Nunca me canso de falar/escrever sobre livros. Exceto pelas limitações de tempo e espaço, dedicar-me-ia ainda mais a esse mister extraordinário. Para realizá-lo, todavia, outra atividade é indispensável: a de ler, ler e ler. Nestes dias, por exemplo, leio Armas, germes e aço – os destinos das sociedades humanas, de Jared Diamond. O livro é tão bom, que não posso esperar o final para lhes trazer, caros leitores, uma pequena amostra de seu conteúdo. Entre os dados curriculares do autor, consta o de ser um biólogo evolucionista. Em 1972, caminhando por uma praia da Nova Guiné, ele encontrou Yali, importante político local, que o indaga: “Por que vocês, brancos, produziram tanto 'cargo' e trouxeram tudo para Nova Guiné, mas nós, negros, produzimos tão pouco 'cargo'?”. Na ilha, “cargo” significa toda tecnologia desenvolvida pelo invasor (do machado de aço ao guarda-chuva). As questões sobre a desigualdade no mundo moderno podem ser assim sintetizadas: “Por que a riqueza e o poder foram distribuídos dessa forma e não de qualquer outra?”. Indiretamente: “Por que os índios americanos, os africanos e os aborígines australianos não dizimaram, subjugaram ou exterminaram os europeus e os asiáticos?”. Evitando a resposta que parece mais óbvia, de que há diferenças biológicas entre os povos (que sempre fomentou o racismo), Diamond analisa os ritmos diversos de desenvolvimento das sociedades nos últimos 13 mil anos. A começar pelo cultivo de plantas e domesticação de animais. A produção de alimentos fez a diferença, segundo esse estudioso. Um exemplo convincente é dado pelos povos maoris e marioris, agricultores e caçadores/coletores, respectivamente. Ambos de origem comum, mas com um destino tão diverso. A população dos maoris cresceu; artesões, chefes e soldados podiam se dedicar com exclusividade no fabrico de ferramentas, na guerra e na arte. Hoje a amostra fica por aqui.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
ALUSÃO
O edifício da imagem acima foi construído há pouco tempo, na rua Benjamin Constant, centro de Santiago. Antes mesmo de ser afixado o nome (visto no canto inferior esquerdo), algo me chamava a atenção na arquitetura do prédio, mais precisamente a combinação de linhas e cores entre o "C" vermelho e a vidraçaria escura. Lembrava-me da pintura de Piet Mondrian, expoente máximo do neoplasticismo. Qual foi minha surpresa ao verificar o nome dado ao edifício? Mondrian (Centro Profissional). Posso estar enganado, mas a escolha desse nome é uma alusão ao pintor holandês. Um caso raro de intertextualidade não-verbal, envolvendo duas grandes artes, a arquitetura e a pintura.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
COMENTÁRIOS DIVERSOS
Ontem fui ao circo, mais exatamente ao The Magic Circus, que se encontra instalado em frente à escola da URI. Os números apresentados são figurinhas batidas do espetáculo circense: mágica (com desaparecimento de uma pessoa dentro de uma caixa transpassada por gavetas e bastões), malabarismo, acrobacia, globo da morte e as trapalhadas de um palhaço. Uma coisa positiva é que não há animais, encerrando-se de vez uma prática especista abominável.
O circo é remanescente de outra época. Por isso, resiste com dificuldades. O The Magic Circus é formado por dois casais, basicamente.
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De ontem pra hoje, ouvi torcedor colorado flauteando que já perdeu a graça ganhar a Copa Santiago de Futebol Juvenil. Não me importo mais, uma vez que me especializei em ser um gremista (auto)crítico, que perdeu a ilusão.
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A propósito, sou exemplo de como o conhecimento acaba com a ilusão, com qualquer forma de ilusão, inclusive a de que o conhecimento pode conduzir o homem à felicidade, governar o mundo. (Isso já é autocrítica!)
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Fui ver a primeira partida do Grêmio no Alceu Carvalho. Observei -o atentamente, analisei o que vi (enquanto via), concluí que se tratava do pior time gremista vindo a Santiago para a Copa. Registrei essa avaliação em meu blog. A partir do conhecimento, foi-se a ilusão (que mantém todo torcedor). Não compareci mais ao estádio, porque soube desde então o que poderia ocorrer (e ocorreu).
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Surpreende-me que o torcedor gremista, vendo os fracassos do ano passado e deste ano, não projete o que será seu time num futuro próximo. Principalmente, no que se refere aos novos atletas que surgem como "prata da casa". As perspectivas do grande rival são mais promissoras.
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Para encerrar estes comentários, retomo o assunto que é dos meus preferidos: conhecimento versus ilusão. Não apenas os estádios lotam por indivíduos iludidos, mas as igrejas e os templos. Nesses ambientes, como escreveu Nietzsche, "nem a moral nem a religião possuem qualquer ponto de contato com a realidade. Apenas causas imaginárias ('Deus', 'alma', 'eu', 'espírito', o 'livre-arbítrio' - ou também o 'não-livre'); apenas efeitos imaginários ('pecado', 'salvação', 'graça', 'castigo', 'perdão dos pecados'). Uma relação entre criaturas imaginárias ('Deus', 'espíritos', 'almas'); uma ciência natural imaginária (antropocêntrica; carência completa da noção de causas naturais); uma psicologia imaginária (apenas mal-entendidos acerca de si mesmo, interpretações de sensações gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, dos estados do nervus sympathicus, com a ajuda da linguagem de sinais da idiossincrasia moral-religiosa -'arrependimento', 'remorso', 'tentação do Demônio', 'proximidade de Deus'); uma teologia imaginária ('reino de Deus', 'o Juízo Final', 'a vida eterna'). Esse puro mundo de ficções se distingue muito a seu desfavor do mundo dos sonhos pelo fato de que este reflete a realidade, enquanto ele a falsifica, desvaloriza, nega".
sábado, 11 de fevereiro de 2012
POR QUE NÃO SOU MAÇOM?
Um leitor anônimo, raro por sua boa educação, questiona-me como fui convidado para entrar numa loja maçônica se sou ateu. O convite indireto, feito há mais de dez anos, partiu de um maçom que não sabia do meu ateísmo. Certamente, ele não sabe até hoje, uma vez que me conheceu nos anos oitenta, quando ainda me considerava católico, fortemente condicionado pelas pessoas mais queridas da minha família. Logo me afastei de Santiago por doze anos, sempre retornando na férias e nos feriados maiores. Bastou as primeiras leituras de Krishnamurti, de Filosofia (Nietzsche, Bertrand Russel, Feuerbach, entre outros) e de Psicanálise (Freud, Erich Fromm, entre outros), para perceber a grande ilusão. Mais tarde, a compreensão de História Natural, principalmente sobre o evolucionismo de Darwin e pós-darwinistas, foi decisiva para descrer da vida após a morte, de deus etc. Desde o princípio da descrença, todavia, cuidava-me para não fazer alarde, como sói acontecer com os inconsequentes, que ignoram as próprias razões, que gostam de chocar, de aparecer. Em certos momentos, em vista de escrever (forçado pelas leituras cada vez mais aprofundadas, filosóficas ou científicas) sobre assuntos-tabu para a maçonaria (inclusive), acabo denunciando meu ateísmo. A propósito, por várias vezes analisei os motivos por que ainda vige o preconceito contra discutir religião. Como síntese dessas análises, esse preconceito é falsamente racionalizado como respeito ao outro, à sua crença no deus que melhor lhe apraz. Ele oculta um receio do processo mais lindo que atribuo ao discurso, à dialética: a desmistificação. De Sócrates (executado pelo poder político), passando por Giordano Bruno (executado pelo poder religioso), à maçonaria do século XXI, continua proibido discutir sobre deuses e religiões. Ao negar o convite supracitado, nada mais fiz que manter minha coerência, meu direito de ser um livre-pensador.
IMPRESSÃO, SOL NASCENTE
A pintura acima marca o início do Impressionismo, derivado de "impressão" pintada por Monet. Apesar dos pintores da época empregarem uma paleta diversificada para representar uma percepção, Monet usou tons de apenas duas cores (como o leitor pode ver): azul e laranja.
"Impressão foi pintada de uma janela que se abria para o porto de Le Havre ao amanhecer. O efeito da névoa disfarça, sem esconder por completo, os equipamentos, como os guindastes, do mais importante porto francês."
(Parágrafo transcrito da coleção Grandes Mestres.)
"Impressão foi pintada de uma janela que se abria para o porto de Le Havre ao amanhecer. O efeito da névoa disfarça, sem esconder por completo, os equipamentos, como os guindastes, do mais importante porto francês."
(Parágrafo transcrito da coleção Grandes Mestres.)
MONET
Ontem comprei o terceiro volume da coleção Grandes Mestres (da pintura) na revistaria do Gessênio Dutra, em frente à Praça Moysés Vianna. Claude Monet foi o grande gênio do Impressionismo, cujo marco inicial é o óleo sobre tela Impressão, Sol Nascente (desse artista). A capa do terceiro volume é ilustrada com o Ensaio de Figura ao Ar-Livre (Voltada à Esquerda), pintada em 1886.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
CULTIVO DO TRIGO
O trigo começou a ser cultivado há 10.500 anos, no Sudoeste da Ásia (Crescente Fértil). Antes da domesticação, a espécie crescia no alto de um talo que se despedaçava espontaneamente, deixando cair as sementes no chão. Mas em todas as espécies ocorrem mutações. No trigo selvagem, um gene sofreu mutação, levando a gerar um talo mais resistente. Sem a intervenção dos primeiros agricultores, essa mutação não sobreviveria por muito tempo, uma vez que as sementes produzidas permaneceria suspensas no ar, incapazes de germinar. Por sorte, o homem estava à procura dessa mutação, justamente para colher as sementes e domesticar o cereal. Do trigo plantado, o homem reservava a semente dos pés de trigo que tinham o talo mais resistente à antiga genética (que consistia e quebrar-se facilmente para a germinação natural).
Observações:
1) O leitor não encontrará nada parecido com as informações acima na Internet;
2) Para saber mais, o leitor deve ler Armas, germes e aço, de Jared Diamond;
3) Penso que a partir da cultura do trigo e da cevada, a região onde eram produzidos ficou conhecida como Crescente Fértil, que abrange o atual Israel, Líbano, Jordânia, Síria, Iraque...
4) Como ilustração da postagem, a tela Campo de trigo com ceifeiro e sol, de Van Gogh.
MAÇONARIA PERFEITA?
Em resposta a uma postagem do Júlio Prates (posteriormente excluída), Jorge Loeffler escreve o seguinte:
"A Maçonaria como instituição é perfeita. Os homens que a compõem nem sempre. Ela prega respeito ao Estado e não discute política partidária e nem religião. Fora dos Templos, seus membros são livres".
Não conheço a maçonaria, já fui convidado e declinei. Não posso sequer opinar se ela é perfeita ou não. Opinião não é verdade (distinguiam os gregos clássicos). Sou racional, penso, não acho.
Todavia, lendo o que escreveu Loeffler, tenho condições de fazer uma análise de seu discurso.
Em "A maçonaria como instituição" posso inferir que a maçonaria é outra coisa também (que não vem ao caso). Ela é instituição. "Como instituição é perfeita." Não como a outra coisa que é (que não vem ao caso). Dessa forma, para quem não conhece a maçonaria (como eu), ela consiste numa instituição perfeita. A priori, isso não passa de uma opinião. Não posso conhecer qualquer coisa a partir de uma opinião, de um ideal, de uma tese. Dialeticamente, a verdade pode vir com a síntese (ainda distante).
Não sei o que é a maçonaria, mas sei o que é uma instituição (constituída fundamentalmente por homens). Óbvio, Loeffler se refere apenas ao rito, ao costume, ao código moral da organização, o que fica subentendido a partir do segundo enunciado: "Os homens que a compõem nem sempre".
Pressuposto 1: Há uma instituição maçônica perfeita sem os maçons.
Pressuposto 2: A maioria dos homens é perfeita.
Aqui sou obrigado a intervir peremptoriamente: no âmbito da realidade, nenhum homem é perfeito. Mesmo idealizado por uma religião falsamente teocêntrica, o homem não o é.
Pressuposto 3: Os homens imperfeitos - uma minoria - sempre estão constituindo socialmente a maçonaria. Em razão disso, a organização deixa de ser perfeita.
No terceiro enunciado, Loeffler escreve que a maçonaria "prega o respeito ao Estado (e não discute política partidária e nem religião)".
Respeito ao Estado?
Pressuposto 4: Não houve a participação maçônica na Inconfidência Mineira, pela independência do Brasil. Da mesma forma, na proclamação da República. A história está equivocada em incluir maçônicos nesses grandes eventos que desrespeitavam o Estado até então constituído.
O próximo enunciado fundamenta o pressuposto 5: Dentro do templo, os membros não são livres.
Como pode ser perfeita uma instituição que não proporciona liberdade aos seus membros? A propósito, qual instituição social torna mais livre o indivíduo?
Não conheço as lojas maçônicas de Santiago. Conheço alguns homens que participam delas. E isso basta para saber que não se trata de instituições perfeitas.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
QUESTÃO INTELIGENTE
Um agradável desafio aos leitores:
Foi o aumento da densidade populacional que forçou a espécie humana a recorrer à produção de alimentos ou foi esta produção quem permitiu o crescimento da densidade populacional?
Causa e consequência do tipo "ovo ou galinha".
Causa e consequência do tipo "ovo ou galinha".
Alerto para o equívoco que considera o sujeito pensante e o tempo presente como decisivos, como parâmetros de verdade.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
ADENDO
Na postagem anterior, não registrei o seguinte: depois de matar o rio, os lavoureiros sugaram suas águas nas estiagens prolongadas para irrigar a plantação de arroz. Neste aspecto, a amostra representada pelo Rincão dos Machado não é válida.
A despeito da ação de caçadores ao longo dos últimos cinquenta anos, ainda aparecem espécimes de cervídeos no rincão. Tão raros quanto os tatus.
As antigas roças abandonadas viraram densas capoeiras, onde não mais se elevará aos céus o angico, o camboatã, o guabijuzeiro, a canela-de-veado, a aroeira-de-bugre, a guajuvira etc. Essas espécies vegetais eram nativas na costa do Rosário.
(Em conversa com o Dr. Valdir nessa tarde, fiquei sabendo que já houve linha de navegação de Uruguaiana a Cacequi. Embarcação de médio porte. Hoje não sobe uma canoa.)
DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO RINCÃO DOS MACHADO
O Rincão dos Machado é uma pequena amostra da degradação ambiental por que passa a região, o estado, o país, o planeta nos últimos cinquenta anos.
No princípio, a localidade era denominada Rincão dos Cervos, em razão do grande número de veados existente nos dois lados do Rosário. Um dos maiores divertimentos de nossos ascendentes consistia em caçar nos fins de semana. Cachorros veadeiros, dezesseis de dois canos e uma determinação que remonta geneticamente ao paleolítico.
Não apenas os veados foram desaparecendo aos poucos, mas também lebres, tatus, capivaras, codornas... Um motivo justificava a matança: algumas dessas espécies batiam na roça, alimentando-se de plantas que asseguravam a sobrevivência da comunidade.
Por falar em roça, esse método pré-histórico de cultivo representou uma das piores formas de degradação, derrubando a mata nativa (geralmente à beira de um curso d'água), queimando-a inteiramente ou em forma de coivara, para realizar o plantio de feijão, milho, abóbora etc.
No rincão, enquanto vovô Fermino vivia, o campo se destinava à criação do gado; as áreas de mato, após o corte e queima das árvores, destinava-se à plantação. Depois de sua morte (1977), as roças foram paulatinamente abandonadas e as várzeas de grama se transformaram em lavouras para a cultura do soja (mais lucrativa).
As roças contribuíram significativamente para o assoreamento do Rosário, onde veio a ocorrer a mais grave degradação do habitat de inúmeras espécies de peixe.
Durante minha infância e adolescência, admirava os cardumes de grumatã virando-se entre as pedras (feito baixelas de prata). Voga, traíra, jundiá e alguns outros (o maior foi um certo dourado) chegavam a um tamanho médio.
Hoje aquela diversidade se reduziu a um número que se conta nos dedos. As espécies existentes não chegam a se desenvolver, ou devido às enchentes violentas, ou às redes (que deveriam ser para sempre proibidas).
O afã dos pescadores (semelhante ao dos caçadores) não tinha limite, no princípio, jogando bomba nos poços inclusive e matando o rio aos poucos. Paralelamente, os lavoureiros também o matavam com os venenos agrícolas.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
VAN GOGH
Nas bancas, o segundo volume da coleção Grandes Mestres. Van Gogh é o pintor que mais admiro, que mais conheço biograficamente.
CMI
Nessa manhã, foi inaugurado o Centro Materno Infantil de Santiago, que se parece com um "coração de mãe", em razão do grande espaço interno - otimizado de tal forma que surpreende com inúmeras salas, banheiros, corredores, escada, elevador, paredes decoradas, climatização... Ao cumprimentar o Hugues, por essa multiplicação do espaço interno, disse-lhe que só tinha visto tamanha organização em Curitiba. Ele me respondeu que procedia minha observação, uma vez que o Júlio (e me apontou para o prefeito) é um apaixonado por essa cidade paranaense. Um apaixonado por Santiago.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
ARMAS, GERMES E AÇO
Ontem recebi o livro Armas, germes e aço (os destinos das sociedades humanas), de Jared Diamond, norte-americano, biólogo evolucionista e professor de Fisiologia da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia.
Excertos da orelha do livro:
"Por que os povos eurasianos conquistaram, desalojaram ou dizimaram nativos das Américas, Austrália e África?";
Por meio de uma intrigante revisão da evolução dos povos, em uma viagem através de 13.000 anos de história dos continentes, Jared Diamond conclui que a dominação de uma população sobre outra tem fundamentos militares (armas), tecnológicos (aço) ou nas doenças epidêmicas (germes), que dizimaram sociedades de caçadores e coletores";
"Valendo-se da geografia, da botânica, da zoologia, da arqueologia e da epidemiologia, Diamond nos faz ver como a diversidade humana é o resultado de um processo histórico, e não de particularidades referentes a inteligência ou aptidões (derrubando teorias racistas".
O assunto é dos meus favoritos. Hoje li 54 páginas, das 472.
Diamond escreveu também O terceiro chimpanzé e Colapso - como as sociedades optam entre o fracasso e a sobrevivência.
A indicação desse autor me foi feita pelo General Stumpf, comandante da 1ª Bda C Mec.
YOANI SÁNCHEZ
A arte, analisou Aristóteles, é mimese (imitação da realidade). A vida real, no entanto, tem imitado a arte. O caso da blogueira cubana Yoani Sánchez, pela décima nona vez impedida de sair de seu país (o menos democrático do mundo), lembra O Processo, de F. Kafka. K., personagem central, é preso e condenado sem saber o motivo. O diálogo entre Yoani e a funcionário do escritório de imigração de Cuba poderia ser transcrito para as páginas do romance sem prejuízo da "atmosfera kafkiana". Uma pequena diferença é que se sabe o motivo do impedimento de saída de Yoani e se sabe o poder que cerceia sua liberdade.
(No Brasil, os românticos admiradores de Cuba se mobilizam com algum tipo de difamação contra Yoani, para justificar a negativa do governo da ilha.)
(No Brasil, os românticos admiradores de Cuba se mobilizam com algum tipo de difamação contra Yoani, para justificar a negativa do governo da ilha.)
COMENTÁRIOS DIVERSOS
A imagem que eu fazia de um juiz de direito, quando era ainda um adolescente lá no Rincão dos Machado, aproximava-se da infalibilidade em pessoa. Bastou ler o Dicionário Filosófico, de Voltaire, para saber que sequer o papa a internalizaria como constituinte do caráter. Bastou acompanhar a realidade (pela grande mídia), para saber que os juízes (e todas as demais autoridades envolvidas com esse ideal chamado "justiça") não passam de pessoas tão suscetíveis de erros, humanas demasiado humanas.
*
O desembargador Arno Werlang, pivô da crise no alto judiciário gaúcho, deve sofrer de uma doença psíquica, de uma neurose. Agora ele diz que poderá voltar atrás (depois de todo o imbróglio que criou).
*
Leio na blogosfera santiaguense que a juíza Lílian Paula Franzmann foi afastada da Vara da Infância e Juventude de Santa Maria. O mais importante não é noticiado: o motivo do afastamento.
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Era uma necessidade, ao invés de uma mera possibilidade, do Conselho Nacional de Justiça poder investigar os magistrados. Mesmo assim, o placar no Supremo Tribunal Federal foi apertado, mais uma vez denunciando a subjetividade que impera na interpretação da lei. Por que 6 a 5? Por que não 11 a 0? Se o STF divide-se em questões muito importantes, o que esperar dos demais representantes do poder que representam agora não mais imune, não mais infalível.
*
Vocês percebem a grande contradição instituída pelo próprio Estado democrático? A maioria sempre vence, mesmo com a diferença de um voto. A minoria, mesmo representando a metade menos um voto, nada significa. Quanto às minorias privilegiadas, não passam de uma concessão que a maioria faz para redimir sua má consciência.
*
O bom da democracia é que as pendengas se resolvem no voto, no papel, na ainda idealizada justiça. Na Colômbia, onde há internamente outro estado (defendido pela guerrilha), os juízes são executados. A propósito, no Rio de Janeiro...
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
NÃO TENHO RAZÃO?
Nunca antes na história que conheço do futebol gaúcho, o Grêmio perdeu duas partidas em três disputadas pelo campeonato estadual. Assim será no próximo Brasileirão, escrevam isso. Reflexo dessa decadência pode ser comprovado na equipe de futebol juvenil trazida pelo clube a Santiago. Ontem perdeu a segunda partida (das duas disputadas). Numa previsão otimista, poderá vencer o Cruzeirinho, mas cairá outra vez ante o Inter (o melhor time a disputar a Copa deste ano). Cadê o espírito guerreiro, que caracterizou o tricolor nas décadas passadas? Mudou-se para o Gigante da Beira-Rio? Necessitamos de dois ou três Guiñazú.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
LEMBRANÇAS DE BLUMENAU
Em 1986, quando passei uma semana em Blumenau (SC), ainda havia sinais da grande enchente que ocorrera três anos antes. Naquela oportunidade, eu acompanhava uma equipe de mecânicos do Exército, servindo em Curitiba. O 23º Batalhão de Infantaria empregara suas viaturas no apoio à população blumenauense, o que resultou em muito trabalho para nossa equipe de apoio logístico. As caixas de mudança dos Jeep Willys estavam estouradas, principalmente as engrenagens da primeira e segunda marchas. Sargento Heron, Azevedo e eu recuperamos oito viaturas indisponíveis (os babacas dizem que milico não trabalha). Depois das 17 horas, encerrávamos as atividades de manutenção, tomávamos um banho, vestíamos uma civil e frequentávamos os bares no centro da cidade. Três aspectos me chamaram a atenção nessa cidade catarinense: a forma como o rio Itajaí se contorce dentro do perímetro urbano, a arquitetura alemã e a beleza das mulheres.
Entre os prejuízos causados pela enchente, contabilizava-se o moral baixo da população. Para elevá-lo, as autoridades resolveram criar o Oktoberfest, que foi um sucesso desde o princípio.
(São Vicente decreta emergência ao mesmo tempo em que promove a festa.)
SECA E CARNAVAL
Pouco convincente o decreto de emergência do prefeito de São Vicente. Sua preocupação me faz lembrar de uma frase de Nietzsche, extraída de Para além de bem e mal:
"Quando a casa está a arder, esquecemo-nos até do almoço. - Sim: mas depois comemo-lo sobre as cinzas".
O prefeito contratou bandas renomadas para fazer o povo dançar (sobre as cinzas).
NIETZSCHEANO OU NIETZSCHIANO?
Essa dúvida persiste, aparecendo as duas grafias com igual ocorrência. Para manter a coerência, preferi repetir a primeira em meu livro O fogo das palavras.
O novo acordo ortográfico, todavia, normatiza o seguinte:
Em palavras com sufixos -ano e -ense que se combinam com um i que pertence ao tema (havaiano [de Havaí] etc.) ou derivadas de palavras que têm na última sílaba um e átono (Acre, Açores), escreve-se antes da sílaba tônica -iano e não -eano: acriano, açoriano, sofocliano, torriense. Mas escreve-se -eano se a última sílaba da palavra de origem tiver e tônico: daomeano, guineano ou guineense etc.
Portanto, seguindo a norma ortográfica, nietzschiano.
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