beltrão (Paraná), vi algo parecido. O projeto foi iniciado em 2006 e, neste ano, apresenta uma "segunda edição" ao público santiaguense. Meus dois poemas já foram grafados no muro do colégio Apolinário Porto Alegre, ao lado de um excerto do Caio Abreu. Agradeço à professora Silvania Colaço, à professora Sandra Nascimento e à acadêmica Erilaine Perez pela distinção que me foi dada desta vez.
.......
arte poética

o poema se faz
com a captação
de uma imagem

amora
que se colhe
da imaginação
ou da memória


as palavras
não passam
de instrumento
– vara
com que se apanha
essa fruta
de doçura

..............
rara
...................
...
lua

bordado de luz
para emendar os dias
no tecido inconsútil
.............da noite

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

BUGIO - DUAS LEMBRANÇAS

Nesta manhã, ouvi o programa do meu amigo Paulo Pinheiro, Santiago Atualidade. Um dos assuntos versava sobre a morte de bugios na região. Um dos dados não respondidos pela entrevistada, funcionária da vigilância ambiental do município, referia-se à média de vida desses primatas (que é de 20 anos). O problema colocado pelo repórter, muito interessante pelo seu aspecto não-antropocêntrico, diz respeito a uma forma de tratar a doença no paciente primário, o bugio.
Ao longo dos meus verdes anos, ouvia o ronco dos bugios a quase dois quilômetros de distância. Eles viviam folgadamente nas matas que margeiam o rio Rosário, entre o Rincão dos Machado e as fazendas que pertenciam a Maximiliano Flores e a Osvaldo Kempa. Raramente eram vistos no alto das árvores, do outro lado dos poços do Finado Pedro e do Cachoeirão.
Mais recentemente, quando servia no Pantanal (Forte Coimbra, Corumbá), pude conhecer esses parentes de ADN muito bem. Na primeira vez que os encontrei, fazia o contorno do Morro de Coimbra por dentro da mata. (Gostava de explorar o rio Paraguai e suas adjacências.) Corria por uma trilha, quando me vi debaixo de um enorme espécime vegetal, em cujos ramos se encontravam os buliçosos bugios. A poucos metros da minha cabeça, o bando, surpreendido, não conseguiu se dispersar antes que eu prosseguisse no reconhecimento. Outras vezes, fiz deles motivo de minha objetiva, apontada com frequência para jacarés, capivaras, tuiuiús...

DESTINO


destino é sempre
uma escolha
um rumo
na encruzilhada

um passo dado
no escuro
uma armadilha
na estrada

um modo
de caminhar
que determina
a chegada

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

QUEM DERA!

A interjeição com que encerrei a postagem abaixo denuncia meu pessimismo realista, tipo "desmancha prazer". Lendo Zero Hora, destaco a opinião abalizada de Deisy Ventura, professora do Instituto de Relações Internacionais da USP:
TUDO INDICA QUE A MITIFICAÇÃO DE OBAMA,
NUM CONTEXTO ECONÔMICO HOSTIL,
CONDUZIRÁ À FRUSTRAÇÃO.

OBAMA EM CINCO MOTIVOS


Hoje é o dia da posse de Barack Obama, o 44º presidente dos Estados Unidos. O mundo todo se regozija por cinco motivos. Primeiro, George W. Bush será, enfim, substituído. Segundo, em momento de crise, há a expectativa de superação. Terceiro, Obama é democrata, o que, aprioristicamente, representa uma política menos conservadora e protecionista (para a sorte dos outros países). Quarto, Obama é negro. Quinto, Obama é negro. Por que repito esse motivo? Por duas razões. Primeira e mais evidente, a população negra da nossa "aldeia global" lava a alma, transforma o ressentimento (ou força reativa) secular em poder (ou força ativa). Segunda, a população branca (da mesma aldeia) sente-se aliviada de sua má consciência, essa força ativa introjetada, agindo secularmente contra a própria consciência. Obama representa o fim do inferioridade negra (ou complexo de) e do orgulho branco; aquele que há de varrer o espectro da escravidão e diminuir o racismo. Quem dera!
.................
(Caro visitante, essa é a leitura que faço, fundamentado no conceito de má consciência de Nietzsche. Você não encontrará nada parecido nos jornais, revistas, Internet.)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

CÚMULO DA HIPOCRISIA


Depoimento do casal Hernandes nos Estados Unidos, sobre o desastre no templo da Igreja Renascer em São Paulo: "Deve haver um propósito para tal sofrimento".
A isso chamo de mitificação da realidade. Ou mistificação? Não há propósito metafísico, mas causas (materiais ou humanas).

RENASCER (NAS TREVAS)

O templo da Igreja Renascer que desabou em São Paulo já apresentava rachaduras e goteiras, mas seus líderes se defendem, sustentando que os alvarás do prédio estavam em dia. Obviamente que estavam, não passavam de papel.
O fato lamentável (pela perda de nove vidas) me serve de gancho para dissertar sobre um dos assuntos preferidos, contrariando a ignorância popular que, condicionada pelas autoridades religiosas, evita discutir religião. Os ignorantes nunca leram um David Hume, um Voltaire, um Feuerbach, um Nietzsche, um Bertrand Russel... Sequer têm noções de História Natural, Psicologia, Astronomia... Limitam-se a ouvir o que dizem os ambiciosos e espertos porta-vozes de Cristo, ou de Deus (entidades espirituais a que eles se equiparam em todo querer e em todo saber).
Apenas da Igreja Renascer são dois milhões de fiéis, entre os quais o jogador Kaká. Para essa massa não importa o fato de seus líderes, Estevam e Sônia Hernandes, encontrarem-se presos nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e ocultação de bens e valores, com prisão decretada no Brasil por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato. A fé é o que importa. Dizimistas inocentes, são condicionados a crer que estão contribuindo para a obra de Deus. Fora dos templos, o império econômico de seus pregadores cresce a olhos vistos.
Conheço o suficiente o coração dos homens para duvidar que haja, entre os líderes dessas igrejas cristãs, como a Renascer, alguém que seja sincero em suas pregações, coerente como foi João Batista (a ponto de perder a cabeça) e que não deseje chegar ao controle financeiro de sua entidade para se regalar com a riqueza material que tanto repudia discursivamente.
Esse fenômeno começou em 1977, com a criação de uma doutrina que contraria os evangelhos, a perfeição segundo Jesus Cristo: a prosperidade como uma promessa de Deus. Prosperidade terrena, diga-se de passagem.
Sou otimista com relação à perspectiva de que um dia a verdade venha a ser do domínio do senso comum, verdade que desmitifica o real, verdade que ilumina o mundo ainda sob as trevas da ignorância. Às vezes, o pessimismo me toma de assalto, quando não consigo vislumbrar a aurora.

domingo, 18 de janeiro de 2009

HÍFEN - SEXTA LIÇÃO

Com o prefixo sub usa-se o hífen diante de palavra iniciada por r:
SUB-RAÇA, SUB-RAMO, SUB-REGIÃO, SUB-REPTÍCIO, SUB-ROGAR...
......................................
Conforme a Primeira Lição, esse prefixo exige hífen antes do h (sub-humano), cuja forma preferida é subumano.
......................................
O uso obrigatório do hífen preserva a unidade prefixal e impede que o r se agregue ao b, formando o encontro consonantal, br, pronunciado/ escrito na mesma sílaba.
Por que o hífen antes do r e não antes do l? Você, caro visitante poderá me perguntar, uma vez que, antes do l, o prefixo continua sendo pronunciado isoladamente, exceto em sublinhar, que é facultativo o encontro bl na pronúncia apenas, sub-li-nhar ou su-bli-nhar. Esta forma, su-bli-nhar, constitui um raro exemplo em que a fala vulgar determina a regra do português culto. Até o século XVIII, a forma usada era soblinhar.
Antes do r, sim. Antes do l, não.
Por quê?

sábado, 17 de janeiro de 2009

ANO INTERNACIONAL DA ASTRONOMIA


A cerimônia oficial de Abertura do Ano Internacional da Astronomia 2009 será às 18 horas, do dia 20 de janeiro, no Planetário do Rio de Janeiro. No período entre os dias 19 e 28 de Janeiro, outras 50 cidades brasileiras estarão realizando seus eventos de abertura.
O Ano Internacional da Astronomia 2009 foi proclamado pela ONU para comemorar toda a inspiração e conhecimento obtidos pela humanidade pela observação do céu. Em particular, comemoramos os 400 anos do primeiro uso do telescópio por Galileu Galilei, que desde 1609 tem revolucionado continuamente nossa concepção do Universo e das relações de nosso planeta com outros astros. Queremos usar o fascínio produzido pelas descobertas astronômicas para aproximar os cidadãos da ciência e da tecnologia e difundir uma mentalidade científica, requisito importante das sociedades tecnológicas.

COMENTÁRIOS ABERTOS

Júlio Prates arrebenta em duas postagens recentes, em que faz humor com a inauguração do nosso aeroporto e comenta sobre a importância dos blogs. Vale a pena transcrever este excerto:
Hoje, os blogs respondem pela moderna comunicação local e regional. A velocidade da interação tem criado o hábito e decorre daí a imperiosa necessidade de atualizações diárias. Não tenho a menor dúvida que criamos um fenômeno recente afeto a mediatização, posto que articulamos uma rede de informação articulada com as instituições sociais regionais. Na teia mediatizada, a tecnocultura ganhou corpo com a produção de novos hábitos e interação com os demais veículos de comunicação.
Interessante o cotejamento que o blogueiro faz entre A Folha Santiago e o Expresso Ilustrado, destacando o diferente enfoque dado sobre Irmo Sagrillo e a Cooperativa Tritícola. Em 1984, fazia isso com os dois maiores jornais do Rio de Janeiro: Jornal do Brasil e O Globo.
.................................................
Márcio Brasil presta uma homenagem ao seu amigo Rodrigo Vontobel (blogueiro também). A propósito, o Márcio vem demonstrando a doçura que tanto admiro nos outros. Disponibilizou um espaço em sua página no EI para outros autores (já fiz isso na minha coluna, publicando crônicas da Cristina Cogo Michelon, Carlos Giovani Pasini e Erilaine Perez). As pessoas quase não acreditam mais em gestos solidários, sem interesses egoísticos, como só a amizade se carateriza entre os nobres sentimentos. Nessa postagem sobre o Rodrigo, o Márcio não se importou com a possível contradição entre ser jovem e experiente ao mesmo tempo. Tudo para elogiar seu amigo.
...................................................
Fátima Friedriczewski vem postando seus poemas (a pedido meu). Seu blog é um dos que escolhi para o trabalho monográfico sobre a literariedade. A Fátima é outra pessoa pouco comum em nosso meio social. Delicadeza natural, doçura e humildade são algumas caracteristicas de sua personalidade. Admiro seu não-especismo. Admiro sua poesia.
..................................................
Lendo os blogs da Dayana Pessota Leite e do Dr. Ruy Gessinger, me lembrei de um miniconto de Eduardo Galeano, editado em O Livro dos Abraços.
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai, enfim, alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!
.................................................
Erilaine Perez responde à pergunta "Por que escrevo?". Cita Antonio Cândido e Fernando Pessoa. Transcreve o poeta português: "Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto". Nada tem importância? Para mim, tudo tem importância. Prefiro a metáfora nietzschiana de Zaratustra, da "taça que quer transbordar, para que dela vertam as águas douradas, levando a todos os lábios a reprodução da sua (minha) alegria". Escrevo porque há um excedente em mim, seja de doçura, de verdade, seja o que for.
Seu blog não pára de crescer, mensurado pelo número de visitas, pelos comentários e pelo acompanhamento de outros blogueiros. Prova cabal de que seus poemas e crônicas despertam interesse, têm importância, sim.

HÍFEN - QUINTA LIÇÃO

Com o prefixo vice, usa-se sempre o hífen:
VICE-REI, VICE-ALMIRANTE, VICE-PRESIDENTE,
VICE-CAMPEÃO, VICE-DIRETOR...
.....................................
Justificativa: À semelhança de ex, o prefixo vice, dependendo do contexto, basta para completar o enunciado (oral ou escrito). Exemplo: A Câmara elegeu o vereador Bianchini para seu primeiro presidente e, para vice, Davi Vernier.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

HORA DO FOGO

as pontas
.........de ferro
apontam
............o azul
de onde
há de
vir o inimigo

armo o contra-
..........-ataque
a inventariar
........pássaros
no fim
.........da tarde

oitões
......e fachadas
minha casa-
..............mata

entre luz
e sombra
............a hora
............do fogo

DIADÓDIO


hamas
odeia


NO TEMPO DO REI JOSIAS

Assunto puxa assunto. Faço outra postagem para transcrever o que li em A Bíblia não tinha razão, de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, respectivamente, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv e diretor de interpretação histórica do Centro Ename de Arqueologia da Bélgica.

"A saga histórica contida na Bíblia - do encontro de Abraão com Deus e sua jornada para Canaã à libertação da escravidão dos filhos de Israel por Moisés, à ascensão e queda dos reinos de Israel e Judá - não foi uma revelação miraculosa, mas um inteligente produto da imaginação humana; sua concepção teve início - como os recentes achados arqueológicos sugerem - durante o breve espaço de tempo de duas ou três gerações, há cerca de 2.600 anos. O local de nascimento foi o reino de Judá, região pouco povoada por pastores e fazendeiros, assentada de forma precária no meio de uma terra mantanhosa, sobre estreito espinhaço, entre ravinas escarpadas e rochosas e governada por uma cidade real afastada.
"Durante poucas décadas notáveis de efervescência espiritual e agitação política, perto do final do século VII a. C., uma improvável coalizão de oficiais da corte de Judá - escribas, sacerdotes, camponeses e profetas - se formou para criar um movimento. No seu âmago estava uma escritura sagrada de incomparável gênio literário e espiritual: era uma saga épica, composta por uma surpreendente coleção de escritos históricos, memórias e lendas, contos folclóricos e historietas, propaganda real, profecia e poesia antiga. Uma parte dela era composição original e outra, uma adaptação de fontes e versões antigas, mas aquela obra-prima literária passaria por nova edição e elaboração, a fim de tornar-se uma âncora espiritual não apenas para os descendentes do povo de Judá, mas para comunidades do mundo inteiro."

O dilúvio, por exemplo, foi uma cópia do Livro de Gilgamesh, modificado em seus elementos narrativos (lugar, tempo, personagens...) para servir aos propósitos conhecidos de todos.

DIA DE ÓDIO

Israel ataca 40 alvos em Gaza e fecha Cisjordânia por 48 horas
Israel anunciou nesta sexta-feira ter atacado 40 alvos da faixa de Gaza durante a madrugada e decidido fechar as fronteiras da Cisjordânia por 48 horas. Hoje, a ofensiva do Estado contra o grupo radical islâmico Hamas, que domina Gaza, entra em seu 21º dia. Entre os palestinos, 1.100 foram mortos e mais de 4.000, feridos. Entre israelenses, houve 13 mortes.
Com a intensificação dos ataques por parte do Estado hebreu iniciada nesta quinta-feira (15), tanto o Hamas quanto seu rival, o secular Fatah, do presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, convocaram os palestinos a fazerem manifestações anti-Israel, em um "dia de ódio".
............
Imagino dar aos palestinos o mesmo poder bélico dos judeus! Neste dia de ódio, tampouco Jerusalém escaparia da completa destruição.
............

RELIGIÃO E POLÍTICA

"RELIGIÃO E POLÍTICA NO ORIENTE MÉDIO: uma leitura à luz da obra de Rousseau
Por Thomaz Kawauche (doutorando em Filosofia pela USP)
Conflito entre judeus e palestinos se baseia na mistura entre o indivíduo político e o indivíduo religioso e na crença que cada um dos grupos possui a verdade revelada.
A disputa pelos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, bem como da parte leste da cidade de Jerusalém, é uma questão política ou religiosa? Em outros termos: os argumentos teológicos dos discursos das partes beligerantes são apenas fonte de motivação e legitimidade para as ações militares, ou eles expressam uma dimensão maior da vida humana que abarcaria, entre outras coisas, a Ética e a Política?
No primeiro caso, a Religião estaria subordinada à Política, de tal maneira que os líderes espirituais, tanto dos judeus quanto dos árabes, estariam simplesmente utilizando o discurso religioso como um instrumento ideológico para mobilização de seus exércitos; teríamos então que nos indagar acerca da legitimidade dessa manipulação. No segundo caso, a Política estaria subordinada à Religião, e, dessa forma, é a própria idéia de Política que seria posta em xeque: o problema do convívio entre os homens seria resolvido, não em termos de acordos estabelecidos pelos próprios homens, mas mediante o conhecimento de uma vontade divina, o que colocaria a arte do governo na dependência de uma revelação sobrenatural.
"O conflito entre judeus e palestinos ocorre, principalmente, pela posse e direito de soberania sobre Jerusalém, e os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, onde fica o muro das lamentações, principal santuário judeu e também onde os palestinos querem estabelecer a capital de um futuro estado independente."
.........................
Assim começa uma matéria da revista Filosofia, www.portalcienciaevida.com.br (ainda nas bancas). Transcrevo alguns excertos da matéria que julgo mais relevantes.
"Política e Religião mesclam-se de modo tão intenso que a fronteira entre os domínios de uma e de outra se mostra extremamente difusa, e não nos parece adequado tentar estabelecer qualquer distinção em termos tão rígidos."
"Da mesma forma, não poderíamos simplesmente rotular os seguidores dessas tradições como povos 'primitivos' ou 'atrasados' por seus costumes religiosos, em oposição aos povos 'modernos' do mundo ocidental. Isso implicaria na aceitação da tese de que existe um progresso da cultura à medida que a moral se dessacraliza, o que, de modo algum é consenso entre os estudiosos do fenômeno religioso."
"Por meio dessa primeira reflexão sobre a questão israelo-palestina é possível introduzir um filósofo que, entre outras coisas, dedicou muito tempo de sua vida a analisar o vínculo entre Religião e Política: Jean-Jacques Rousseau."
"Assim como diversos outros filósofos do século XVIII, Rousseau também criticava os efeitos negativos da Religião na sociedade, sobretudo o fanatismo e a intolerância."
Em Profissão de fé, Rousseau mostra "por meio da idéia de religião natural, as condições de tolerância entre os homens, tendo-se em vista que as religiões históricas (cristianismo, judaísmo, islamismo) são intolerantes por princípio".
"A religião natural é uma religião simples, constituída de poucos dogmas fundamentais: a existência de um deus inteligente, dotado de vontade e poder, que move o universo e ordena todas as coisas; a existência da alma imaterial que sobrevive à morte do corpo; a liberdade do homem, que pode ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal. Contudo (e isso que importa notar), esses dogmas são estabelecidos, não como revelações ou doutrinas eclesiásticas, mas como verdades aceitáveis pela razão e pela consciência, ou seja, verdades não segundo um código religioso, mas segundo a natureza e, portanto, acessíveis a todos os homens sem necessidade de intermediários humanos."
"Para Rousseau, o problema das revelações é a falta de universalidade na comunicação entre o céu e a terra: pelo fato de Deus dar a poucos homens o privilégio de conhecerem sua vontade diretamente de sua boca, todos os demais ficam na dependência desses porta-vozes da divindade para se poderem conduzir de acordo com os preceitos do Ser supremo. Contudo, existem diversas religiões no mundo, cada uma delas com doutrinas próprias estabelecidas sob a alegação de expressarem a verdade revelada por Deus. E o detalhe é que essas doutrinas não apenas apresentam diferenças de uma religião para outra, como também quase sempre se contradizem mutuamente."
"E é exatamente nesse ponto que se encontra o problema: se a verdade é revelada por Deus a todos os homens, então ela deeria ser a mesma em todas as religiões. E ainda que a forma de expressão dessa verdade variasse, o conteúdo dos dogmas deveria ser o mesmo, de tal maneira que, a despeito das diferenças culturais, os pontos fundamentais da diversas religiões fossem compatíveis entre si, e não conflitantes."
"A diversidade das revelações é, pois, a prova cabal de que os homens não comunicam fielmente a suposta revelação original."
"Com relação à questão do fanatismo e da intolerância, Rousseau mostra que não pode haver conciliação enquanto cada um dos partidos defender sua própria 'verdade' e acusar o partido contrário de 'mentira' e 'erro'; mostra também que o indivíduo religioso e o indivíduo político se confundem, e não é possível buscar um acordo de paz sem considerar o forte vínculo que amarra a Religião e a Política, haja vista a impossibilidade de se distinguir, na ideia mesma de 'verdade', o que vem da suposta revelação divina daquilo que os próprios homens acrescentaram segundo suas opiniões e seus preconceitos."
"Rousseau era, em muitos aspectos, pessimista quanto à salvação do gênero humano... O máximo a se fazer em termos de Política consiste em retardar o fim inevitável, uma vez que a História, para ele, é sempre a história da decadência e da corrupção das instituições. [...] Não há como escapar dos efeitos nocivos da intolerância enquanto não houver o reconhecimento de que, mesmo em meio às verdades supostamente reveladas pela divindade, existem opiniões humanas misturadas, de tal modo que a política, indissociável da Religião tanto para israelenses como para palestinos, continuará a padecer dos males decorrentes dessa absurda convicção de que só os outros podem se enganar."

HÍFEN - QUARTA LIÇÃO

Consoantes iguais, no final do prefixo e no início do segundo elemento, hífen para separá-las:
HIPER-REQUINTADO, INTER-RACIAL,
SUB-BASE, SUPER-RESISTENTE...
..........................................
Nos demais casos, com consoantes diferentes, não se usa o hífen: hipermercado, superinteressante, superproteção...
..........................................
Nada mudou com a reforma, o que reforça a regra preexistente. Sem o hífen, o prefixo perderia sua última consoante (fonema), como em subase, ou a emprestaria para a formação do dígrafo rr, como em interracial, o qual se separaria na translineação.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A CULTURA DA BANALIDADE



No Brasil, os brasileiros querem saber se Leo beijou Milena na primeira festa do BBB9. No Estados Unidos, os estadunidenses estão ansiosos para saber qual o vestido que a primeira-dama, Michelle Obama, usará na posse do marido. Enquanto isso, Israel desfere o maior ataque aos palestinos.

PREFIXO CO-

Antes do Acordo Ortográfico, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa editava o seguinte:
co- pref. do lat., prep. cum 'com' - numa de suas formas co-, com-, con-, col. -, em eruditismos do s XVI em diante, tanto a regra bras. quantoa port. recomendam que, com relação a co-, seja escrito com hífen, se a palavra seguinte tiver existência autônoma e o sentido de co- for de 'a par de' (regra que, diga-se criticamente, cria muito embaraço, frequentemente, ao usuário): englobando todas as f. anteriormente referidas deste pref., o V. O. (vocabulário ortográfico) registra cerca de 7 mil palavras assim prefixadas.

HÍFEN - TERCEIRA LIÇÃO

Quando o prefixo termina por vogal, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma vogal:
ANTI-IMPERIALISTA, ANTI-INFLACIONÁRIO,
ANTI-INFLAMATÓRIO, AUTO-OBSERVAÇÃO,
AUTO-ÔNIBUS, AUTO-OSCILAÇÃO, CONTRA-ALMIRANTE,
MICRO-ONDAS, MICRO-ÔNIBUS, MICRO-ORGANISMO,
SEMI-INTEGRAL...
Explicação: Penso que é para evitar uma futura crase (fusão das duas letras iguais), mantendo por inteiro o significado prefixal.
A exceção fica por conta do prefixo co, que geralmente aglutina-se ao segundo elemento: cooperar, coordenar, cooptar...
Ainda não há explicação para isso, polêmica tão somente.
.....................................
Para clareza gráfica, se no final da linha a partição de uma palavra ou combinação de palavras coincidir com o hífen, ele deve ser repetido na linha seguinte.
Exemplo:
..........O diclofenaco é o mais comum dos anti-
..........-inflamatórios.

INCOERÊNCIA POLÍTICA

Ontem me indignei, assistindo aos jornais televisivos (que mostravam a concessão de refúgio político a um terrorista italiano). Ato contínuo, pensei nos dois atletas cubanos deportados pelo governo brasileiro.
Para me proteger da ira de certos leitores deste blog, defensores das incoerências políticas emanadas do Planalto, resolvi transcrever a matéria publicada hoje no Correio do Povo. Penso que esse jornal não pode ser acusado de um viés "capcioso". Tampouco o nosso Senado.
PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 15 DE JANEIRO DE 2009

Senado cobra ‘coerência’ do ministro da Justiça
Decisão de dar abrigo a italiano é confrontada com deportação de cubanos

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Heráclito Fortes (Dem-PI), defendeu ontem a convocação do ministro da Justiça, Tarso Genro, para explicar por que concedeu refúgio político ao italiano Cesare Battisti, contrariando parecer do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). O senador argumenta que a presença de Tarso também é necessária para que o ministro explique por que beneficiou um condenado na Itália e permitiu a deportação dos pugilistas cubanos Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux, que desertaram da delegação cubana durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio. 'A decisão do ministro foi esquisita e incoerente', diz o senador. Membro da comissão, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), concorda com Heráclito e afirma que o Senado tem de ouvir, 'de imediato', tanto o ministro quanto o suposto terrorista, 'até para se ter explicação dos motivos que levaram a deportar os boxeadores cubanos e a conceder refúgio ao italiano'. Se Battisti recusar o convite, Jarbas prevê que a situação 'ficará feia' para o ministro. Vasconcellos vê no episódio 'as contradições da política externa brasileira no governo Lula'.
Para ler a matéria, acessar
...................................
RESUMINDO: O meu país protege um terrorista, com vários homicídios, alegando possível perseguição da justiça italiana, depois de ter entregue na bandeja os dois pugilistas cubanos que apenas queriam viver em liberdade, uma vez que de onde vinham esse atributo indispensável à condição cidadã não é extensivo ao povo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

HÍFEN - SEGUNDA LIÇÃO

Sempre hifenizar depois dos seguintes prefixos EX, SEM, ALÉM, AQUÉM, RECÉM, PÓS, PRÉ, PRÓ:
EX-ALUNO, SEM-TERRA, ALÉM-TÚMULO, AQUÉM-MAR, RECÉM-NASCIDO, PÓS-GRADUAÇÃO, PRÉ-REFORMISTA, PRÓ-OCIDENTAL
.........................
Explicação lógica:
EX é um prefixo com significado próprio: pessoa que deixou de ser algo. Coloquialmente, fala-se "minha ex", "meu ex", sem problema comunicativo. Os demais prefixos acima também mantêm uma ideia de exclusão, posição etc.
................................

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

LABORATÓRIO TEXTUAL

Nenhum dos doutores em Linguística que estou lendo para fundamentar minha monografia escreve que o blog também serve de laboratório para a produção textual. Os experimentos são exaustivos e demonstram a importância da reescritura. Minhas colunas do Expresso Ilustrado ganharam em qualidade desde que passei a editá-las neste espaço hipertextual. Da mesma forma, meus últimos poemas, os quais submeto à espacialidade topográfica, característica que me permite também uma apreciação visual dos mesmos. A postagem desses poemas, via de regra, traz a observação infraescrita de que necessitam de acabamento.
Para a próxima edição do Expresso, pensei escrever sobre a dicotomia que existe entre a cultura da terra (agricultura e pecuária) e a cultura como produção intelectual, artística. Na noite passada, desisti do tema, optando por dissertar sobre o Acordo Ortográfico.
As pequenas mudanças instituídas em nossa ortografia têm gerado muita polêmica, dividindo filólogos, escritores, professores, jornalistas, blogueiros, todos aqueles que se ocupam da língua portuguesa (como profissão ou hobby). O grupo dos contra, mais numeroso, argumenta que tudo o que foi impresso nas últimas décadas encontra-se, a partir de agora, com 0,43% dos vocábulos graficamente modificados. O grupo a favor defende a uniformização do português, que o tornará língua oficial de órgãos internacionais, como a UNESCO (cujas publicações não eram distribuídas à “pátria pessoana” em vista de suas diferenças ortográficas). Ganham as editoras, ao pé da letra, e perdem os bibliófilos apaixonados. Nosso idioma, negando sua origem vulgar, adquire um padrão único na escrita. Aqui e além-mar (com hífen antes de depois). Outra conseqüência do Acordo, ainda não pensada até agora, está sendo a atenção dada ao idioma por seus falantes e escreventes. Entre as particularidades linguísticas, eles passam a perceber mais nitidamente os âmbitos da fala e da escrita. No Brasil, felizmente, as mudanças se limitam a aspectos gráficos. Foram abolidos alguns sinais diacríticos, não a pronúncia ou tonicidade dos fonemas. O “u” de “linguiça” não será engolido, tampouco “ei” de “ideia” deixará de ser aberto e tônico. O vocábulo “farmácia”, por exemplo, já foi grafado com ”ph” (mais próximo de sua etimologia). O som e o significado precedem a grafia, em antiguidade e importância. Também eles estão sujeitos a alterações, uma vez que toda língua natural é um processo dinâmico.

HÍFEN - PRIMEIRA LIÇÃO

Antes do h, hífen há.
ANTI-HIGIÊNICO, CO-HERDEIRO, INTER-HUMANO, MACRO-HISTÓRIA, MINI-HOTEL, NEO-HEBRAICO, SOBRE-HUMANO, SUPER-HOMEM...
Exceção: SUBUMANO (a palavra humano perde o h).
.........
Uma explicação para a obrigatoriedade do hífen antes do h: essa letra apenas aparece no interior das palavras como auxiliar dos dígrafos ch e lh. No início das palavras, ela é mantida por força da etimologia.
A exceção aponta uma possibilidade, sendo facultativo o emprego do hífen: sub-humano, sub-humanidade, sub-hepático...

domingo, 11 de janeiro de 2009

COMENTÁRIO ABERTO

Em sua última postagem, Rafael Nemitz escreve: 2009 será lembrado pelo ano da Copa Santiago ou pela Copinha de Santiago? Fui assistir à abertura. Logo após a apresentação das equipes, avaliei que esta edição, pela ausência dos Atléticos, do Fluminense, do Vitória, do Goiás, do Peñarol, do Defensor, do Cerro Porteño, seria uma copa com menor qualidade. Em seguida, vendo o Grêmio jogar e perder para o Cerro (do Uruguai), tive certeza que restavam apenas dois times campeões: Cruzeiro e Internacional. Ótima chance para o nosso Cruzeirinho.
.......................
Em Observando a Natureza, Dr. Disconzi aconselha ter um animal de estimação, relacionando uma série de benefícios para a pessoa. O blogueiro se cuidou para não expor o "calcanhar de aquiles" (onde caberia um tiro preciso): o especismo. O animal também ganha na relação.
.......................
Dayana Pessota Leite toca na ferida de um continuísmo existencial que transforma as expectativas do novo ano em meras fantasias de uma noite de verão (no caso, dia 31 de dezembro). Escrevi sobre esse tema na coluna do Expresso Ilustrado. Desejamos mudanças internas, em nossa estrutura psicoemocional, provocadas por contingências externas. As pessoas devem saber, por experiência anterior, que pouca coisa mudará além do que é factível.
.......................
Júlio Prates noticia as últimas da alta política santiaguense. Informações quentíssimas, adiantando-se em uma semana aos nossos jornais. Seria essa uma das grandes funções comunicativas dos blogs?
......................
Em Floryflor, Heloísa Flores escreve de além-mar (o hiperespaço acabou com essa denominação, penso). A blogueira continua fiel ao gênero intimista, recorrente no âmbito deste software que inaugurou uma nova era na Internet, rumo à radicalização da escrita. Estamos lendo o mesmo romance de Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
.......................
Márcio Brasil vem com a alvissareira notícia para a recuperação da Tritícola. Espero que não seja mais uma das suas, do tipo tornado famoso por Orson Welles (homenagem ao meu amigo cinéfilo). Irmo Sagrilo é uma das pessoas mais certas para assumir a presidência da nossa cooperativa (fundada numa reunião que ocorreu no dia 14 de janeiro de 1956).
.......................
Erilaine Perez transcreve um poema de Rubén Darío, Para una cubana. Félix Rubén García Sarmiento, conhecido como Rubén Darío, foi um poeta nicaraguense, iniciador e máximo representanto do Modernismo literário em língua española. A blogueira confessa gostar desse poeta, por motivo da amizade que ele manteve com Pablo Neruda. Este, sim, seu deus da poesia. Na postagem abaixo, ela nos brinda com outra de suas crônicas, escrita com beleza e inteligência.

CULTURA VERSUS CULTURA


No sentido real, os homens passaram a fazer cultura entre dez e doze mil anos atrás. O cultivo da terra e a criação de animais foram atividades concomitantes desde o princípio. Desde o princípio, elas asseguraram a sobrevivência aos seus agentes humanos. Sobrevivência e riqueza. Noutra acepção, significando crenças, costumes, conhecimentos, artes..., a cultura constitui a marca que distingue excepcionalmente nossa espécie. Isso ocorre desde os primeiros hominídeos, há mais de um milhão de anos. Instrumento de pedra, tática de caça, descoberta e utilização do fogo, linguagem, pintura rupestre, criação de deuses e demônios, tudo classificado como cultura. Outro produto cultural é a guerra (cuja genealogia foi vislumbrada cinematograficamente por Stanley Kubrick, em 2001 – Uma odisseia no espaço). Caim e Abel, irmãos no mito genesíaco, são alegorias de um conflito que certamente existiu entre povos agrícolas e pastores. Dez mil anos se passaram, o confronto no campo continua, agora entre sem-terra e latifundiários. A cultura da terra ainda é uma questão de sobrevivência. Para um continente inteiro (à sombra do terrível espectro), certamente o é. A cultura do lucro, iniciada há poucos séculos, provocou desequilíbrio em toda parte, incluindo o meio ambiente. No microuniverso santiaguense, percebe-se a ascendência da cultura ligada à criação e difusão das artes, mormente a literária.
(Ensaio para a próxima coluna do Expresso Ilustrado)

sábado, 10 de janeiro de 2009

EROS E CIVILIZAÇÃO II


"Se a ausência de repressão é o arquétipo de liberdade, então a civilização é a luta contra essa liberdade"
"A substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade é o grande acontecimento traumático no desenvolvimento do homem - no desenvolvimento do gênero (filogênese), tanto quanto do indivíduo (ontogênese)"
"Filogeneticamente, ocorre primeiro na horda primordial, quando o pai primordial monopoliza o poder e o prazer, e impõe a renúncia por parte dos filhos. Ontogeneticamente, ocorre durante o período inicial da infância, e a submissão ao princípio de realidade é imposta pelos pais e outros educadores"
"Na concepção freudiana, a civilização não põe termo, de uma vez por todas, a um 'estado natural'. O que a civilização domina e reprime - a reclamação do princípio de prazer - continua existindo na própria civilização"
"Rechaçada pela realidade externa ou mesmo incapaz de atingi-la, a força total do princípio de prazer não só sobrevive no inconsciente, mas também afeta, de múltiplas maneiras, a própria realidade que superou o princípio de prazer"
"O retorno do reprimido compõe a história proibida e subterrânea da civilização"
"O indivíduo escravizado introjeta seus senhores e suas ordens no próprio aparelho mental"
"A noção de que uma civilização não-repressiva é impossível constitui um dos pilares fundamentais da teoria freudiana"
"Freud discute a cultura não de um ponto de vista romântico ou utópico, mas com base no sofrimento e miséria que sua implementação acarreta"
(EXCERTOS DO CAPÍTULO 1, A TENDÊNCIA OCULTA NA PSICANÁLISE)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

EROS E CIVILIZAÇÃO

O Juarez me vendeu um livro nessa manhã: Eros e civilização, de Herbert Marcuse.
Na Introdução, o autor escreve sobre a finalidade do que chama de ensaio: "contribuir para a filosofia da psicanálise".
Tudo o que mais gosto de ler, isto é, a teoria psicanalítica, sem as narrações demoradas de casos analisados empiricamente.
Excertos que iluminei nas primeiras páginas:
"O conceito de homem que emerge da teoria freudiana é a mais irrefutável acusação à civilização ocidental - e, ao mesmo tempo, a mais inabalável defesa dessa civilização. Segundo Freud, a história do homem é a história da sua repressão"
"A civilização começa quando o objetivo primário - isto é, a satisfação integral de necessidades - é abandonado"
"O inconsciente, governado pelo princípio de prazer, compreende 'os mais remotos processos primários, resíduos de uma fase de desenvolvimento em que eles eram a única espécie de processos mentais"
"O princípio de prazer irrestrito entra em conflito com o meio natural e humano. O indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível. E, após essa experiência de desapontamento, um novo princípio de funcionamento mental ganha ascendência. O princípio de realidade supera o princípio de prazer: o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo, incerto e destrutivo, substituindo-o pelo prazer adiado, restringido mas 'garantido'. Por causa desse ganho duradouro, através da renúncia e restrição, de acordo com Freud, o princípio de realidade 'salvaguarda', mais do que 'destrona', e 'modifica', mais do que nega, o princípio do prazer"
"Com o estabelecimento do princípio de realidade, o ser humano, que, sob o princípio de prazer, dificilmente pouco mais seria do que um feixe de impulsos animais, converte-se num ego organizado".
...............................
Desde 1982, quando fiz um trabalho sobre Totem e tabu na UFRGS, disciplina de Filosofia da Cultura, leio Freud e os pós-freudianos.

GRANDES POETAS

Certamente, o Oracy, o Reiffer, o Júlio Garcia, entre outros poetas santiaguenses discordarão desta minha escolha, mas o faço com outros fins que não o de cotejar gostos ou grandezas. Para mim, entre os maiores poetas brasileiros, três nomes são obrigatórios: Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Carlos Nejar. Coincidentemente, todos posteriores à grande revolução estética do Modernismo. Mas o aspecto que me interessa nesta postagem é de destacar a principal atividade profissional de cada um dos três.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - funcionário público exemplar.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO - diplomata sério.
CARLOS NEJAR - Promotor de Justiça.
oo
A relação de poetas que fogem à esteriotipia caracterizada pelo Júlio Prates é extensa. Inclusive entre os românticos. Portanto...

POESIA E REALIDADE

Na tarde de ontem, sentado num banco da URI, escrevi este poema:
oo
PROCURADOR
oo
das coisas
levadas pelo vento
me fiz
procurador
oo
por isso
contemplo macegas
em disparada

oo
por isso
(res)guardo rebanhos
de nuvem


por isso
escuto o gemido
das palavras

oo
procurador
das coisas
trazidas pelo vento
oo
À noite, fui ao Alceu Carvalho, levado por uma paixão menor: o futebol. O show da abertura foi muito bonito, com a melhor apresentação que vi dos pequenos artistas da Escola de Turno Oposto Criança Feliz. Em seguida, o primeiro jogo. Quando a equipe adversária do Grêmio entrou em campo para o aquecimento, perguntei ao Ademar Canterle se os uruguaios não haviam se enganado de cidade. Aquela gurizadinha deveria disputar o torneio infantil em Alegrete, o EFIPAN. Surpreendentemente, os marmanjos gremistas não sabiam jogar bola e acabaram levando um gol do Cerro. Isto mesmo! O último campeão da Copa Santiago foi derrotado pelo Cerro, do Uruguai.
.........................................................
Diego Neves, acadêmico da UFSM, comenta em meu blog:
Froilam!
Há tempos não deixava meu comentário na tua página. As provas da faculdade não me deixavam sequer manter atualizado meu blog. Estou passando para dizer que continuo um leitor assíduo das tuas postagens, as quas considero as mais interessantes e importantes da rede blogueira atualmente. Agora, em férias, vou poder atualizar meu blog e comentar mais vezes. Um abraço!
Muito generosa essa apreciação.
............................................
Minha coluna do Expresso Ilustrado desta sexta-feira:
Carta aberta
Filha, a saudade não tem tamanho, por isso te escrevo pela quinta vez desde este velho continente (exótico para um sul-americano que não havia saído de seu país anteriormente). Tantas para te dizer, que não sei por onde começar, ou pela ventura de conhecer a África, ou pela lembrança do teu sorriso. A UNAVEM III é a última fase desta missão de paz, responsável por monitorar o cessar-fogo entre os revolucionários da UNITA e os governistas da MPLA. Há poucos dias, um dos nossos fuzileiros foi morto durante uma emboscada contra um comboio de viaturas brasileiras. Angola é um campo minado, perigo iminente de perdermos uma perna ou a vida. Ao entrar para o Exército, nunca me ocorreu que um dia pudesse realizar um trabalho humanitário tão significativo. Não é só a boina azul que me leva a ser solidário com as pessoas, crianças e idosos em sua maioria. Aqui posso dar livre vazão à doçura que tu experimentas desde bebê. Nos momentos de folga, corro para a comunidade mais próxima, onde ensino língua portuguesa, xadrez e recito os grandes poetas. Com um pseudônimo, escrevo para um jornal de Luanda. Diferente de meus companheiros militares, converso muito com os angolanos em suas casas, nos bares, nas ruas. Não te lembras de Forte Coimbra? As vilas daqui têm o padrão da Saramandaia, obviamente sem considerar os danos de uma guerra civil (vistos pelo mundo por ocasião de uma recente visita da Princesa Diana). Esta nação precisa ser reconstruída. Como soldado da ONU e cidadão universal, penso que contribuo para os primeiros passos nesse sentido. O trabalho me diminui a saudade de ti, filha. Teu pai.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

TELEVISÃO, FUTEBOL...

Não vi o primeiro quadro do Jornal do Almoço de hoje. Ao ligar o televisor, começava o segundo quadro, com a Copa Santiago de Futebol Juvenil, economia (indústria moveleira), entrevista do novo prefeito (Júlio Ruivo), destaque para a criação de cavalo crioulo (Cássio Bonotto), Gilberto Monteiro, Caminhos de Santiago, Clube Amigos de Beethoven e Nenito Sarturi. Sobre a poesia, soube por telefone, foi entrevistado o Oracy Dornelles, Sadi Machado, Deividi Santana e Antoninho Duarte, respectivamente, universalidade, regionalismo, juventude e maturidade.
.......................
Logo mais, à noite, inicia-se a Copa Santiago de Futebol Juvenil. Nenhum outro evento desportivo tem destacado com maior alcance midiático o nome da nossa cidade. Após o aniversário de emancipação político-administrativo, ela sofreria um esvaziamento sob a soalheira deste mês. O futebol a movimentará em parte, convidando-a para ir ao estádio Alceu Carvalho.
......................
Gosto tanto de Santiago e defendo o nobre epíteto de Terra dos Poetas. Para uns, ela foi berço (como Manuel do Carmo, Antônio Carlos Machado, Sílvio Duncan...), para outros, querência (como Zeca Blau, Aureliano de Figueiredo Pinto, Ney A. Dornelles...). Em vista de uma possível transferência em junho, sentirei muito ter que me afastar daqui pela terceira vez. Menos pior que, com a Internet, continuarei ouvindo o Jornal Falado da querida ZYK 297 - Rádio Santiago.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

GAZA


gaza não goza

de paz a

ooooooooofaixa

é guiza

que não acaba

sob um céu

de fogo

à guisa

ooooooooode gaza
oo

EXEMPLO DE PLÁGIO

Mais tarde, esqueci-me de colocar na postagem abaixo, editarei um exemplo de plágio, feito com um dos sonetos do próprio Filinto Charão.

A VERDADE

Esta manhã, fiquei surpreso ao ler no blog do Júlio Prates:
Oracy Dornelles leu o livro Antologia II - Rua dos Poetas e o texto que fala sobre Felinto Charão, na sua opinião, é um plágio do que escreveu no jornal A Coxilha sobre o mesmo. Até os termos foram copiados. (O nome correto do jornal é A Cochilha.)
Mais uma vez, não me menifestaria, em respeito ao blog mais lido de Santiago, noticioso, por excelência, e à admiração que tenho pelo Oracy Dornelles (como poeta). Pensando melhor, resolvi sair em defesa da Erilaine Perez, que realizou o trabalho de coletar o material literário e histórico para a antologia da Rua dos Poetas. Ela poderia com razão me acusar de ser um covarde, um lorpa ou coisa que o valha, caso deixasse por isso mesmo.
A biografia do Filinto Charão foi extraída do livro Um pouco da história de Santiago, de Guirahy Pozo, página 133. Diferente do texto publicado pelo Oracy no jornal A Cochilha, em 8 de setembro de 1956. Obviamente, Guirahy deve ter contado com o auxílio do Oracy, embora não haja referência a isso. Não me consta que dados biográficos, como nome de cidade, nome do livro inédito etc., sejam considerados plágio. A propósito, no texto do Oracy, Filinto Charão, o poeta esquecido, a data de morte do poeta é 15 de junho de 1950, e no livro do Guirahy Pozo, a data é dia 24 (do mesmo mês e ano).
Mais tarde, voltarei a esta postagem, para editar a cópia da página do jornal A Cochilha, com o texto do Oracy. Da mesma forma, editarei a biografia de Filinto, publicada no livro do Guirahy Pozo e no Rua dos Poetas - Antologia II.
A verdade precisa ser noticiada (inclusive neste espaço hipertextual).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

EXEMPLO DE SOLIDARIEDADE

Hoje de manhã, fui ao velório de Sérgio Prates. Conheci melhor o ex-vereador no ano que passou, ao longo do qual frequentei as sessões legislativas. Ninguém pode negar o trabalho humanitário que ele realizou, adiantando-se a um dos grandes problemas sociais do futuro (próximo): a assistência aos idosos. Atualmente, esse problema ainda é pequeno. Neste aspecto, Prates foi um iniciador, um exemplo de homem público cada vez mais necessário em nossa sociedade.

Não conhecia os parentes do Prates, o que me fez passar por uma situação delicada. Para superá-la, cumprimentei as pessoas que cercavam o esquife com olhos congestionados pela dor da perda.

Saí da Câmara matutando sobre a morte. As palavras que me faltam numa hora dessas, por não acreditar noutra vida, internalizam-se em forma de reflexão. Quem morre deixa de perceber, de sentir, de ser. Não há diferença em ir ao seu velório ou não. Toda minha atenção era para ser dada durante sua vida. Por que, então, vou ao seu velório? Para mostrar aos parentes e amigos que o parente e amigo falecido era alguém respeitado, admirado. Isso conforta realmente.

A imortalidade, em sua dimensão existencial, sensível, existe na memória dos que continuam a viver e, principalmente, nas obras realizadas.

Sérgio Prates, a despeito de sua admirável humildade, começou uma obra grandiosa demais para ser concluída um dia.
O nome do ex-vereador e cidadão santiaguense será sempre lembrado como exemplo de solidariedade humana.