terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O QUE É UMA PESSOA?

Uma pessoa é a soma do indivíduo humano com toda sua carga genética (que precede o próprio nascimento), a carga educativa ou condicionante (propiciada pelos pais, pela escola e pela sociedade) e autoconstrução. 

OPINIÃO E VERDADE

Há uma necessidade de se diferençar OPINIÃO e VERDADE, doxa e episteme (segundo os sábios gregos).
Uma opinião começa com a mais frouxa e subjetiva das enunciações: “EU ACHO QUE...”.
Uma verdade é enunciada com o modelo seguinte: “ISTO É ISTO”.
A verificabilidade de que isto é isto constitui realmente o próprio conhecimento, a verdade.
Os pensadores do Círculo de Viena, desmerecidos atualmente pelos viúvos da metafísica, foram objetivos (e paradigmáticos).
O problema exposto pela pós-modernidade é que a maioria das pessoas tem ou quer ter opinião. As redes sociais comprovam essa regra.
Uma das opiniões recorrentes é de que os usuários acham que a ciência não está com nada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CRÔNICA DO BALNEÁRIO CAMBORIÚ


Nada como uma manhã azul para recuperar as energias perdidas com o estresse do dia anterior (em decorrência de dois congestionamentos na BR-101).
Todos dormem. Calço meu Mizuno e saio para a orla. A ampla faixa de areia batida permite que caminhantes pratiquem o exercício.
Alterno a caminhada com uma corridinha (do tipo “estou reiniciando hoje”). Vou até o extremo norte da enseada, onde os primeiros banhistas montam seus guarda-sóis e gazebos.
Depois de uma hora e pouco, retorno para o café reforçado: uma garrafinha d’água.
Para mim, a praia será de rígida disciplina em relação ao corpo e uma grande expectativa... que hoje domina minha alma.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CRÔNICA DO RINCÃO DOS MACHADO (...)

ÉTICA NATURAL

         Ontem observei um casal de pombas a construir seu ninho numa guajuvira, que se desenvolveu junto à parede do galpão. A faina em plena soalheira consistia em carregar gravetos no bico, num voo que acabava entre as ramagens.
         As pombas não sabem que essa mesma árvore é o lugar preferido dos gatos, onde exercitam seu instinto caçador, às vezes cochilando nas forquilhas ou nos cortes de podas passadas. Naturalmente, as aves columbiformes serão mortas pelos felinos.
         O que posso fazer, saindo da minha cômoda condição de observador?
         Duas possibilidades são descartadas a priori: prender os gatos (quase impossível ante a propensão à liberdade desses bichos) ou matá-los (um absurdo que fere a ética da vida, segundo o pensamento humano).  Outra opção seria espantar as pombas e desfazer seu ninho em construção. Também considerei um banditismo.
         A tarde passou com lentidão. Veio a noite, apressada por um temporal (misto de chuva e vento forte).
         Nesta manhã, constato que o ninho das pombas foi desfeito pelo tempo, restando os gravetos espalhados ao pé da guajuvira. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

DA PORTEIRA P'RA DENTRO


Gostei de ouvir o secretário da Agricultura, Ademar Canterle, falando para a Rádio Santiago sobre uma das políticas que será adotada pelo prefeito em relação à sua pasta. 
O nome "Da porteira p'ra dentro" significa o ato (ainda em estado de potência) de melhorar a acessibilidade dos produtores rurais às suas lavouras. 
O tempo da carreta de boi e da trilhadeira já passou. Atualmente, a estrada deve permitir o trânsito de trator, caminhão e colheitadeira. Uma lógica, que o Tiago, muito inteligentemente, percebeu no início de sua gestão. (No passado, já houve trabalho semelhante com a "patrulha agrícola".)
O Ademar conhece muito bem a realidade do agricultor, principalmente daqueles que têm suas propriedades nas regiões mais acidentadas do nosso município.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

POR AONDE?

O vento prenuncia chuva para logo. Ele se faz ouvir no farfalho enlouquecido das ramagens. Uma encruzilhada teima em se desenhar à minha frente, com perspectivas obliteradas pela minha dúvida. Não posso retornar tampouco, na medida em que a vida é uma estrada de sentido único. Meu tempo se constitui com a necessidade de ocupar novos pontos no espaço, seguir adiante. Neste momento, vou por aonde? A viagem há pouco realizada não foi suficiente para determinar um norte, malgrado indo para o sul. Talvez siga para o norte. Talvez. A chuva, prestes a cair, deverá apagar minhas pegadas.

domingo, 25 de dezembro de 2016

COMENTÁRIOS DIVERSOS

O pessoal fala muito em deus, deus pra cá, deus pra lá, mas não vejo foto dele (ou de seu único representante encarnado).
Não faltam fotos de comida, muita comida, muita bebida, muitas selfies, muitas mensagens bobas.
O Natal se seculariza, pelos hábitos daqueles que se dizem religiosos.

***

O NATAL foi introduzido no Cristianismo pela Igreja Católica, a partir de uma festa sabidamente pagã. A data hoje continua repleta de paganismos, como a figura do Papai Noel. O consumismo enlouquecido associado ao espírito natalino, mais que os elementos pagãos, e o processo de secularização serão responsáveis pelo fim da religiosidade que subsiste ainda no Natal.

***
O Uruguai é o país mais adiantado da América Latina, mais educado, mais seguro. IDH mais alto. Apresenta o maior índice de ateus, o que prova ser a moralidade anterior à religião, independente desta. Para responder à preocupação de um personagem de OS IRMÃOS KARÁMAZOV, de Dostoievski, sem deus tudo é possível, óbvio, inclusive a ordem, a decência humana. O Brasil é preponderantemente religioso e...

***


HÁ UM PROCESSO CIVILIZACIONAL em curso no Ocidente: a secularização. O que é a secularização? É a transformação ou passagem de coisas, fatos, pessoas, crenças e instituições, que estavam sob o domínio religioso, para o regime leigo. Esse processo é irreversível, mas as religiões se agarram em seus esteios dogmáticos (fixos no sobrenatural).

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

FIM DE ROMANCE

A sensação de um vazio começou logo no primeiro dia em que ele ficou sozinho no apartamento com as coisas faltando ou fora do lugar em decorrência da separação. Os furos e marcas nas paredes, lembrança imediata dos quadros, não cessaram de tortura-lo até que os pintores os eliminassem com duas demãos de tinta. Sua única saída era a rua, todavia, assim que abria a porta de volta e não a via ao fundo do corredor (preparando aulas), o vazio voltava a crescer, paradoxalmente feito uma bolha. Uma bolha vazia, diga-se de passagem, que lhe pressionava de dentro para fora, a doer na garganta, a congestionar os olhos, a rasgar a pele da racionalidade (e expor o sentimento vivo que procurara isolá-lo internamente). Após entregar o apartamento, ele retornou para o lugar de sua infância, com a perspectiva de que o vazio se preenchesse de alguma forma inexplicável. As poucas coisas que restaram do antigo lar, simples como um pote de temperos identificado por ela, os travesseiros ou o par de chinelos que ganhara de aniversário, todavia, acionavam um estado de intensa suscetibilidade emotiva, muito difícil de esconder daqueles que o cercavam na nova casa. Toda vez que retornava à cidade, via-se em frente ao edifício em que morara, a olhar para as janelas do apartamento com a ideia quase obsessiva de vê-la de repente. Certa noite, depois de rodar pela cidade sem destino, estacionou o carro na esquina em frente, para permitir que a bolha explodisse inexplicavelmente. Dentro do carro, ouvindo as músicas que ouviam em suas viagens, ele continua a sentir o vazio com uma tristeza sempre renovada, a se perguntar se ela não sentia algo também, ao ouvir as mesmas músicas. A semana que vem, ele tem uma viagem marcada (de acordo com o que haviam planejado antes da separação). Agora irá sozinho, ouvindo as músicas que ouviam juntos. Certamente, o vazio crescerá dentro dele, na medida em que estará vazio o lugar que ela ocupava ao seu lado. Depois dessa viagem, talvez faça outra com destino incerto, outra mais e mais outra. Mesmo indo para Pasárgada, não será feliz inteiramente, porque há de persistir o vazio criado pela ausência dela. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

LEIO HOJE

Do livro A arte de questionar, de A.C. Grayling:
"O que as pessoas religiosas querem dizer com a palavra 'deus' nada significa para mim, exceto um emaranhado incoerente de conceitos cujos diversos subgrupos mais convenientes são escolhido por diferentes apologistas religiosos com distintos objetivos.
"Porém a palavra traz à mente o fenômeno das religiões criado pelo homem, cujo efeito na humanidade, tanto agora quanto ao longo do tempo, tem sido, com uma margem considerável, negativo. Bastaria pensar na falsidade ideológica e nas consequentes distorções de comportamento acarretadas pela ideia de que existem agentes sobrenaturais que criaram este mundo tão imperfeito e que eles têm um interesse em nós que abrange até nossa vida sexual e o que devemos ou não comer ou vestir em certos dias.
"Trata-se de uma fonte frequente de conflito e crueldade. Em seu nome, foram cometidos crimes que não teriam sido perpetrados por nenhum outro motivo: o assassinato daqueles que 'blasfemam' ou são 'heréticos' [...]
"As doutrinas básicas das principais religiões têm suas raízes nas superstições e fantasias de camponeses analfabetos que viveram há milhares de anos. É surpreendente que essas crendices, sob a forma parcial de versões sofísticas posteriores, continuem a ter alguma credibilidade. [...]
"Eu gostaria que as pessoas vivessem sem superstição, governassem suas vidas pela razão e conduzissem seus relacionamentos com base em princípios reflexivos acerca do que devemos uns aos outros como semelhantes  que estão viajando através da condição humana - com gentileza e generosidade sempre que possível e justiça em todas as ocasiões. Nada disso requer religião ou o nome vazio de 'deus'".

terça-feira, 29 de novembro de 2016

REFLEXÃO ATEÍSTA

Os teístas, criadores de deus, deveriam se perguntar qual a possível relação de sua criatura com a morte de um grande número de pessoas em acidentes diversos.
Segundo a própria crença, esse deus antropomórfico apresenta três atributos essenciais: onipotência, onipresença e onisciência. A propósito, se ele é onipresente, por que a reza “Pai nosso que estais no céu”?
Algumas vezes, por fatores casuais, diz-se que houve milagre. Uma pessoa se salva, quando sua morte era mais suscetível. Daniel Dennett expressa em Quebrando o Encanto (2006): “A única maneira de considerar seriamente a hipótese dos milagres seria excluir as alternativas não milagrosas”.
Muito antes de ler esse filósofo, escrevi que o milagre era negado pela ocorrência contrária (a falta de milagre).
Diante das “tragédias”, os teístas poderiam pensar sobre isso e, ato contínuo, questionar a possibilidade de a criatura que eles tomam como real ser imaginária. Ao contrário, isentam-na dos três atributos acima citados, rogando-lhe que dê forças às famílias dos mortos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

FEIRA DO LIVRO

Hoje estive na Livraria Inove, onde comprei o livro A arte de questionar, de A. C. Grayling (filósofo britânico).
Perguntei ao Miguel sobre a feira, e ele me respondeu (sem esconder a desolação) que vendera pouco, bem abaixo das anteriores. Ao contrário do noticiado, as vendas tiveram uma queda muito acima dos 19% (apresentada na Feira do Livro de Porto Alegre).
Em razão do (re)lançamento do meu livro, acompanhara as duas últimas horas de domingo, e o movimento de pessoas que visitavam a Estação era desoladamente pequeno. A prova disso, mais uma vez me foi dada pelo Miguel: venderam-se menos livros no domingo do que na quarta-feira (por ocasião da abertura).
Malgrado a vontade e o trabalho dos organizadores, os santiaguenses continuam lamentavelmente sem o gosto pela leitura.
Penso que duas causas externas também contribuíram para a queda generalizada na venda no ano corrente: a crise econômica (real ou aparente) e a internet móvel. Se aquela tira o dinheiro do consumidor, esta tira-lhe o tempo (que seria dedicado à leitura).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

MALEDICÊNCIA

            Hoje liguei para a Erilaine, cumprimentando-a pelo trabalho com os gêneros textuais realizado com alunos do 9º ano do Instituto Professor Isaías. Ela e uma aluna (representante da turma) estarão em Porto Alegre amanhã, para o Encontro do Movimento Pedagógico Latino Americano.
         Algumas pessoas em Santiago, sabedoras de nossa separação, procuram a Erilaine para falar mal de mim (como se isso fosse agradá-la). Pessoas que conhecíamos na rua, ou nos lugares que frequentávamos. Disse-me que se indigna com a tentativa de difamação, rejeitando-a de imediato.
         Essas pessoas, na maioria cristãs ou espíritas, crentes num deus infinitamente bom, que preceitua o “amar uns aos outros”, não sabem que o fim da relação entre mim e Erilaine aconteceu sem briga. Não falamos mal um do outro, para justificar o injustificável. A propósito, há nove anos, no princípio do nosso relacionamento, propus a ela que colocássemos a seguinte frase na entrada da casa: “Aqui não se fala mal dos outros”.
         Essa ética até parece um tanto estranha num ateu, num anticristão. Não o é, todavia. O mesmo posso dizer dos ateus que conheço em minha cidade: a maledicência não os caracteriza antiteticamente.
           Todos nós temos falhas (algumas incorrigíveis). Ninguém é perfeito, malgrado a condição de perfectibilidade. Gostaria de saber que falhas esses maledicentes – que a Erilaine já não soubesse depois de nove anos.

O QUE É POESIA?


         Poesia é um olhar especial com que se vê seres, coisas, fenômenos ou sentimentos e a expressão desse viés num linguagem (verbal ou não) que surpreende pela forma ou conteúdo.
         O poema “Amores”, do meu livro Vozes e Vertentes (2010), prestar-se-á como para o desenvolvimento do que foi enunciado no parágrafo acima:

amores

amores vêm
amores vão(-se)
como ondas d’água
trazem flores
quando vêm
vão sargaços
quando mágoa

amores vêm
amores voam
como pássaros
de arribação

ainda que passem
amores
não vêm
em vão

         O texto não versa sobre o amor em si, posto no plano da idealização, mas sobre o sentimento que aproxima duas pessoas (e vivido de uma forma particular). Por isso, o plural “amores”.
         Os dois primeiros versos constatam apenas uma realidade: amores vêm e amores vão-se embora. Nada em especial. No terceiro verso, todavia, uma comparação (quase metáfora): “como ondas d’água”. Aqui começa o olhar diferente (que caracteriza a poesia).
         O verso sete, “quando mágoa”, apresenta uma ruptura sintática em prol da semântica. O correto seria “quando magoa”.
         Na sequência, a repetição também é interrompida com “amores voam”, ao invés de “amores vão(-se)”. Metáfora pura. Os pássaros de arribação vêm e vão embora.
         O poema se encerra com duas aliterações rítmicas: “passem” (que se associa a “pássaros”) e “vêm”/ “vão”.
          Por que os amores não vêm em vão?
          Eles trazem flores e pássaros, ora.
     Eis uma visão idiossincrásica, que apresenta autenticidade poética.

O QUE É POESIA?


         Poesia é um olhar especial com que se vê seres, coisas, fenômenos ou sentimentos e a expressão desse viés num linguagem (verbal ou não) que surpreende pela forma e conteúdo.
         O poema “Amores”, do meu livro Vozes e Vertentes (2010), prestar-se-á como para o desenvolvimento do que foi enunciado no parágrafo acima:

amores

amores vêm
amores vão(-se)
como ondas d’água
trazem flores
quando vêm
vão sargaços
quando mágoa

amores vêm
amores voam
como pássaros
de arribação

ainda que passem
amores
não vêm
em vão

         O texto não versa sobre o amor em si, posto no plano da idealização, mas sobre o sentimento que aproxima duas pessoas (e vivido de uma forma particular). Por isso, o plural “amores”.
         Os dois primeiros versos constatam apenas uma realidade: amores vêm e amores vão-se embora. Nada em especial. No terceiro verso, todavia, uma comparação (quase metáfora): “como ondas d’água”. Aqui começa o olhar diferente (que caracteriza a poesia).
         O verso sete, “quando mágoa”, apresenta uma ruptura sintática em prol da semântica. O correto seria “quando magoa”.
         Na sequência, a repetição também é interrompida com “amores voam”, ao invés de “amores vão(-se)”. Metáfora pura. Os pássaros de arribação vêm e vão embora.
         O poema se encerra com duas aliterações rítmicas: “passem” (que se associa a “pássaros”) e “vêm”/ “vão”.
          Por que os amores não vêm em vão?
          Eles trazem flores e pássaros, ora.
     Eis uma visão idiossincrásica, que apresenta autenticidade poética.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PRAIA COM RAZÃO

Queres ir à praia no próximo verão?
         Antes de ir, todavia, deves considerar sem qualquer emoção o desejo em si. Depois considerá-lo racionalmente. Por que ir à praia?
         A resposta não poderá ser “todo mundo vai à praia no verão”, “irei para descansar”, “gosto do mar”, “preciso pegar uma cor”...
Isso não passa de racionalização, processo que usa a razão apenas para justificar a vontade, o desejo consumista, ostentativo.
Para te satisfazer, comprometerás a pequena sobra de dinheiro em tua conta, aumentada com o décimo-terceiro.
Uma semana no litoral, e as contas a pagar virão em seguida: fatura do cartão, IPTU, IPVA, seguro do automóvel, carnês diversos...
O que é racional?
Primeiramente, a razão manda pagares tuas contas (ou reservar numerário para tal) e ir à praia com o saldo (se positivo).
Mesmo assim, não tens problema de pele (expondo-se ao sol)? Não és alérgico a produtos do mar? Suportas pacientemente as filas? Gostas do agito noturno?
Após responderes essas e outras questões com um “sim”, podes ir à praia no próximo verão.

sábado, 12 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

RAZÃO, PARA QUÊ?

Diferente de Zaratustra (de Nietzsche), que desceu da montanha para ir ao encontro dos homens carentes de sabedoria, deixo a cidade e me refugio no campo – onde o canto dos pássaros contraponteia o silêncio destas manhãs azuis. 
Por longos anos a observar a realidade de centros urbano (Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba, Santiago, entre outros), constatei, com certa tristeza, que os homens não necessitam de saber para levar a vida que escolheram para si próprios. Da forma como a vivem, bastam-lhes as pulsões, os desejos e as crenças. As pulsões não os diferenciam dos outros animais (irmãos de ADN). As crenças os tornam vulneráveis à ilusão de uma vida além da morte. Os desejos os prendem, todavia, a esta vida, ao desfrute dos bens terrenos, à vaidade e ao consumismo. 
A razão não se desenvolveu suficientemente para o controle das forças instintuais e concupiscentes. A propósito, essa incapacidade se revela inclusive na maneira de pensar da maioria dos homens, ainda dependente de emoção. 
O sol que subia à caverna do sábio nietzschiano me ilumina na mesma janela, por intermédio da qual o contemplava nos primeiros momentos do dia. 
Não vim para acrescentar algo ao que já sei, senão para esvaziar a taça com esse mel que as abelhas não fazem (rejeitado por aqueles que se diziam meus próximos, no entanto). 

sábado, 29 de outubro de 2016

TEMPO DE PITANGA

          

    
      O ano demorava mais a passar ao longo da minha infância, marcado por ciclos sazonais – reconhecidos pelas frutas que davam em volta de casa, no campo e mata do Rincão dos Machado.
        O ano iniciava-se com a melancia e o melão, tão apreciados à sombra do cinamomo. Entre março e abril, a natureza produzia goiaba do campo e ariticum (foi uma decepção saber mais tarde o nome correto dessas frutas silvestres: feijoa e araticum). Logo depois, vinha a vergamota, consumida ainda verde. Depois da geada, ela ficava mais doce (como a laranja).
         A próxima estação, profusa em flores, produzia a pitanga. Nas cores laranja, vermelha e preta. Eram demasiadamente doces as pitangas daquele tempo. Meus lábios tingiam-se com o seu suco dulcíssimo.
     Minha concepção do tempo mudou, mudei também. A impressão é de que o ano passa mais depressa agora. O sabiá, todavia, continua a cantar nas pitangueiras da redondeza, e estas continuam a produzir seus frutos coloridos e doces.
        Nesta manhã, fui ver meu irmão plantar soja com o trator (plantio direto). Passei por um bosque de pitangueiras no retorno, deliciando-me com as mais maduras. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CRÔNICA DO RINCÃO DOS MACHADO

Os galos cantam a qualquer hora da madrugada. Para não ligar as luzes da casa, vou ao banheiro com uma lanterna (que deixo em pé ao lado da cama). Por volta das seis horas, o pai se levanta, liga o rádio, ascende o fogo e toma chimarrão até clarear o dia. Logo também me levanto, porque já dormi o suficiente. No campo, deita-se cansado e se acorda maravilhosamente bem. Na cidade, vai-se para a cama maravilhosamente bem e se levanta cansado. Depois dos galos e do pai, os pássaros trazem a manhã com o som de seu canto diverso e encantador.  Um vento frio sopra da serra, de onde residiam Colpo e Fiorenza (meus ascendentes maternos). O céu ainda traz a profundidade azul de outubro, com nuvens em forma de tufo a cruzá-lo levadas pelo vento. Há paz para meus ouvidos, para meus olhos, para minha mente e coração.