sexta-feira, 25 de agosto de 2017
domingo, 6 de agosto de 2017
REFLEXÃO DEPOIS DE UM BAILE
Todo indivíduo tem um espaço próprio, que é só seu por uma
necessidade fundamental – a de viver simplesmente. A delimitação desse espaço
se dá por intermédio de um “material” flexível, que se expande conforme as
pulsões, vontades e desejos individuais, ou se contrai sob as injunções
externas. O equilíbrio mais ou menos estável dessas duas forças possibilita a
existência de cada um. Qualquer ruptura provocada pelo desequilíbrio coloca o
indivíduo em risco de explodir ou de implodir em dado momento. Atualmente, a “zona
de conforto”, o espaço acima referido, diminui a olhos vistos, tornando mais
imperiosa a relação do indivíduo consigo mesmo e menos importante a relação com
o outro. O paradoxo, então, evidencia-se como nunca: individualismo ou convivialidade.
A solução continua sendo o amor.
segunda-feira, 31 de julho de 2017
A OBRA
Buenos
Aires é uma obra extraordinária do artifício humano, construída entre as águas
do Rio da Prata e as planuras naturais do continente sul-americano.
Para realizá-la,
seus autores se esmeraram no desenho e na execução do projeto urbanístico. A
arquitetura trazida da Europa modelou a grandeza e a excentricidade da
aristocracia que governava a Argentina.
A
essas duas características, associava-se a permanência no espaço-tempo, herdada
dos clássicos pela modernidade (que Zigmunt Bauman chamaria de “sólida”).
A
obra continua em pé, despertando a atenção do turista, que vem de todos os lugares
do planeta. O século XXI, todavia, coloca-a frente a um desafio ameaçador, qual
seja, resistir à “liquefação” pós-moderna.
O
fenômeno transformador já chegou por intermédio da urbanização caótica (Puerto
Madero de um lado, a favela de outro); das culturas novas, globalizadas; dos governos
populistas, igualitários...
Nada
é para sempre, inclusive as Pirâmides (e os mausoléus do cemitério da
Recoleta).
sábado, 29 de julho de 2017
CRÔNICA DE BUENOS AIRES
Buenos Aires tem muitos
cafés e livrarias (de novos e usados). Numa mesma quadra, posso encontrar mais
de um local para vender bebida ou livros. Esse comércio não resulta apenas de uma injunção
do mercado, mas da cultura que o precede. Tal se evidencia em dois dos mais
famosos pontos da cidade: Café Tortoni e O Ateneu. O café da Avenida de Mayo
consiste numa espécie de galeria de artes, com destaque para a literatura. A
segunda mais bela livraria do mundo, localizada na Avenida Santa Fé, conta com
um café em seu interior. Penso que há uma relação efetiva entre a bebida e a
leitura. Os hábitos gastronômicos e intelectuais remontam à aristocracia dos
séculos anteriores. Seus memes
identificam o espírito portenho, que parece resistir às mudanças impostas pela
pós-modernidade. As pessoas não frequentam o café apenas para ingerir uma
xícara do líquido escuro e quente. Elas nunca o fazem em pé ou andando na rua.
Dentro de um café, sentam-se e pedem a bebida. Algo muito precioso está
incluído nesse ritual cotidiano: espaço e tempo. Ali descansam, conversam, leem
ou ficam simplesmente, enquanto atendem ao prazer de sentir o cheiro e o sabor inconfundíveis.
Em contrapartida, pude observar que as livrarias não gozam da presença numerosa
dos cafés. Essa observação preestabelece que os portenhos estão lendo menos.
Mesmo os portenhos, que amam a sua linda e romântica Buenos Aires.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
MAIS SEGURANÇA...
A
maioria dos noticiários nestes dias, ou divulgam dados cada vez mais
surpreendentes das falcatruas em que se metem nossos políticos, ou remexem mais
uma vez na ferida causada pela violência (que sangra incoagulável em nosso
tecido social).
De
uma forma análoga aos crimes do “colarinho branco”, cometido por altos
funcionários contra a própria República, aumenta o crime violento, cometido por
indivíduo ou súcia endiabrada contra outro indivíduo (contra a própria
sociedade).
A
exigência por segurança constitui uma unanimidade nacional. Mais policiais nas
ruas surge como medida imediata ao alcance do Estado. Quantos policiais serão
necessários para que os cidadãos se sintam em segurança afina? Mil, dez mil,
cem mil, um milhão?
Essa
política, no entanto, combateria a criminalidade por suas consequências, não
por suas causas. O Estado, que existe para organizar a sociedade, propiciar-lhe
muito mais que segurança, fracassa primeiramente nas políticas que combateriam
a criminalidade por suas causas.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
NOVO
Em
Porto Alegre, onde fora por motivo de saúde, tomei conhecimento de um projeto
político para o Brasil: o NOVO. Entre as propostas mais arrojadas do partido,
três me chamaram a atenção por coincidir com o que penso há muito anos: estado
mínimo (presente na saúde, na educação e na segurança); ficha limpa para os
candidatos a todos os cargos; corte do dinheiro público para financiar campanha
eleitoral. Outras posições ideológicas podem ser lidas na imagem abaixo.
Para
viver uma nova experiência, resolvi me filiar ao NOVO, desde já, dispondo-me a
ser seu divulgador em Santiago. Minha filiação já foi aprovada pela organização
do partido. Futuramente, não descarto a possibilidade de me submeter ao
processo de seleção para candidatos a ocupar um cargo público em caráter temporário
(que hoje é de quatro anos).
A propósito da Ficha Limpa, a lei não faz
qualquer referência ao partido (que é totalmente isento de aprovar a
candidatura de seus filiados "fichas sujas"). Tampouco o senso comum
se apercebeu desse problema ao mesmo tempo político e jurídico. O partido a que
pertence o ocupante de um cargo público, que venha a ser condenado por um crime
previsto na lei, deveria ser também criminalizado. O NOVO surge como uma
solução, ao propor a ficha limpa como conditio.
Caso algum candidato do NOVO for suspeito, processado ou condenado com uma processo qualquer, responsabilizarei ao partido para malandragem. No mesmo dia, pedirei desfiliação. A ética pode ser comparada à ideia do bem de Platão (que queria os filósofos a governar a Polis).
Caso algum candidato do NOVO for suspeito, processado ou condenado com uma processo qualquer, responsabilizarei ao partido para malandragem. No mesmo dia, pedirei desfiliação. A ética pode ser comparada à ideia do bem de Platão (que queria os filósofos a governar a Polis).
sexta-feira, 7 de julho de 2017
UMA VIAGEM IMAGINÁRIA
DEUSES
E RELIGIÕES:
Um pouco de imaginação
é indispensável para dar conta das lacunas deixadas pelo conhecimento – quando
se trata de uma retrospectiva da história vivida pelo homem. Para viajar no
tempo, em busca de esclarecimentos diversos, devo solicitar ajuda aos meus
neurônios criativos, sem perder de vista Arnold Toynbee, H.G. Wells, S.N.
Kramer, entre outros, que escreveram sobre os povos pretéritos.
Um rabino, um padre, um
pastor evangélico e um mulá são meus convidados especiais para esta viagem.
Como quinto elemento, participo na condição de líder propositivo. Meu objetivo
é mostrar-lhes alguns aspectos das religiões e deuses criados pela humanidade
em diferentes momentos e lugares. Eles têm a liberdade de intervir, positiva ou
negativamente, e de permanecer em silêncio.
Nosso primeiro destino
é a Suméria, em torno de seis a oito mil anos antes do presente. Aqui saberemos
acerca do cultivo da terra associado aos sacrifícios (com derramamento de sangue).
O deus para quem se realizava esses sacrifícios evoluiu do mito do Homem Velho, que dominava a mente dos
homens saídos do paleolítico. Daniel Dennett escreve em seu Quebrando o encanto (2006): “Há um
consenso geral entre os pesquisadores de que o grande desvio responsável foi o
surgimento da agricultura e os maiores assentamentos que ela tornou tanto
possíveis como necessários”, sobre o fenômeno social que “metamorfoseou” as
religiões naturais em religiões organizadas.
Os locais em que eram
realizados os sacrifícios, isso nos causa certo espanto, transformaram-se em
templos e, em torno desses templos, surgiram as primeiras cidades. Segundo
H.G.Wells, “o surto das cidades é o período do templo na história”. Em todos os
templos, havia um santuário, dominado por uma figura teratológica, meio humana
meio bicho, a qual passou a representar o próprio deus do local. Em cada local,
havia um deus diferente, muito bem cuidado pela classe dos sacerdotes, que
foram os primeiros administradores das cidades sumerianas.
O excerto a seguir,
posteriormente lido e transcrito à produção deste texto, constitui uma prova de
que minha imaginação encontra respaldo historiográfico em KRAMER (Os sumérios, 1997, p. 139):
O teólogo (ou
sacerdote) sumério notou que terras e cidades, palácios e templos, campos e
quintas – em resumo, todas as instituições e realizações concebíveis – eram
vigiados e supervisionados, guiados e controlados por seres humanos vivos; sem
eles as terras e cidades ficariam desertas, os templos e palácios ruiriam, os
campos e as quintas ficariam transformados em lugares desertos e selvagens.
Necessariamente, portanto, o cosmo e todos os seus incontáveis fenômenos têm
também de ser vigiados e supervisionados, guiados e controlados por seres vivos
de forma humana. Mas, sendo o cosmo muito mais extenso e a sua organização
muito mais complexa do que a soma total das realizações humanas, estes seres
vivos deviam obviamente ser mais fortes e mais eficientes do que os vulgares
humanos. Acima de tudo, deviam ser imortais. Doutro modo, o cosmo cairia no
caos após a sua morte e o mundo caminharia para um fim. [...] Era cada um
destes seres invisíveis, antropomórficos e, ao mesmo tempo, sobre-humanos e
imortais, que os sumérios designavam pela palavra dingir, que nos traduzimos por “deus”.
Com o crescimento das
cidades e seus intercâmbios pacíficos ou belicosos, era óbvio que seus deuses
sofressem uma espécie de seleção artificial, sobrevivendo os mais fortes, como
Marduk, na Babilônia, e Baal, na Fenícia, Canaan e adjacências.
Não é o caso de
perguntar ainda aos meus companheiros de viagem se entenderam bem o princípio
gerador dos primeiros deuses.
A viagem continua,
contornando o Oriente Médio com o firme propósito de deixá-lo mais para o
final. Com um salto no espaço-tempo, vamos a uma cidade qualquer da Grécia
Antiga. Aqui entrevistamos alguns habitantes sobre seus deuses luminosos ou
obscuros (que residem no Monte Olimpo). Nenhum dos entrevistados duvida da
existência de Zeus e seu staff
divino. Pelo contrário, eles e todos os demais coetâneos nos asseguram que seus
deuses existem, merecedores dos cultos mais distintos quanto estapafúrdios.
Na pele de
estrangeiros, sabedores de que os deuses gregos não eram reais, corremos o
risco de sermos presos, processados e mortos caso professássemos a verdade.
Neste momento, falo aos religiosos que me acompanham sobre a Alegoria da Caverna de Platão (1997), do
indivíduo que retorna para libertar os demais (cativos pela sombra, pela
ilusão).
Ao nos deslocarmos para
o norte da Europa, pergunto a meus interlocutores que acharam da experiência.
Por que os deuses gregos deixaram de existir? A resposta é unânime: ninguém
mais acredita neles.
Mais um salto no
espaço-tempo, para visitar os hiperbóreos há um milênio de anos. A religião
viking conta com deuses, lugares de adoração e culto a eles. Ao interpelarmos alguém, temos o cuidado de
não pôr em questão a existência de Odin, sob pena de termos a cabeça cortada
por um golpe de machado. Cientes desse perigo, eles concordam com o meu
argumento de que a religião viking transformar-se-ia em mitologia viking, a
partir da invasão e domínio de uma nova religião (a cristã).
O próximo destino de
nossa viagem é Tenochtitlan, a capital dos astecas. Para a nossa saúde, mantemo-nos
incógnitos. Os sacrifícios são frequentes, para agradar ao deus sol, o qual se
apagará sem o sangue humano. A propósito o mundo nasceu do ato voluntarioso de
um deus que se lançou numa fogueira, transformando-se no sol. Os astecas fazem
guerra com o objetivo de aprisionar inimigos fortes e saudáveis para
arrancar-lhes o coração no topo de altares monumentais. Da mesma forma como
acontece em outros lugares, nenhum dos habitantes locais duvida da existência
de seus deuses. Apenas a nossa comitiva sabe que seus deuses deixarão de
existir no futuro.
Ainda na América, ao
sul do Equador, a nação tupi-guarani cultua o deus Nhanderuvuçu ou Tupã. Não
vejo necessidade de passarmos por lá. O pastor é o primeiro a concordar que
deixemos de lado os silvícolas sul-americanos. Muito atrasados, segundo ele.
Não obstante esse atraso civilizatório, seu deus criou o mundo de uma forma
bastante aproximada do deus bíblico. No lugar de Adão e Eva, Tupã inicia a
humanidade com Rupave e Sypave, “pai dos povos” e “mãe dos povos”,
respectivamente.
Roma é nosso destino. Malgrado
o cosmopolitismo da capital do Grande Império, com a importação de cultos
religiosos das províncias conquistadas, os romanos são cuidadosos com suas
práticas oracionais (em altares construídos dentro das próprias casas). Seus
deuses imitam os deuses gregos, notadamente antropomórficos (como percebeu
Xenófanes de Cólofon). Júpiter é a mais poderosa das divindades, equivalente a
Zeus. Até então, este é o lugar mais tolerante por que passamos nesta viagem – para
nossa tranquilidade.
Egito poderia ser o
segundo lugar a ser visitado, depois da Suméria. Aqui também teve início uma
civilização independente, da mesma forma organizada por uma classe sacerdotal.
Deuses diversos em diversos templos. A figura político-religiosa do Faraó
evoluiu de um sacerdote inteligente e dominador, até se transformar em único
representante de deus na terra durante a XVIII Dinastia, com Amenófis IV, mais
conhecido como Aquenáton (pai de Tutancâmon). A presente visita ao Egito, justamente
no tempo de Aquenáton, tem o propósito de mostrar a meus convidados uma
religião monoteísta anterior ao judaísmo. Aquenáton introduziu o monoteísmo centrado
no deus Aton, mas os egípcios voltarão ao politeísmo depois da morte do Faraó.
Richard Dawkins escreve em Deus, um
delírio, página 57: “Não está claro por que a passagem do politeísmo para o
monoteísmo deva ser encarada como aperfeiçoamento progressivo evidente”. À
exceção de mim, os demais divergem de Dawkins.
A próxima escala é
Judá, pequeno reino incrustado numa região geograficamente pobre, ocupada por
pastores nômades. O germe de uma civilização teima em se desenvolver aqui, a
partir do templo erguido na cidade de Jerusalém (da mesma forma já
caracterizada nos demais lugares visitados até então). Nossa chegada coincide
com a reunião de sacerdotes, escribas, profetas, contadores de história... que
atendem a um convite do líder político e religioso dos judeus. Com a ajuda do
rabino, logo soubemos tratar-se de um projeto ambicioso de Josias, qual seja, o
de produzir “uma saga épica, composta por uma surpreendente coleção de escritos
históricos, memórias e lendas, contos folclóricos, propaganda real, profecia e
poesia antiga”, segundo FINKELSTEIN & SILBERMAN (2003). Ao longo de onze
séculos, de Jerusalém a Niceia, o livro ganharia várias edições, com acréscimos
tão significativos quanto díspares. As interpretações persistem até o presente,
ao bel-prazer discursivo, depois de ter ensanguentado a Europa com guerras
fratricidas entre católicos e protestantes.
Antes de partirmos
outra vez, pergunto aos meus interlocutores como eles imaginam o surgimento da
crença que foi Deus a ditar o livro. A propósito, Deus tem um nome atualmente:
Javé, que se sobressaiu na Idade do Ferro. Sua aliança com Israel e Judá exigia
apenas fidelidade exclusiva, condição que relegaria à inexistência os deuses da
Idade do Bronze, entre os quais El e Baal. A partir da segunda parte do livro
de Isaías, também chamada de Dêutero-Isaías, Javé foi proclamado único.
Posteriormente, os judeus o tratariam como Adonai (Senhor). Mais afoito entre
os viajantes, o pastor responde pelos demais: a ideia mesma de Josias já é
revelação divina.
Essa resposta me faz
lembrar Toynbee (1955), para quem os filhos de Israel eram dotados de “uma
incomparável sagacidade espiritual”. Para o historiador renomado, a descoberta
de uma verdade “absoluta e eterna”, de um único deus, levou os judeus ao
pressuposto de uma verdade “média, relativa e temporária”, de que eles eram o
povo eleito (a ponto de rechaçarem Jesus Cristo como enviado especial de seu
deus).
Nossa última viagem é a
Medina, dois anos após a chegada de Maomé. A cidade está em polvorosa, com a
vitória dos seguidores do profeta contra os mequenses na batalha de Badr. Sob o
olhar silencioso de Kaleb, faço uma síntese do islã até este momento. Há 12
anos, o jovem Muhammad jejuava no Monte Hira, quando sonhou com a aparição do
anjo Gabriel. Este teria afirmado que o sonhador nada mais era que “o profeta
de Deus”. Um tanto perturbado, contou à mulher Khadijah, sobre o sonho. Um
primo dela, velho conhecedor da literatura dos judeus e cristãos, foi
categórico: “o enviado divino que certa vez visitara Moisés tinha retornado
novamente ao Monte Hira” (HITCHENS, 2007). Mohammad se convenceu disso,
pregando em Meca novas ideias religiosas (como a de que os infiéis a Alah
queimarão no inferno). Tanto incomodou os poderosos de Meca, que foi obrigado a
fugir da cidade na noite que precedia sua execução. Em Medina, já contava com
adeptos. Aqui organizou uma força armada, com o objetivo de assaltar caravanas
que abasteciam Meca (vindas da Síria). Seu exército cresceu à medida que
crescia seus seguidores. Logo o profeta dominará toda a Arábia, norte da África
e invadirá a Europa pela Península Ibérica. Isso se torna previsível a partir
da vitória hoje comemorada nos ruas.
Kaleb, como testemunhamos
em nossa “visita”, o deus na época de Moisés era Javé, exclusivo dos hebreus.
Alah é a fusão em árabe de El + Iah, que eram duas divindades assírio-babilônicas.
Outra observação pertinente é de que não
há conteúdo doutrinário em Hira, como no Sinai. O Corão será compilado em
séculos futuros, mais ou menos coerente com as pregações de Maomé. Ao constar
que o islã é a única religião verdadeira aos olhos de deus (3, 19), o Corão
negará o que pregava Jesus Cristo: “Ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João
14,6). Os neoateístas baterão discursivamente sobre a exigência de fidelidade
que identifica esses deuses desde a Idade do Ferro. Os infiéis não apenas
sofreram ameaças de mortes horrendas, como foram mortos por ordem divina (Êx
32, 27).
Nossas viagens poderiam
continuar para os lugares e tempos mais diversos, como a Nauvoo (Illinois, EUA),
há menos de dois séculos. Ali veríamos pregar Joseph Smith, a construir sobre
um pântano o templo de sua Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O
estigma de “falso profeta”, segundo o viés bíblico, todavia, não impediu que
sua igreja se multiplicasse pelo mundo. Na capital do Império Inca, Cusco, antes
da invasão de Francisco Pizarro, veríamos os sacrifícios se repetirem ao sair
do Sol (a suprema divindade). Na Índia, nos últimos cinco mil anos. Muitos
deuses e credos. No Nepal, uma religião não teísta. Entretanto, para atender ao
objetivo proposto, penso na suficiência das viagens realizadas.
As viagens realizadas,
sentamo-nos à mesa para uma conversa mais tranquila, sem o risco que corríamos
como peregrinos em terras menos civilizadas. Não posso dizer que a reunião
funcione ao modelo do brainstorming,
uma vez que as ideias são de antemão substituídas pelas crenças de meus
interlocutores.
A pergunta que não quer
calar é se o objetivo proposto antes de nossa peregrinação (ou estudo) foi
alcançado.
“Eu continuo a crer no
Cristo vivo, no Deus vivo”, padre Lauro dá prosseguimento à conversa. “Todos os
deuses cridos anteriormente, nos mais diversos lugares por que passamos,
demonstram uma ‘intuição’ humana do divino. Em meu curso de Filosofia,
encontrei esse pensamento em Descartes, como prova a priori da existência de Deus. A ideia de um ser perfeitíssimo em
nossa mente implica sua existência.”
Reverendo, afirmas tua
fé num deus vivo... Fé é sentimento. Não há dúvida sobre a relação sinonímica
desses dois termos. O primeiro como hipônimo do segundo. O filósofo que citas
desvalorizou “o mundo dos sentimentos, das emoções, das paixões”, segundo PADOVANI
& CASTAGNOLA (1993). Esses estados da alma são irracionais para Descartes, como
o próprio conhecimento passado pela tradição (antes do cogito).
O rabino e o mulá, que
se identificam pela boca fechada e pelos ouvidos atentos, não estão dispostos
ao diálogo. Pergunto a Samuel se ele acredita realmente que Moisés falou com
Javé no Monte Sinai. Antes que responda, dirijo-me a Kaleb: Tu acreditas
realmente que Maomé ouviu o anjo Gabriel no Monte Hira?
“Eu creio na Torá, escrita pelo próprio Moisés.”
Malgrado o criticismo
superior negar essa autoria?
Samuel balança a cabeça
afirmativamente.
Kaleb também responde
que sim, imitando o gesto de cabeça do judaísta.
Segundo padre Lauro, os
deuses com nomes diferentes provam, na verdade, a intuição do deus único.
Assim, Javé e Alah seriam o mesmo deus. Essa identificação, todavia, não se
verificou na prática, apesar da intertextualidade presente entre as duas
religiões. Duas observações são necessárias como contraponto: 1) caso os deuses
que apareceram a Moisés e a Maomé sejam o mesmo deus, por que as tábuas ditadas têm conteúdo diferente?;
2) porque a exigência de exclusividade de Javé ao povo de Israel e de Alá aos
árabes islamitas? Há mais de mil e trezentos anos, judeus, cristãos e islâmicos
se perseguem e se matam numa guerra fratricida, injustificável. Por que esses
deuses, como representação de um deus único, ditariam algoritmos diversos aos
seus eleitos?
Padre Lauro, tua tese
corre o risco da insustentabilidade. Todavia, bato palmas para o ecumenismo
idealizado por ela. A Igreja Católica fracassou na tentativa de universalizar o
cristianismo do alto de um estado poderosíssimo – o Vaticano. De acordo com
JENKINS (2013, p. 45), a “fase gloriosa da história do cristianismo” é
encerrada historicamente pelo Concílio de Niceia (alguns anos depois de o
imperador Constantino aceitar a nova religião seguida pela própria mãe,
Helena).
Jonas, não posso
declinar o nome de todos os deuses criados pelos povos que visitamos num périplo
imaginário. A relação é extensa. Em todo caso, incluindo-se aqueles que já
fizemos referência, apresento-te alguns nomes pela ordem alfabética: Acuecucyoticihuati,
Afrodite, Alah, Amaterasu, An, Anat, Antu, Anúbis, Apo, Apolo, Ares, Artemis,
Asera, Assur, Atena, Aton, Baal, Brahma, Belzebu, Chac, Ceres, Dionísio, Durga,
El, Enki, Enlil, Eros, Frey, Ganesha, Gerda, Guaraci, Hades, Hanuman, Hefesto,
Hera, Hermes, Hórus, Huitzkopochtli, Iah, Iara, Inana, Inari, Inti, Ishkur, Isis,
Itzamna, Ixtchel, Izanagi, Izanami, Jaci, Javé, Krishna, Loki, Mama Quilla,
Moloch, Muntu, Nammu, Nana, Nhanderuvuçu, Ninlil, Odin, Ometeotl, Osíris, Pacha
Mama, Pauahtun, Posêidon, Quetzalcoatl, Rá, Rama, Saraswati, Set, Shiva, Sinki,
Susano-o, Uke-Mochi, Thor, Tlaloc, Tohil,
Tupã, Tyr, Viracocha, Vishnu, Xiuhtecuhtli, Xólot... Essa tendência de criar e
adorar deuses mais ou menos semelhantes em lugares sem ligação geográfica,
provaria a existência no homo sapiens
de um gene divino? Não descartando o meme
(transmitido de um povo a outro, ou de relação “paterno-filial” entre
sociedades, como expressa Toynbee), a ideia de Deus seria de natureza
bio-lógica?
Caro pastor, noventa e
nove por cento dos deuses criados e adorados pelo homem não existem mais. Por
um determinado tempo, eles foram deuses vivos, presentes nos ritos religiosos,
determinantes da ordem moral e, por extensão, da vida de uma tribo, comunidade,
povo ou civilização. Depois de mortos, em razão da não existência daqueles que
o alimentavam com a própria fé, esses deuses perderam a condição religiosa, para
passar à mitologia. Judeus, cristãos e islâmicos, no entanto, juram que seu
deus é verdadeiramente único, não obstante as distinções que os caracterizam
dogmática e ideologicamente. Mais notadamente o cristianismo, por intermédio de
seus teólogos e pregadores, reconstruiu o deus do Velho Testamento, não o
tratando pelo nome de origem, Yahweh, Javé ou Jeová, mas pelos epítetos Senhor e Pai. Sem perder a pessoalidade, um deus “ciumento, mesquinho,
injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedente de sangue;
perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento,
megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo”, segundo DAWKINS (2006), transforma-se
em deus da bondade, do perdão e do amor.
Tu acreditas realmente
que o antigo e o novo testamento versam sobre o mesmo deus?
Jonas responde que sim.
Com a palavra, reafirma sua fé no Deus-Pai, que enviou o Filho, o Cristo
encarnado, para morrer na cruz e salvar os homens de seus pecados. “Acredito no
cumprimento das profecias, acredito na natureza divina de Jesus e na sua ressurreição”.
A nossa viagem não te
levou a identificar os deuses de diferentes partes do mundo com o deus em que
acreditas, exclusivo para o judaísmo e universal para o cristianismo. Nenhum de
vocês o fará, certamente. Kaleb é o único a aceitar uma aproximação entre Alah
e o deus de Abraão, porque o Corão assim o permite, na medida em que os homens
que o consolidaram visavam à rápida expansão do islã.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA,
João Ferreira de (tradutor). Bíblia
Sagrada. Revista e atualizada no
Brasil. 2. ed. – Barueri – São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
DAWKINS,
Richard. Deus, um delírio. Tradução
de Fernanda Ravagnani. – São Paulo: Companhia da Letras, 2007.
DENNETT,
Daniel. Quebrando o encanto: a
religião como fenômeno natural. Tradução de Helena Londres. – São Paulo: Globo,
2006.
FINKELSTEIN,
Israel. A Bíblia não tinha razão /
Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman. Tradução de Tuca Magalhães. São
Paulo: A Girafa Editora, 2003.
JENKINS,
Philip, Guerras santas: como 4
patriarcas, 3 rainhas e 2 imperadores decidiram em que os cristãos acreditariam
pelos próximos 1.500 anos. Tradução de Carlos Szlak. – Rio de Janeiro: LeYa,
2013.
KRAMER,
Samuel Noah. Os sumérios – Sua
história, cultura e caráter. Tradução de Salvato Telles de Menezes. Lisboa:
Livraria Bertrand, 1997.
MAOMÉ.
Alcorão sagrado. Tradução de Samir
El Hayek. – São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil, 1974.
PADOVANI, U;
CASTAGNOLA, L. História da Filosofia.
– 15ª ed. – São Paulo: Melhoramentos, 1990.
PLATÃO.
A República. [Os pensadores.]
Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997.
TOYNBEE,
Arnold J. Estudio de La Historia.
Volumen IV. Traducción de Vicente Fatone. – Buenos Aires: EMECÉ EDITORES, S.A,
1953.
WELLS,
H.G. História Universal. (Volume I.)
Tradução de Anisio Teixeira. São Paulo: Companhia Distribuidora Nacional, 1956.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Smith_Jr. Acesso em 27
de junho de 2017.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
REAÇÃO ÀS NOTÍCIAS
A violência cresce no
Brasil, com causas e consequências já conhecidas por todo cidadão devidamente
informado.
O Estado vem sendo incapaz de conter a criminalidade, em decorrência
da corrupção de seus agentes políticos, do corte no orçamento (como ocorre
agora com a Polícia Rodoviária Federal), da superlotação dos presídios, da
leniência de nossas leis, da depreciação pós-moderna de toda autoridade, entre
outros motivos.
O crime organizado amplia cada vez mais suas ações a partir dos
grandes centros urbanos, onde sobrem os índices de roubos, assaltos e
homicídios.
As pessoas com sentido ético mais desenvolvido necessitam romper
seus casulos de passividade e medo, ir para a rua e protestar contra a situação
atual.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
QUE COISA!
Na
segunda-feira, em Santa Maria, comprei o livro GUERRAS SANTAS, de Philip
Jenkins (um dos maiores estudiosos de religião). Já na página 16, leio o
parágrafo seguinte:
Histórias de
terror a respeito da violência cristã sobejam em outras épocas, com as Cruzadas
e a Inquisição como manifestações principais; mas a violência entre cristãos
referente aos debates dos séculos V e VI foi mais sistemática e numa escala
muito maior que aquela produzida pela Inquisição. [...] Quando Edward Gibbon
escreveu seu texto clássico a respeito do DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO,
descreveu inúmeros exemplos da violência e fanatismo cristãos.
O
Concílio de Calcedônia (perto da moderna Istambul, na Turquia) ocorreu no ano
451, onde e quando “a Igreja formulou a declaração que acabou se tornando a
teologia oficial do Império Romano”. Nesse concílio, ficou decidido que Cristo
é de natureza humana e divina. Isso foi de encontro à fé dos chamados monofisistas, que acreditavam na
natureza divina única de Cristo.
De
acordo com Jenkins, a maior onda de terror fratricida ocorreu entre os próprios
católicos. Mais tarde, os católicos matariam muçulmanos e protestantes em
diferentes momentos históricos.
Gostaria tanto que os católicos soubessem a história de sua
igreja.
sábado, 24 de junho de 2017
PESSIMISTA OU REALISTA?
Não sei se sou mais pessimista que realista, ou vice-versa.
Os brasileiros chegam a um consenso: diretas já. Todos creem (à exceção de mim)
que novas eleições resolverão os nossos problemas políticos, não obstante o
grau de irresolubilidade que tenham alcançado nestes dias. Não penso assim.
Dentro de um ano, novo processo eleitoral será aberto, com a possibilidade de
ser conduzido pela “soberana vontade do povo”. E daí? Uma nova equipe de
governo (presidente, ministros e secretários), por acaso, será composta apenas por
pessoas incorruptas e incorruptíveis? A Lava-Jato continuará inconclusa, ou
dará origem a outras operações do gênero. Os otimistas que me perdoem, vítimas fáceis
da demagogia e do fisiologismo de nossos políticos.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
UMA ESTRADA
Uma estrada é a melhor
metáfora para a vida. Tal associação semântica precede a existência do primeiro
poeta que a empregou na Antiguidade.
Da parte que me cabe, já aludi mais de uma
vez a ela, sem me importar em ser pouco original. Algum aspecto da vida (e da
estada), de repente, adquire a significação de algo que escapou à vista até
então.
Ao deixar a cidade nessa manhã, senti o prazer quase indescritível de
estreitar a relação estrada–vida, tornando-a mais real que metafórica.
Por um
momento, desejei isto mesmo: dirigir por uma estrada sem destino, despreocupado
com o vem pela frente ou com o que fica para trás.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
MELINDRES FERIDOS...
Pessoas que acreditam num
deus pessoal (tratado de “senhor” pelos cristãos), de quando em vez,
interpelam-me nas redes sociais, exigindo mais respeito à sua fé, à sua
religião. Elas se incomodam com a naturalidade da forma como me expresso sobre
a não existência de um deus pessoal, a ilusão que significa noutras palavras
sua fé e a grande mentira pregada pela sua religião. A recíproca não é
verdadeira, na medida em que não me incomoda a forma debochada com que tratam minha
descrença, o ateísmo de um modo geral. Pelo contrário, acho até engraçado me
dizerem que não há ateu em avião que cai. Como saber a rápida conversão na
iminência da morte? Os acidentes aéreos, salvo raríssimas exceções, não há
sobreviventes. Na contracapa de meu livro Considerações
neoateístas, faço referência a essa ironia, cujo contraponto é
extraordinário: nenhum avião interrompeu sua queda por motivo das súplicas e
orações feitas a um deus pessoal. Por uma questão de ética, todavia, não baixo
o nível, para rebater argumentos já ultrapassados, preconceituosos, obsoletos. Há
um processo de secularização em andamento desde Nicolau Copérnico, passando
pelos empiristas, Iluminismo, Charles Darwin, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud,
Albert Einstein, Bertrand Russel, Círculo de Viena, genética e neoateístas do
século XXI, que apresenta um novo paradigma, fundamentado no espírito
filosófico e científico. Sou apenas um arauto desse processo civilizacional,
que não tem a voz cálida para se desculpar com os melindres feridos.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
COMENTÁRIOS DIVERSOS
O
grande mal realizado por Marx foi deflagrar a dualidade burguesia versos
proletariado, que a era pós-industrial se encarregou de eliminá-la de vez. É risível, que alguns marxistas (burgueses) continuam a repetir feito papagaio essa fórmula de criar o conflito social.
Entre
os livros mais importantes da história humana, cito A revolução dos corpos celestes, de Nicolau Copérnico, A origem das espécies, de Charles
Darwin, e A interpretação dos sonhos,
de Sigmund Freud. Coincidentemente, os três livros são responsáveis pelas três grandes
frustrações da civilização ocidental, provocadas com as descobertas,
respectivamente, do heliocentrismo, da evolução das espécies pela seleção
natural e do inconsciente.
À
exceção da rádio da URI, as demais são, ou de tendência católica, ou
evangélica.
Semana
passada, alguém apresentou um programa radiofônico, em que discorreu sobre o
Milagre do Sol, ocorrido na Cova de Iria, em Fátima, Portugal. Segundo ele,
católico fervoroso, Lisboa era a cidade mais descrente do mundo, governada por
comunistas ateus. Tais autoridades chegaram a prender Lúcia, Francisco e
Jacinta, as três crianças que viram Nossa Senhora de Fátima.
Não
havia comunista em Lisboa na época, senão democratas que implantaram a
república portuguesa em 1910.
Um
dos pontos fortes da nova constituição normatizava sobre o programa de
laicização e secularização da república recém-constituída.
Ainda
na monarquia, derrubada pela revolução republicana, a Igreja Católica
praticamente governava (sob a beneplácita omissão do rei D. Manuel II).
Diante
da inadmissibilidade das congregações organizadas pela igreja e da Companhia de
Jesus, foi inevitável o choque entre a instituição religiosa e o governo.
O apresentador do programa deveria conhecer um pouco de história,
saber que desmistifica a realidade.
A
chuva continua a cair no Rio Grande do Sul, fazendo os rios subirem muito acima
de seus leitos naturais, além de suas margens, onde residem teimosamente os
homens.
CONTRADIÇÕES VEGETARIANAS
O
jovem diz ser vegano, fazendo uma careta de nojo diante da costela assada
(posta à mesa), no entanto, não curte a salada de aboborinha verde.
A
senhora diz ser defensora dos animais, que sofrem horrores ao serem mortos. Ela
chega a citar o filósofo Peter Singer, para dar maior credibilidade a seu
argumento, no entanto, aderiu ao colágeno hidrolisado como última tentativa de
emagrecer, ter pele, unha e cabelo perfeitos. O colágeno é extraído do osso e
da cartilagem do boi, que deve ser morto antes de fornecer a matéria-prima para
a tal “bebida da beleza”.
Em
Curitiba, tive um colega de trabalho que não se alimentava de carne por uma
questão ética (dizia ele): era contra a matança de animais, no entanto, usava
sapato de couro, cinto de couro, carteira de couro...
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