domingo, 4 de novembro de 2012

AS ÁRVORES NA BR

Transcrevo abaixo o publicado na última edição do Expresso Ilustrado, produzido por Oraides Floriano Maciel para a coluna DO LEITOR:
"Sou filha de um ex-funcionário do Daer, o qual tinha muito orgulho de levantar cedo e, acompanhado de seus colegas, ir plantar as tais árvores na BR 287. Ele dizia, com orgulho, que o trajeto de Santiago a Jaguari ficaria lindo. Onde meu pai estiver, deve estar triste (como eu estou), de quererem destruir o que eles plantaram com amor. Que culpa as árvores têm se uma pessoa apressada entra no carro, pisa no acelerador e não mede as consequências?
"Dia desses, viajei com meu marido e não íamos mais do que 90 km, apreciando a paisagem. Enquanto que os apressados buzinavam, xingavam para sairmos da frente. Presenciei várias ultrapassagens perigosíssimas nas curvas. Agora, digam, quem é o culpado? Se cortar as árvores vão culpar o que pelos acidentes: os buracos ou os penhascos? Não seria melhor que os motoristas se tornassem conscientes?".
Este blogueiro poderia encerrar a postagem com o chavão mais eloquente do discurso: sem comentário. Mas uma das perguntas feitas por Oraides me provoca: "Não seria melhor que os motoristas se tornassem conscientes?".
Ano passado falei num seminário de trânsito da URI, no  qual tentei responder essa pergunta. A volúpia da velocidade, a raiva (são duas coisas citadas acima) e tantas outras paixões têm origem naquilo que Freud denominou em 1915 de "pulsões do Eu". A consciência é algo muito frágil, recente, incompleto. O que me leva a escrever, por exemplo, no fundo, é estímulo pulsional. No motorista que corre, idem.
Há uma placa de velocidade máxima permitida, o indivíduo a vê, é consciente do que ela significa, sabe tratar-se de uma lei que necessita obedecer (moral), sabe que se deslocando à velocidade determinada estará seguro (ética), assim mesmo ultrapassa a velocidade máxima permitida. Por quê?  

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CRÍTICA AO CATOLICISMO

Fui batizado, crismado, casado como católico. Com a Filosofia, a Psicanálise, a História Natural (especialmente a evolução), converti-me ao ateísmo. 
A única religião que conheço profundamente é a católica, por isso posso me referir a ela sem receio de cometer equívoco.
Há algo no catolicismo que não suporto: sua fácil propensão ao misticismo. A Igreja Católica, como organização religiosa, adequou-se a muitas crenças e ritos pagãos com o fito de conquistar novos seguidores (como os africanos escravizados). Isso é doutrina.
Os evangélicos não pecam por essa promiscuidade, que atenta contra o espírito cristão. Há uma coerência em seguir somente a Cristo. Há uma ética cristã (que é aviltada por alguns pastores hipócritas). 
Os católicos são frouxos, deixam-se levar por qualquer superstição, santificam até assassinos (como é o caso do Russo). Acreditam mais facilmente nos santos que no próprio Cristo. 
Não tenho dúvida de que a religião a que pertenci está com os séculos contados. 

DIA DE FINADOS

os mortos
acontecem
toda hora,
a memória
dos vivos,
no entanto, reserva-lhes
uma fragrância de flores
murchas, velas acesas,
um ponto no calendário,
uma triste
lembrança
embaçada
pelo tempo,
um retrato
esmaecido
na parede,
pouco mais
e o olvido

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

ANADIPLOSE


o mundo nasceu
nasceu de um pequeno
soluço de deus

MURO ENTRE RICOS E POBRES

Fernando Haddad, eleito à prefeitura de São Paulo, promete derribar o muro que separa ricos e pobres. Como ele fará isso? Com uma revolução do tipo da efetivada pelo soviete supremo na Rússia? Todo assistencialismo não será suficiente para abrir uma fenda estreita nesse muro haddadiano. Entre ricos e pobres, encontra-se a maioria dos brasileiros, chamada de classe média. Se ela não é o muro a ser derrubado, certamente cairá sobre si os escombros da futura proeza de Haddad. A propósito, consegue o prefeito de um município provocar transformação de tamanho alcance político? Não (re)fundaria ele uma nova Cidade-Estado? Sua gestão de apenas quatro anos, o que é certo, não poderá se caracterizar pela incompetência já provada à frente do Ministério da Educação. Os paulistanos se decepcionariam amargamente com a opção que fizeram de última hora. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

MANCHETE POÉTICA


Sandy ensandeceu Tio Sam.

(Ainda que Drummond recomendasse:
"Não faças versos sobre acontecimentos".)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

INDIRETAMENTE...


"Os figos caem das árvores, são bons e doces: ao caírem rasga-se-lhe a pele rosada. Sou para os figos maduros o vento Norte."
Assim falava Zaratustra - Nietzsche

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FACA DE DOIS GUMES

Entre o desenvolvimentismo e a preservação ambiental, o discurso politicamente correto é o do "desenvolvimento sustentável".
Sem o progresso econômico e social, como escreve Roberto Amaral, "nada conseguiremos, a começar pela conservação do planeta".
O futuro é campo oportuno para as hipóteses. As provas que sustentam a realidade estão à disposição no presente. 
O meio ambiente hoje encontra-se mais degradado que ontem? Há mais desenvolvimento hoje que ontem?
Se a resposta é sim, então, estamos mal. 
Desenvolvimento sustentável não passa de uma idealização.
.
Roberto Amaral foi ministro da Ciência e Tecnologia do governo Luís Inácio Lula da Silva, de janeiro de 2003 a janeiro de 2004. Foi o primeiro ministro a pedir demissão. Por que será?

domingo, 28 de outubro de 2012

BARRAGEM CHEIA

Numa hora destas, a nossa barragem deve estar derramando-se pelo vertedouro. Depois de um longo e angustioso inverno, a primavera volta a florir para os santiaguenses, especialmente para meu amigo Rubem Lima, gerente da Corsan local. (Ontem passou um filme futurista no canal Discovery. O mundo havia desabado em 2027. Uma das normas impostas à população era de economizar água - substância natural de que depende a sobrevivência humana.) Pergunto se alguém visitará a barragem agora, no próximo fim de semana com sol. Certamente, não haverá filas de carro até a rodovia. Afinal, a barragem cheia coincide com a ideia que fazemos dela. Tudo volta ao normal. O filósofo, todavia, pergunta por que as pessoas corriam para ver a barragem seca(ndo). Uma das respostas possíveis a essa questão não revela uma tendência, uma queda pela desgraça? Não seríamos catastrofistas, quando assistimos a um filme catastrofista, quando vemos os noticiários na tv, quando lemos jornais, quando acessamos os blogues que postam sobre crimes e acidentes?  Somos assim, e a mídia apenas se aproveita dessa nossa fraqueza, embora assumindo a culpa de ser mensageira enxerida, inconveniente? Apesar de provocar esse questionamento, de ter já descoberto o inconsciente (com Freud), ainda sou semelhante a todos que sofrem. No pior momento da crise, quando o nível da barragem esteve mais baixo, passei a escrever sobre o caos que representaria a falta de água em Santiago. Ao mesmo tempo em que expurgava minha angústia, apelava para o bom senso, para a solidariedade das pessoas. A seca chegou ao fim. Choveu, choveu. A barragem está cheia, situação que não justifica qualquer desperdício da água disponível para consumo. Penso que este ocorrerá de forma mais responsável. 

sábado, 27 de outubro de 2012

EVOLUÇÃO CULTURAL


Na falta de outra definição para meu sentimento em relação à Feira do Livro de Santiago, reconheço-o como orgulho simplesmente.
Luiz Coronel foi uma das melhores escolhas dos organizadores da nossa feira, no que se refere à presença de uma personalidade com destaque estadual/ nacional. O poeta veio a Santiago em 2008 e, em 2012, é patrono da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre. 
Essa antecipação de 4 anos, guardadas as proporções, demonstra que a Terra dos Poetas estava certa em trazer Luiz Coronel.
Orgulho-me da evolução cultural por que passa nossa cidade.  
   

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

INTERESSEIRA E IGNORANTE

No âmago de uma sociedade absurdamente consumista, as relações entre os indivíduos são sustentadas por valores materiais. Toda afetividade é coisificada, totemizada na forma de um objeto em alta no mercado.
Há poucos dias, uma senhora procurou a Seção de Inativos e Pensionistas de uma determinada Organização Militar, para fazer uma reclamação. Era pensionista e procurou a SIP para reclamar que a medalha de ouro de seu marido, falecido no mês passado, não de ouro exatamente. 
A medalha de ouro é concedida a todo militar que completa 30 anos de efetivo serviços prestados à Força, ao longo dos quais manteve comportamento exemplar. A concessão dessa honraria é chancelada pelo Secretário-Geral do Exército. 
Após a morte de quem mereceu a medalha como símbolo de um valor afetivo, a digníssima esposa correu para ser desfazer dele, pensando no valor material. Não contente com a descoberta de que a medalha era feita de metais baratos, teve a petulância de reclamar no quartel. 
Interesseira e ignorante.

A FALÁCIA OPOSICIONISTA


         A oposição em nosso município, para justificar sua derrota nas urnas, acaba de produzir uma falácia que repercute na grande mídia: “uma dinastia governa Santiago há 120 anos”. "Dinastia"? 120 anos?
         A classificação desse enunciado como falacioso superestima um equívoco semântico, impossível de se constituir numa hipérbole (figura de linguagem muito utilizada no meio político). A palavra dinastia significa uma série de soberanos pertencentes a uma mesma família.
         O sujeito do enunciado acima exagera ao ampliar polissemicamente o termo família para partido, classe, ou coisa que o valha. Ao invés de “dinastia”, empregasse “oligarquia”, ainda não haveria correspondência com a verdade.
         A história de Santiago, mais que essa tergiversação metalingüística, acusa a falácia desse sujeito desmemoriado ou sem leitura (não necessariamente nessa ordem). Antes de citar Rubem Lang e Vulmar Leite, que interromperam o governo do mesmo grupo político, este contraponto remonta à conturbada eleição de 1935/36, quando foi assassinado o juiz Moysés Vianna.
         Nesse pleito histórico, Sylvio Aquino concorria a prefeito pela Frente Única Gaúcha, uma coligação entre o Partido Libertador e dissidência do Partido Republicano. Seu adversário, José Ernesto Muller, candidatava-se a eleição (até então era prefeito nomeado pelo Partido Republicano. O poder administrativo do município, portanto, encontrava-se nas mãos de Muller, cujos correligionários tudo fizeram para impugnar a votação em Florida, com o intuito de evitar a virada em favor de Sylvio Aquino. Com a intervenção de Moysés Vianna, a democracia foi salva.
         O Partido Libertador, que apoiou Sylvio Aquino, contribuiu para a formação da União Democrática Nacional (UDN), em 1945, partido conservador que faria oposição a Getúlio Vargas. O grosso desse partido, em 1965, compôs a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), origem política do Partido Progressista (PP).
         José Ernesto Muller, de acordo com o exposto nos parágrafos anteriores, não era “dinástico”. Por que não se elegeu? A pergunta é válida para os partidos de oposição que assumiram a Prefeitura noutras oportunidades e tornaram a perdê-la democraticamente na eleição seguinte.
         ...
         O equívoco é também matemático.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O GOSTO PELA CONTEMPLAÇÃO


"O poder interior do homem pode-se comparar ao de um rio que, impedido por um dique, forme uma bacia artificial dando assim origem a uma fonte de energia. Mas há séculos que este dique tem uma falha, a bacia está quase vazia, a energia pouco menos que gasta e todas as regiões em volta estão na escuridão. Deve-se, portanto, reforçar o dique e permitir que o nível da água suba. Por outras palavras, para encontrar uma ideia de homem, isto é, uma fonte de  verdadeira energia, necessita-se que os homens reencontrem o gosto pela contemplação. A contemplação é o dique que alimenta de água a bacia. Ela permite aos homens acumular de novo a energia de que a ação os privou."
(Excerto do livro O homem como fim, de Alberto Moravia.)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

MENSALÃO

O MENSALÃO EXISTIU. José Dirceu o coordenava da Casa Civil no palácio do Planalto.
Eis o fato, eis a verdade agora desvelada (em parte). 
A sociedade brasileira continuará na dúvida: Lula sabia ou não sabia.
Certos petistas, depois de acusarem a imprensa de golpista, passam a atacar os juízes do Supremo Tribunal Federal.
Tudo isso precisa ser repercutido nos maiores meios de comunicação do mundo.
A maioria dos brasileiros logo perdoa (ou esquece) seus políticos mentirosos, corruptos, quadrilheiros. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

NÃO TENHO RAZÃO?

Dia 1º de outubro, postei aqui excerto do voto de Celso de Mello, como o que de melhor se produzira discursivamente contra o Mensalão. 
Ontem, Paulo Brossard  encerra seu artigo de opinião no Zero Hora com a citação, ipsis litteris, do discurso daquele decano do Supremo Tribunal Federal.
Transcrevo abaixo o excerto citado pelo grande jurista:
"... este processo criminal revela a face sombria daqueles que, no controle do aparelho do Estado, transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degredado a uma função de mera satisfação instrumental de interesses governamentais e de desígnios pessoais".
Achei essas palavras de Celso de Mello politicamente eufemísticas. Por isso, preferi citar outras mais contundentes.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

JG, PT, PV

Meu amigo Juarez Gireli deixa o Partido dos Trabalhadores e ajuda a organizar o Partido Verde em Santiago. 
O enunciado acima reúne dois dados que merecem destaque, ainda que possam suscitar o menosprezo daqueles que foram responsáveis  pelo novo fato social.
As queixas de JG precediam a última eleição, cujos resultados eram previsíveis. Mesmo assim, ele concorreu à Câmara, fiel às bandeiras que o partido empunhava nos anos oitenta. Tempos bons de militância!
Para alcançar o poder e mantê-lo sob sua sigla em âmbito nacional, o PT rasgou essas bandeiras, fez coligações espúrias e criou o mensalão (não necessariamente nessa ordem).
O declínio da organização partidária, todavia, não demora a ser evidente. Em Santiago, prova-o a chegada do Partido Verde, com perspectivas de um belo futuro, dependendo da resolução de algumas questões de ética.
Parabéns aos jovens organizadores do PV, especialmente ao Vanderlei de Almeida (meu colega de Filosofia). 

domingo, 21 de outubro de 2012

FEIRA DO LIVRO


Hoje se encerra a 14ª Feira do Livro de Santiago. Nas quatro vezes em fui visitá-la na Estação do Conhecimento, pude constatar a presença do público, nada que justificasse uma solução de continuidade pela mudança de local. O ponto forte desta edição é oferta de livros, especialmente de um gênero voltado para as novas gerações de leitores (como o prova o da ilustração acima, que agora compõe minha estante). Espero que tenha sido grande a procura. Uma impressão talvez equivocada é de que os visitantes passam, olham e não compram nada. Não bastasse o hábito de leitura ainda pouco desenvolvido, o dinheiro anda contado no bolso, para o qual o preço do livro continua muito alto. Penso que a Internet, ao contrário do que se diz por aí, está auxiliando no desenvolvimento da leitura, fazendo mais e mais leitores de livro impresso. 
Deve ser destacado da 14ª  Feira do Livro seu aspecto mais contencioso, não dando aos adversários da cultura em Santiago motivo para críticas.  

CAIO AZUL


"Ele já está meio azulado de tão próximo, 
não se vê mais as estrelas, nem a lua, nem o sol. 
A escuridão em que passamos o dia todo 
é meio azulada também"
O ovo - Caio Fernando Abreu

(Parabéns ao André Vieira, artista plástico que criou os novos monumentos da Rua dos Poetas.) 

sábado, 20 de outubro de 2012

IMAGENS DA RUA DOS POETAS

Monumento aos Três Poderes


Homenagem ao Caio Fernando Abreu


A pena - uma metáfora possível


Osvaldo Siqueira 

Impressões do Oracy Dornelles 
Calçada da Fama

Capa do livro Ruadospoetas
Antologia III


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A FILOSOFIA NÃO É APENAS UM EMPREENDIMENTO ESCRITO


"HENRY ODERA ORUKA nasceu no Quênia, em 1944, e se interessou por metafilosofia, ou filosofar sobre filosofia. Em sua obra Sage philosophya (Filosofia sábia, 1994), examinou por que a filosofia na África subsaariana muitas vezes foi esquecida e conclui que é porque se trata de uma tradição primordialmente oral, enquanto os filósofos em geral tendem a trabalhar com textos escritos. Algumas pessoas alegam que a filosofia está conectada com registros escritos, do que Oruka discordava. A fim de explorar a filosofia dentro das tradições orais da África, Oruka propôs uma abordagem que chamou de 'sagacidade filosófica'. Tomou emprestada a abordagem etnográfica da antropologia, em que as pessoas são observadas em seus ambientes cotidianos, com seus pensamentos e ações registrados no contexto. Oruka viajou para vilas e registrou conversas com pessoas consideradas sábias pela comunidade local. Seu objetivo era descobrir se elas tinham uma visão sistemática que sustentasse suas perspectivas. Aqueles sábios que haviam examinado de maneira crítica suas ideias sobre temas filosóficos tradicionais, como Deus ou liberdade e encontrado uma base racional para elas, podiam, acreditava Oruka, ser considerados sábios filosóficos."
(Texto extraído de O livro da Filosofia - As grandes ideias de todos os tempos.)