sábado, 21 de novembro de 2009

RAIOS... RAIOS!

Estou desconectado do mundo desde ontem, quando um raio torrou a antena da Santiagonet no alto do edifício. Os rapazes vieram verificar, trocaram peças em vão. A antena será substituída apenas na segunda-feira (em se tratando de Internet, é muito tempo). Voltei a frequentar uma lan house para ler e-mais, felicitar os aniversariantes no Orkut, visitar blogs, comentar, postar, pesquisar algum assunto no hipertexto...
Ontem, ao sair da lan da Bento, em frente à Wizard, havia seis pessoas "navegando". Bisbilhoteiramente, corri os olhos na tela de cada uma. O número parece mentiroso (mas não é): 100% estavam no MSN. Esse portal eletrônico desempenha a função do telefone, mídia mais cara, que ainda não mostra a imagem de quem está do outro lado da linha. (No Japão já está sendo desenvolvida a tecnologia t-Room, para realizar o sonho da telefonia imagética.)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

EVOLUÇÃO HUMANA (UMA PROPOSTA DE LEITURA)


Richard Dawkins, no prólogo geral de seu apofântico A grande história da evolução, escreve o seguinte:

A história humana convencional conta com três métodos principais, cujos equivalentes encontraremos na escala temporal mais da evolução. Primeiro temos a arquologia, o estudo dos ossos, pontas de flecha, fragmentos de cerâmica, monturos de conchas, estatuetas e outras relíquias que resistiram ao tempo e perduram até hoje como testemunhos concretos do passado. Na história evolutiva, as relíquias concretas mais óbvias são ossos e dentes e os fósseis em que eles acabam se transformando. Em segundo lugar temos as relíquias renovadas, registros que, apesar de não serem eles próprios antigos, contêm ou incorporam uma cópia ou representação do que existiu em um passado longínquo. Essas relíquias, na história humana, são relatos escritos ou orais que foram transmitidos, repetidos, reimpressos ou de alguma outra forma reproduzidos do passado para o presente. Na evolução, proporei o DNA como a principal relíquia renovada, equivalente a um registro escrito e recopiado. Em terceiro temos a triangulação. Esse nome provém de um método para calcular distâncias pela mensuração de ângulos. [...] Podemos dizer que os evolucionistas "triangulam" um ancestral comparando dois (ou mais) de seus descendentes sobreviventes.

Dawkins inova com essa proposta de fazer uma leitura da evolução humana por intermédio do DNA. Nas próximas postagens, voltarei a citar esse que é considerado um dos três grandes intelectos da atualidade (ao lado de Umberto Eco e Stephen Hawking).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

VANTAGEM DO HIPERTEXTO

Antigamente, antes do advento do hipertexto, quase no fim do século XX, o aluno que cismasse com a palavra "anapéstico" e, chegando em casa, corresse ao dicionário de pequeno ou médio porte para ver o significado, sairia frustrado da pesquisa metalinguística certamente. Hoje, basta digitar no Google e pronto. Na própria definição, "composto de anapestos", aparece um link (a própria palavra "anapestos"). Novo clique. Novo significado: unidade rítmica de poema composta por duas sílabas breves e uma longa. Novos links: unidade rítmica e poema. E assim, ao infinito.
ESCREVAM ISTO: O HIPERTEXTO É UMA REVOLUÇÃO.

BANDEIRA DO BRASIL

A Bandeira Nacional também tem seu dia. A história do símbolo mais respeitado da nação brasileira explica o porquê de ser 19 de novembro. Ela foi inspirada na antiga bandeira do império e adotada pelo Decreto Lei nº 4, de 19 de novembro de 1889. Cores representativas, influência positivista (expressa no lema "ordem e progresso"), a importância e muitos outros aspectos poderiam alongar esta postagem. Limito-me a fazer um comentário sobre o hino escrito em sua homenagem, cantado em uníssono neste dia.
Escrito por Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (cujo nome completo é um verso de doze sílabas, ou alexandrino). O poeta é autor dos mais belos sonetos da nossa literatura, entre os quais cito (e recito) Língua Portuguesa, Via Láctea, Nel Mezzo Del Camin...
O Hino à Bandeira é composto por versos eneassílabos (ou novissílabos), que caiu em desuso pelo ritmo anapéstico (tarará, tarará, tarará). Mas a genialidade de Bilac salva a obra. Nas aulas de versificação, transcrevo a estrofe abaixo, explicando que o verso de 9 sílabas é o mais adequado para hinos e canções, em razão da regularidade rítmica: tonicidade acentuada na 3ª, 6ª e 9ª sílabas. Os alunos entendem mais facilmente como funciona a métrica. Saem da aula, repetindo o termo "anapéstico".
.
Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança,
A grandeza da pátria nos traz.
...

EÓLICO


deus bafejava

na minha fronte

cheirando à bergamota

..................................verde

.

sozinho

errando pelo ermo

das taperas

.

deus

era o vento

.

(O poema acima estava incompleto, por isso o deixava de lado em minhas frequentes "antologias" para figurar no próximo livro. O último verso não me agradava. Ao sair para fora nesta manhã ventosa, não tive dúvida: o deus do meu poema incompleto era o vento. Gostei do insight que apenas lembra a poesia nejariana.)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ATLÉTICA DEMOCRACIA

Um comentarista anônimo teceu um longo comentário neste blog, questionando a democracia nos /dos Estados Unidos. Minha recusa óbvia e imediata teve vários motivos. Primeiro, abomino o anonimato. Segundo, considero todo antiamericanismo um sentimento tardio (que denuncia um sujeito romântico, passadista, que ainda não sabe que o muro de Berlim foi derrubado). Terceiro, tenho a democracia como uma práxis social, antes de ser um regime de governo. O povo norte-americano é livre (isso é que é relevante), ao contrário de outros infelizes que, em seus países, não usufruem da liberdade como uma condição existencial. O discurso de Barack Obama numa universidade chinesa, defendendo o acesso à Internet, deveria ser aplaudido no mundo todo. O presidente dos Estados Unidos pode se constituir no porta-voz da América e de sua "atlética democracia" (como escreveu o maior de seus poetas, Walt Whitman).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

RIO DA VIDA


o rio da vida
(à montante)
na unidade
das águas
de
...................ontem
.
o rio da vida
(à jusante)
na diversidade
das águas
de
................amanhã

DIANTEIRA CONSIDERÁVEL

As universidades virtuais que hoje lutam para implementar o ensino a distância, disse isto no Seminário de Educação na UNOPAR, serão as grandes instituições de toda forma de ensino num futuro próximo. Elas estão ganhando uma dianteira, adquirindo um know-how que as habilitará a dominar a formação universitária ao longo do século XXI, o século do hipertexto.

MITOS E VERDADES DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

A última revista Nova Escola traz uma reportagem sobre a educação a distância, que cresceu espantosos 45.000% em número de alunos no país, a partir do ano 2000.
VERDADES:
- O curso não é adequado para os mais jovens. (Concordo com a justificativa: o estudo exige mais disciplina e "a formação dos 17 aos 24 anos não está vinculada só ao aprendizado de conteúdo, mas a uma fase de maturação e socialização favorecida pelo contato direto com o outro".)
- É preciso ter um bom computador e uma boa conexão de Internet. (A maioria ainda não dispõe de um computador com Internet.)
- Quem é disperso não se dá bem. (Isso é óbvio.)
- As instituições investem mais em tecnologia do que em conteúdo. (Tenho minhas dúvidas quanto a isso.)
- Os professores são menos qualificados. (Plenamente de acordo.)
- A turma de um curso a distância é maior do que a de um presencial. (Isso é irrelevante.)
- É mais difícil conseguir emprego. (Não obstante a lei garantir que nos certificados do Ensino Superior não venha especificado que a formação foi feita a distância, o entrevistador poderá perguntar a instituição de ensino em que o pretendente se formou e...)
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MITOS:
- É ideal para quem tem pouco dinheiro. (A justificativa da revista não me convenceu.)
- O diploma é fácil. (Nada é fácil.)
- As avaliações não são difíceis. (Em menor número, sim.)
- A evasão é maior. (Ao contrário, concordo com a reportagem.)
- É possível estudar quando quiser. (Esse mito ganhou em bobagem.)
- O aluno fica isolado e não interage com os colegas. (Uns e outros interagem além da conta.)
- A dedicação exigida é menor. (Mera tautologia, repetição de alguns mitos já declinados acima.)
- Não é preciso sair de casa. (Chove no molhado.)
- Os alunos aprendem menos do que no curso presencial. (Esse mito é discutível. Se o aluno gostar, for esforçado e autodidata, o mito é verdadeiro, isto é, uma mentira. Caso contrário, o aluno aprenderá menos. Isso também acontece nos cursos presenciais.)
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Com relação aos estágios, principalmente os que completam a carga horária dos cursos de licenciatura, como Pedagogia e Letras, a revista reserva apenas três linhas:
"Eles [os alunos] precisam ir a uma escola da rede pública ou privada e desenvolver com a garotada da Educação Básica as atividades propostas pelo tutor".
Para me formar no curso de Letras, na URI, dei muitas aulas de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Espanhol. As quatro colegas, que se formaram no mesmo ano (2003), deram o mesmo número de aulas, sob a orientação e supervisão da professora Gládis Almeida. O estágio supervisionado é o grande formador de professores nas licenciaturas.
Não quero dizer com isso (e já dizendo) que os estágios sejam o ponto fraco das universidades a distância.
Mito ou verdade?

ROSA E CAIO

Qual a semelhança entre Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e Para uma avenca partindo, de Caio Fernando Abreu? As diferenças são óbvias, a começar pelo gênero textual: romance e conto, respectivamente. O cenário de um é o sertão do Urucuia (MG); o do outro, a rodoviária de uma cidade qualquer. A linguagem rosiana quebra a sintaxe (erigindo um dos maiores monumentos literários do país); a caioabreana obedece ao fluxo da oralidade. Rosa universaliza o regional; Caio Abreu, poetiza o banal. A partir da pergunta-tema, no entanto, o que interessa agora é apontar a semelhança. A ela, então. No extenso romance GS:V (596 páginas), há um travessão, indicativo da fala do personagem. O mesmo ocorre no conto Para uma avenca partindo. Um único e quase despercebido travessão no início das duas narrativas. Esse recurso gráfico pressupõe a presença de um segundo sujeito (no sentido bakhtiniano). O romance e o conto são constituídos por apenas um enunciado – de um diálogo que o transcende topologicamente. No primeiro, Riobaldo fala com um interlocutor oculto, tratado com senhorio. No segundo, o narrador sem nome – anonimato recorrente em muitos contos do escritor santiaguense – despede-se da namorada antes dela entrar num ônibus. Sem o travessão, o diálogo pressuposto confundir-se-ia com o monólogo, conquanto seja o discurso direto, em primeira pessoa. Rosa foi originalíssimo ao começar o romance pelo final: – Nonada. Caio, ao encerrar o conto com um quê (sem reticências).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

SINTONIA

Como sei que sei? Quando o que penso, falo ou escrevo, antes de ter lido ou ouvido de outro sujeito (no sentido bakhtiniano) que sabe, acabo lendo ou ouvindo desse mesmo sujeito depois. Um exemplo disso transcrevo abaixo.
Hoje recebi o livro Evolução, de Richard Dawkins, que era a causa da minha expectativa (registrada em postagem anterior). Pois bem, na primeira página, p. 17, Dawkins escreve:
"[...] A segunda tentação do historiador é a soberba do presente: achar que o passado teve por objetivo o tempo atual, como se os personagens do enredo da história não tivessem nada melhor a fazer da vida do que prenunciar-nos".
Mais uma vez, cito o texto que publiquei no Expresso Ilustrado, edição de 6 de novembro de 2009:
As pessoas intelectualmente evoluídas que conheço e que as ouço falar, direta ou indiretamente, têm uma noção imprecisa do tempo. O viés com que consideram o que passou é condicionado pela própria experiência de vida, o que transforma mil, um milhão, um bilhão de anos em meros momentos, irrelevantes diante do século, do ano e do dia presentes.
Na última edição do EI, o artigo Bárbaros ou civilizados?, também questiona essa tendência de culpabilizar o passado por toda hediondez ou crueldade cometidas nestes dias. (A propósito, o palestrante que me motivou a escrever o texto é doutor em História.) O preconceito, que Dawkins chama de "soberba", consiste em achar que a civilização é o suprassumo da evolução sociocultural e que o passado (como postei abaixo, sobre a arte do paleolítico e do neolítico) não passa de rascunho, andaime, seja lá o que for.


A ALEGRIA DO CONHECIMENTO

O conhecimento de determinada coisa é extraordinário (ainda que Kant apontasse isso como uma impossibilidade). Mais extraordinário é conhecer uma coisa e conhecer outra, fazendo uma conexão entre os dois conhecimentos. O que dizer do conhecimento de uma terceira coisa a partir do conhecimento das duas já conhecidas?
Por anos e anos, conheci coisas e coisas, o que me insuflava certo orgulho (sempre contido pela autocrítica). De um tempo para cá, no entanto, o conhecimento se avolumou de tal forma que, ao conhecer A e B, passei a conhecer C. Ao conhecer C, conheço D, E, F... Ainda assim, continuo a controlar o orgulho, não a alegria (que me toma a palavra de vez em quando).

domingo, 15 de novembro de 2009

EVOLUÇÃO

Minha grande expectativa nesta semana é pela chegada do livro acima: A grande história da EVOLUÇÃO, de Richard Dawkins. Eis a sinopse:
A árvore da vida percorrida numa peregrinação de 4 bilhões de anos. Os integrantes da jornada se encontram a cada entroncamento, contam suas histórias e ressaltam as maravilhas da natureza e as revelações da biologia evolutiva. Um trabalho enciclopédico por um dos maiores evolucionistas da atualidade. A grande história da evolução é uma peregrinação ao longo da árvore genealógica da vida.
Ontem e hoje, li os dois primeiros capítulos do livro História Social da Arte e da Literatura, de Arnold Hauser. O primeiro, destinado ao estudo da arte pictórica do período paleolítico, e o segundo, do neolítico. A arte representativa mais antiga tem 30.000 anos, surgida no paleolítico, também chamado de Período da Pedra Lascada. Esse período da história humana se estende de 2,5 milhões até há 10.000 mil anos. O neolítico, ou Período da Pedra Polida, vai de 10.000 anos até o advento da escrita.
A pintura no paleolítico era naturalista, ligada à magia. "Todas as indicações apontam para o fato de que se tratava do instrumento de uma técnica mágica. [...] Quando o artista paleolítico pintava um animal na rocha, produzia um animal real. Para ele, o mundo de ficção e da representação pictórica, a esfera da arte e mera imitação, ainda não era um domínio especial autônomo, diferente e separado da realidade empírica."
A pintura no neolítico era geométrica, ligada ao animismo. "A obra de arte deixa de ser puramente a representação de um objeto material para tornar-se a de uma ideia. [...] Os elementos não-sensoriais e conceptuais da imaginação do artista substituem os elementos sensíveis e irracionais. [...] O pintor paleolítico era um caçador e, como tal, tinha de ser um excelente observador, tinha de estar capacitado para reconhecer animais e suas características [...] O camponês neolítico já não precisa dos sentidos aguçados do caçador; sua sensibilidade e dotes de observação declinam; outros talentos - sobretudo o dom de abstração e o pensamento racional - adquirem maior importância [...]. Com o período neolítico, o estilo formalista e geometricamente ornamental ingressa num extenso período de domínio incontroverso."
Numa das minhas últimas postagens, publicada no Expresso Ilustrado, Sem noção, questionei a dificuldade que as pessoas têm em entender o tempo passado.
O paleolítico, como o acima exposto, abarca 30.000 anos no mínimo. As pinturas rupestres foram executadas ao longo de 20.000 anos. A temperatura da Terra era mais baixa, o que forçou os homens a se abrigarem nas cavernas. O neolítico, 5.000 anos (pouco mais, pouco menos). Tais períodos são maiores que toda a história escrita.
Hauser escreve algo nesse sentido:
"O aspecto mais notável no tocante ao naturalismo pré-histórico não é ser este mais antigo que o estilo geométrico, e sim o fato de já revelar todas as fases típicas de desenvolvimento porque passou a arte em tempos modernos".

sábado, 14 de novembro de 2009

REESCRITURA

A reescrita é necessária, fundamental. Ela equivale às últimas pinceladas, quando não ao refazer parte ou toda a pintura.
Um texto, como um quadro, precisa ter coerência, equilíbrio.
Com relação ao quarteto
No reino do discurso, pedra bruta
toda palavra, apenas se habilita
o poeta, que (primeiramente) a fita,
disforme, inescrutável, absoluta.
minha avaliação crítica é de que devo substituir "do discurso" e "disforme".
O discurso tem a ver com a metonímia, com a prosa, com o eixo da contiguidade. A poesia é signo, metáfora. No eixo da seleção, posso substituir "do discurso" por qualquer outros termos sintagmaticamente equivalentes, com o mesmo número de sílabas. As possibilidades são reduzidas. Mas esse é o trabalho a que se refere Olavo Bilac em A um poeta: ... e teima, e lima, e sua!
A tarefa para substituir "disforme" é bem mais fácil. Qualquer palavra com três sílabas, paroxítona, terminada em vogal, da mesma classe de "inescrutável" e "absoluta".
O quarteto, por ora, fica assim:
No reino ................., pedra bruta
toda palavra, apenas se habilita
o poeta, que (primeiramente) a fita,
................, inescrutável, absoluta.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

entrepalavras



........................
há dis
........................curso
..........entre...................palavras
.............que...................levantam
......................catedrais

APAGÃO NO PAGO

Os santiaguenses ainda reclamávamos dos noticiários, que, feito cães, não largavam o osso do apagão no centro do país, quando nossa cidade acabou sem energia. A tarde iniciava-se com a carranca ameaçadora do tempo. A noite chegou serena, apesar da grande expectativa que se agigantava dentro do escuro.

A primeira coisa (boa) a destacar sobre o apagão é o silêncio. Ah, o silêncio! O silêncio apenas quebrado pelo choro de um bebê no apartamento de cima, ou pelo canto dos pássaros (que retomaram o ritmo canoro da manhã). Para o sossego da minha alma, o falta de luz elétrica acaba com a poluição sonora que a maioria das pessoas chama de música.

A segunda coisa (plagiando o discurso do Presidente Lula), diz respeito ao quanto a cidade é dependente dessa energia. Todas as cidades do mundo. Quanto mais dependentes, mais vulneráveis. Uma torre cai lá onde o diabo perdeu as botas, e tudo para, nada se comercializa e os congelados se transformam.

Em terceiro lugar, voltei ao Rincão dos Machado. A lamparina de querosene mediava uma fase anterior, do candeeiro abastecido com banha, e uma fase mais avançada, iluminada pelo lampião a gás (vulgar liquinho). Nos dias de crise, na entressafra, faltava o derivado de petróleo, o que nos obrigava a retroceder no tempo. Um pedaço de lençol velho era recortado e torcido até formar uma corda que, dobrada ao meio, enrolava-se sobre si mesma. Numa vasilha mais ou menos rasa, a mãe colocava a banha e o comburente de pano. A luminária estava pronta, suficiente para clarear nosso jantar.

A quarta coisa boa propiciada pelo apagão é que, ao retornar do passado, fui forçado a acender uma vela. Dentro do círculo amarelado de sua luz, escrevi estas linhas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

PRIMEIRO QUARTETO (PARA UM SONETO)

No reino do discurso, pedra bruta
toda palavra, apenas se habilita
o poeta, que (primeiramente) a fita,
disforme, inescrutável, absoluta.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

BÁRBAROS OU CIVILIZADOS?

O palestrante falou sobre o comportamento dos estudantes da Universidade Bandeirante, que hostilizaram a colega que compareceu ao campus dentro de um microvestido. Os jovens, segundo ele, pareciam uns bárbaros, embora suas agressões não tenham extrapolado o âmbito discursivo. No fim da palestra, fui ao encontro do professor para cumprimentá-lo e pedir-lhe que poupemos os bárbaros. Tudo o que de pior acontece nestes dias, décadas e séculos é uma consequência do processo civilizador. Os bárbaros, pelo pouco que se sabe deles, não praticavam a violência gratuita contra indivíduos de sua comunidade. O cultivo da terra fez o homem mais sociável, por força do sedentarismo. Dessa forma, devemos evitar a comparação entre nossos criminosos e os pré-históricos. No mínimo, ofenderíamos aqueles que foram responsáveis pela sobrevivência humana. A denominação de “barbárie” ou “selvageria” a tudo que excede em crueldade não ajuda a preservar a natureza e o caráter sacrossantos que se queira dar ao civilizado, por mais arraigada a crença religiosa, por mais racionalizado o preconceito etnocêntrico. O furdúncio na UNIBAN é muito pouco para ser levado a sério. O comportamento dos universitários, longe de caracterizar um barbarismo, demonstra uma fraqueza (já vislumbrada por Nietzsche como excesso de sensibilidade). No imenso fundo de genes que conserva nossa espécie e de memes* que compõem nossa civilização, ocultam-se unidades teratogênica, formadoras de “monstrinhos”.

* Unidades de informação que se multiplicam de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

HIPERTEXTO


Muito se fala na nova tecnologia (referindo-se à Internet). Nova tecnologia e, nova tecnologia para, nova tecnologia quê. Muito discurso, pouca prática. Ainda é pequeno o número de pessoas que conhece essa tecnologia tão propalada, e quase insignificante a percentagem de quem, conhecendo-a, faz uso minimamente satisfatório dela. Dessa parcela, ainda, são raros aqueles que têm ideia da sua amplitude. Cito o hipertexto como a grande conquista da revolução virtual. O que é o hipertexto? Consiste numa estrutura composta por vários textos conectados por links eletrônicos, os quais oferecem diferentes caminhos para os usuários. Link é uma palavra, texto, expressão ou imagem que permite o acesso imediato à outra página ou site, bastando clicar no mouse. A propósito, as letras HTTP que precedem todo endereço da Web, significam Protocolo de Transferência de HiperTexto. A não-linearidade e a seleção por associação são as principais características da leitura e da escrita eletrônica, que aproximam muito o leitor do autor e vice-versa, a ponto de ser aceitável o papel de co-autor, dado ao primeiro, e de leitor ao segundo (sem perder a condição que os identifica a priori). Há ferramentas de fácil emprego, que não demandam conhecimentos especializados de informática, com as quais o usuário pode elaborar sua própria página. Para navegar pelo ciberespaço (por que não voar?), basta um clique no mouse. Cada link abre outro espaço hipertextual, com toda sua riqueza semiótica (texto, imagem e som). Uma pena que o século XXI ainda não chegou para a maioria das pessoas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ANJOS DAS NAÇÕES

Um dos meus colegas esteve nos Estados Unidos, fazendo um curso militar. No retorno, contou-me que, em El Paso (Tx), um empresário, certamente de origem judia, criou um museu da Segunda Guerra. Numa das salas desse museu, há uma homenagem aos "anjos das nações", pessoas que ajudaram os judeus a fugirem da Alemanha e de outras partes da Europa. Entre as dez personalidades destacadas por esse museu, ao lado de um Oskar Schindler, por exemplo, encontra-se o nosso João Guimarães Rosa. O grande romancista brasileiro foi diplomata na Alemanha, como cônsul adjunto em Hamburgo, onde apoiou sua mulher, Aracy Moebius de Carvalho (foto abaixo), no trabalho de emitir vistos de entrada aos judeus.
(Ontem, na revista Literatura Especial, Ano 1, nº 4, que traz como principal matéria o autor de Grande Sertão: veredas, li sobre essa faceta humanitária de Guimarães Rosa e de Ara.)




Muito obrigado, 1º Sgt Lemes.