terça-feira, 24 de julho de 2018

O VIZINHO PRESO


A Avenida Canadá, que passa a cem metros do endereço onde me hospedo em Curitiba, leva ao bairro Santa Cândida, mais exatamente à sede da Polícia Federal. A nova residência do Lula da Silva dista uns 20 quarteirões daqui, espaço que pode ser percorrido a pé (se não valesse a pena tirar o carro da garagem). 
Em plena manhã azul, brisa agradável vindo da Serra do Mar, penso que é arriscado fazer uma visita ao ex-presidente, com a probabilidade de voltar frustrado de lá. Essa frustração se daria menos por não vê-lo (em sua cela especial), mas por sabê-lo prestes a ganhar a liberdade – a partir de uma decisão monocrática de algum juiz do Supremo. 
Dessa forma, sou exatamente o oposto dos lulistas , que querem porque querem ver o Lula (objeto de sua idolatria) livre e outra vez na presidência do Brasil. 
Da sacada do apartamento, vejo pessoas no parque sob o sol claro e doce desta manhã. Além da Canadá, o céu é disputado pelas imensas araucárias e pelas torres de cimento, num quadro bastante ilustrativo da dicotomia natureza – artifício.      

ALEGORIAS

CRÔNICA DE CURITIBA


Um dos sonhos da minha adolescência contemplava Curitiba como a cidade em que gostaria de morar um dia. (O país era o Canadá.) Naqueles anos, sequer havia atravessado o Uruguai, o Pelotas ou o Mampituba, não tendo uma justificativa para a minha escolha.
O tempo passou. Com ele, passei alguns trechos inesquecíveis. No Rio de Janeiro, algumas cidades me foram oferecidas para exercer a nova profissão. Não vacilei ao fazer a escolha: Curitiba. Pelo caminho mais reto possível, o sonho virou realidade.
Meados dos anos oitenta, a capital do Paraná ostentava epítetos interessantes: Cidade Sorriso; Capital Ecológica... Ela fora administrada por Jaime Lerner, grande urbanista que reestruturou a cidade (fazendo-a turisticamente mais atrativa). Não me cansava de elogiá-la para os meus conterrâneos gaúchos.
Curitiba foi meu único endereço ao longo de nove anos. Nela vivi grandes momentos da minha vida profissional, intelectual e emocional (ainda que seja possível separar tais categorias existenciais). No ano de 1994, fui embora da cidade, transferido para o Mato Grosso do Sul e de volta à terra natal na sequência. Malgrado a distância, nunca deixei de pensar em Curitiba.
O eterno retorno, um dos conceitos mais obscuros de Nietzsche, trata das repetições que ocorrem no universo e, mais humanamente, em nossas vidas (algumas vezes percebidas por nós como produtos do acaso, do destino ou até mesmo da própria escolha). O importante é a aceitação dessa inexorabilidade, que o filósofo chamou de amor fati.
      Por que faço acima uma referência à filosofia nietzschiana? Certamente, para justificar o fato de que retornei para Curitiba há dez dias.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

CONDICIONAMENTO RELIGIOSO


O Grande Houaiss traz a significação seguinte para o termo condicionamento: FISL PSIC processo de associar, pela repetição, um estímulo a uma reação não natural, de tal modo que a exposição a tal estímulo passe a provocar essa reação.
Em Considerações neoateístas (2016), publico um exemplo para ilustrar o processo condicionante:
Uma criança santiaguense, antes mesmo de ser alfabetizada pelos pais ou pela escola, é apresentada à Bíblia – o livro ditado pelo deus judaico-cristão. Dessa forma, ela passa a ter uma iniciação, um condicionamento na religião em que fora batizada nos primeiros anos de vida. Outra criança, nascida em Gardez (Afeganistão), antes mesmo de ser alfabetizada pelos pais ou pela escola, conhece o Corão – o livro ditado pelo deus do islamismo... O resultado é bastante diferente: um novo cristão aqui e um novo islâmico lá.

Em razão de meu espírito crítico, filosófico, pergunto por que as duas crianças acima creem em religiões diferentes, em deuses diferentes. Outros exemplos são tão numerosos quanto o número de religiões no mundo.
Numa postagem no Facebook, publiquei a foto de uma garrafa de vinho sobre Ser e tempo de Martin Heidegger. Uma das interlocutoras me escreve: “Deste-me uma boa ideia. Já me fartei de romeu e julieta, vou abrir meu vinho... Quanto à leitura, vou para a Bíblia, que já é de praxe”. Em comentário anterior, ela fora categórica: “Eu nasci crendo em Deus e sou católica por opção depois de já crer”.
Seu condicionamento real confirma os dois exemplos hipotéticos da minha transcrição acima. Ainda mais, denuncia um autoengano, de que um Eu se apossa do conteúdo do próprio condicionamento, isto é, a crença.

terça-feira, 29 de maio de 2018

INTERVENÇÃO?

          O Art. 142 da Constituição Federal assim se expresso verbalmente:

As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

           Apenas para enfatizar o tema do meu texto, destaco duas informações no artigo transcrito acima: “sob a autoridade suprema do Presidente da República” e (as FA) “destinam-se à garantia da lei e da ordem”. Não há necessidade de hermenêutica para a interpretação objetiva (literal) dos enunciados entre aspas. Todo cidadão é capaz de fazê-lo, independentemente de seu grau de escolaridade.
    Num regime presidencialista, a questão “por que as FA estariam subordinadas única e exclusivamente ao Chefe do Executivo?” se reduz a um truísmo, algo que responde a si mesmo. Tal exclusividade, penso, constitui um legado monárquico na organização do estado moderno.
   O emprego das FA para manutenção da lei e da ordem é muito diferente de intervenção militar, não apenas em razão da constitucionalidade e do objeto contra o qual se direciona a ação. Nestes dias, parece haver uma convergência de GLO (efetivada por ordem do presidente Temer) e intervenção na política (desejada por uma parcela da população brasileira).
 O histórico de intervenções militares no Brasil republicano pode ser resumido a três momentos: 1) a proclamação em 1889, gênese da própria república; 2) o Tenentismo na década de 20, que culminou com o fim da República Velha; e 3) o anticomunismo nos 60, que pôs fim aos ensaios de João Goulart para uma república popular. Em relação à GLO, os brasileiros puderam acompanhar recentemente as operações de pacificação em bairros do Rio de Janeiro.
   Por mais grave que seja a crise política (e econômica) que atinge o país, a intervenção militar equivale a incinerar a Constituição Federal, a lei maior, e consentânea destituição dos ocupantes atuais dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário). Esse revés democrático é demasiadamente cedo para acontecer, a observar friamente o contexto nacional; e demasiadamente tarde, segundo o contexto internacional.

terça-feira, 8 de maio de 2018

DESARMAMENTO VERSUS ARMAMENTO


Um espírito verdadeiramente crítico necessita colocar a si mesmo sob uma análise, com isso a superar o vulgo em sua tendência de ver no outro e de transferir a ele os defeitos próprios. Para ilustrar o conteúdo do expresso acima, cito a relação entre mim e o partido Novo.
O primeiro valor defendido pela organização política a que sou filiado é o das liberdades individuais. Isto é extraordinário: “o governo não deve decidir por nós questões que são importantes para o nosso destino”. Logo após o direito à vida, penso desde muito que a liberdade é o mais importante. Liberdade com o pressuposto da responsabilidade.
Uma das bandeiras mais radicais do meu partido é a revogação do estatuto do armamento. Não posso agitá-la nas esquinas, ou defendê-la em meu discurso, na medida em que tenho uma posição definida quanto ao uso generalizado de armas em nossa sociedade. Essa bandeira, todavia, não impediu minha filiação ao partido. Outras são mais importantes.
Os pais de nossos pais diziam que os homens tinham respeito uns pelos outros, porque andavam armados naqueles idos. Esse arrazoado é insuficiente ao determinar a causa do respeito. Esse predicado das inter-relações tinha antecedentes socioculturais, valores outros, ou internalizados pela família, ou impostos pelo estado.
Hoje a vida é pontuada pela mudança contínua, não há um tempo que tenha uma caracterização bem definida. Os dotados de uma visão mais observadora – entre os quais me incluo sem qualquer presunção – percebemos que, em meio à incerteza, à indeterminação, ao medo, novas necessidades surgem no lugar dos valores essenciais. O respeito de que se orgulhavam nossos avós não se observa nestes dias (de crise moral que afeta sociedade e estado).
O aumento da violência é um dado inquestionável, não obstante as pessoas andarem desarmadas. A revogação do estatuto e a liberação do uso de armas por todos (em razão do direito individual de cada um), todavia, não assegura a pacificação e a harmonia sociais. Não bastasse a falta de respeito em todos os âmbitos, a violência é potencializada pela droga (que se restringia ao álcool em tempos avoengos).
A distância entre o cidadão de bem e o criminoso diminui consideravelmente com a existência da arma de fogo, com grande chance de o criminoso roubar a arma de sua vítima. A oposição pode ocorrer entre dois cidadãos de bem, que, dominados por uma pulsão faz de um ou outro um assassino em alguns segundos.
Entre escolher a liberdade de o indivíduo consumir droga e a interferência do estado para coibir o tráfico violento ao extremo, não tenho outra opção. A segurança do todo não pode depender do direito da parte. (A propósito, por que não medidas políticas sobre o consumidor inclusive?)
Dessa forma, continuo a defender a liberdade, que deve ser exercida com restrições em certos aspectos – como o considerado acima. Espero que este posicionamento não provoque minha desfiliação sumária, mas que sirva de autocrítica para o partido Novo.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

CRÔNICA DE FOZ DO IGUAÇU


      

      
      Foz do Iguaçu é, pela quarta vez, o destino de minha viagem. Ora a trabalho (1986 e 1987), ora a passeio (1988 e 2018), o lugar continua a me atrair com uma força inexplicável, que, em princípio, atribuo à aproximação entre natureza e artifício (como também ocorre de uma forma soberba em Rio de Janeiro). 
      Outras pessoas são igualmente atraídas pelo conjunto de pontos turísticos existente nas três fronteiras. Apenas nesse domingo, calcula-se que 16 mil turistas visitaram as cataratas do Iguaçu. Um número bem maior cruzou a Puente de la Amistad, e outros tantos conheceram a hidrelétrica gigantesca de Itaipu (a considerar o fim de semana). 
   Decorrentes da aglomeração humana, as filas são extensas e muito cansativas. Talvez seja esse o único senão desagradável do passeio. Nem a última suba do dólar foi sentida pelos consumistas mais afoitos. 
       A segunda-feira (que seria chuvosa de acordo com uma das previsões) amanheceu azulíssima, com a temperatura outonal. A partir deste meio-dia, meu destino tem seu sentido mudado, a apontar para Santiago - a terra onde sou poeta.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

EIS UMA VERDADE:



A crença noutro mundo, numa vida além da morte, constitui a maior desgraça para este mundo, para esta vida. Obviedade que parece escapar da percepção daqueles que creem, especialistas na execração da Terra (que Nietzsche já rechaçara como o verdadeiro niilismo). 
Depois de Platão, o cristianismo se tornou o arauto oficial dessa depreciação, a transformar o paraíso (ab origine) em inferno. 
Por mais de um milênio, logrou sucesso em instituir o pecado, a dor, o sofrimento. 
Felizmente, a razão humana reagiu à insanidade a ela atribuída, a tempo de fundar o verdadeiro humanismo, agora assegurado por um processo de secularização irreversível.

terça-feira, 17 de abril de 2018

PALAVRAS DE SABEDORIA


Caro leitor, não considere esse título uma pretensão descabida antes de chegar ao fim das linhas abaixo. Sua paciência e credibilidade serão recompensadas, prometo-lhe de antemão. O presente texto poderá estimular uma reflexão em sua consciência.
Minha escolha pelo conhecimento, ao invés de acumular bens materiais (como geralmente ocorre com a maioria das pessoas), exigiu-me muita leitura e atenta observação da realidade, dos seres, coisas, fenômenos, tudo o que me cercava no tempo e no espaço.
Todas as veredas que percorri em busca de sabedoria, as mais difíceis possíveis como o de conhecer a mim mesmo, trouxeram-me a este caminho mais amplo e claro sob o sol do bem. À semelhança do homem liberto na alegoria platônica, superei a ignorância de que somos dotados ab origine e passei a compreender minhas antigas crenças e preconceitos.
A nova condição, todavia, desenvolveu em mim a responsabilidade de voltar (sempre que possível) ao interior da caverna, para dar aos outros o testemunho da claridade. A forma preferida como cumpro esse ofício remonta aos anos oitenta, quando comecei a expressar na escrita o pouco que tinha conhecimento. No impedimento de dar uma camisa ao outro (porque disponho de poucas em meu guarda-roupa), ofereço-lhe ideias. Assim penso fazer o bem.
Lamentavelmente, como previsto por Platão, não sou bem recebido por meus semelhantes mais necessitados, que teimam em viver presos às correntes do dia a dia de uma forma empedernida, ignara. Neste aspecto, o Brasil consiste numa imensa caverna, não apenas pelas religiões (que vicejam), não apenas pelas políticas (que governam), não apenas pelo crime (que assombram)...

Froilam de Oliveira
17 de abril de 2018

sexta-feira, 13 de abril de 2018

LULISMO: MANIFESTAÇÃO DE IRRACIONALIDADE

O irracionalismo político já constitui uma realidade no Brasil, a imitar a Alemanha na época nazista. A grande diferença é que lá, ele unificou a nação em torno de um líder e aqui, divide a nossa sociedade. O lulismo (petismo) é um fenômeno que escancara a participação do inconsciente na tessitura viva da realidade, a ignorar as difíceis conquistas da consciência (tomadas como marcas do avanço civilizatório). Inicialmente, pensei se tratar de anarquismo, estratégia dos lulistas para detonar com o establishment, por eles identificado como obra de uma elite (ainda chamada de “burguesia”). Sem uma crise de grandes proporções, que coloque em dúvida o sistema até então dominante, o socialismo não tem chance de chegar ao poder. 
Em seus primórdios, o lulismo empregou o “jeitinho brasileiro”, de malícia exclusiva, na medida em que não havia mais a possibilidade de uma revolução armada (comum a outros tempos). Seus arrivistas passaram a discursar sobre a democracia, regime aperfeiçoado e instituído pelo país mais capitalista do mundo, os Estados Unidos. Nesse aspecto, eles poucos se importavam com a contradição nunca percebida pela legião de apedeutas que caiu na armadilha. Após algumas derrotas eleitorais, a oposição lulista conseguiu chegar ao Planalto, a despeito do melhor momento econômico por que atravessava o país. O primeiro “pograma” no novo governo, o Fome Zero, exemplifica a contradição já reconhecida na América Latina: a fome passa a constituir a geografia humana da América Latina socialista/socialista, notadamente Cuba* e Venezuela. 
Os brasileiros deveríamos saber o que aconteceu ao longo dos governos lulistas. Infelizmente, uma parte da sociedade ainda resiste, a empunhar uma bandeira vermelha, crentes na inocência de seu grande líder. Políticos, juristas, jornalistas, professores, intelectuais, todos que o seguiam de perto, não mais se confundem como anarquistas ou socialistas. Muitos enriqueceram com a simples aproximação do poder, alçando-se a uma condição material acima da maioria (que constituiria a classe tão odiada em seus discursos). O medo de perder as regalias alcançadas não dispensando as formas ilícitas, penso agora, amplia-se para algo maior, mais assustador. Na falta de referências filosóficas, sociológicas ou psicanalíticas, denomino o fenômeno a tomar corpo de irracionalismo.

* Sugiro a leitura do romance O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura.

quarta-feira, 28 de março de 2018

MINHA LEITURA DE AUGUSTO CURY

Augusto Cury é, provavelmente, o segundo autor brasileiro mais lido em âmbito nacional – atrás de Paulo Coelho. Esse dado não pressupõe que haja muitos leitores no país, cujo deficiente de leitura aumentou consideravelmente com a massificação de computadores e celulares.
Do campeão de venda acima citado, consegui chegar ao fim de O alquimista, um livro muito aquém da crítica. Da extensa obra de Augusto Cury, adquiri dois títulos: Inteligência Multifocal e Ansiedade (como enfrentar o mal do século). O primeiro fui obrigado a abandonar já nas primeiras páginas, e o segundo leio apenas para destacar as passagens em que o autor, não raro, expressa sua imodéstia ou seu blefe pseudocientífico.
Em cada página de seu livro é possível destacar uma referência às próprias teorias, seja a da Inteligência Multifocal, seja a da Síndrome do Pensamento Acelerado. Ele considera tal síndrome como o “mal do século”, a despeito do século contar tão somente com 15 anos em sua primeira edição. Com frequência, para fazer valer suas ideias, escreve que grandes pensadores e cientistas estão equivocados:

O processo de construção de pensamentos e todas as suas implicações psicológicas e sociológicas não foram estudados sistematicamente por brilhantes pensadores como Freud, Jung, Roger, Skinner, Piaget, Vygotsky, Paulo Freire, Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Hegel, Kant, Descartes, entre outros (p. 31).

Líderes espirituais, políticos, juristas, médicos comentem erros seriíssimos porque creem que o pensamento é instrumento da verdade (p. 42).

Neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicopedagogos, ao observar crianças e adolescentes agitados, inquietos, com dificuldade de concentração e rebeldes a normas sociais, chegam a diagnósticos errados, atribuindo tais comportamentos ao transtorno de déficit de atenção ou hiperatividade, quando a grande maioria desses pacientes é vítima da Síndrome do Pensamento Acelerado (p. 46).

O blefe pseudocientífico de Cury consiste num misto de tautologia e paráfrase de ideias já existentes, como nos excertos abaixo:

Tudo o que mais detestamos ou rejeitamos será registrado com maior poder, formando janelas traumáticas, que denomino killer (p. 31).

Estamos na era do conhecimento, da democratização da informação, mas nunca produzimos tantos repetidores de informações, em vez de pensadores (p. 33).

A construção de pensamento não é unifocal, mas multifocal, não dependendo apenas da vontade consciente, ou seja, do Eu, mas de fenômenos inconscientes (p. 35).

... o primeiro ato do teatro psíquico ocorre em milésimos de segundo e não através da atuação do Eu, mas através de dois atores inconscientes, o gatilho e as janelas da memória (p. 40).

           

            Com o objetivo específico de destacar outras passagens do livro, que justifiquem o culto a si mesmo e os disparates de seu autor, continuarei a leitura de Ansiedade. Farei um esforço para chegar à última página e reescrever este texto posteriormente. Não é pretensão desmascarar o autor em pauta, coisa que outros mais capacitados não conseguiram com uma crítica mais elaborada. Preocupa-me, todavia, a baixa qualidade da leitura de meus compatriotas.  

sábado, 24 de março de 2018

ESQUERDA ARRIVISTA


A História tem nos ensinado qual a estratégia pseudodemocrática da esquerda para chegar ao poder. Nada diferente do que os teóricos, velada ou abertamente, vêm instruindo desde muito. 
Primeiro seus seguidores pensam (Marx deve inconfessadamente a Prudhomme) e agem como anarquistas, com o intuito de provocar uma crise em seus países. Nessa linha, realçam uma distinção de classes e fomentam o ódio aos melhores estabelecidos economicamente. O discurso de Marilena Chauí contra uma classe média, a despeito da condição etílica em ela se encontrava, constitui prova do que expresso no período anterior. 
Depois, por intermédio da política, elaboram programas sociais e os aprovam com a consequente obtenção do apoio do povo (pior estabelecido economicamente). 
A Venezuela é hoje o exemplo mais conhecido de “transformação”, com a crise instituída e com o socialismo dando as caras. O próximo passo seria o comunismo, um sistema de organização social que nem a força do Exército Vermelho conseguiu impor aos cidadãos do leste europeu. 
A partir da debacle soviética, o sonho da esquerda na Venezuela (no Brasil e no mundo) depreende um ressentimento, um passadismo rançoso, um deboche com a própria História.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

POR QUE LEIO BAUMAN?


Nos últimos anos, venho fazendo as melhores leituras da minha vida. Não poderia ser diferente, levando-se em conta a evolução intelectual a que me submeto ao dialogar com grandes pensadores contemporâneos. O texto científico me causa tanta fruição quanto o filosófico e o literário, porque vejo com olhos iguais a verdade e a beleza.
Entre os autores que mais me exigem atenção, cito os seguintes: Richard Dawkins, Sam Harris, Jared Diamond, Yuval Harari, Luk Ferry, Daniel Dennett, Edgar Morin, André Comte-Sponville, Michel Onfray e Zygmunt Bauman. Não abandonei aqueles que despertaram em mim o gosto pelo conhecimento (no princípio dos anos oitenta): Friedrich Nietzsche, Charles Darwin, Sigmund Freud, Bertrand Russel, J. Krishnamurti, Erich Fromm e outros. Esses grandes revolucionários continuam sendo imprescindíveis para uma melhor compreensão da realidade.
Por que gosto muito de Zygmunt Bauman? O pensador polonês disserta sobre assuntos atualíssimos, sobre problemas de um planeta “negativamente globalizado”, que não mais admitem soluções locais. Leio Bauman, porque ele critica nossa sociedade, altamente consumista, a qual confunde felicidade com essa corrida frenética atrás das coisas. Leio Bauman, porque ele percebe claramente o fim do espírito sociável e sua antípoda nefasta, o individualismo radical. Leio Bauman, porque ele se debruça sobre a ética, certamente o campo mais fecundo e ao mesmo tempo necessário da filosofia prática. Leio Bauman, porque ele se adianta às minhas reflexões.
Ontem concluí a leitura de Tempos líquidos, o décimo livro do sociólogo (e filósofo) polonês a enriquecer minha estante. Nele é questionada a falta de segurança que assombra a modernidade líquida, a qual ainda alimenta quixotescamente uma “guerra contra o terrorismo”. Outro capítulo é destinado a analisar o paradoxo do capitalismo, que extrai sua energia vital da remoção de ativos, “asset stripping”, como uma cobra que se alimenta do próprio rabo. Em seguida, escreve sua a evolução da democracia, a luta contínua para associar direitos sociais a direitos políticos. O último capítulo, A utopia na era da incerteza, o autor constata que “você já não espera seriamente fazer do mundo um lugar melhor para se viver”, “a insegurança veio para ficar”.
O laboratório em que Bauman elabora seu pensamento é o mesmo que disponho aqui e agora. Para acessá-lo, basta ir até a janela deste apartamento e observar o movimento de pessoas e automóveis lá embaixo.  

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

COMENTÁRIOS (IM)PERTINENTES

APORIA POLÍTICA

Sou de direita. Penso e defendo um Estado mínimo. O Estado, como se apresenta no atual momento histórico, caminha a passos largos para a bancarrota (ruína, falência, quebra). Ao terceirizar alguns serviços essenciais, as empresas contratadas planejam faturar dez vezes mais que o justo (em razão de seu cliente ser exatamente o Estado). Isso resulta num maior gasto aos cofres públicos. Qual a solução?


COLETA DE LIXO
Santiago já exemplifica o dilema exposto acima. O município não mais tinha condições de coletar e tratar todo o lixo produzido na área urbana (um exagero que responde pelo consumismo desenfreado). A alternativa foi terceirizar, repassando para os munícipes uma taxa para cobrir a nova despesa. O que poucos onerados sabem é que entrará em vigor um aumento exorbitante dessa taxa, mais exatamente 33%% para as coletas residenciais e 140%% para as coletas comerciais.


RODOVIAS E ESTRADAS
O aumento de taxas e impostos é tão somente uma das provas de que o Estado (em todos os âmbitos) se encontra em crise. As rodovias e estradas da nossa região também comprovam a ineficiência (pela péssima gestão) ou impotência (pela falta de recursos) do estado do Rio Grande do Sul e do município de Santiago. A RS-377 entre Santiago e São Francisco de Assis, mais exatamente entre a entrada para Vila Kraemer e Picada do Padre, está quase intransitável, forçando muitos condutores de veículos a fazer a volta por São Vicente. As estradas do interior santiaguense são empedrados naturais, coisa que nunca aconteceu em administrações passadas.  


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

PADRES MITÓFILOS (OU MENTIROSOS)


   Os missionários da Companhia de Jesus que desembarcaram no continente há pouco descoberto pelos navegadores europeus, não encontravam aqui um terreno propício para impor a doutrina cristã. Alguns deles, a propósito, foram sacrificados pelos nativos, que ainda viviam num estágio de selvageria (cujo ápice evolutivo chegava ao arco e flecha).
      Não foram poucos os mitos (ou mentiras) que os padres contaram aos “índios”, no afã de persuadi-los a aceitar o mito maior (a mentira maior). Um desses mitos auxiliares é facilmente destacável na catequese ministrada na povoação de São Tomé (fundada em três lugares e tempos distintos).
      A crença existente entre os donos da terra de que o apóstolo São Tomé já estivera entre eles há muitos séculos era exatamente um desses mitos acessórios, uma mentira que não resistiu ao veredito do conhecimento posterior. Os padres a contaram como meio de justificar suas próprias presenças em meio aos “índios”. São Tomé, reza o mito, teria vindo anteriormente, para anunciar a visita futura dos evangelizadores da Companhia de Jesus.

      Os homens de sotaina, não desconfiavam os novos crentes, adiantavam-se, como aves pressagas, ao fim da liberdade e da vida natural das nações indígenas. A conversão ao cristianismo representava o primeiro ato dessa destruição humana, que mancha o passado da humanidade de uma forma inapagável. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

POLUIÇÃO AUDITIVA

Ultimamente, pessoas bem intencionadas protestam contra templos cristãos bem intencionados, que oram e cantam em volume muito alto.
A boa intenção dos reclamantes é o silêncio, algo cada vez mais escasso no cenário urbano. A boa intenção dos evangélicos (pastores e fiéis) é de “arrebanhar” mais seguidores para sua igreja. Não cabe aqui chamá-los de hipócritas (ignorantes do que o mestre ensina em Mateus 6.5-7, sobre a maneira correta de orar a Deus). A propósito, se Deus é onipotente, onipresente e onisciente, por que aqueles que creem nesses atributos divinos se reúnem em algum lugar (ou para pedir, ou para agradecer a ele)?
No confronto das boas intenções acima expostas, caso me fosse dado prerrogativas de juiz, decidiria pelo seguinte: toda pregação e cantoria não podem transpor os limites físicos do templo (que deverá ter isolamento acústico, à maneira dos clubes sociais).
Malgrado a impossibilidade do silêncio absoluto, toda emissão de som necessita de controle, sob pena de ocorrer o contrário: o incômodo auditivo, a poluição. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

ELEIÇÕES DE 2018

Os (pseudo)democratas enchem a boca para discursar sobre a importância das eleições diretas, como ato popular inexcedível. Uma demagogia sem vergonha, que menospreza a inteligência e o senso ético ainda existentes no citado e explorado povo brasileiro.
O voto, todos sabemos, nada faz mais que chancelar uma escolha feita dentro dos partidos políticos, hoje uma das instituições com menor índice de credibilidade no país. Depois das urnas, os eleitos se reúnem em torno das bancadas estanques, dos próprios partidos ou do Congresso (no caso do Legislativo), bem como dentro do Planalto, onde se encastela parte do governo (no caso do executivo). Nos dois casos, deixa-se de ser observada a vontade do povo ao longo de quatro anos a mais.
A última eleição em âmbito nacional constitui a prova da tese desenvolvida acima. O eleitor não tinha outra escolha, já polarizada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. Impeachment da presidente (nunca “presidenta”) e cassação do outro (impedida pelo corporativismo assegurado pela maioria).
E Michel Temer, o presidente que assumiu com ou sem “golpe”, o que fez de coerente com a escolha popular (que o alçou a vice-presidente)?
Os mesmos (pseudo)democráticos não reconhecem que há um abismo entre o Estado e a sociedade civil, por conta daqueles que conduzem temporariamente a res publica. A propósito, o Brasil está longe de ser uma república em que o cidadão comum tenha a mesma condição democrática que o funcionário do Estado.
Para concluir, exponho uma ideia que me perturba por sua originalidade e pessimismo: as eleições de 2018 não resolverão os problemas políticos e econômicos dos bruzundangas.
Pensem nisso, enquanto lhes digo até a próxima postagem.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

domingo, 15 de outubro de 2017



O corpo nu, ao vivo, é arte? 

Um grupo de intelectuais brasileiros responde afirmativamente, baseando-se na arte conceitual, cuja tendência é de valorizar a ideia e não os aspectos materiais. 
Dessa forma, o expectador é levado a interagir com a obra para compreender as intenções do artista. 
Quem produziu o corpo humano? Deus, creem os criacionistas. A natureza, respondem os evolucionistas. Pouca diferença faz saber quem é o autor.
Se o corpo nu é arte, tudo mais o é: uma árvore, um cão dormindo, um carrapato, uma flor... Isso significaria o fim do próprio conceito de arte, muito além do que Michel Archer chamou de "fim das certezas".
A obra de arte, independentemente de toda definição, necessita da intervenção do homem como artista, único capaz de produzi-la com um propósito não apenas estético. 
O corpo nu pode ser interface ou instrumento para alguma manifestação ou performance artística: tatuagem, pintura, joia, roupa, dança, imitação, fotografia etc.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OS MAPUCHES (mapu = terra; che = gente), também chamados de ARAUCANOS



O Chile passa por um problema social, em decorrência de um conflito entre extrativistas florestais e mapuches (povo nativo que habita o centro-sul do país). No último confronto, os mapuches queimaram 14 caminhões das empresas exploradoras, forçando o governo chileno a prender os líderes araucanos, então acusados de terrorismo. Muitos membros da nação autóctone vieram para a capital, onde protestam pela libertação de seus líderes. Ambientalistas, estudantes, políticos de oposição e outros inconformados politicamente se uniram aos protestos, dando uma canseira nas autoridades repressoras. As praças se transformaram num campo de batalha, com os manifestantes a pichar muros e a quebrar lâmpadas e placas, e os mantenedores da ordem a persegui-los com gases tóxicos e prisões. Viaturas oficiais em alta velocidade atravessam a noite com sirene ligada, a aumentar a vigília de hóspedes do hotel Principado de Astúrias. A palavra "libertad" está na boca dos mapuches, os últimos defensores das florestas no centro-sul do Chile.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

HIPOCRISIA SUPREMA

Pergunto aos evangélicos, pastores e líderes de igrejas, qual foi a resposta que Jesus deu aos fariseus, quando estes mostraram-lhe o dinheiro do tributo (Mt 22.21). Os fariseus queriam apanhar pela palavra o nazareno: “É lícito pagar o tributo a César ou não?”. A moeda apresentada trazia a efígie e a inscrição de César, o imperador romano. A resposta foi simples e direta: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”.
Minha interpretação é de que o dinheiro podia ser dado a César, não a Deus, para quem a doação deve ser de natureza imaterial (coerente com Mt 6.24). Hoje as igrejas disputam a tapa o dízimo e outros serviços do gênero na forma de dinheiro (em espécime). Essa riqueza mundana não retorna em obras para os necessitados, mas é administrada pelos senhores do templo.
Não divirjo da Bíblia, que traz 34 referências ao dízimo, em nenhuma delas fica demonstrado que a oferta foi feita em dinheiro. A falácia que circula como doutrina no meio religioso é de que a intenção do dizimista transcende as especulações acerca da real utilização do dinheiro entregue de mão beijada.
A hipocrisia dos fariseus que interpelaram Jesus parece coisa de criança se comparada à dos criadores e administradores de igrejas do nosso tempo. A prova do que afirmo nestes termos pode ser observada sob a claridade meridiana, na forma de pastores que enriquecem a toda hora. O dizimista, por sua vez, não se importa com essa desfaçatez, na medida em que ele ora para Jesus lhe dar uma recompensa material.