domingo, 12 de outubro de 2008

MOTIVO GENÉTICO






Entre as ovelhas do meu pai, no Rincão dos Machado, a da foto produziu dois borreguinhos pretos. A pergunta é: qual a cor da lã do carneiro que contribuiu com 50% dos caracteres genéticos na produção desses espécimes? A resposta é óbvia: preta.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

NOBEL DE LITERATURA


A Academia Sueca concedeu hoje o Nobel de Literatura de 2008 aos francês JEAN-MARIE GUSTAVE LE CLÉZIO, classificado como um "autor de novos rumos, da aventura poética e do êxtase sensual" e "explorador da humanidade dentro e fora da civilização dominante". Le Clézio é autor de cerca de 50 obras (romances, ensaios e literatura infantil), entre as quais se destacam: Deserto; Estrela Errante; O Processo de Adão Pollo; Diogo & Frida; Índio Branco; e O Caçador de Tesouros (todos traduzidos para o português).

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o louco


o louco
atravessava noites
a inventariar
silêncios

oo
depois percorria
as ruas
com os olhos campeadores
de lonjuras

oo
as crianças
repetiam
seu discurso:

oo
matem os passarinhos
matem
os passarinhos

oo
num banco
da praça
fez cama de agosto

oo
sem a alma
de estorvo
dormiu o profundo
sono

A HISTÓRIA DA ESCRITA/LEITURA

A história da escrita/leitura pode ser dividida em três eras (facilmente reconhecíveis): do manuscrito, do impresso e da informática. Não apenas o suporte e a interface são considerados nessa divisão, mas também o hipertexto* (que não é uma novidade da Rede Mundial de Computadores).
* Hipertexto, definido por Marcuschi, constitui uma forma de "organização cognitiva e referencial", cuja principal característica é a não linearidade na construção textual. Num livro, por exemplo, há números sobre-escritos, ou asteriscos remetendo a uma nota de roda-pé, a um glossário no final. O texto lido necessita de outro texto, uma palavra de outra palavra, um livro de outro livro, numa teia que se amplia indefinidamente. No âmbito digital, esse "descentramento" ocorre com inserção de um link, por exemplo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

EM DEFESA DOS SELVAGENS

Um renomado jornalista da Globo assim conclui seu comentário sobre a adulteração da gasolina nos postos brasileiros: “A selvageria vai tomando lugar da civilização”. Anotei essa “pérola” discursiva na minha caderneta de bolso, pensando em transcrevê-la mais tarde (como o faço agora). A mídia e o senso comum compartilham do complexo egolátrico, incrustado na crença de que a civilização é sinônimo de um estágio avançadíssimo da evolução humana. Não me custa repetir que essa crença tem raízes na metafísica e nos dogmas cristãos, justificada como essência espiritual. A civilização coincidiria com a tomada de consciência da relação homem–deus. Para compreender os atos violentos, erroneamente classificados de bárbaros ou selvagens, avalia um artigo interessante, deve-se começar pelo preconceito esquizo-paranóide, que separa eu=bom=amigo do outro=mau=inimigo. Em estados anteriores, prossigo inquiridor, praticava-se a pedofilia? Praticava-se o incesto? Comumente, ouve-se sobre um pai que estupra a própria filha, de um pai ou de uma mãe que cometem filicídio, que tal violência constitui uma selvageria, uma barbárie (remetendo a estágios primitivos, de domínio dos instintos). Leituras de História Natural me autorizam a dizer que nossos ancestrais, sejam caçadores ou agrícolas, não matavam com a hediondez que a civilização é capaz de segregar no espírito do(s) assassino(s). Noutros tempos, a vida e a morte se cercavam de significações mítico-religiosas, totens e tabus que as protegiam contra o desvalor, a banalização. Não é a primeira vez que saio em defesa dos selvagens e dos bárbaros. Por mais broncos que fossem os antepassados humanos, não estupravam e tampouco matavam seus próprios filhos.
oo
O quadro acima, Guernica, foi pintado por Pablo Picasso, o maior gênio da pintura do século XX. Para mim, Guernica pode ser uma das representações pictóricas de nossa civilização.

domingo, 5 de outubro de 2008

ELEIÇÃO EM SANTIAGO

Há pouco saiu o resultado final da apuração em Santiago.
JÚLIO RUIVO: oo15.596
VULMAR LEITE: o7.516
SANDRO PALMA: 5.040
JÚLIO PRATES: ooo694
Nas minhas previsões (não postadas aqui por uma questão ética), acertei que o Ruivo seria eleito facilmente, que o Vulmar ganharia do Sandro (contrariando as pesquisas), que o Prates não faria 700 votos. Quase acertei a previsão de que a diferença entre Ruivo e Vulmar seria os votos do Sandro Palma. Um erro pequeno se comparado com o do próprio Sandro, candidato do PTB, que me assegurou vencer a eleição com uma diferença de 112 votos.
Para a Câmara de Vereadores:
MARCOS PEIXOTO (2.516); MIGUEL BIANCHINI (2.198); DAVI VERNIER (2.058); CLÁUDIO CARDOSO (1.738); PELÉ (1.414); NELSON ABREU (1.059); ARLINDO ALVES DA SILVA (997); DINIZ COGO (928); MARA REBELO (859); e PEDRO BASSIN (700).
Da relação acima, as surpresas foram Arlindo Alves da Silva e Pedro Bassin.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O PODER DA BLOGOSFERA

Os blogueiros detonaram com a campanha de John Kerry, candidato democrata à presidência dos Estados Unidos em 2004. A mídia tradicional os apoiaria no ataque contra a veracidade das aventuras contadas por Kerry, de que passara a véspera do Natal de 1968 dentro do Camboja (quando era combatente no Vietnã). Com o apoio dos veteranos da Swift Boat, o discurso do candidato foi desmascarado como uma mentira.
Lendo os blogs de Santiago há pouco, percebo que se configura um estado de quase terrorismo em nossa região, praticado por certos cidadãos que merecem perder seus direitos de cidadania, uma vez que agiram como criminosos. Furto e difamação são crimes. O primeiro foi filmado por uma câmera do circuito de segurança da rodoviária de Santo Ângelo. As imagens são claras e revelam dois dos três furtadores. A difamação contra um dos candidatos a prefeito de Santiago e contra uma adolescente partiu de uma denúncia anônima, provavelmente de um dos "laranjas" que ajudou a espalhar o boato ignominioso.
Qual a possibilidade de os dois crimes revelarem a mesma autoria?
Sim ou não, sou obrigado a discordar do psiquiatra Thomas Szasz, que dizia ser os criminosos inteligentes. Os que se deixaram filmar na rodoviária de Santo Ângelo com a mão na combuca, digo, no jornal Correio Regional de Santiago, são deslavadamente burros.
Quem será responsabilizado pela ofensa contra a honra da adolescente difamada? O Estado?
Leiam os blogs do João Lemes: http://jlemes.blogspot.com/ e do Márcio Brasil: http://marciobrasil7.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PENSADORES DO NOSSO TEMPO

JAMES LOVELOCK
A Terra é um ser vivo. Contrariamente à idéia concebida há séculos, são os seres vivos que produzem a atmosfera e não o inverso. Não é o meio ambiente que teria possibilitado a aparição e o desenvolvimento da vida; são os seres vivos que secretam os gases que lhes permitem perpetuar-se. A biosfera tem a capacidade de controlar seu meio ambiente natural, químico e físico. Para conhecer melhor Lovelock: As eras de Gaia.
oo
CARL SAGAN


O Big Bang é uma evidência. Não é uma teoria, entre outras, sobre a criação do Universo; constitui a única teoria, antes só existiam hipóteses metafísicas. Muito provavelmente, estima Sagan, o Universo tem uma história de alternâncias entre expansões e contrações, uma história cíclica. Há duas provas: 1) o Universo se expande, as estrelas afastam-se umas das outras, o que infere um ponto de partida comum entre elas; 2) o físico Arno Penzias registrou, em 1962, ondas radiantes nascidas do "ruído" do Big Bang. Para conhecer Sagan: Cosmos e O mundo assombrado pelos demônios.
oo
STEPHEN JAY GOULD

A evolução é uma ciência exata, não uma teoria. Darwin, afirma Gould, é o único dos grandes cientistas do século XIX que não foi varrido pelos progressos científicos do século XX. Cada espécie nova é selecionada unicamente por sua capacidade de adaptação, e de maneira alguma porque é "boa" ou "superior". A evolução darwiniana não tem finalidade moral. A idéia do homem no topo da cadeia evolutiva é absurda, não tem nada a ver com os mecanismos do mundo natural. Para conhecer Gould: O polegar do panda e O sorriso do flamingo.

oo

DESMOND MORRIS

O "homo sapiens" continua sendo um animal. Na sua vida social, na sua vida sexual, nos seus hábitos alimentares, nas suas crenças religiosas, o homem ainda segue as regras estabelecidas há milênios pelos macacos caçadores, dos quais é uma variedade singularmente vitoriosa na sua luta pela sobrevivência. Trata-se de um animal com enormes qualidades vocais, agudo sentido de exploração e grande tendência a procriar. Ele orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre os primatas, mas tenta esconder que tem igualmente o maior pênis. Para conhecer Morris: O macaco nu.

ALDOUS HUXLEY

A guerra é um fenômeno puramente humano. Os animais inferiores lutam em duelo no auge da excitação sexual, matam para comer e, ocasionalmente, por outro motivo. Alguns insetos gregários saem em formação, para atacar membros de outras espécies. O homem é o único que organiza o massacre de seus semelhantes. A guerra atua como negação evolutiva, eliminando os jovens e fortes, poupando os fracos e enfermos. Todos os caminhos em busca de uma sociedade melhor são bloqueados, mais cedo ou mais tarde, pela guerra, ameaças de guerra, preparativos para a guerra. Para conhecer Huxley: O despertar do mundo novo e A situação humana.
O
O
ISAIAH BERLIN

As idéias falsas governam a História. As ideologias transformam os homens em vítimas ou em escravos para o bem das gerações futuras. Embora falsas, elas não obedecem a nenhuma necessidade histórica, só exprimem as preocupações de determinados indivíduos. Marx e Disraeli, nesse sentido, são exemplares. Ambos são judeus, mas se recusam a sê-lo; inventam para si famílias, raízes de substituição. Para Marx, será o Proletariado; para Disraeli, a Aristocracia. As ideologias fazem o papel da reflexão para as massas sem cultura. Todo sistema é uma prisão, inclusive o liberalismo. Para conhecer Isaiah Berlin: Limites da utopia.o

J. KRISHNAMURTI

Que é religião? Em regra, consideramos como religião uma série de doutrinas, tradições, o que diz o Upanishads, o Gita, a Bíblia. O que chamamos religião é a oração, ritual, dogma, desejo de encontrar Deus, aceitação da autoridade e de um vasto número de superstições, não é exato? Embora professem o amor, a fraternidade etc., toda religião está de fato separando o homem do homem. Vós sois sikhi e eu hinduísta, sois muçulmanos e eu cristão, aquele católico e aquele outro protestante. O verdadeiro espírito religioso advém da completa libertação de todas as religiões. Para conhecer Krishnamurti: A mutação interior, A educação e o significado da vida, Liberte-se do passado...

oo

THOMAS SZASZ

Os criminosos são mais inteligentes que nós. Eles não são mais executados, são tratados. Por que se procura a doença mental por trás de cada crime? Seria por humanidade? Exatamente o contrário! - responde Szasz. Se reconhecemos que um homem é capaz de cometer um crime hediondo, calculado, depravado, é que a natureza humana pode perfeitamente ser má. Ora, tudo o que desejamos é que a natureza humana seja boa. Não queremos admitir que o livre-arbítrio possa conduzir ao crime. Logo, o crime não deve ser o resultado do livre-arbítrio, mas da doença mental. Até o século XVIII, o mal era interpretado como uma possessão do Diabo. Hoje o mal é necessariamente o signo de uma desordem genética e química. Na realidade, a maioria dos criminosos é normal, e mesmo bastante inteligente para executar crimes extremamente complexos. Para conhecer Szasz: O mito da doença mental.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

CANTARES


lençóis tecidos
oooooooode sonho
protegem
oooode madrugada
o trigo que
ooooooiamadurece
no ventre
oooifértil da amada

00

meus dedos
ooooo(vento macio)
desenham
ooooiondas na flava
lavoura destes
oooooooooicantares
onde é vazia
oooooooooa palavra
oo

terça-feira, 30 de setembro de 2008

CONTRADIÇÃO

Num momento, o cara comete o despautério de dizer que "odeia" a crítica. Em seguida, critica um poema do meu livro Ponteiros de palavra. Segundo ele, falta sentimento. Sua contradição é digna de pena, uma vez que tenta esconder sua ignorância com um truísmo romântico. O "ódio" (muito comum no discurso adolescente) que diz sentir pela crítica literária denuncia um argumento do tipo uvas verdes.

pele


se pele

apelo

se há
pêlo
apele

se a pele
apela
pélo

se pêlo
em pé
apelo

a pele
em apelo
péla(-se)

linguagem

toda semiose
é palavra

(menos nota
musical)

o polegar
“positivo”

os dois traçinhos
“é igual”

não há sentir
sem razão

todo processo
é mental

faina

a lavoura
(linguagem)
se capina
com enxada
incansável

a terra limpa
envolve
a haste frágil
da palavra

final de eito
se ergue
a planta
(poema)

tenro fruto
amadur
ooooooe
oooooocendo
nas manhãs
de outubro

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A COBRA E O VAGA-LUME


Era uma vez uma cobra que passou a perseguir um vaga-lume. Ele fugia rapidamente, e a cobra nem pensava em desistir. Fugiu um dia, e ela não desistia; dois dias e nada... No terceiro dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra:
- Posso te fazer três perguntas?
- Não costumo abrir esse precedente para ninguém, mas já que vou te comer mesmo, podes perguntar...
- Pertenço a tua cadeia alimentar?
- Não.
- Te fiz alguma coisa?
- Não.
- Então, por que queres me comer?
- Porque não suporto te ver brilhar...

ooooo
Certo palestrate contou essa fábula para ilustrar a inveja que há entre pessoas de uma comunidade. O desejo mais inconfessável do invejoso é o de devorar o outro, mas, na impossibilidade dessa antropofagia, vomita sobre ele todo o veneno.

TEMPO DE ESCOLHA


Domingo, os santiaguenses escolheremos o futuro prefeito, funcionário público que administrará a prefeitura pelos próximos quatro anos. A propósito, por que ninguém o considera funcionário público? Todo endeusamento, independentemente do cargo ou função do endeusado, demonstra mediocridade ou intenção de benesses. Antes da eleição, os candidatos são cidadãos do povo (como eu, você e todos os que personificam a cidadania). O Sr. José Francisco Gorski, com o exemplo pessoal, prestou um grande serviço civilizador, desmistificando o culto à autoridade. Prefeito por oito anos, nunca deixou de ser o Chicão. Quem o substituir, certamente, deverá ser virtuoso nesse aspecto também. Se a conjuntura não permitir a exeqüibilidade das promessas de campanha, o novo prefeito precisa dar conhecimento disso. No calor do debate, ainda como candidato, permitimos-lhe exageros e incongruências, como prometer mudanças estruturais que transcendem o âmbito municipal. A partir de 1º de janeiro de 2009, todavia, honestidade, transparência e pés no chão. A última exigência, pés no chão, infere um caminho, uma estrada (no sentido não-figurado). Num município predominantemente agropastoril, a manutenção das vias constitui item obrigatório. Os munícipes necessitamos de estradas trafegáveis, sem os buracos do descaso. A atual administração, diga-se de passagem, fez o melhor trabalho nos últimos 40 anos. Dessa forma, esperamos que o próximo prefeito seja feliz na escolha de seus secretários. Delegados por ele, esses funcionários são agentes indispensáveis entre o projeto e a execução das obras. Para as requerermos, na condição de cidadãos beneficiados por esse direito, devemos pensar muito bem na escolha de domingo.

MACHADO DE ASSIS


Há exatamente cem anos, falecia no Rio de Janeiro JOSÉ MARIA MACHADO DE ASSIS. Romancista, contista, poeta, teatrólogo e crítico literário, Machado de Assis é um dos maiores escritores brasileiros. Sua carreira literária se divide em duas fases: a romântica e a realista. Memória póstumas de Brás Cubas é o romance machadiano que marca o início do realismo e o amadurecimento da nossa literatura. Do ano de da publicação de Memória (1881) em diante, Machado não se permitiu mais o sentimentalismo amoroso. REPITO: Machado de Assis foi grande como um escritor perfeccionista, profundo conhecedor da técnica narrativa, criador de personagens com densidade psicológica.

domingo, 28 de setembro de 2008

O OVO DE GALINHA

I
Ao olho mostra a integridade

de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II
O ovo revela o acabamento

a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III
A presença de qualquer ovo,

até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV
Na manipulação de um ovo

um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspecta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.
oo
(Poema de João Cabral, citado na matéria da revista Língua Portuguesa.)

A GEOMETRIA DE UMA LINHA SÓ

Como fazer uma imagem em síntese de alguém que já é a própria figura do essencial? Uma linha só? Não dá para ser com menos traços? O verso de João Cabral de Melo Neto é, para usar imagem sua, simples como o sol de um comprimido de aspirina. É enxuto, mas potente, e inteiriço como um ovo, o substantivo que ele talhou a "mil inacabáveis lixas", no desconcertante poema O ovo de galinha.
Morte e Vida Severina, seu poema mais famoso, é auto de Natal criado sob encomenda em 1956. Só dez anos depois, com música de Chico Buarque, o texto seria encenado e viraria, literalmente, uma "peça" de resistência.
Mas Cabral militava mesmo era contra sentimentalismos. Dizia não gostar de música. Rigoroso engenheiro da palavra, negava geometricamente a criação pelo descontrole, pela paixão: queria a poesia pelo método, exata. Sua proeza foi ser, como se tentou traduzir na figura acima, ao mesmo tempo visceral e de pedra.
(Matéria de Marcílio Godoi, publicada na revista Língua Portuguesa de setembro de 2008.)

sábado, 27 de setembro de 2008

NÃO TENHO RAZÃO?

A grande piada (de mau gosto, diga-se de passagem) começou a ser escrita em 1998, com a elaboração do Protocolo de Kyoto, Japão. Em síntese, o documento propunha reduzir em 5% a emissão de dióxido de carbono até 2012. O potencial cômico se institui com essa percentagem insignificante. Grosso modo, equivale a pedir para o suicida que diminua em 5% a concentração do veneno já levado à boca. Engraçado, não é mesmo! O riso continua com a não adesão dos Estados Unidos ao tal protocolo. Para os países desenvolvidos e em acelerado desenvolvimento, o pouco 5% é muito. Ainda que a redução imediata fosse de 95% (isso só será possível com a escassez dos combustíveis fósseis ou com a agonia da espécie humana), os homens continuariam a poluir, transformando a atmosfera numa imensa lixeira. Kyoto estipulava 5%, não 95%. Todos sabemos que muitos países, entre os quais a China e a Índia, desenvolvem-se num ritmo que causa admiração ao mundo capitalista. A queima de carvão já propicia um ar quase irrespirável em Pequim. O consumo de petróleo quintuplica(rá) com as indústrias (que substituem a economia agrária) e com a frota crescente de automóveis. Em 2020, a China poluirá tanto quanto os EUA. Nenhum discurso será capaz de frear esse (pseudo)desenvolvimento. Nenhum acordo. Nada. Em Santiago, para citar um exemplo caseiro, o número de automóveis aumentou significativamente nos últimos anos. Nenhum dos nossos “ecologistas” anda a pé. Engraçado, não é mesmo!
oo
Repito a postagem feita em 7 de julho de 2008, texto publicado na coluna do Expresso Ilustrado no dia 11 de julho. Essa republicação se justifica a partir de uma notícia que li hoje na Folha on de que houve um aumento de 3% na emissão de CO2.

FLAGRANTE DE UMA PAIXÃO


Fernanda alisa seu cabelo em frente ao espelho. Sentada na cama, demora-se longos minutos a movimentar a escova de cima para baixo, imaginando como seria a mãe que ela não conhece.
O pai a observa, afastado da porta, querendo adivinhar os pensamentos da filha.
“Cada vez mais elas se parecem.”
Não esconde uma paixão antiga, fixada desde o dia em que, numa declaração de rebeldia, cortou a franja bem cuidada da irmãzinha.
Quarenta anos depois, destaca o que um grande pensador:
Quando penso em mulheres, começo por imaginar a sua cabeleira. A minha principal idéia de feminino é uma tempestade de cabelo – cabelo preto, ruivo, castanho, dourado.
“Cada vez mais elas se parecem.”
Avança alguns passos, até ser percebido:
– Teu cabelo seria mais bonito se me deixasses tocá-lo.
Não é só o cabelo castanho que lembra a mãe. Os olhos de mel.
Fernanda guarda um segredo a sete chaves. Sabe o que os irmãos ignoram: ela é filha de outra mulher. Certo dia, o pai contou-lhe a verdade num banco do parque. Na volta, deu-lhe algumas cartas para guardar muito bem.
A mãe encontrou essa prova no roupeiro da enteada. Sempre respeitou o marido, aceitando que ele trouxesse para dentro de casa o fruto de uma relação espúria. No entanto, alimenta um ciúme que anda no limite de seu controle.
A menina adquiriu corpo e deixou crescer o cabelo.
“Cada vez mais elas se parecem.”
O outro repete a frase, lembrando a situação que colocou em risco o próprio casamento. Há catorze anos, uma criança foi deixada no berçário do hospital para ser entregue a ele. A mulher chegou a pedir a separação, mas voltou atrás. Desde então, Fernanda é a única pessoa da casa capaz de doçura.
Por isso, adentra-se no quarto da filha, toma sua escova da mão e repete o movimento de cima para baixo.
– Cada vez mais te pareces com ela.
Na porta, a mulher ouve esse comentário e fuzila os dois com um olhar cheio de veneno.

(Em 2003, escrevi esse começo de um conto)