Há um ano e meio, passei a morar quase em frente ao Círculo Operário de Santiago. Ainda não conheço o histórico desse clube, a não ser pela galeria de fotos de seus ex-presidentes. O presidente atual é o senhor Oscar Adolfo Lehr. Do grande número de troféus expostos ao lado da cancha de bochas, penso que esse esporte é muito bem praticado pelos sócios. Mesmo na condição de não associado, tenho ido ao clube para ver alguns jogos importantes da dupla (não transmitidos pela Globo / RBS e Band) e para observar a performance dos bochófilos e dos carteadores. Nos domingos, ao meio-dia, o clube serve um risoto delicioso (três reais o prato). Terceiriza a venda de churrasco e maionese. Todas as semanas, uma equipe de diretores e voluntários é escalada para a confecção da iguaria muito consumida pelos gaúchos, nos restaurantes e churrascarias, nos dias de festa na cidade ou no interior. Lucro líquido e certo para aqueles que investem na venda de alimento pronto. Para equilibrar demanda e confecção, a venda dos cartões é feita antecipadamente, in loco ou por telefone (que é 3251-3954). Pelas pessoas que vão ao Círculo comprar risoto, deduzo que não há distinção de classes socioeconômicas em Santiago. Ali vejo o rico empresário e o pobre desempregado numa fila única, sentados na mesma mesa ou dentro da cancha. Do centro e dos bairros. O Círculo fica lotado todas as tardes, de segunda a domingo. O público é preponderantemente masculino, de segunda e terceira idades, que ali se reúne para o jogo de bochas e de cartas. O serviço de copa é muito bem atendido por dois rapazes desenrolados: Dinarte Colpo e Rogério Aníbele. Nos primeiros dias de maio do corrente, eles tiveram o trabalho extra de fiscalizar a lei antifumo. Alguns fumantes se queixaram a princípio, mas logo se disciplinaram a fumar do lado de fora do clube, na calçada em frente. Vida longa ao Círculo Operário de Santiago.
terça-feira, 28 de junho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
TRANSIÇÃO?
Estou enfastiado de ler ou ouvir que vivemos numa época de transição. Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português, escrevia com gravidade nos anos oitenta que vivíamos numa época de transição. Nas páginas iniciais do ensaio de Luciana Genro e Roberto Robaina, leio "vivemos numa época de transição". Óbvio, todo momento presente é uma transição, no mínimo entre tempos diferentes: pretérito e futuro. Para a poesia, isso é possível.
Por citar Boaventura, pensador de consciência marxista, lembro que ele já dissertava sobre o "fim da História" nos mesmos anos oitenta. Pois bem, Luciana Genro e Roberto Robaina escrevem nas páginas iniciais de seu ensaio: "Os bem-pensantes acadêmicos e políticos das classes dominantes, diante do colapso do mal chamado socialismo real, chegaram a falar em fim da história".
Ora, "fim da história"!
Essa confusão fecha com o que sugiro ser uma nova babel discursiva.
Por citar Boaventura, pensador de consciência marxista, lembro que ele já dissertava sobre o "fim da História" nos mesmos anos oitenta. Pois bem, Luciana Genro e Roberto Robaina escrevem nas páginas iniciais de seu ensaio: "Os bem-pensantes acadêmicos e políticos das classes dominantes, diante do colapso do mal chamado socialismo real, chegaram a falar em fim da história".
Ora, "fim da história"!
Essa confusão fecha com o que sugiro ser uma nova babel discursiva.
A ARMADILHA
Toda vez que vou a Santa Maria, passo obrigatoriamente na Livraria da Mente e no Sebo Café. Não consigo controlar o desejo de me encontrar com livros, de conhecê-los, manuseá-lo, comprá-lo e lê-los (cedo ou tarde). Tal relação deve constituir, por excelência, a bibliofilia.
Na Livraria da Mente, sem óculos, li o título em vermelho do livro acima representado. A informação nele contida me interessou deveras. Retirei o livro da estante e... qual a minha surpresa? A segunda informação (após a conjunção aditiva e) me fez torcer o nariz. A leitura dos autores também não me devolveram a motivação inicial. Assim mesmo, comprei o livro.
Enquanto esperava o tempo passar, li as primeiras páginas. Os jovens autores (políticos), deduzo, encontram-se decepcionado com o governo do PT, mas não dizem isso a princípio. No capítulo I - "Tudo que é sólido desmancha no ar" ou a questão do modelo socialista e a falta dele - escrevem uma coisa que eu tinha como exatamente o oposto. Referem-se à revolução russa de 1917, como a primeira revolução socialista vitoriosa. Vitoriosa? Acaso estarei errado em pleno século XXI? Depois da debacle, a Rússia e os demais países que compunham a União Soviética não retomaram o capitalismo?
Espero tirar essas dúvidas, lendo o livro da Luciana Genro e do Roberto Robaina.
domingo, 26 de junho de 2011
LILÁS
A pintura acima é de Mikhail Vrubel, artista plástico russo, classificado como simbolista. O quadro Lilás foi pintado no ano de 1900.
Em sua monografia A literatura pelo plástico: um olhar para os períodos literários pelo viés da arte, Erilaine faz uma relação interessante dessa obra pictórica com o poema A catedral, de Alphonsus de Guimaraens, simbolista brasileiro.
Em sua monografia A literatura pelo plástico: um olhar para os períodos literários pelo viés da arte, Erilaine faz uma relação interessante dessa obra pictórica com o poema A catedral, de Alphonsus de Guimaraens, simbolista brasileiro.
sábado, 25 de junho de 2011
NOVA TRADUÇÃO DE JOYCE
Leio no caderno Cultura do Zero Hora uma entrevista com Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná, que fez a terceira tradução do romance Ulisses, de James Joyce. O livro será publicado no primeiro semestre de 2012. As traduções anteriores foram feitas por Antônio Houaiss (1966) e por Bernardina da Silveira Pinheiro (2005). A tradução de Houaiss é tida como "prolixa demais", e a de Bernardina, muito "coloquial". Li esse clássico duas vezes, uma empreitada nada fácil, considerando-se sua extensão. Vou aguardar a tradução de Galindo, que é tese de doutorado.
POETA EM SANTIAGO
Hoje o Dr. Valdir me emprestou o caderno de Versos do Cônego Heitor Rossato, organizado pelo autor em junho de 1959. O padre Rossato escreveu como seus contemporâneo e amigos, Cecito e Aureliano. Abaixo, transcreverei alguns excertos que justificam minha apreciação. Antes de fazê-lo, todavia, aproveito a oportunidade para revelar-lhes que o padre Rossato viveu uma história de amor com uma moça da sociedade santiaguense. Rossato e essa moça se apaixonaram. A cidade se agitou com esse amor. O padre, segundo Dr. Valdir, aconselhou-se com o amigo Cecito, que o apoiou no intento de renunciar ao sacerdócio. Feito após o desejado, ele e a moça casaram-se (e foram felizes para sempre).
Ao buscar no Google pelo padre Heitor Rossato, encontro o livro As mais belas poesias gauchescas (volume 2), compilado por Luiz Alberto Ibarra, em que o poeta quase santiaguense participa da antologia com dois poemas: Lagoa do campo e Sextilha.
Do caderno que leio neste momento, destaco alguns excertos antológicos:
Amor próprio em trocadilho,
como engana, como ilude:
- virtude alheia é defeito,
defeito próprio é virtude.
A virtude e o chimarrão
são parecidos os dois...
no começo gosto amargo,
mas que doçura depois...
Saudade, lembrança acerba
que a esperança adocicou,
doçura do mate amargo
depois que o mate acabou.
Canavial, doçura larga
que a geada matou na aurora.
Saudade, raiz amarga
da cana doce de outrora.
Velho lenço colorado!
Na rude história pampeana
do moirão de canjerana
tens o brilho e tens a cor.
És um grito de valor,
velho lenço maragato,
risada rubra do mato
das corticeiras em flor!
Aprecio de ouvir à noite
o canto triste do vento
o gosto de ver o pampa
largado assim - ao relento
e o peito virgem da terra
no abraço do firmamento.
Heitor Rossato esteve presente no sepultamento de Aureliano de Figueiredo Pinto, improvisando alguns versos para o amigo na hora de fechar o jazigo:
Adeus, amigo Aureliano!
Meu irmão até outro dia!
Lá da excelsa sesmaria
ouve agora os versos meus.
Tu subiste para Deus
na galopeada da morte.
Santo herói, gaúcho forte,
Aureliano, adeus... adeus!
PERGUNTA IDIOTA
Gilberto Dimenstein pergunta na Folha.com: "São Paulo é mais gay ou evangélica?".
Para responder, o jornalista começa por longe: "Como considero a diversidade o ponto mais interessante da cidade de São Paulo, gosto da ideia de termos, tão próximas, as paradas gay e evangélica tomando as ruas pacificamente". No próximo parágrafo, todavia, aponta para que lado ele fará sua apologia. É moda no país da diversidade, dos plenos direitos de todo mundo (sem qualquer comprometimento com o dever). Fiel representante da mídia, Dimenstein se revela:
"Os gays não querem tirar o direito dos evangélicos (nem de ninguém) de serem respeitados. Já a parada evangélica não respeita os direitos dos gays. Os gays usam a alegria para falar e se manifestar. A parada evangélica tem um ranço um tanto raivoso".
Em nome da alegria gay, Dimenstein não responde pela moral cristã, secular, cujos preceitos são claros. Nada de preconceito. Discordo de Dimenstein: há desrespeito, sim, na parada gay. Desrespeito aos valores cristãos, à Bíblia. O direito gay nega o direito evangélico (e vice-versa).
(A propósito, ultimamente, o Direito no Brasil parece se apartar da ética? Juízes, defensores públicos e advogados passaram a defender ladrões e assassinos. Não vamos longe. Numa entrevista do Expresso Ilustrado, um advogado afirma o seguinte: "Existem no Brasil 95 mil pessoas cumprindo pena por pequenos furtos, os quais (sic) não geraram sequer 100 reais de prejuízo às vítimas". Vamos supor que o valor do prejuízo seja 100 - 1 = 99. Podemos aumentar o subtraendo, isso não importa. Seguindo o raciocínio, basta multiplicar 99 por 95 mil para sabermos o prejuízo real. As vítimas é que deveriam ser presas.)
Dimenstein encerra seu artigo de opinião (um dos piores que escreveu em sua carreira) com a grande sacada sociológica: "civilidade é a diversidade". Seu discurso institui um significado muito especial ao termo "diversidade", ainda não inteiramente percebido pelos conservadores, políticos ou religiosos. Nesse caso, sou conservador: se civilidade é diversidade, civilidade é anarquia da pior espécie, de ordem moral.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
DENILSON CORTES
Do Expresso Ilustrado desta sexta-feira, destaco a coluna do Denilson Cortes. Brilhante seu contraponto. A discussão sobre as sacolinhas plásticas como agente poluidor é uma forma de tangenciar os grandes problemas ambientais. Na hipótese da população santiaguense, orientada pelos ecologistas de plantão, deixar de fazer uso das sacolas, não mais as utilizando para trazer suas compras do supermercado e para acondicionar o lixo diário, pergunto qual o efeito disso. O colunista apresentou um número: 200 gramas para cada 100 quilos de lixo produzido. A medida considerada é tão somente o peso, não o efeito poluidor. Neste aspecto, dificilmente outro material empregado para substituir o plástico será mais leve. Claro que a vantagem está em sua mais rápida desintegração (do papel, por exemplo). Como todo o lixo da cidade ficaria embalado na rua, à espera da coleta? Em sacos de papel? As perguntas do Denilson são nesse tom, para melhor. Questionamentos que nenhum ambientalista é capaz de responder satisfatoriamente. De responder sem demagogia, com coerência, uma vez que ele próprio polui também. Assim são nossos ecologistas. Um dos grandes problemas ambientais foi declinado pelo meu colega de página. Referiu-se à água desperdiçada, de potável a podre. Desafio o colunista a escrever sobre a poluição do ar, outra substância necessária à vida no planeta (vida não apenas sob o ângulo especista do homem). Várias postagens deste blog, que se caracteriza essencialmente pelo contraponto, seguem a mesma linha da coluna do Denilson, a qual transcrevo abaixo:
Serão as sacolinhas...
Não queria entrar na discussão sobre as tais sacolinhas de mercado, apontadas como as vilãs da poluição. Mas, de tanto ouvir barbaridades, terei que emitir opinião. Para se ter uma ideia, elas representam apenas 0,2% de todo o lixo. Transformando em números, isso dá dois quilos de cada mil de resíduos que lotam os lixões. Ou ainda, 200 gramas em 100 quilos. Sou a favor do uso indiscriminado delas como atualmente? Não, mas também não vejo motivo para o pânico que estão criando. Elas demoram mais para decompor? Sim, e esse é o maior problema. Mas alguém se preocupa em quantos litros de chorume (líquido preto que sai das decomposições) esses mil quilos de lixo irão se transformar. E onde essa calda preta vai parar? Eu explico: nas nossas nascentes e lençol freático. Mas isso ninguém enxerga. Afinal, a sacolinha é culpada.
... as únicas vilãs?
Entendam de uma vez: o maior problema ambiental (do Brasil) tem dois nomes: saneamento básico. A falta desse, sim, mereceria fazer com que todos nós perdêssemos o sono. Para se ter uma ideia, uma pessoa gasta, em média, 100 litros de água diariamente (higiene, lavar louças, roupas etc.). Destes, apenas 4 é para consumo (beber e preparo de alimentos). No entanto, os 100 (sic) acabam indo para o mesmo lugar: esgoto. E sabem como volta para a natureza? Sem tratamento, jogado na rede de coleta de chuva (que chamamos erradamente de rede de esgoto). Na nossa região, todo o esgoto doméstico é jogado nos córregos e sangas. Mas isso não parece problema. Já as sacolinhas...
Futuramente, a CORSAN irá tratar todo o esgoto produzido na zona urbana de Santiago. Há um contrato nesse sentido.
"MEU CARO AMIGO"
Chico é um grande compositor/ poeta, porque seus versos são muito bem escritos. Em Meu caro amigo, caso raro na música popular brasileira, há uma perfeita combinação de versos alexandrinos (12 sílabas), com octossílabos e dissílabos. Chico Buarque segue a métrica com perfeição, coisa que poetas e compositores da nossa terra ignoram. Nada contra a ignorância, pior é o se achismo de quem produz versos quebrados (inclusive para cantar). Também compreensível. Pior mesmo é o desprezo dos ignorantes pelo saber, desdém tipo "uvas verdes".
quinta-feira, 23 de junho de 2011
OS DRAGÕES...
Embalado pela leitura do romance Onde andará Dulce Veiga?, apanhei outro livro do Caio Abreu para releitura: Os dragões não conhecem o paraíso. A sétima obra do escritor reúne treze contos:
- Linda, Uma História Horrível;
- O Destino Desfolhou;
- À Beira do Mar Aberto;
- Sem Ana, Blues;
- Saudades de Audrey Hepburn;
- O Rapaz Mais Triste do Mundo;
- Os Sapatinhos vermelhos;
- Uma Praiazinha de Areia Bem Clara, Ali, na Beira da Sanga;
- Dama da Noite;
- Mel & Girassóis;
- A Outra Voz;
- Pequeno Monstro; e
- Os Dragões Não Conhecem o Paraíso.
Digo releitura para simplificar. Já li três ou quatro vezes o conto que dá título ao livro, Os dragões não conhecem o paraíso.
A primeira frase de Mel & girassóis começa assim "Como naquele conto de Cortázar", apenas para demonstrar o que postei abaixo sobre uma das influências presentes na literatura de Caio Abreu.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
INVERNOS
Vendo a chuva bater no vidro da janela, penso que finalmente chegou o inverno. Ato contínuo, abro este espaço para uma nova postagem. Quando escrevo, não posso cometer um reducionismo deste tipo: o inverno chegou finalmente. Claro que chegou antes. Cronologicamente, chegou ontem, dia 21 de junho, às 14 horas e 16 minutos. Com base no frio, na sensação térmica, o inverno já começo há muitos dias. Não é uma obrigação, mas ser mais preciso nas informações é uma característica minha. Não obstante todos os esforços, isso nem sempre acontece. A poesia, por outro lado, me permite mais liberdade. Posso imaginar dois tipos de invernos: 1) com o Sol a 45º, muito propenso a recebê-lo em cheio, sentado no oitão da casa, resguardado do vento sul, comendo bergamota; 2) com chuva (como fez hoje), dentro de casa, em volta do fogão à lenha, comendo bolo frito. Em ambas situações, o inverno é bom. Não falo do inverno mau. Essa é uma preferência daqueles que gostam do verão. Não é meu caso.
terça-feira, 21 de junho de 2011
FIM DO ROMANCE
Uma tarefa difícil achar tempo para ler, blogar, jogar xadrez, cozinhar, ver um filme e sair um pouco. Todas essas opções (obrigatórias ou facultativas) para preencherem meu tempo de folga.
Hoje, por exemplo, dediquei mais tempo à leitura.
Dessa forma, concluí Onde andará Dulce Veiga?, de Caio F. Abreu. O romance é um gênero literário, como o é o conto, a crônica, o poema... Como é mais demorada sua leitura, tenho por hábito acompanhá-la com um lápis à mão. Com um olho na forma e outro no conteúdo, faço muitas anotações nos espaços livres da folha ou nas páginas em branco no final. Onde andará Dulce Veiga? apresenta a fala dos seguintes personagens: narrador (alterego do Caio); Castilhos (chefe de redação do jornal Diário da Cidade, onde trabalha o narrador); Teresinha O'Connor (colunista); Rafic (diretor-proprietário do jornal); Silvinha (mulher de Rafic); Márcia Felácio (líder da banda Márcia Felácio e as Vaginas Dentadas); Patrícia (componente da banda e amante de Márcia); Jandira de Xangô (vizinha do narrador que lê búzios); Jacir ou Jacyra (filho travesti de Jandira); Dulce Veiga (cujo nome é repetido 201 vezes ao longo do romance); Alberto Veiga (ex de Dulce Veiga, homossexual); Saul (ex de Dulce Veiga); Pedro (paixão vivida pelo narrador, que vive o dilema da homossexualidade); Dora (prostituta que sexo oral com o narrador); Lilian Lara (artista carioca, amiga de Dulce); e outras de menor importância (como Filemon e Pai Tomás). O cenário principal é São Paulo (capital), com uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro e o final em Estrela do Norte, cidadezinha no interior do Brasil. O narrador é o fio que liga uma célula dramática a outra, o que melhor caracteriza a novela. Às vezes, participando dialogicamente; às vezes, num monólogo interior (direto ou indireto). Sob o efeito do álcool ou da cocaína, o narrador vê Dulce Veiga em diversos lugares e situações, sem, contudo, alcançá-la. Nesses momentos, a narrativa do Caio reflete o realismo mágico que fez escola na América Latina, principalmente com García Márquez e Julio Cortázar. Cortázar exerceu grande influência sobre a ficção de Caio, bem como Clarice Lispector. Em quatro passagens, ao longo do romance, o narrador menciona o Passo da Guanxuma (Santiago). Na última, quase desistindo de procurar Dulce Veiga, o narrador conclui que o melhor seria "voltar para São Paulo, enterrar de vez tudo aquilo, procurar outro emprego, talvez voltar para o Passo da Guanxuma, de onde nunca deveria ter saído". O narrador é um repórter novato no Diário da Cidade, incumbido por Rafic de encontrar Dulce Veiga. O périplo realizado por ele lembra Todos os nomes, de José Saramago, cuja personagem também procura por uma mulher desconhecida.
Agora, feita a postagem sobre o romance lido, devo fazer nova escolha para a leitura dos próximos dias.
Hoje, por exemplo, dediquei mais tempo à leitura.
Dessa forma, concluí Onde andará Dulce Veiga?, de Caio F. Abreu. O romance é um gênero literário, como o é o conto, a crônica, o poema... Como é mais demorada sua leitura, tenho por hábito acompanhá-la com um lápis à mão. Com um olho na forma e outro no conteúdo, faço muitas anotações nos espaços livres da folha ou nas páginas em branco no final. Onde andará Dulce Veiga? apresenta a fala dos seguintes personagens: narrador (alterego do Caio); Castilhos (chefe de redação do jornal Diário da Cidade, onde trabalha o narrador); Teresinha O'Connor (colunista); Rafic (diretor-proprietário do jornal); Silvinha (mulher de Rafic); Márcia Felácio (líder da banda Márcia Felácio e as Vaginas Dentadas); Patrícia (componente da banda e amante de Márcia); Jandira de Xangô (vizinha do narrador que lê búzios); Jacir ou Jacyra (filho travesti de Jandira); Dulce Veiga (cujo nome é repetido 201 vezes ao longo do romance); Alberto Veiga (ex de Dulce Veiga, homossexual); Saul (ex de Dulce Veiga); Pedro (paixão vivida pelo narrador, que vive o dilema da homossexualidade); Dora (prostituta que sexo oral com o narrador); Lilian Lara (artista carioca, amiga de Dulce); e outras de menor importância (como Filemon e Pai Tomás). O cenário principal é São Paulo (capital), com uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro e o final em Estrela do Norte, cidadezinha no interior do Brasil. O narrador é o fio que liga uma célula dramática a outra, o que melhor caracteriza a novela. Às vezes, participando dialogicamente; às vezes, num monólogo interior (direto ou indireto). Sob o efeito do álcool ou da cocaína, o narrador vê Dulce Veiga em diversos lugares e situações, sem, contudo, alcançá-la. Nesses momentos, a narrativa do Caio reflete o realismo mágico que fez escola na América Latina, principalmente com García Márquez e Julio Cortázar. Cortázar exerceu grande influência sobre a ficção de Caio, bem como Clarice Lispector. Em quatro passagens, ao longo do romance, o narrador menciona o Passo da Guanxuma (Santiago). Na última, quase desistindo de procurar Dulce Veiga, o narrador conclui que o melhor seria "voltar para São Paulo, enterrar de vez tudo aquilo, procurar outro emprego, talvez voltar para o Passo da Guanxuma, de onde nunca deveria ter saído". O narrador é um repórter novato no Diário da Cidade, incumbido por Rafic de encontrar Dulce Veiga. O périplo realizado por ele lembra Todos os nomes, de José Saramago, cuja personagem também procura por uma mulher desconhecida.
Agora, feita a postagem sobre o romance lido, devo fazer nova escolha para a leitura dos próximos dias.
O MEU PAÍS
Recebi do meu amigo Tamares Gavioli (Manaus-AM) um vídeo com o João de Almeida Neto declamando o poema O meu país. Por seu discurso inconformista, vale a pena ouvi-lo.
sábado, 18 de junho de 2011
ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?
Há quatro anos, li metade do romance Onde andará Dulce Veiga?, do Caio Abreu. Por alguma razão, suspendi a leitura até esta semana. Fui à estante, apanhei o livro e retomei o romance desde o começo. Já passei da metade (de onde tinha parado anteriormente). Desta vez, irei até o final, apesar de um problema nas vistas.
A história já foi transformada em filme pelas mãos do diretor Guilherme de Almeida Prado, amigo do Caio. Maitê Proença faz o papel de Dulce Veiga (cantora dos anos 60), Carolina Dieckmann é Márcia Felácio (filha de Dulce), Eriberto Leão é o narrador ...
EPÍGRAFE DE O OVO
No ano de 1985, uma das questões de Literatura do vestibular para a Universidade do Paraná fundamentava-se no seguinte poema:
"Estive doente,
doente dos olhos,
doente da boca,dos nervos até,
dos olhos que viram mulheres formosas,
da boca que disse poemas em brasa,
dos nervos manchados de fumo e café.
Estive doente,
estou em repouso
não posso escrever.
Eu quero um punhado de estrelas maduras,
eu quero a doçura
do verbo viver"
Há cinco anos, declamava-o, desde que lera pela primeira vez em O ovo apunhalado, de Caio Fernando Abreu. Caio transformara-o em epígrafe de seus contos.
O poema é de um louco anônimo.
Passei no vestibular para o curso de Letras. No dia da matrícula, não encontrei meu Histórico Escolar.
CAIO ABREU EM SANTIAGO
Tânia de Oliveira (minha irmã) e Caio Abreu, quando foi inaugurada a foto dele na "Galeria dos Escritores Santiaguenses" no Centro Cultural.
(Para aumentar a imagem, clique sobre ela.)
sexta-feira, 17 de junho de 2011
PRIMEIRA HORA
Densas pinceladas pintam o céu desta manhã. De um lado, explode a hora dilucular; de outro, riscos de energia prenunciam o temporal. Por um instante, a cidade ganha tons românticos entre luz e sombra. O vento muda de direção, trazendo de volta a noite. Pingos grossos caem sobre os paralelepípedos, de onde brotam guarda-chuvas. A sexta azul não passou de uma previsão equivocada, de um desejo.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
NOVA BABEL
Já vivemos uma babel hipertextual. Todo mundo querendo expressar uma opinião sobre os mais diversos assuntos, algumas vezes sem o conhecimento necessário. Em Santiago, isso se evidencia na Literatura. Gente que não lê, que não sabe interpretar um texto, mete-se a escrever, a formar escola. Estultos que, em relação à alegoria de Platão, ainda se encontram dentro de uma caverna. Menos no item viagem, devo seguir o Ruy Gessinger, lendo mais e não me imiscuindo babelicamente.
terça-feira, 14 de junho de 2011
CONFISSÃO
Mais uma vez, num acesso autocrítico, reconheço-me apenas mais um "chinês" nesta babel em que se tornou o discurso opinativo. Tudo o que falo ou escrevo tem a mesma importância de seu oposto natural: o silêncio. O mundo, a começar pelas pessoas mais próximas, não depende das minhas ideias para continuar existindo. Absolutamente. Cito como prova as postagens abaixo. Ainda que tenham chamado a atenção de alguns leitores inteligentes, entre os quais Edson Orides de Paula, Alessandro Reiffer e Nívia Andres, acabarão perdidas para sempre num emaranhado hipertextual de dimensão incomensurável. Espero não desapontá-los com meu desencanto, com meu reconhecimento de impotência.
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