segunda-feira, 30 de novembro de 2009

MEU SEGUNDO LIVRO

Ainda estou em dúvida quanto ao título do meu próximo livro de poesia. Provisoriamente, havia escolhido Espiga de luz. Mas desconfio da relação que o leitor poderá fazer (antes de ler os poemas) com uma coisa religiosa. Semana passado, fiz duas escolhas: ilustrar a capa com um quadro da Didi (abstracionista santiaguense) e epigrafar cada um dos sete capítulos do livro com versos de Carlos Nejar.
Grande parte dos poemas já foi postada aqui desde 2007. Por exemplo,
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ecce homo
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as coisas inexistentes
ganham forma
provisória
durante o sono
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as existentes
engendradas
na vigília
tornam-se autônomas
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um demiurgo
enquanto dorme
um alienado
diurno
o homem
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A propósito, a Didi é uma grande artista. Dificilmente, será reconhecida pela nossa sociedade, enquanto não sair de Santiago e fizer nome lá fora. Quem visitou suas últimas exposições? Pelo que me consta, com o Caio Abreu aconteceu exatamente isso. Na década de setenta ou oitenta, que santiaguense lia o escritor conterrâneo?

FLAMENGO CAMPEÃO

Não é como gremista que afirmo peremptoriamente: o campeonato brasileiro já está decidido. Antes de ser um torcedor apaixonado, sou crítico. Como crítico, sou péssimo torcedor. A razão me exige tal posicionamento. Nesse campeonato, a campanha do Grêmio foi tão ruim quanto a dos primeiros colocados, com a diferença de não vencer fora de casa. Por que venceríamos na última rodada, longe do Olímpico, sem chances de classificar para a Libertadores? Por que venceríamos o Flamengo, o menos pior dos times que se apresentam para ganhar o título? Uma vez fui ao Maracanã, para assistir a Flamengo e Grêmio. O Denner jogava um bolão, mas não impediu uma humilhante goleada. Os colorados torcem pelo Grêmio, sim. Mais do que isso, querem cobrar uma postura ética do rival tricolor que seu Internacional não teria em caso oposto. Os brasileiros temos uma dupla moral, foi o que Oscar Árias, presidente da Costa Rica, insinuou em relação ao presidente Lula (que condena a eleição em Honduras depois de ter reconhecido a do Irã).

domingo, 29 de novembro de 2009

BRASILEIRÃO 2009

- Este 2009 ficará marcado como o ano em que nenhum dos quatro times com maior número de pontos merece ser campeão. A impressão que fica é de que faziam um esforço para não ganhar.
- Para quem acompanha o futebol também pela TV Bandeirante, concordará que os que menos merecem o título são os paulistas (Palmeiras e São Paulo). Os comentaristas, por sua arrogância e burrice, precisam muito de uma lição.
- O Grêmio tem o pior time nos últimos 39 anos, não chega aos pés daquele que disputou a segunda divisão. Incapaz de ganhar uma partida fora de casa. Sem perspectiva para o ano que vem.
- O Internacional desperdiçou chances de ouro para disparar no campeonato. Um pouco melhor que o rival tricolor. Não entendo a escalação teimosa de D'Alessandro. Andrezinho é muito mais jogador (mais uma vez decisivo no jogo de hoje).
- As direções do Grêmio e do Inter sempre contam com um "boi de piranha" para salvar suas más administrações: o técnico. Sempre com a conivência burra dos torcedores.
- Sendo para dar uma lição nos paulistas, retifico opinião acima: o Flamengo merece o título. Principalmente pela festa de sua torcida e pelo treinador humilde (que é o Andrade).
- À exceção dos botafoguenses e coxas, o Brasil inteiro torce para o Fluminense escapar da segunda divisão. Fez o impossível, vencendo todas as partidas das últimas rodadas. Fred desponta como o melhor jogador do campeonato.

DOMINGO AZUL


Desejo um domingo azul para todos os visitantes deste blog.
De repente, no final da tarde, na tarde de um domingo azul, a gente se encontre para tocar um violão e cantar La Belle de Jour, de Alceu Valença.

UMA METÁFORA

O mundo financeiro é comparável a um edifício gigantesco, ora em acelerada construção, ora parado (aguardando recursos, inacabado). Para não fugir ao frame, os países são empreiteiros que, ora aplicam suas economias na obra babélica, ora esperam apoio de outros construtores.
Há pouco tempo, depois de 80 anos, o edifício esteve por vir abaixo, em razão de uma ruptura interna, a ponto de colocar em dúvida a própria credibilidade do empreiteiro mais poderoso. Mal houve a retomada dos trabalhos, outro associado da obra colossal vê-se forçado a descer das alturas. O ritmo imposto em sua área se acelerou de tal forma que confundiu as atividades dos demais (muito abaixo) com ociosidade. A ousadia e extravagância desse novo empreiteiro, bancado pelos petrodólares, já tem um nome, uma alegoria: burj dubai.
De repente, uma tempestade de areia se assoma no horizonte, para espanto e fuga daqueles que, assentando um único tijolo, sonhavam ganhar um apartamento inteiro.
E agora? O edifício está lá, ainda cercado por andaimes e gruas. Tecnicamente abandonado.
Há o risco de tudo o que cresceu muito rapidamente ruir sobre a cabeça dos que continuam seu trabalho. Estes, ou reforçarão suas plataformas, ou a abandonarão para recomeçar outro empreendimento (imobiliário).
Num futuro próximo, ou distante, Dubai poderá ser retomado pela arte da luz - câmera - ação, executada pela indústria cinematográfica, como cenário futurista, ou escatológico, de fim do mundo (muito ao gosto da ficção científica). O cinema, diga-se de passagem, faz parte do mesmo edifício construído pelo capital financeiro. Afinal, nem só as crianças necessitam de playground.

sábado, 28 de novembro de 2009

COMENTÁRIOS DIVERSOS

Seguindo a dica do Ruy Gessinger, também tenho meu pedido para o Natal de 2009: não o faço ao mítico e bom velhinho, mas às pessoas vivas, reais. Não comprem neste Natal, no máximo uma agenda 2010. A maioria dos nossos problemas financeiros refere-se a dívidas que fazemos por livre e espontânea pressão do mercado. Sejamos maior que alienadas marionetes! Basta uma pequena vontade, um pequeno exercício de estoicismo (essa imperturbalidade dos espíritos superiores).
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O achado publicitário "2000 inove" passa para a categoria dos jargões, envelhecido em poucos meses.
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Passei pelo Flasback Bar, do amigo Ânderson Taborda. Santiago necessita desses lugares, onde as pessoas se encontram para um bate-papo, acompanhado de uma cerveja. Já começou bem, com a música pré-definida: dos anos 60 aos anos 90 (o que exclui o pior da última década). Na noite inaugural, o Flasback estava lotado. Sucesso ao Taborda.
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Na confraternização da nossa Bateria Comando, realizada ontem, no Salão de Festas do 19º GAC, mais uma vez ganhei um torneio de truco. Meu trio não teve dificuldade para vencer as seis partidas. Não vivo só de leitura e escrita.
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O auditório da Câmara dos Vereadores estava lotado para a Abertura oficial da campanha publicitária do I Fórum Latino-Americano de Literatura/ II Encontro de Escritores do Mercosul. O evento foi organizado pela Casa do Poeta de Santiago, cujo patrono é Caio Fernando Abreu. O concurso literário de poesias, crônicas e contos premiou seus vencedores no âmbito da Terra dos Poetas.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

NOS POÇOS

Amanhã recitarei Caio Fernando Abreu na Câmara dos Vereadores de Santiago, por ocasião da Abertura oficial da campanha publicitária do I Fórum Latino-Americano de Literatura/ II Encontro de Escritores do Mercosul. O convite partiu da Casa do Poeta de Santiago, entidade que organizará o evento. Minha participação será de exatamente um minuto, tempo que levo para recitar Nos poços. Amanhã, às 20 horas.

MARIA DESCENDENTE DE DAVI


Há alguns dias, apresentei este problema para o Araújo, seguramente um dos cristãos mais convictos que conheço:
As profecias do Velho Testamento são categóricas em afirmar que o Messias (Jesus Cristo) nasceria da descendência de Davi. Primeiro: Por que Mateus estabelece 28 gerações entre Davi e Jesus, e Lucas, 41? Segundo: Por que os dois evangelistas salientam essas gerações, provando a descendência davídica de Jesus, se este fora concebido pelo Espírito Santo, sem a intervenção física do pai?
O rapaz deve ter quebrado a cabeça em casa, consultado alguém mais experiente, talvez o pastor de sua igreja. Hoje ele foi à minha seção com a resposta para o segundo questionamento acima. Maria, a mãe de Jesus, era ela, por sua vez, descendente do rei mais querido de Deus. Filha de Joaquim e Ana. Estava escrito no Evangelho de Tiago ou Proto-Evangelho de Tiago.
Como sou cético até a raiz dos cabelos, aceitei temporariamente sua resposta, até chegar em casa e procurar pelo tal proto-evangelho. (Em 2012, deverá ser grafado sem hífen.)
O evangelho narra que "o sacerdote lembrou-se de Maria, a jovenzinha que, sendo de estirpe davídica, se conservava imaculada aos olhos de Deus".
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A fé inabalável do Araújo continua a se justificar, não minha dúvida.
Por que a Igreja Católica condenou como apócrifo o texto que justifica as profecias do Velho Testamento quanto a descendência davídica de Jesus? Ela seguiu apenas o critério do sagrado, apostando na fé como meio de superar as contradições? Quem dos cristãos já sabia da incoerência entre Mateus e Lucas, do evangelho apócrifo que traz sobre a descendência de Maria? Os evangelhos, canônicos ou condenados, são verdadeiros (e não uma adequação para confirmar as profecias do Velho Testamento, por exemplo)?
Outras questões podem ser formuladas. Fico por aqui.
Richard Dawkins, em Deus, um delírio, escreve sobre a irrelevância de se saber quais eram os ancestrais de José. Nisso, ele está certo. Mas saberia ele da verdade contida no Evangelho de Tiago? Caso soubesse, por que não colocou em seu livro?




quarta-feira, 25 de novembro de 2009

HERTA MÜLLER - NOBEL DE LITERATURA 2009


Nessa tarde, comprei uma revista de Literatura que traz uma reportagem de duas páginas sobre a escritora HERTA MÜLLER, escritora romena naturalizada alemã, ganhadora do Nobel de Literatura de 2009. A manchete anuncia: A escritora dos abandonados. Os abandonados são a minoria alemã na Romênia. Sua produção literária gira em torno das facetas desumanas do comunismo, ainda que 20 anos depois do conflito leste-oeste. Seu primeiro livro foi uma coletânea de contos, Em terras baixas, censurado pelo regime ditatorial romeno. Depois, Oppresive tango, uma crítica ao mesmo regime. Outros livros de Müller: A raposa já foi caçador, Herztier, A terra das ameixas verdes, O homem é um grande faisão sobre a Terra, A hora marcada, O compromisso (único publicado no Brasil) e Atemschaukel. Escritores favoritos para o Nobel: Amos Oz (israelense), Philip Roth (norte-americano), Mario Vargas Llosa (peruano) e Assia Djebar (argelina).

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ARTE FOTOGRÁFICA


O turco Mehmet Ozgur adotou a fotografia como um hobby e agora se dedica a registrar "esculturas" de fumaça. Ele utiliza apenas incensos e nitrogênio líquido. (Retirei do UOL)

MINHA UTOPIA


Um costume exclusivo dos adolenses, povo que vive numa grande ilha, consiste na união muito cedo entre seus jovens. Eles acreditam que só serão felizes com o primeiro amor. A tradição determina que a escolha ocorra entre 12 e 18 anos. Não há casos de narcisismo secundário, em que ele(a) tenha dificuldade para se relacionar com o outro. Todavia, nem sempre a primeira relação consegue chegar ao casamento. Aos frustrados, resta a esperança de encontrarem alguém nas mesmas condições. Mas a estatística é pouco generosa para esses casos, provando que acaba mal a maioria dos segundos relacionamentos. Isso equivale a dizer que os memes culturais (que poderiam romper com o establishment) desaparecem no espaço de uma geração a outra. Como não há psicólogos, sociólogos e outros subjetivistas, os valores éticos e morais preservam-se inatacáveis por questionamentos inconvenientes, sob a redoma da práxis social. Sem a ciência (ainda incipiente), ninguém sabe em Adol o que possibilita a felicidade dos casamentos prematuros: a inocência. Os adolenses a vivem simplesmente.

(Hoje fiz uma reflexão sobre a inocência. Imaginei um mundo quase fechado, onde ela fosse possível. "Adol" e "adolense" remetem a "adolescente". Obviamente.)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Qual o mais difícil de falar...
pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico
ou
Ahmadinejad
?
A primeira é a mais longa palavra da Língua Portuguesa e a segunda, o nome do presidente do Irã (que veio ao Brasil para defender a não-existência do Holocausto, a extinção de Israel e a execução dos homossexuais).

NU CUBISTA

Pintura de Anita Malfatti (provavelmente, uma das telas que devem ter irritado Monteiro Lobato).

TURRA E TAVARES

Dois artigos publicados no Zero Hora de domingo passado me chamaram a atenção: Meio ambiente e agronegócio, de Francisco Turra; e A arte da ilusão, de Flávio Tavares. Na condição de leitor crítico, senti a necessidade de contrapor ao primeiro e endossar a opinião do segundo. Turra escreve: “É um equívoco caracterizar como antagônica a relação entre meio ambiente e produção agrícola”. Pelo contrário, é um acerto dizer que a agricultura agride o meio ambiente. Há dez mil anos, o homem corta as matas ciliares, queima o excedente, entulha e envenena os rios, provocando o desequilíbrio e o empobrecimento de diversos biomas. A prática exaustiva desencadeia a desertificação. Necessária para a sobrevivência humana, a exploração da terra passou a servir ao enriquecimento de alguns. Em Arte da ilusão, Flávio Tavares entra na grande discussão estética em torno da “arte conceitual” em Porto Alegre. O articulista visita a Bienal do Mercosul nos armazéns do cais e chama de extravagâncias o que vê ali, concordando com o grande pintor gaúcho Iberê Camargo, que abominava as “instalações” (objetos estranhos à arte dispostos de uma forma mais ou menos organizada no centro, num canto, na parede ou no teto de uma sala). O argumento de Iberê, citado por Tavares, diz respeito a pouca duração dessas “instalações”, cujos autores querem passar por arte. Ao contrário dos quadros de Anita Malfatti, que traziam a novidade cubista e expressionista, para desconhecimento do sempre acadêmico Monteiro Lobato, precipitado algoz da pintora, as instalações, mesmo que adiantem uma tendência futura, são feias e antiestéticas.

Esse texto destina-se à coluna do Expresso Ilustrado, por isso as lacuna, algo que pede mais algumas palavrinhas. O diretor de redação do jornal ainda acha que deve diminuir ainda mais. Sua tese (com respaldo empírico, em se tratando do EI) é de que poucos leem os textos longos. Nestes seis anos, aprendi a frear meu ímpeto discursivo. Cedo entendi que o espaço na página é um "leito de Procusto". Caso a ultrapasse, sou devidamente cortado; caso não a preencha, suficientemente esticado. A ferramenta usada para tal adequação é o pagemaker.

Houvesse mais espaço, eu acrescentaria que a prática agrícola visando à sobrevivência, desde o começo do neolítico aos nossos dias, sempre agrediu o meio ambiente. Sem o alimento provindo das colheitas sazonais, todavia, a espécie humana não teria sobrevivido (ou crescido tanto em 10.000 anos).

Houvesse mais espaço, eu acrescentaria que é perigoso tomarmos posição contrária às novas expressões artísticas. Não podemos nos esquecer do que ocorreu com Monteiro Lobato na aurora do movimento modernista. Anita Malfatti, regressando da Europa com as novidades pós-impressionistas (cubistas e expressionistas), realizou uma exposição em 1917. Monteiro Lobato pegou pesado contra a pintora num artigo intitulado "Paranóia ou Mistificação?". Flávio Tavares, apoiando Voltaire Schilling (que começou uma ampla discussão com o artigo A capital das monstruosidades), teve a coragem de atacar o que chama de "a arte da ilusão". A propósito, o articulista assim inicia seu ataque: "A mistificação está em todos os lugares...".

Junto-me a eles, com a lamentada ausência de Iberê Camargo, para vaticinar que a estética do feio não fará escola. As tais "instalações", que os museus de arte moderna estão cheios, não passam de uma ilusória prerrogativa da modernidade. Elas preenchem um vazio criativo do tempo presente. A dúvida é se são provisórias ou escatológicas (retificando o final da minha coluna para o Expresso).

sábado, 21 de novembro de 2009

RAIOS... RAIOS!

Estou desconectado do mundo desde ontem, quando um raio torrou a antena da Santiagonet no alto do edifício. Os rapazes vieram verificar, trocaram peças em vão. A antena será substituída apenas na segunda-feira (em se tratando de Internet, é muito tempo). Voltei a frequentar uma lan house para ler e-mais, felicitar os aniversariantes no Orkut, visitar blogs, comentar, postar, pesquisar algum assunto no hipertexto...
Ontem, ao sair da lan da Bento, em frente à Wizard, havia seis pessoas "navegando". Bisbilhoteiramente, corri os olhos na tela de cada uma. O número parece mentiroso (mas não é): 100% estavam no MSN. Esse portal eletrônico desempenha a função do telefone, mídia mais cara, que ainda não mostra a imagem de quem está do outro lado da linha. (No Japão já está sendo desenvolvida a tecnologia t-Room, para realizar o sonho da telefonia imagética.)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

EVOLUÇÃO HUMANA (UMA PROPOSTA DE LEITURA)


Richard Dawkins, no prólogo geral de seu apofântico A grande história da evolução, escreve o seguinte:

A história humana convencional conta com três métodos principais, cujos equivalentes encontraremos na escala temporal mais da evolução. Primeiro temos a arquologia, o estudo dos ossos, pontas de flecha, fragmentos de cerâmica, monturos de conchas, estatuetas e outras relíquias que resistiram ao tempo e perduram até hoje como testemunhos concretos do passado. Na história evolutiva, as relíquias concretas mais óbvias são ossos e dentes e os fósseis em que eles acabam se transformando. Em segundo lugar temos as relíquias renovadas, registros que, apesar de não serem eles próprios antigos, contêm ou incorporam uma cópia ou representação do que existiu em um passado longínquo. Essas relíquias, na história humana, são relatos escritos ou orais que foram transmitidos, repetidos, reimpressos ou de alguma outra forma reproduzidos do passado para o presente. Na evolução, proporei o DNA como a principal relíquia renovada, equivalente a um registro escrito e recopiado. Em terceiro temos a triangulação. Esse nome provém de um método para calcular distâncias pela mensuração de ângulos. [...] Podemos dizer que os evolucionistas "triangulam" um ancestral comparando dois (ou mais) de seus descendentes sobreviventes.

Dawkins inova com essa proposta de fazer uma leitura da evolução humana por intermédio do DNA. Nas próximas postagens, voltarei a citar esse que é considerado um dos três grandes intelectos da atualidade (ao lado de Umberto Eco e Stephen Hawking).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

VANTAGEM DO HIPERTEXTO

Antigamente, antes do advento do hipertexto, quase no fim do século XX, o aluno que cismasse com a palavra "anapéstico" e, chegando em casa, corresse ao dicionário de pequeno ou médio porte para ver o significado, sairia frustrado da pesquisa metalinguística certamente. Hoje, basta digitar no Google e pronto. Na própria definição, "composto de anapestos", aparece um link (a própria palavra "anapestos"). Novo clique. Novo significado: unidade rítmica de poema composta por duas sílabas breves e uma longa. Novos links: unidade rítmica e poema. E assim, ao infinito.
ESCREVAM ISTO: O HIPERTEXTO É UMA REVOLUÇÃO.

BANDEIRA DO BRASIL

A Bandeira Nacional também tem seu dia. A história do símbolo mais respeitado da nação brasileira explica o porquê de ser 19 de novembro. Ela foi inspirada na antiga bandeira do império e adotada pelo Decreto Lei nº 4, de 19 de novembro de 1889. Cores representativas, influência positivista (expressa no lema "ordem e progresso"), a importância e muitos outros aspectos poderiam alongar esta postagem. Limito-me a fazer um comentário sobre o hino escrito em sua homenagem, cantado em uníssono neste dia.
Escrito por Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (cujo nome completo é um verso de doze sílabas, ou alexandrino). O poeta é autor dos mais belos sonetos da nossa literatura, entre os quais cito (e recito) Língua Portuguesa, Via Láctea, Nel Mezzo Del Camin...
O Hino à Bandeira é composto por versos eneassílabos (ou novissílabos), que caiu em desuso pelo ritmo anapéstico (tarará, tarará, tarará). Mas a genialidade de Bilac salva a obra. Nas aulas de versificação, transcrevo a estrofe abaixo, explicando que o verso de 9 sílabas é o mais adequado para hinos e canções, em razão da regularidade rítmica: tonicidade acentuada na 3ª, 6ª e 9ª sílabas. Os alunos entendem mais facilmente como funciona a métrica. Saem da aula, repetindo o termo "anapéstico".
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Salve, lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança,
A grandeza da pátria nos traz.
...

EÓLICO


deus bafejava

na minha fronte

cheirando à bergamota

..................................verde

.

sozinho

errando pelo ermo

das taperas

.

deus

era o vento

.

(O poema acima estava incompleto, por isso o deixava de lado em minhas frequentes "antologias" para figurar no próximo livro. O último verso não me agradava. Ao sair para fora nesta manhã ventosa, não tive dúvida: o deus do meu poema incompleto era o vento. Gostei do insight que apenas lembra a poesia nejariana.)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ATLÉTICA DEMOCRACIA

Um comentarista anônimo teceu um longo comentário neste blog, questionando a democracia nos /dos Estados Unidos. Minha recusa óbvia e imediata teve vários motivos. Primeiro, abomino o anonimato. Segundo, considero todo antiamericanismo um sentimento tardio (que denuncia um sujeito romântico, passadista, que ainda não sabe que o muro de Berlim foi derrubado). Terceiro, tenho a democracia como uma práxis social, antes de ser um regime de governo. O povo norte-americano é livre (isso é que é relevante), ao contrário de outros infelizes que, em seus países, não usufruem da liberdade como uma condição existencial. O discurso de Barack Obama numa universidade chinesa, defendendo o acesso à Internet, deveria ser aplaudido no mundo todo. O presidente dos Estados Unidos pode se constituir no porta-voz da América e de sua "atlética democracia" (como escreveu o maior de seus poetas, Walt Whitman).