quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

PADRES MITÓFILOS (OU MENTIROSOS)


   Os missionários da Companhia de Jesus que desembarcaram no continente há pouco descoberto pelos navegadores europeus, não encontravam aqui um terreno propício para impor a doutrina cristã. Alguns deles, a propósito, foram sacrificados pelos nativos, que ainda viviam num estágio de selvageria (cujo ápice evolutivo chegava ao arco e flecha).
      Não foram poucos os mitos (ou mentiras) que os padres contaram aos “índios”, no afã de persuadi-los a aceitar o mito maior (a mentira maior). Um desses mitos auxiliares é facilmente destacável na catequese ministrada na povoação de São Tomé (fundada em três lugares e tempos distintos).
      A crença existente entre os donos da terra de que o apóstolo São Tomé já estivera entre eles há muitos séculos era exatamente um desses mitos acessórios, uma mentira que não resistiu ao veredito do conhecimento posterior. Os padres a contaram como meio de justificar suas próprias presenças em meio aos “índios”. São Tomé, reza o mito, teria vindo anteriormente, para anunciar a visita futura dos evangelizadores da Companhia de Jesus.

      Os homens de sotaina, não desconfiavam os novos crentes, adiantavam-se, como aves pressagas, ao fim da liberdade e da vida natural das nações indígenas. A conversão ao cristianismo representava o primeiro ato dessa destruição humana, que mancha o passado da humanidade de uma forma inapagável. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

POLUIÇÃO AUDITIVA

Ultimamente, pessoas bem intencionadas protestam contra templos cristãos bem intencionados, que oram e cantam em volume muito alto.
A boa intenção dos reclamantes é o silêncio, algo cada vez mais escasso no cenário urbano. A boa intenção dos evangélicos (pastores e fiéis) é de “arrebanhar” mais seguidores para sua igreja. Não cabe aqui chamá-los de hipócritas (ignorantes do que o mestre ensina em Mateus 6.5-7, sobre a maneira correta de orar a Deus). A propósito, se Deus é onipotente, onipresente e onisciente, por que aqueles que creem nesses atributos divinos se reúnem em algum lugar (ou para pedir, ou para agradecer a ele)?
No confronto das boas intenções acima expostas, caso me fosse dado prerrogativas de juiz, decidiria pelo seguinte: toda pregação e cantoria não podem transpor os limites físicos do templo (que deverá ter isolamento acústico, à maneira dos clubes sociais).
Malgrado a impossibilidade do silêncio absoluto, toda emissão de som necessita de controle, sob pena de ocorrer o contrário: o incômodo auditivo, a poluição. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

ELEIÇÕES DE 2018

Os (pseudo)democratas enchem a boca para discursar sobre a importância das eleições diretas, como ato popular inexcedível. Uma demagogia sem vergonha, que menospreza a inteligência e o senso ético ainda existentes no citado e explorado povo brasileiro.
O voto, todos sabemos, nada faz mais que chancelar uma escolha feita dentro dos partidos políticos, hoje uma das instituições com menor índice de credibilidade no país. Depois das urnas, os eleitos se reúnem em torno das bancadas estanques, dos próprios partidos ou do Congresso (no caso do Legislativo), bem como dentro do Planalto, onde se encastela parte do governo (no caso do executivo). Nos dois casos, deixa-se de ser observada a vontade do povo ao longo de quatro anos a mais.
A última eleição em âmbito nacional constitui a prova da tese desenvolvida acima. O eleitor não tinha outra escolha, já polarizada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Impeachment da presidente (nunca “presidenta”) e cassação do outro (impedida pelo corporativismo assegurado pela maioria).
E Michel Temer, o presidente que assumiu com ou sem “golpe”, o que fez de coerente com a escolha popular (que o alçou a vice-presidente)?
Os mesmos (pseudo)democráticos não reconhecem que há um abismo entre o Estado e a sociedade civil, por conta daqueles que conduzem temporariamente a res publica. A propósito, o Brasil está longe de ser uma república em que o cidadão comum tenha a mesma condição democrática que o funcionário do Estado.
Para concluir, exponho uma ideia que me perturba por sua originalidade e pessimismo: as eleições de 2018 não resolverão os problemas políticos e econômicos dos bruzundangas.
Pensem nisso, enquanto lhes digo até a próxima postagem.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

domingo, 15 de outubro de 2017



O corpo nu, ao vivo, é arte? 

Um grupo de intelectuais brasileiros responde afirmativamente, baseando-se na arte conceitual, cuja tendência é de valorizar a ideia e não os aspectos materiais. 
Dessa forma, o expectador é levado a interagir com a obra para compreender as intenções do artista. 
Quem produziu o corpo humano? Deus, creem os criacionistas. A natureza, respondem os evolucionistas. Pouca diferença faz saber quem é o autor.
Se o corpo nu é arte, tudo mais o é: uma árvore, um cão dormindo, um carrapato, uma flor... Isso significaria o fim do próprio conceito de arte, muito além do que Michel Archer chamou de "fim das certezas".
A obra de arte, independentemente de toda definição, necessita da intervenção do homem como artista, único capaz de produzi-la com um propósito não apenas estético. 
O corpo nu pode ser interface ou instrumento para alguma manifestação ou performance artística: tatuagem, pintura, joia, roupa, dança, imitação, fotografia etc.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OS MAPUCHES (mapu = terra; che = gente), também chamados de ARAUCANOS



O Chile passa por um problema social, em decorrência de um conflito entre extrativistas florestais e mapuches (povo nativo que habita o centro-sul do país). No último confronto, os mapuches queimaram 14 caminhões das empresas exploradoras, forçando o governo chileno a prender os líderes araucanos, então acusados de terrorismo. Muitos membros da nação autóctone vieram para a capital, onde protestam pela libertação de seus líderes. Ambientalistas, estudantes, políticos de oposição e outros inconformados politicamente se uniram aos protestos, dando uma canseira nas autoridades repressoras. As praças se transformaram num campo de batalha, com os manifestantes a pichar muros e a quebrar lâmpadas e placas, e os mantenedores da ordem a persegui-los com gases tóxicos e prisões. Viaturas oficiais em alta velocidade atravessam a noite com sirene ligada, a aumentar a vigília de hóspedes do hotel Principado de Astúrias. A palavra "libertad" está na boca dos mapuches, os últimos defensores das florestas no centro-sul do Chile.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

HIPOCRISIA SUPREMA

Pergunto aos evangélicos, pastores e líderes de igrejas, qual foi a resposta que Jesus deu aos fariseus, quando estes mostraram-lhe o dinheiro do tributo (Mt 22.21). Os fariseus queriam apanhar pela palavra o nazareno: “É lícito pagar o tributo a César ou não?”. A moeda apresentada trazia a efígie e a inscrição de César, o imperador romano. A resposta foi simples e direta: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”.
Minha interpretação é de que o dinheiro podia ser dado a César, não a Deus, para quem a doação deve ser de natureza imaterial (coerente com Mt 6.24). Hoje as igrejas disputam a tapa o dízimo e outros serviços do gênero na forma de dinheiro (em espécime). Essa riqueza mundana não retorna em obras para os necessitados, mas é administrada pelos senhores do templo.
Não divirjo da Bíblia, que traz 34 referências ao dízimo, em nenhuma delas fica demonstrado que a oferta foi feita em dinheiro. A falácia que circula como doutrina no meio religioso é de que a intenção do dizimista transcende as especulações acerca da real utilização do dinheiro entregue de mão beijada.
A hipocrisia dos fariseus que interpelaram Jesus parece coisa de criança se comparada à dos criadores e administradores de igrejas do nosso tempo. A prova do que afirmo nestes termos pode ser observada sob a claridade meridiana, na forma de pastores que enriquecem a toda hora. O dizimista, por sua vez, não se importa com essa desfaçatez, na medida em que ele ora para Jesus lhe dar uma recompensa material. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

11 DE SETEMBRO


Manhã de 11 de setembro, do ano de 2001, os Estados Unidos foram violentamente surpreendidos com ataques terroristas, que causaram a morte de 3.278 pessoas. As imagens de dois aviões contra as Torres Gêmeas não se apagam da memória daqueles que as viram estupefatos pela primeira vez. A forma como os fatos invasivos justificaram a nova política antiterrorista norte-americana engendrou a teoria conspiratória na cabeça de gente anárquica, que imagina o envolvimento dos Estados Unidos. Tais inimigos da liberdade, dominados por tânatos, batem palmas, quando percebem o absurdo de sua ideia. 

PARA ENTENDER O EVOLUCIONISMO

Um simples pé de umbu me serve para esclarecer sobre a evolução das espécies, segundo a teoria extraordinária de Charles Darwin. Ao observá-lo, você concluirá provavelmente, que ele foi planejado por um criador, em vista de sua perfeição aparente. A árvore gigantesca só se manteria em pé, a resistir o vento mais forte, graças às suas raízes enormes (que ocupam vários metros quadrados antes de se fixarem profundamente no solo). A espécie Phytolacca dioica evoluiu de outra muito semelhante. Certamente, no princípio dessa evolução, ela não tivesse as raízes tão desenvolvidas, a causar a queda e morte de muitos espécimes. Apenas as árvores com raízes um pouco mais desenvolvidas resistiam ao vento forte e conseguiam sementar (a transmitir o upgrade genético). Os espécimes que caíam, por sua vez, deixavam de integrar o processo evolutivo. Ao longo de milhares e milhares de gerações, a regra passou a ser o umbu com raízes cada vez maior, resistente ao vento forte. Sua perfeição aparente não infere um designer inteligente, como acreditam os criacionistas, mas o acúmulo de pequenas variações. 

domingo, 6 de agosto de 2017

REFLEXÃO DEPOIS DE UM BAILE

Todo indivíduo tem um espaço próprio, que é só seu por uma necessidade fundamental – a de viver simplesmente. A delimitação desse espaço se dá por intermédio de um “material” flexível, que se expande conforme as pulsões, vontades e desejos individuais, ou se contrai sob as injunções externas. O equilíbrio mais ou menos estável dessas duas forças possibilita a existência de cada um. Qualquer ruptura provocada pelo desequilíbrio coloca o indivíduo em risco de explodir ou de implodir em dado momento. Atualmente, a “zona de conforto”, o espaço acima referido, diminui a olhos vistos, tornando mais imperiosa a relação do indivíduo consigo mesmo e menos importante a relação com o outro. O paradoxo, então, evidencia-se como nunca: individualismo ou convivialidade. A solução continua sendo o amor.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A OBRA

Buenos Aires é uma obra extraordinária do artifício humano, construída entre as águas do Rio da Prata e as planuras naturais do continente sul-americano.
Para realizá-la, seus autores se esmeraram no desenho e na execução do projeto urbanístico. A arquitetura trazida da Europa modelou a grandeza e a excentricidade da aristocracia que governava a Argentina.
A essas duas características, associava-se a permanência no espaço-tempo, herdada dos clássicos pela modernidade (que Zigmunt Bauman chamaria de “sólida”).
A obra continua em pé, despertando a atenção do turista, que vem de todos os lugares do planeta. O século XXI, todavia, coloca-a frente a um desafio ameaçador, qual seja, resistir à “liquefação” pós-moderna.
O fenômeno transformador já chegou por intermédio da urbanização caótica (Puerto Madero de um lado, a favela de outro);  das culturas novas, globalizadas; dos governos populistas, igualitários...
Nada é para sempre, inclusive as Pirâmides (e os mausoléus do cemitério da Recoleta). 

sábado, 29 de julho de 2017

CRÔNICA DE BUENOS AIRES



Buenos Aires tem muitos cafés e livrarias (de novos e usados). Numa mesma quadra, posso encontrar mais de um local para vender bebida ou livros.  Esse comércio não resulta apenas de uma injunção do mercado, mas da cultura que o precede. Tal se evidencia em dois dos mais famosos pontos da cidade: Café Tortoni e O Ateneu. O café da Avenida de Mayo consiste numa espécie de galeria de artes, com destaque para a literatura. A segunda mais bela livraria do mundo, localizada na Avenida Santa Fé, conta com um café em seu interior. Penso que há uma relação efetiva entre a bebida e a leitura. Os hábitos gastronômicos e intelectuais remontam à aristocracia dos séculos anteriores. Seus memes identificam o espírito portenho, que parece resistir às mudanças impostas pela pós-modernidade. As pessoas não frequentam o café apenas para ingerir uma xícara do líquido escuro e quente. Elas nunca o fazem em pé ou andando na rua. Dentro de um café, sentam-se e pedem a bebida. Algo muito precioso está incluído nesse ritual cotidiano: espaço e tempo. Ali descansam, conversam, leem ou ficam simplesmente, enquanto atendem ao prazer de sentir o cheiro e o sabor inconfundíveis. Em contrapartida, pude observar que as livrarias não gozam da presença numerosa dos cafés. Essa observação preestabelece que os portenhos estão lendo menos. Mesmo os portenhos, que amam a sua linda e romântica Buenos Aires. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

MAIS SEGURANÇA...

A maioria dos noticiários nestes dias, ou divulgam dados cada vez mais surpreendentes das falcatruas em que se metem nossos políticos, ou remexem mais uma vez na ferida causada pela violência (que sangra incoagulável em nosso tecido social).
De uma forma análoga aos crimes do “colarinho branco”, cometido por altos funcionários contra a própria República, aumenta o crime violento, cometido por indivíduo ou súcia endiabrada contra outro indivíduo (contra a própria sociedade).
A exigência por segurança constitui uma unanimidade nacional. Mais policiais nas ruas surge como medida imediata ao alcance do Estado. Quantos policiais serão necessários para que os cidadãos se sintam em segurança afina? Mil, dez mil, cem mil, um milhão?
Essa política, no entanto, combateria a criminalidade por suas consequências, não por suas causas. O Estado, que existe para organizar a sociedade, propiciar-lhe muito mais que segurança, fracassa primeiramente nas políticas que combateriam a criminalidade por suas causas.  

segunda-feira, 17 de julho de 2017

NOVO




Em Porto Alegre, onde fora por motivo de saúde, tomei conhecimento de um projeto político para o Brasil: o NOVO. Entre as propostas mais arrojadas do partido, três me chamaram a atenção por coincidir com o que penso há muito anos: estado mínimo (presente na saúde, na educação e na segurança); ficha limpa para os candidatos a todos os cargos; corte do dinheiro público para financiar campanha eleitoral. Outras posições ideológicas podem ser lidas na imagem abaixo.
Para viver uma nova experiência, resolvi me filiar ao NOVO, desde já, dispondo-me a ser seu divulgador em Santiago. Minha filiação já foi aprovada pela organização do partido. Futuramente, não descarto a possibilidade de me submeter ao processo de seleção para candidatos a ocupar um cargo público em caráter temporário (que hoje é de quatro anos).
A propósito da Ficha Limpa, a lei não faz qualquer referência ao partido (que é totalmente isento de aprovar a candidatura de seus filiados "fichas sujas"). Tampouco o senso comum se apercebeu desse problema ao mesmo tempo político e jurídico. O partido a que pertence o ocupante de um cargo público, que venha a ser condenado por um crime previsto na lei, deveria ser também criminalizado. O NOVO surge como uma solução, ao propor a ficha limpa como conditio.
Caso algum candidato do NOVO for suspeito, processado ou condenado com uma processo qualquer, responsabilizarei ao partido para malandragem. No mesmo dia, pedirei desfiliação. A ética pode ser comparada à ideia do bem de Platão  (que queria os filósofos a governar a Polis).   

sexta-feira, 7 de julho de 2017

UMA VIAGEM IMAGINÁRIA

DEUSES E RELIGIÕES:

Um pouco de imaginação é indispensável para dar conta das lacunas deixadas pelo conhecimento – quando se trata de uma retrospectiva da história vivida pelo homem. Para viajar no tempo, em busca de esclarecimentos diversos, devo solicitar ajuda aos meus neurônios criativos, sem perder de vista Arnold Toynbee, H.G. Wells, S.N. Kramer, entre outros, que escreveram sobre os povos pretéritos.
Um rabino, um padre, um pastor evangélico e um mulá são meus convidados especiais para esta viagem. Como quinto elemento, participo na condição de líder propositivo. Meu objetivo é mostrar-lhes alguns aspectos das religiões e deuses criados pela humanidade em diferentes momentos e lugares. Eles têm a liberdade de intervir, positiva ou negativamente, e de permanecer em silêncio.
Nosso primeiro destino é a Suméria, em torno de seis a oito mil anos antes do presente. Aqui saberemos acerca do cultivo da terra associado aos sacrifícios (com derramamento de sangue). O deus para quem se realizava esses sacrifícios evoluiu do mito do Homem Velho, que dominava a mente dos homens saídos do paleolítico. Daniel Dennett escreve em seu Quebrando o encanto (2006): “Há um consenso geral entre os pesquisadores de que o grande desvio responsável foi o surgimento da agricultura e os maiores assentamentos que ela tornou tanto possíveis como necessários”, sobre o fenômeno social que “metamorfoseou” as religiões naturais em religiões organizadas.
Os locais em que eram realizados os sacrifícios, isso nos causa certo espanto, transformaram-se em templos e, em torno desses templos, surgiram as primeiras cidades. Segundo H.G.Wells, “o surto das cidades é o período do templo na história”. Em todos os templos, havia um santuário, dominado por uma figura teratológica, meio humana meio bicho, a qual passou a representar o próprio deus do local. Em cada local, havia um deus diferente, muito bem cuidado pela classe dos sacerdotes, que foram os primeiros administradores das cidades sumerianas.
O excerto a seguir, posteriormente lido e transcrito à produção deste texto, constitui uma prova de que minha imaginação encontra respaldo historiográfico em KRAMER (Os sumérios, 1997, p. 139):

O teólogo (ou sacerdote) sumério notou que terras e cidades, palácios e templos, campos e quintas – em resumo, todas as instituições e realizações concebíveis – eram vigiados e supervisionados, guiados e controlados por seres humanos vivos; sem eles as terras e cidades ficariam desertas, os templos e palácios ruiriam, os campos e as quintas ficariam transformados em lugares desertos e selvagens. Necessariamente, portanto, o cosmo e todos os seus incontáveis fenômenos têm também de ser vigiados e supervisionados, guiados e controlados por seres vivos de forma humana. Mas, sendo o cosmo muito mais extenso e a sua organização muito mais complexa do que a soma total das realizações humanas, estes seres vivos deviam obviamente ser mais fortes e mais eficientes do que os vulgares humanos. Acima de tudo, deviam ser imortais. Doutro modo, o cosmo cairia no caos após a sua morte e o mundo caminharia para um fim. [...] Era cada um destes seres invisíveis, antropomórficos e, ao mesmo tempo, sobre-humanos e imortais, que os sumérios designavam pela palavra dingir, que nos traduzimos por “deus”.
        
Com o crescimento das cidades e seus intercâmbios pacíficos ou belicosos, era óbvio que seus deuses sofressem uma espécie de seleção artificial, sobrevivendo os mais fortes, como Marduk, na Babilônia, e Baal, na Fenícia, Canaan e adjacências.
Não é o caso de perguntar ainda aos meus companheiros de viagem se entenderam bem o princípio gerador dos primeiros deuses.
A viagem continua, contornando o Oriente Médio com o firme propósito de deixá-lo mais para o final. Com um salto no espaço-tempo, vamos a uma cidade qualquer da Grécia Antiga. Aqui entrevistamos alguns habitantes sobre seus deuses luminosos ou obscuros (que residem no Monte Olimpo). Nenhum dos entrevistados duvida da existência de Zeus e seu staff divino. Pelo contrário, eles e todos os demais coetâneos nos asseguram que seus deuses existem, merecedores dos cultos mais distintos quanto estapafúrdios.
Na pele de estrangeiros, sabedores de que os deuses gregos não eram reais, corremos o risco de sermos presos, processados e mortos caso professássemos a verdade. Neste momento, falo aos religiosos que me acompanham sobre a Alegoria da Caverna de Platão (1997), do indivíduo que retorna para libertar os demais (cativos pela sombra, pela ilusão).
Ao nos deslocarmos para o norte da Europa, pergunto a meus interlocutores que acharam da experiência. Por que os deuses gregos deixaram de existir? A resposta é unânime: ninguém mais acredita neles.
Mais um salto no espaço-tempo, para visitar os hiperbóreos há um milênio de anos. A religião viking conta com deuses, lugares de adoração e culto a eles.  Ao interpelarmos alguém, temos o cuidado de não pôr em questão a existência de Odin, sob pena de termos a cabeça cortada por um golpe de machado. Cientes desse perigo, eles concordam com o meu argumento de que a religião viking transformar-se-ia em mitologia viking, a partir da invasão e domínio de uma nova religião (a cristã).
O próximo destino de nossa viagem é Tenochtitlan, a capital dos astecas. Para a nossa saúde, mantemo-nos incógnitos. Os sacrifícios são frequentes, para agradar ao deus sol, o qual se apagará sem o sangue humano. A propósito o mundo nasceu do ato voluntarioso de um deus que se lançou numa fogueira, transformando-se no sol. Os astecas fazem guerra com o objetivo de aprisionar inimigos fortes e saudáveis para arrancar-lhes o coração no topo de altares monumentais. Da mesma forma como acontece em outros lugares, nenhum dos habitantes locais duvida da existência de seus deuses. Apenas a nossa comitiva sabe que seus deuses deixarão de existir no futuro.
Ainda na América, ao sul do Equador, a nação tupi-guarani cultua o deus Nhanderuvuçu ou Tupã. Não vejo necessidade de passarmos por lá. O pastor é o primeiro a concordar que deixemos de lado os silvícolas sul-americanos. Muito atrasados, segundo ele. Não obstante esse atraso civilizatório, seu deus criou o mundo de uma forma bastante aproximada do deus bíblico. No lugar de Adão e Eva, Tupã inicia a humanidade com Rupave e Sypave, “pai dos povos” e “mãe dos povos”, respectivamente.
Roma é nosso destino. Malgrado o cosmopolitismo da capital do Grande Império, com a importação de cultos religiosos das províncias conquistadas, os romanos são cuidadosos com suas práticas oracionais (em altares construídos dentro das próprias casas). Seus deuses imitam os deuses gregos, notadamente antropomórficos (como percebeu Xenófanes de Cólofon). Júpiter é a mais poderosa das divindades, equivalente a Zeus. Até então, este é o lugar mais tolerante por que passamos nesta viagem – para nossa tranquilidade.
Egito poderia ser o segundo lugar a ser visitado, depois da Suméria. Aqui também teve início uma civilização independente, da mesma forma organizada por uma classe sacerdotal. Deuses diversos em diversos templos. A figura político-religiosa do Faraó evoluiu de um sacerdote inteligente e dominador, até se transformar em único representante de deus na terra durante a XVIII Dinastia, com Amenófis IV, mais conhecido como Aquenáton (pai de Tutancâmon). A presente visita ao Egito, justamente no tempo de Aquenáton, tem o propósito de mostrar a meus convidados uma religião monoteísta anterior ao judaísmo. Aquenáton introduziu o monoteísmo centrado no deus Aton, mas os egípcios voltarão ao politeísmo depois da morte do Faraó. Richard Dawkins escreve em Deus, um delírio, página 57: “Não está claro por que a passagem do politeísmo para o monoteísmo deva ser encarada como aperfeiçoamento progressivo evidente”. À exceção de mim, os demais divergem de Dawkins.
A próxima escala é Judá, pequeno reino incrustado numa região geograficamente pobre, ocupada por pastores nômades. O germe de uma civilização teima em se desenvolver aqui, a partir do templo erguido na cidade de Jerusalém (da mesma forma já caracterizada nos demais lugares visitados até então). Nossa chegada coincide com a reunião de sacerdotes, escribas, profetas, contadores de história... que atendem a um convite do líder político e religioso dos judeus. Com a ajuda do rabino, logo soubemos tratar-se de um projeto ambicioso de Josias, qual seja, o de produzir “uma saga épica, composta por uma surpreendente coleção de escritos históricos, memórias e lendas, contos folclóricos, propaganda real, profecia e poesia antiga”, segundo FINKELSTEIN & SILBERMAN (2003). Ao longo de onze séculos, de Jerusalém a Niceia, o livro ganharia várias edições, com acréscimos tão significativos quanto díspares. As interpretações persistem até o presente, ao bel-prazer discursivo, depois de ter ensanguentado a Europa com guerras fratricidas entre católicos e protestantes.
Antes de partirmos outra vez, pergunto aos meus interlocutores como eles imaginam o surgimento da crença que foi Deus a ditar o livro. A propósito, Deus tem um nome atualmente: Javé, que se sobressaiu na Idade do Ferro. Sua aliança com Israel e Judá exigia apenas fidelidade exclusiva, condição que relegaria à inexistência os deuses da Idade do Bronze, entre os quais El e Baal. A partir da segunda parte do livro de Isaías, também chamada de Dêutero-Isaías, Javé foi proclamado único. Posteriormente, os judeus o tratariam como Adonai (Senhor). Mais afoito entre os viajantes, o pastor responde pelos demais: a ideia mesma de Josias já é revelação divina.
Essa resposta me faz lembrar Toynbee (1955), para quem os filhos de Israel eram dotados de “uma incomparável sagacidade espiritual”. Para o historiador renomado, a descoberta de uma verdade “absoluta e eterna”, de um único deus, levou os judeus ao pressuposto de uma verdade “média, relativa e temporária”, de que eles eram o povo eleito (a ponto de rechaçarem Jesus Cristo como enviado especial de seu deus). 
Nossa última viagem é a Medina, dois anos após a chegada de Maomé. A cidade está em polvorosa, com a vitória dos seguidores do profeta contra os mequenses na batalha de Badr. Sob o olhar silencioso de Kaleb, faço uma síntese do islã até este momento. Há 12 anos, o jovem Muhammad jejuava no Monte Hira, quando sonhou com a aparição do anjo Gabriel. Este teria afirmado que o sonhador nada mais era que “o profeta de Deus”. Um tanto perturbado, contou à mulher Khadijah, sobre o sonho. Um primo dela, velho conhecedor da literatura dos judeus e cristãos, foi categórico: “o enviado divino que certa vez visitara Moisés tinha retornado novamente ao Monte Hira” (HITCHENS, 2007). Mohammad se convenceu disso, pregando em Meca novas ideias religiosas (como a de que os infiéis a Alah queimarão no inferno). Tanto incomodou os poderosos de Meca, que foi obrigado a fugir da cidade na noite que precedia sua execução. Em Medina, já contava com adeptos. Aqui organizou uma força armada, com o objetivo de assaltar caravanas que abasteciam Meca (vindas da Síria). Seu exército cresceu à medida que crescia seus seguidores. Logo o profeta dominará toda a Arábia, norte da África e invadirá a Europa pela Península Ibérica. Isso se torna previsível a partir da vitória hoje comemorada nos ruas.
Kaleb, como testemunhamos em nossa “visita”, o deus na época de Moisés era Javé, exclusivo dos hebreus. Alah é a fusão em árabe de El + Iah, que eram duas divindades assírio-babilônicas.  Outra observação pertinente é de que não há conteúdo doutrinário em Hira, como no Sinai. O Corão será compilado em séculos futuros, mais ou menos coerente com as pregações de Maomé. Ao constar que o islã é a única religião verdadeira aos olhos de deus (3, 19), o Corão negará o que pregava Jesus Cristo: “Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14,6). Os neoateístas baterão discursivamente sobre a exigência de fidelidade que identifica esses deuses desde a Idade do Ferro. Os infiéis não apenas sofreram ameaças de mortes horrendas, como foram mortos por ordem divina (Êx 32, 27).
Nossas viagens poderiam continuar para os lugares e tempos mais diversos, como a Nauvoo (Illinois, EUA), há menos de dois séculos. Ali veríamos pregar Joseph Smith, a construir sobre um pântano o templo de sua Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O estigma de “falso profeta”, segundo o viés bíblico, todavia, não impediu que sua igreja se multiplicasse pelo mundo. Na capital do Império Inca, Cusco, antes da invasão de Francisco Pizarro, veríamos os sacrifícios se repetirem ao sair do Sol (a suprema divindade). Na Índia, nos últimos cinco mil anos. Muitos deuses e credos. No Nepal, uma religião não teísta. Entretanto, para atender ao objetivo proposto, penso na suficiência das viagens realizadas.
As viagens realizadas, sentamo-nos à mesa para uma conversa mais tranquila, sem o risco que corríamos como peregrinos em terras menos civilizadas. Não posso dizer que a reunião funcione ao modelo do brainstorming, uma vez que as ideias são de antemão substituídas pelas crenças de meus interlocutores.
A pergunta que não quer calar é se o objetivo proposto antes de nossa peregrinação (ou estudo) foi alcançado.
“Eu continuo a crer no Cristo vivo, no Deus vivo”, padre Lauro dá prosseguimento à conversa. “Todos os deuses cridos anteriormente, nos mais diversos lugares por que passamos, demonstram uma ‘intuição’ humana do divino. Em meu curso de Filosofia, encontrei esse pensamento em Descartes, como prova a priori da existência de Deus. A ideia de um ser perfeitíssimo em nossa mente implica sua existência.”
Reverendo, afirmas tua fé num deus vivo... Fé é sentimento. Não há dúvida sobre a relação sinonímica desses dois termos. O primeiro como hipônimo do segundo. O filósofo que citas desvalorizou “o mundo dos sentimentos, das emoções, das paixões”, segundo PADOVANI & CASTAGNOLA (1993). Esses estados da alma são irracionais para Descartes, como o próprio conhecimento passado pela tradição (antes do cogito).
O rabino e o mulá, que se identificam pela boca fechada e pelos ouvidos atentos, não estão dispostos ao diálogo. Pergunto a Samuel se ele acredita realmente que Moisés falou com Javé no Monte Sinai. Antes que responda, dirijo-me a Kaleb: Tu acreditas realmente que Maomé ouviu o anjo Gabriel no Monte Hira?
“Eu creio na Torá, escrita pelo próprio Moisés.”
Malgrado o criticismo superior negar essa autoria?
Samuel balança a cabeça afirmativamente.
Kaleb também responde que sim, imitando o gesto de cabeça do judaísta.
Segundo padre Lauro, os deuses com nomes diferentes provam, na verdade, a intuição do deus único. Assim, Javé e Alah seriam o mesmo deus. Essa identificação, todavia, não se verificou na prática, apesar da intertextualidade presente entre as duas religiões. Duas observações são necessárias como contraponto: 1) caso os deuses que apareceram a Moisés e a Maomé sejam o mesmo deus, por que as tábuas ditadas têm conteúdo diferente?; 2) porque a exigência de exclusividade de Javé ao povo de Israel e de Alá aos árabes islamitas? Há mais de mil e trezentos anos, judeus, cristãos e islâmicos se perseguem e se matam numa guerra fratricida, injustificável. Por que esses deuses, como representação de um deus único, ditariam algoritmos diversos aos seus eleitos?
Padre Lauro, tua tese corre o risco da insustentabilidade. Todavia, bato palmas para o ecumenismo idealizado por ela. A Igreja Católica fracassou na tentativa de universalizar o cristianismo do alto de um estado poderosíssimo – o Vaticano. De acordo com JENKINS (2013, p. 45), a “fase gloriosa da história do cristianismo” é encerrada historicamente pelo Concílio de Niceia (alguns anos depois de o imperador Constantino aceitar a nova religião seguida pela própria mãe, Helena).
Jonas, não posso declinar o nome de todos os deuses criados pelos povos que visitamos num périplo imaginário. A relação é extensa. Em todo caso, incluindo-se aqueles que já fizemos referência, apresento-te alguns nomes pela ordem alfabética: Acuecucyoticihuati, Afrodite, Alah, Amaterasu, An, Anat, Antu, Anúbis, Apo, Apolo, Ares, Artemis, Asera, Assur, Atena, Aton, Baal, Brahma, Belzebu, Chac, Ceres, Dionísio, Durga, El, Enki, Enlil, Eros, Frey, Ganesha, Gerda, Guaraci, Hades, Hanuman, Hefesto, Hera, Hermes, Hórus, Huitzkopochtli, Iah, Iara, Inana, Inari, Inti, Ishkur, Isis, Itzamna, Ixtchel, Izanagi, Izanami, Jaci, Javé, Krishna, Loki, Mama Quilla, Moloch, Muntu, Nammu, Nana, Nhanderuvuçu, Ninlil, Odin, Ometeotl, Osíris, Pacha Mama, Pauahtun, Posêidon, Quetzalcoatl, Rá, Rama, Saraswati, Set, Shiva, Sinki, Susano-o,  Uke-Mochi, Thor, Tlaloc, Tohil, Tupã, Tyr, Viracocha, Vishnu, Xiuhtecuhtli, Xólot... Essa tendência de criar e adorar deuses mais ou menos semelhantes em lugares sem ligação geográfica, provaria a existência no homo sapiens de um gene divino? Não descartando o meme (transmitido de um povo a outro, ou de relação “paterno-filial” entre sociedades, como expressa Toynbee), a ideia de Deus seria de natureza bio-lógica?
Caro pastor, noventa e nove por cento dos deuses criados e adorados pelo homem não existem mais. Por um determinado tempo, eles foram deuses vivos, presentes nos ritos religiosos, determinantes da ordem moral e, por extensão, da vida de uma tribo, comunidade, povo ou civilização. Depois de mortos, em razão da não existência daqueles que o alimentavam com a própria fé, esses deuses perderam a condição religiosa, para passar à mitologia. Judeus, cristãos e islâmicos, no entanto, juram que seu deus é verdadeiramente único, não obstante as distinções que os caracterizam dogmática e ideologicamente. Mais notadamente o cristianismo, por intermédio de seus teólogos e pregadores, reconstruiu o deus do Velho Testamento, não o tratando pelo nome de origem, Yahweh, Javé ou Jeová, mas pelos epítetos Senhor e Pai. Sem perder a pessoalidade, um deus “ciumento, mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedente de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo”, segundo DAWKINS (2006), transforma-se em deus da bondade, do perdão e do amor.
Tu acreditas realmente que o antigo e o novo testamento versam sobre o mesmo deus?
Jonas responde que sim. Com a palavra, reafirma sua fé no Deus-Pai, que enviou o Filho, o Cristo encarnado, para morrer na cruz e salvar os homens de seus pecados. “Acredito no cumprimento das profecias, acredito na natureza divina de Jesus e na sua ressurreição”.
A nossa viagem não te levou a identificar os deuses de diferentes partes do mundo com o deus em que acreditas, exclusivo para o judaísmo e universal para o cristianismo. Nenhum de vocês o fará, certamente. Kaleb é o único a aceitar uma aproximação entre Alah e o deus de Abraão, porque o Corão assim o permite, na medida em que os homens que o consolidaram visavam à rápida expansão do islã.


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, João Ferreira de (tradutor). Bíblia Sagrada. Revista e atualizada no Brasil. 2. ed. – Barueri – São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. Tradução de Fernanda Ravagnani. – São Paulo: Companhia da Letras, 2007.

DENNETT, Daniel. Quebrando o encanto: a religião como fenômeno natural. Tradução de Helena Londres. – São Paulo: Globo, 2006.

FINKELSTEIN, Israel. A Bíblia não tinha razão / Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. Tradução de Tuca Magalhães. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.

JENKINS, Philip, Guerras santas: como 4 patriarcas, 3 rainhas e 2 imperadores decidiram em que os cristãos acreditariam pelos próximos 1.500 anos. Tradução de Carlos Szlak. – Rio de Janeiro: LeYa, 2013.

KRAMER, Samuel Noah. Os sumérios – Sua história, cultura e caráter. Tradução de Salvato Telles de Menezes. Lisboa: Livraria Bertrand, 1997.

MAOMÉ. Alcorão sagrado. Tradução de Samir El Hayek. – São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, 1974.

PADOVANI, U; CASTAGNOLA, L. História da Filosofia. – 15ª ed. – São Paulo: Melhoramentos, 1990.
PLATÃO. A República. [Os pensadores.] Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

TOYNBEE, Arnold J. Estudio de La Historia. Volumen IV. Traducción de Vicente Fatone. – Buenos Aires: EMECÉ EDITORES, S.A, 1953.

WELLS, H.G. História Universal. (Volume I.) Tradução de Anisio Teixeira. São Paulo: Companhia Distribuidora Nacional, 1956.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Smith_Jr. Acesso em 27 de junho de 2017.  

quarta-feira, 5 de julho de 2017

REAÇÃO ÀS NOTÍCIAS

A violência cresce no Brasil, com causas e consequências já conhecidas por todo cidadão devidamente informado. 
O Estado vem sendo incapaz de conter a criminalidade, em decorrência da corrupção de seus agentes políticos, do corte no orçamento (como ocorre agora com a Polícia Rodoviária Federal), da superlotação dos presídios, da leniência de nossas leis, da depreciação pós-moderna de toda autoridade, entre outros motivos. 
O crime organizado amplia cada vez mais suas ações a partir dos grandes centros urbanos, onde sobrem os índices de roubos, assaltos e homicídios. 
As pessoas com sentido ético mais desenvolvido necessitam romper seus casulos de passividade e medo, ir para a rua e protestar contra a situação atual. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

QUE COISA!



Na segunda-feira, em Santa Maria, comprei o livro GUERRAS SANTAS, de Philip Jenkins (um dos maiores estudiosos de religião). Já na página 16, leio o parágrafo seguinte:

Histórias de terror a respeito da violência cristã sobejam em outras épocas, com as Cruzadas e a Inquisição como manifestações principais; mas a violência entre cristãos referente aos debates dos séculos V e VI foi mais sistemática e numa escala muito maior que aquela produzida pela Inquisição. [...] Quando Edward Gibbon escreveu seu texto clássico a respeito do DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, descreveu inúmeros exemplos da violência e fanatismo cristãos.

         O Concílio de Calcedônia (perto da moderna Istambul, na Turquia) ocorreu no ano 451, onde e quando “a Igreja formulou a declaração que acabou se tornando a teologia oficial do Império Romano”. Nesse concílio, ficou decidido que Cristo é de natureza humana e divina. Isso foi de encontro à fé dos chamados monofisistas, que acreditavam na natureza divina única de Cristo.
         De acordo com Jenkins, a maior onda de terror fratricida ocorreu entre os próprios católicos. Mais tarde, os católicos matariam muçulmanos e protestantes em diferentes momentos históricos.
           Gostaria tanto que os católicos soubessem a história de sua igreja. 

sábado, 24 de junho de 2017

PESSIMISTA OU REALISTA?

Não sei se sou mais pessimista que realista, ou vice-versa. Os brasileiros chegam a um consenso: diretas já. Todos creem (à exceção de mim) que novas eleições resolverão os nossos problemas políticos, não obstante o grau de irresolubilidade que tenham alcançado nestes dias. Não penso assim. Dentro de um ano, novo processo eleitoral será aberto, com a possibilidade de ser conduzido pela “soberana vontade do povo”. E daí? Uma nova equipe de governo (presidente, ministros e secretários), por acaso, será composta apenas por pessoas incorruptas e incorruptíveis? A Lava-Jato continuará inconclusa, ou dará origem a outras operações do gênero. Os otimistas que me perdoem, vítimas fáceis da demagogia e do fisiologismo de nossos políticos. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

UMA ESTRADA


Uma estrada é a melhor metáfora para a vida. Tal associação semântica precede a existência do primeiro poeta que a empregou na Antiguidade. 
Da parte que me cabe, já aludi mais de uma vez a ela, sem me importar em ser pouco original. Algum aspecto da vida (e da estada), de repente, adquire a significação de algo que escapou à vista até então. 
Ao deixar a cidade nessa manhã, senti o prazer quase indescritível de estreitar a relação estrada–vida, tornando-a mais real que metafórica. 
Por um momento, desejei isto mesmo: dirigir por uma estrada sem destino, despreocupado com o vem pela frente ou com o que fica para trás. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MELINDRES FERIDOS...

Pessoas que acreditam num deus pessoal (tratado de “senhor” pelos cristãos), de quando em vez, interpelam-me nas redes sociais, exigindo mais respeito à sua fé, à sua religião. Elas se incomodam com a naturalidade da forma como me expresso sobre a não existência de um deus pessoal, a ilusão que significa noutras palavras sua fé e a grande mentira pregada pela sua religião. A recíproca não é verdadeira, na medida em que não me incomoda a forma debochada com que tratam minha descrença, o ateísmo de um modo geral. Pelo contrário, acho até engraçado me dizerem que não há ateu em avião que cai. Como saber a rápida conversão na iminência da morte? Os acidentes aéreos, salvo raríssimas exceções, não há sobreviventes. Na contracapa de meu livro Considerações neoateístas, faço referência a essa ironia, cujo contraponto é extraordinário: nenhum avião interrompeu sua queda por motivo das súplicas e orações feitas a um deus pessoal. Por uma questão de ética, todavia, não baixo o nível, para rebater argumentos já ultrapassados, preconceituosos, obsoletos. Há um processo de secularização em andamento desde Nicolau Copérnico, passando pelos empiristas, Iluminismo, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Albert Einstein, Bertrand Russel, Círculo de Viena, genética e neoateístas do século XXI, que apresenta um novo paradigma, fundamentado no espírito filosófico e científico. Sou apenas um arauto desse processo civilizacional, que não tem a voz cálida para se desculpar com os melindres feridos.