domingo, 13 de março de 2011

EIXO DA TERRA


Cassal Brum, companheiro de blogosfera, questiona sobre um possível deslocamento do eixo da Terra* com o último terremoto acontecido no Japão. O Zero Hora de hoje publica que, segundo o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, sediado na Índia, houve um deslocamento de 10 centímetros. Li na internet que o terremoto que atingiu o Chile em 2010, segundo os cientistas da NASA, teria encurtado a duração do dia em 1,26 microssegundo (um microssegundo é a milésima parte do segundo), em consequência da mudança no eixo da Terra, cerca de 8 centímetros. 
Como leitores leigos no assunto, temos duas opções: confiar nesses cientistas (pessoas também suscetíveis de serem atingidas pelo sensacionalismo que caracteriza um modo de existência baseado no parecer); ou ignorá-los completamente. Nenhuma dessas opções é a mais inteligente (leigo sim, acrítico não).
Nosso interesse deve estar voltado para as consequências naturais de tais deslocamentos. Os dias realmente ficaram mais curtos? O clima foi alterado? A Lua "ganhou terreno"? (A Lua se afasta continuamente da Terra.)  Penso que qualquer mudança ainda não representa um verdadeiro perigo para a sobrevivência da nossa espécie, ou humanidade (como preferem os românticos). 
* O eixo da Terra é uma linha imaginária que atravessa o globo, unindo os dois polos geográficos, em torno do qual gira o planeta. 

sábado, 12 de março de 2011

COMENTÁRIOS DIVERSOS

As cadeias de montanha (a Cordilheira dos Andes, por exemplo)  são consequência do choque entre as placas tectônicas. Rebarbas geológicas que se elevam acima da superfície continental. Elas constituem pontos mais vulneráveis à pressão interna do planeta. Em contrapartida, também sofrem a pressão externa exercida pela força gravitacional. Muitos vulcões ocorrerão mais frequentemente nessas regiões, muitos terremotos também, num jogo de forças naturais que tende a assentar o relevo saliente. No futuro, não será inteligente construir cidade sobre as terras altas. Todo o alicerce não passa de uma fina crosta ligeiramente endurecida, flutuando sobre o visgo. 
.
Nesta linda tarde de sábado, com nuvens e bem-te-vis a atravessarem o azul que transcende o acúmulo de cimento das construções terra a terra, não era minha intenção continuar com um assunto tão denso. Também não vou discorrer sobre a catástrofe no Japão, à maneira desses telejornais (que aumentam a audiência com o apelo sensacionalista). 
.
Há alguns anos leio Theodor Adorno. Penso que ele é o melhor filósofo da chamada Escola de Frankfurt. Adorno é autor de um contraponto memorável sobre o otimismo de Walter Benjamin quanto à "dessacralização" da obra de arte possibilitada pela reprodução técnica. 
.
Alto! Outra vez: assunto denso.
.
Do Zero Hora de hoje, destaco o quê? (De traz para frente.) O Paulo Santana mais uma vez se manifestando contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Fora de foco: a copa já está marcada para se realizar no Brasil. Mal ou bem (e aposto que será mal, não em decorrência do meu pessimismo). No caderno de Cultura, o professor Cláudio Moreno escreve sobre vocábulos que mudaram de significado ou o ampliaram, como "temporão" e "literalmente". No caderno Vida, uma ampla reportagem sobre o poder do pessimismo e do otimismo. Títulos dos editoriais e artigos de opinião: Reação às catástrofes; A crise do Estado; Novo governo, velhas práticas; O Papa e a Copa de 2014; Tentações da terceira idade. Oito páginas destinadas ao tsunami no Japão.
.
Da blogosfera, destaco a desistência do Rafael Nemitz  de não mais atualizar seu blog. O argumento ad misericordiam que usou para confessar sua intenção é compreensível, perdoável. Depois de criar um dos blogs mais acessados em Santiago, não seria inteligente de sua parte inteligente ceder a "forças ocultas". Basta ser menos opinativo, mais noticioso. 
.
Desejo uma boa noite e um domingo dourado a todos os visitantes.  

VIÉS ESPECISTA

Antes de o homem tomar consciência de si mesmo, de se colocar como apoteose de uma criação divina, as grandes manifestações naturais (vulcanismo, glaciações...) não provocavam catástrofes, simplesmente porque não havia se desenvolvido esse especismo humano. Clãs, tribos, povos inteiros eram dizimados sem que tal fosse considerado uma "vingança" da Natureza, um mal sequer atribuído a forças de outros mundos. Nosso ancestral sobrevivente continuava instintivamente agarrado à vida, o bem maior. O desenvolvimento da consciência transformou-o num ser dual, fechado em relação aos instintos básicos (como sempre fora antes) e aberto em relação ao mundo do artifício, da cultura (que se descortinou como uma antinatureza). Deslocamentos e choques entre as placas tectônicas, terremotos e tsunamis continuarão a ocorrer, independentemente da existência do homem, portanto, para muito além da existência do homem (que não mais viverá para registrar essas catástrofes). 

sexta-feira, 11 de março de 2011

BRAGA E TSUNAMI

Ao ver as imagens nos sites e nos telejornais do tsunami que atingiu o Japão, lembrei de uma crônica de Rubem Braga (que lera há muitos anos). Para fazer esta postagem, fui obrigado a encontrar o tal texto. Não consegui por intermédio do Google, uma vez que não sabia o título e as palavras-chave que digitava me levavam a outras crônicos desse cronista proficiente. Antes de ir à feira, passei pela biblioteca pública e, num lance de muita sorte, fui direto ao Volume 2 de Para gostar de ler, onde encontrei A outra noite (que transcrevo abaixo): 
Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de Lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:
- O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda.
- Mas, que coisa...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.
- Ora, sim senhor...
E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei. 
Mas o que tem a ver a crônica acima com o tsunami? 
Quando via aquelas imagens de destruição, pensei que este mundo, feito de coisas boas e ruins, deixa de existir de um ponto qualquer do espaço, fora da atmosfera terrestre. Por um momento, me imaginei tão ignorante quanto o chofer que acabou sendo imortalizado por Rubem Braga. Ao invés de um táxi, uma nave interestelar. Ao invés de um terráqueo, um alienígena. Caso eu não fizesse ideia de que abaixo da camada azulada que envolve o planeta há um mundo de seres vivos que se debatem para sobreviver, certamente ficaria surpreso se outro tripulante mais inteligente me falasse desse mundo. Claro, eu poderia estar na pele desse tripulante, não do outro. 
De uma perspectiva extraterrestre, tudo o que acontece aqui, inclusive as piores catástrofes naturais, não existe. Na melhor das hipóteses, o que existe não passa de um sistema limitado a um espaço e tempo exíguos. 

A CABANA

Li A cabana em dia e meio, enquanto descansava de A preparação do romance, de Roland Barthes. Autoajuda bíblica. O livro está aquém da grande literatura. Chama a atenção a forma como William Young representa Deus-Pai, chamado de Papai: uma negra gorda e sorridente. Como discípulo de Xenófanes, achei oportuno esse golpe no antropomorfismo masculino e ariano, de origem europeia. 

quinta-feira, 10 de março de 2011

???

Na esteira de uma academia o usuário anda-anda-anda, corre-corre-corre por meia hora, uma hora, hora e meia. Depois sai, entra em seu automóvel estacionado em frente e retorna para casa (distante dali algumas quadras).

SANTIAGO (NAUD) E SANTIAGO

Agradeço ao Júlio Prates pela lembrança do meu nome para patronear a próxima feira do livro de Santiago. Sem falsa modéstia, penso que há outros nomes melhores capacitados, incluindo o do próprio Prates. O santiaguense José Santiago Naud, hoje residente na Capital Federal, também seria uma ótima indicação. Esse grande poeta foi, em 2008, anfitrião de uma das sessões magnas da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília. A escolha de Santiago Naud seria uma forma de reconhecimento da Terra dos Poetas a um de seus filhos mais ilustres. Outro nome de peso é Neltair Abreu, o Santiago. 

quarta-feira, 9 de março de 2011

DEPOIS DO CARNAVAL?

O visitante do meu blog está no direito de estranhar o título das postagens abaixo. Numa quarta-feira de cinzas em que excede o número de mortos durante o carnaval? Falar em alegria numa hora destas não parece ser um tema oportuno. Por isso, a frase que coloca esse estado sempre desejável como um contraponto.  

ALEGRIA, DOÇURA...

De repente, a alegria é o contraponto. A doçura, idem. Dessa forma, peço para entenderem minha postagem anterior. Espero que tenham gostado. Não fui original, uma vez que vi (e ouvi) postagem semelhante no blog da Erilaine. 
Já vivi uma experiência semelhante a que o Júlio Prates vive hoje, cuja exultação quase não encontra palavras à altura. Em suas postagens intimistas, em que não falta uma foto da Nina, o Júlio tem feito um registro inédito (pelo menos no âmbito eletrônico) da felicidade que é ser pai. Esse acontecimento forçou-lhe a mostrar a face da ternura, contraponto da outra face sempre endurecida pelo embate discursivo. Seu blog ganhou em qualidade, não apenas justificada pelo número de acesso, mas pela doçura, pelo amor a Nina. 
Apesar das nossas divergências ideológicas (diminuídas agora com certas análises que o Júlio tem feito do establisment político estadual, federal e internacional), respeito-o como um dos nossos maiores intelectuais. Pouco compreendido numa Santiago que não se caracteriza por uma  intelectualidade mais apurada pela leitura. 
Ainda não tive oportunidade de lhe agradecer pela defesa que fez deste blogueiro perante certos difamadores. Este post não cumpre esse objetivo, edito-o pelo motivo sincero de ter pensado na Nina ao escolher a imagem da menina abaixo.

ALEGRIA


Música, por favor. (Clicar aqui.) 

terça-feira, 8 de março de 2011

MAIS VENDIDO

Desde que passei a assinar a Veja, o livro mais vendidos é A cabana, de William Young, ocupando o topo de uma relação tripartite: ficção, não ficção e autoajuda/ esoterismo. Mais de uma vez, pensei em fazer uma crítica no sentido de dissociar o fenômeno da vendagem das qualidades literárias do livro. Não poderia fazê-lo sem a leitura atenta desse romance. Acusar sem provas? Neca! Há pouco, comecei a ler A cabana. Amanhã ou depois, farei um comentário aqui, com conhecimento de causa.  

DIA DA MULHER?

Quem presta homenagem às mulheres? Formalmente, os homens. A princípio, tal homenagem evidenciava uma abissal desigualdade. Ao  longo do século XX, pontes foram lançadas entre os gêneros, em grande parte pela iniciativa corajosa do chamado "sexo frágil". Nas últimas décadas, as pontes já são obsoletas, uma vez que o abismo está quase terraplenado. Persiste a parcimônia, digo, a sovinice dos prestadores de homenagem: apenas um dia. Muito fácil para quem se sente dono do ano todo. Por isso, não reivindicam uma data para eles. Não necessitam. As mulheres não necessitam também. A igualdade é que deve ser festejada, não um passado de jugo e sofrimento. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

CARNAVAL É CIRCO

Carnaval é circo: o folião é saltimbanco e plateia ao mesmo tempo. 

USO DO DEMONSTRATIVO

Antecipadamente, solicito aos leitores desta postagem que não me considerem impertinente, chato, porque volto à velha gramática. Por favor, minha intenção é das melhores, trazendo à baila a norma do escrever bem. 
Neste momento, em decorrência dos sucessivos erros cometidos em nossa blogosfera, discorro sobre o correto emprego do pronome demonstrativo.
O quadro abaixo é esclarecedor:

PESSOA
SITUAÇÃO
NO ESPAÇO
SITUAÇÃO
NO TEMPO
PRONOMES
VARIÁVEIS
PRONOMES
INVARIÁVEIS
primeira
proximidade da pessoa
que fala
presente
este, esta
estes, estas
isto
segunda
proximidade da pessoa com quem se fala ou coisa
pouco distante
passado
ou futuro
próximo
esse, essa
esses, essas
isso
terceira
proximidade da pessoa de quem se fala ou coisa muito distante
passado
remoto
aquele, aquela
aqueles, aquelas
aquilo

Numa referência à semana em que estamos vivendo, portanto, à semana presente, o correto é escrever esta semanaEssa semana é a que já passou (lembrando que a semana começa no domingo). Analogamente, essa noite é a noite que já passou; esta noite é a noite em que estamos ou que virá. Essa foto está acima ou à esquerda do texto escrito; esta foto está abaixo ou à direita. Esta foto é a foto que está mais próximo de quem fala; essa foto é a foto que está mais próximo da pessoa com quem se fala; aquela foto é a foto que está distante das duas pessoas. Istoisso e aquilo se referem a algo não determinado, segue a lógica de esteesse aquele
Algumas outras palavras podem desempenhar o papel de pronomes demonstrativos; é o caso de o, a, os, as, tal, semelhante, próprio, mesmo
(O quadro acima foi extraído da Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa, de José de Nicola / Ulisses Infante.)  

domingo, 6 de março de 2011

BOM RETIRO


A Festa do Bom Retiro se realizou neste domingo (o primeiro de março). Tempo e lugar para reencontros. Pessoas da família, amigos e conhecidos. Mesmo não sendo um período pré-eleitoral, alguns políticos compareceram, não justificando a queixa popular de que eles desaparecem depois de eleitos. Lá estavam o deputado José Francisco Gorski (Chicão), o prefeito Júlio Ruivo, os vereadores Pelé, Bianchini, Bassin, Gavioli e Arlindo Alves. O Cap R1 Dionei Sarturi diz que foi à festa porque soube dela lendo meu blog. Agradeço-lhe pela interação. Outros vieram me parabenizar pela coluna no Expresso Ilustrado. Levei uns dez exemplares do jornal para distribuir a pessoas que julguei mais merecedoras. Muita carne (a propósito, em Bom Retiro fica a maior churrasqueira do município de Santiago (quiçá da região). Muito doce (a propósito, 21 mil doces secos foram vendidos apenas pela manhã). Já fui um consumidor guloso por doce, hoje me basta o açúcar que tem no café, no suco e no refrigerante. Felizmente, não tenho problema com a doçura. A propósito... Um dos problemas dessas festas grandes é que os melhores assados são escolhidos no dia anterior (geralmente, por encomenda) ou nas primeiras horas da manhã, restando poucas opções para quem chega mais tarde. O risoto da primeira panela costuma ser mais gostoso, servido para os mais pacientes (os apressados), que se postam numa longa fila muito antes de ficar pronto. Ainda não há árvore suficiente para dar sombra a todos (menos mal que a temperatura estava agradável). Graças à colaboração do vereador Bianchini,  novas árvores (entre elas, o jambolão) deverão aumentar a área de sombra para os anos vindouros. Elas devem transcender as piores geadas, caso contrário... Festa tranquila, sem briga e sem brigadiano (não obstante). Bom Retiro merece sua denominação toponímica. 
(Foto emprestada do blog  Está morto quem não peleia, do Miguel Bianchini.)     

sábado, 5 de março de 2011

LUIZ DE MIRANDA

Zero Hora traz uma pequena matéria sobre a (auto)candidatura do poeta gaúcho Luiz de Miranda à Academia Brasileira de Letras (cadeira nº 31, que fora ocupada por Moacyr Scliar). Até o momento, Miranda junta-se a Antônio Torres, autor de Um Táxi para Viena d'Áustria, e Merval Pereira, jornalista de O Globo. Qualquer um pode se candidatar à vaga, cabendo à ABL a escolha do novo imortal entre os inscritos. Um dos maiores poetas brasileiros vivos, Ferreira Gullar, continua fora da Academia, que tem José Ribamar Sarney, Ivo Pitanguy, entre outros menos merecedores. Com a morte de Scliar, Carlos Nejar é o único gaúcho ocupando uma cadeira atualmente.  Há uma campanha de escritores gaúchos para Luiz Antônio de Assis Brasil. Nosso melhor romancista.
Para ser sincero, não gosto da poesia de Luiz de Miranda, prosaica, discursiva. Sua obra é a mais extensa do mundo (coisa de Guinness). Na página do Almanaque Gaúcho (ZH) de hoje, o poema publicado é do candidato: Canto para Juarez. Bem sem-gracinha.  

sexta-feira, 4 de março de 2011

POESIA

a arte
não é uma arte
de parecer
que o ser
é 
o (di)verso
o revés
o avesso
de uma  forma 
                       prosaica 
.
a arte
é a arte
do ser
e de como dizer
que é
o (di)verso
o revés
o avesso
de uma forma 
                      poética

quinta-feira, 3 de março de 2011

LER E ESCREVER

Roland Barthes, em seu A preparação do romance, escreve isto: "Minha vida é, de certo modo, consagrada ao escrever, estou constantemente preocupado com ter tempo e forças para fazê-lo; preocupado = desejoso e culpado, se não consigo fazê-lo. Ora, tenho frequentemente este sentimento monstruoso (esquizoide): vendo, à minha volta, outros seres, muitos dos quais meus amigos (que, por profissão, teriam tempo para escrever), vagar, entretanto, em ocupações, lazeres, em suma, passar o tempo, e muito bem, sem escrever, sem pensar nisso, ou ainda não terem ainda posto o escrever em sua pertinência de vida, eu fico mais do que espantado: perplexo; não compreendo como eles podem passar o tempo, para qual tempo eles podem se voltar ".
Há muito me é recorrente um pensamento análogo ao do escritor francês no que diz respeito à leitura. Num momento de autocrítica, pergunto-me pela vantagem de ter lido tanto e de continuar lendo, quando não me beneficio dela (se é que existe) diante de meus semelhantes que não leem desde que foram alfabetizados. Quantas horas, dias, meses e anos da minha vida debruçados sobre os livros! 
Não entro em parafuso com a autocrítica, a ponto de "dar um tempo" na relação bibliófila. Logo racionalizo (a razão é minha tábua): a leitura sustenta minha escrita. Ler não me faz diferente dos outros, mas escrever me faz. Por isso continuo um leitor incansável, a ponto de sentir um orgulho (como o confessado por J. L. Borges). 
Em página anterior, Barthes responde a Por que escrevo?: "Poderia ser, entre outras coisas, por dever: por exemplo, para servir a uma causa, uma finalidade social, moral, instruir, edificar, militar ou distrair. Essas razões não são negligenciáveis; mas eu as vivo um pouco como justificativas, álibis, na medida em que elas fazem com que o escrever dependa de uma demanda social, ou moral. [...] Só posso dizer que o desejo de escrever tem um ponto de partida, que posso localizar. Esse ponto de partida é o prazer, o sentimento de alegria, de júbilo, de satisfação, que me dá a leitura de certos textos, escritos por outros. Escrevo porque li".

quarta-feira, 2 de março de 2011

FESTA DE MARÇO

Afora o aniversário do vovô e os casamentos de suas sete filhas, só um acontecimento movimentava o demorado calendário do Rincão dos Machado: a Festa do Bom Retiro. O Ano-Novo constituía-se apenas num alerta de que o primeiro domingo de março estava mais próximo. Nesse grande dia, subíamos o Capão Bonito de calça, camisa e sapatos novos. A emoção de ir à festa mal cabia no peito, engendrada ao longo de uma espera interminável. Todos vivíamos a mesma alegria, desde os que passavam a se conhecer por gente ao vô Fermino. Este se aprontava ao vir do sol e buzinava sua caminhoneta, impaciente com a demora da patroa. Antes das nove, chegávamos à igreja de Nossa Senhora do Monte Bérico, já circundada por centenas de pessoas. Os Machado, os Boff, os Sampaio, os Gavioli, os Catelan, os Alpes, os Carlosso, os Damian, famílias de diferentes rincões ali se reencontravam depois de um ano.  Os toques do sino e os fogos que explodiam no céu chamavam os mais arredios para a festa religiosa (pelo menos na hora da missa). A Mesa dos Cavalinhos era uma atração à parte, cujas apostas tinham a organização do "seu" Negro. Os pequenos trazíamos o dinheiro exato para a soda laranja e o doce, os grandes comiam muita carne e risoto ao meio-dia e bebiam cerveja toda a tarde. Antes da construção do clube, a festa se constituía na única oportunidade de começar um namoro (ou de terminar outro). O dia acabava pequeno para isso, em razão do vacilo ou da timidez. À exceção dos cavalinhos, da soda laranja, do namoro acanhado e das pessoas que marcaram nossas vidas (entre as quais minha mãe, vô Fermino, vó Dorilda), a festa do Bom Retiro continua sendo um acontecimento no primeiro domingo de março. 

NOVO CONTRAPONTO

"... juro cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito..."
(Excerto do Juramento de Hipócrates, atualizado pela Declaração de Genebra.)

A medicina é, desde a Antiguidade, uma das profissões mais admiradas, mais respeitadas e mais valorizadas pela humanidade. O médico, com o grande desenvolvimento técnico-farmacológico dos últimos séculos, passou a realizar "milagres", sendo visto quase como um semideus. 
Na história santiaguense, por exemplo, não são poucos os nomes que se destacaram pelo trabalho de grande relevo social, não limitado à saúde (entre os quais, Aureliano de Figueiredo Pinto e Rubem Lang).
Profissão e profissionais, quando submetidos ao escantilhão da ética, sempre foram considerados fiéis observadores do juramento de Hipócrates. De segunda-feira a sábado, ouvindo o Jornal Falado da Rádio Santiago,  são feitos agradecimentos a este ou àquele médico que atendeu pessoas internadas no Hospital de Caridade (?), independentemente se houve recuperação da saúde ou óbito.
Poucos acreditariam, todavia, caso disséssemos que Santiago já foi notícia em âmbito nacional nos anos setenta. Alguns de nossos médicos formaram uma quadrilha para extorquir o INPS. 
Com a ubiquidade dos meios de comunicação, nestes dias, acompanhamos as barbaridades cometidas pelos hipócritas juramentados de Hipócrates. A crise ética e moral por que passa nossa sociedade, nosso país, não exclui os profissionais da medicina, cujo jaleco branco nem sempre reflete o caráter imaculado, mas disfarça um criminoso da mais alta periculosidade (como é o caso de Roger Abdelmassih). 
Todos sabemos ou calculamos o quanto ganha um jogador de futebol, um juiz, um deputado, um bancário, um general, um gerente de loja etc., uma vez que consta no contrato ou no contracheque. Na autonomia é diferente, conquanto o cidadão tenha que declarar todos os seus proventos no Imposto de Renda (IR). Em princípio. 
Aqui, numa região de economia primária, sabemos que ele ganha muito, pelos palacetes que constroem na cidade, pelas fazendas que tem no interior.  Se a saúde das pessoas é um bem maior, aqueles que são autorizados a preservá-lo sabem perfeitamente como transformar tal exclusividade num bem econômico. 
Interessante observar que a crise ética e moral (acima referida), não raro, constitui uma condição para o sucesso profissional. Este sucesso, com a mesma frequência, não depende da constante especialização e, por conseguinte, da competência de quem o alcança. 
O crédito que usufrui o médico junto ao senso comum, da mesma natureza do mito, no entanto, funciona como uma redoma contra a exposição de seus erros, geralmente atribuídos à instituição hospitalar a que ele está vinculado (ou aos planos de saúde usurpados por uns e outros). 
Não bastasse o apoio popular, tal credibilidade é corroborada pela lei, que delega poderes absolutos ao denominado (quase metafisicamente) de "doutor".