sábado, 10 de novembro de 2007
ZERO HORA DE DOMINGO
O Zero Hora de amanhá já chegou. A primeira coisa que faço ao apanhar o jornal é jogar fora o ZHClassificados, guardando os cadernos TV+Show e Donna. A segunda coisa (como enumera o Presidente Lula): abro nos editoriais e artigos, páginas 20, 21 e 22. No editorial Virtudes e desvios do ENADE, destaca-se como ponto positivo a avaliação das instituições de ensino universitário, possibilitando novos projetos de "melhoria geram ou de correção de rumos". Como ponto negativo, surge a monetarização do exame, com algumas faculdades oferecendo prêmios de R$ 300 a R$ 600 para os alunos que participarem da prova. No outro editorial, O bandido aplaudido, o tema versa sobre os aplausos de moradores da Vila Areia ao traficante que matou um policial e baleou outros dois. A conclusão do texto é a seguinte: "Os aplausos aos bandidos devem ser vistos não como aprovação dos crimes que eles cometem, mas como um apelo desesperado ao poder público para que se faça presente com seus serviços essenciais". No artigo Os meios e os fins, o jornalista e escritor Flávio Tavares disserta sobre o lucro de 13 bilhões que os dois maiores bancos privados do país já lucraram este ano. Percival Puggina, em Montesquieu de bombachas, escreve sobre os conflitos entre os poderes no Rio Grande do Sul. Marcos Rolim, em Infiel, tece elogios ao livro de mesmo nome, que conta a história de Ayaan Hirsi, filha de muçulmanos na Somália que, aos cinco anos, sofre a clitorectomia, procedimento de mutilação das meninas realizado em nome do Islã. Rolim confessa que poucas vezes leu algo tão arrebatador, tão radical. A autora do livro é Ayaan Hirsi Ali.
ORIGEM DO CONTO DO VIGÁRIO
Afinal, qual é o verdadeiro conto do vigário?
São várias as versões da origem do termo "cair no conto do vigário". O que todas guardam em comum é que tem como tema principal um golpe de esperteza e um vigário. Uma das histórias mais conhecidas, e defendida pela pesquisadora Denise Lotufo, teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII. De acordo com Denise, tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem. O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.
São várias as versões da origem do termo "cair no conto do vigário". O que todas guardam em comum é que tem como tema principal um golpe de esperteza e um vigário. Uma das histórias mais conhecidas, e defendida pela pesquisadora Denise Lotufo, teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII. De acordo com Denise, tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem. O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.
DIA DO TRIGO
A monocultura que predominava na década de sessenta era o trigo. No Rincão dos Machado, todos sobreviviam economicamente com o gadinho e a planta. A paisagem ganhava uma tonalidade amarelada, que contrastava com o verde dos campos e matas. Gostava de ver os belos trigais amadurecendo sob o céu azul, movimentados como ondas de luz ao vento suave das manhãs de outubro e novembro. Essas cores e ritmos alimentavam meu espírito contemplativo, que desenvolveria uma inclinação apaixonada pela expressão pictórica e poética. Antes de vir para a cidade, com um pouco de tristeza, testemunhei a substituição do trigo pela soja. Nunca mais os campos cultivados foram os mesmos, os quais passaram a produzir mais dinheiro e menos beleza.
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
SEMINÁRIO DA UNOPAR
Fui convidado para a abertura do II Seminário Semestral de Educação e Letras da UNOPAR e marquei presença no auditório do Colégio Medianeira, ontem, às 18:40 horas. A palestra foi ministrada por um professor do Paraná, Fernando Barroso Zanluchi: A importância social do professor. Hoje à tarde, Lígia Rosso, minha colega no Pós, falaria sobre MotivAção - tornando melhor o nosso caminho na arte de educar.
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
CALÇADO NÃO PAGA
A notícia mais comentada pelos nossos blogueiros é a de que Santiago Calçados não paga seus funcionários em dia. A priori, tenho uma dúvida: os proprietários (empregadores) da fábrica são velhacos ou o setor da produção calçadista encontra-se em crise? As duas coisas não podem ocorrer concomitantemente, uma vez que há pouco tempo tal não ocorria. Com isso não estou insinuando que a causa do problema esteja na China. O efeito borboleta também se verifica na economia e na ética. Da teoria do caos para os calos (nas mãos de quem trabalha de graça).
O CAMINHO DO MEIO
(Texto que sairá amanhã no Expresso Ilustrado)
Alguns leitores desta coluna, conhecidos meus, reclamam que escrevo difícil, usando palavras que exigiriam uma consulta ao dicionário. Suas críticas amigáveis são relevantes para que eu evolua desde o primeiro texto editado neste espaço (12 dez 2003). Elas me forçam a buscar o caminho do meio, entre o popular e o culto. Na condição de um estudioso das linguagens, entre as quais a língua portuguesa, preciso me adequar ao seu principal fundamento: a interação comunicativa. Não é fácil, uma vez que há pessoas recém-alfabetizadas e doutores entre meus leitores. Pergunto-me se Carlos Humberto Aquino Frota, colunista do A Razão nos meados do século passado, tinha esta preocupação de ser compreendido. Penso que ele escrevia para um leitor do meio jornalístico, político, universitário etc. Só uma elite intelectual dispunha do conhecimento de mundo e do mundo de conhecimento (leitura) para compreendê-lo em toda a pujança estilística que o fez um escritor e tanto. Na sua época, outros escreviam coloquialmente para um público maior. Para se saber o nome deles, basta uma pesquisa nos arquivos do jornal. Não estou sendo irônico, insinuando que só a glória me interessa. Outra vez, reporto-me ao caminho do meio (tema recorrente no discurso da minha colega e amiga Lígia Rosso). Ao mesmo tempo em que elimino algo inerente à própria morte com a escrita (conforme Jean Cocteau), não posso me afastar do momento presente, como muitos fazem se refugiando numa “torre de marfim”. Neste âmbito é que vivo, entre pessoas que quero bem, leitores ou não. Antes de ser um escritor, sou um homem.
Alguns leitores desta coluna, conhecidos meus, reclamam que escrevo difícil, usando palavras que exigiriam uma consulta ao dicionário. Suas críticas amigáveis são relevantes para que eu evolua desde o primeiro texto editado neste espaço (12 dez 2003). Elas me forçam a buscar o caminho do meio, entre o popular e o culto. Na condição de um estudioso das linguagens, entre as quais a língua portuguesa, preciso me adequar ao seu principal fundamento: a interação comunicativa. Não é fácil, uma vez que há pessoas recém-alfabetizadas e doutores entre meus leitores. Pergunto-me se Carlos Humberto Aquino Frota, colunista do A Razão nos meados do século passado, tinha esta preocupação de ser compreendido. Penso que ele escrevia para um leitor do meio jornalístico, político, universitário etc. Só uma elite intelectual dispunha do conhecimento de mundo e do mundo de conhecimento (leitura) para compreendê-lo em toda a pujança estilística que o fez um escritor e tanto. Na sua época, outros escreviam coloquialmente para um público maior. Para se saber o nome deles, basta uma pesquisa nos arquivos do jornal. Não estou sendo irônico, insinuando que só a glória me interessa. Outra vez, reporto-me ao caminho do meio (tema recorrente no discurso da minha colega e amiga Lígia Rosso). Ao mesmo tempo em que elimino algo inerente à própria morte com a escrita (conforme Jean Cocteau), não posso me afastar do momento presente, como muitos fazem se refugiando numa “torre de marfim”. Neste âmbito é que vivo, entre pessoas que quero bem, leitores ou não. Antes de ser um escritor, sou um homem.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
DESCONECTADO
Desde segunda-feira, estou sem linha em casa. Uma "cegonha" subiu a Pinheiro, enroscando suas asas metálicas nos condutos de sinais eletrônicos (fios do telefone). Cansei de ligar para a Telecom e nada. Assim, espero que meus ilustres visitantes compreendam o porquê de não haver editado novas postagens neste âmbito que é, certamente, o melhor dos gêneros digitais.
domingo, 4 de novembro de 2007
FORMA E CONTEÚDO
Algumas pessoas me pedem freqëntemente para eu avaliar o que escrevem. Há dois aspectos a serem analisados: o que se diz (conteúdo) e o como se diz (forma). Obviamente, o que e o como são intrínsecos à língua, interdependentes. Carlos Drummond de Andrade tornou-se um dos maiores poetas brasileiros em grande parte pelo conteúdo de seus textos, ainda que em Lições de coisas o poeta tenha valorizado os aspectos visuais e sonoros (como). Os concretistas, percebendo uma certa "crise no verso", que se aproximava da prosa, recriaram a forma (sempre engessada nos modelos clássicos), transformando-a em conteúdo. Essa é a grande lição da poesia concreta, a partir da qual surgiram grandes poetas da produção contemporânea. Paulo Leminski é um deles.
Ali
ooo
ali
só
ali
se
se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse
se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce
ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece
oooo
(Também poeta, Alice era a mulher do poeta.)
oooo
Quando leio um poema, percebo as duas coisas ao mesmo tempo (forma e conteúdo). Assim, recomendo àqueles que se iniciam na arte de dizer o quase inédito), que digam algo com conteúdo (que a forma não será relevante), ou criem uma forma de dizer o inaudito (mas o conteúdo sempre será relevante).
Ali
ooo
ali
só
ali
se
se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse
se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce
ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece
oooo
(Também poeta, Alice era a mulher do poeta.)
oooo
Quando leio um poema, percebo as duas coisas ao mesmo tempo (forma e conteúdo). Assim, recomendo àqueles que se iniciam na arte de dizer o quase inédito), que digam algo com conteúdo (que a forma não será relevante), ou criem uma forma de dizer o inaudito (mas o conteúdo sempre será relevante).
URI X ASSOEVA
Ontem estava cansado de ler, revisar o livro do Júlio, ficar ao computador olhando o céu maravilhosamente azul além da janela, por isso fui ao Ginasião assistir à URI vencer por 3 a 2 a equipe da Assoeva de Venâncio Aires. Com a vitória, o futsal santiaguense segue na competição da série Prata (entre os seis melhores). A partida foi uma peleia, onde a agressividade substituiu com freqüência as belas jogadas. Dentro e fora da quadra, observa-se que o esporte serve como estímulo aos impulsos que seriam teoricamente sublimados com a ludicidade. O juiz, então, constitui-se numa vítima em potencial, cuja integridade física e moral está sempre na iminência de ser atingida. Gostei do futebol apresentado em alguns momentos. Por isso, irei ver as próximas.
A PROPÓSITO
A última postagem abaixo, XENÓFANES DE CÓLOFON, justifica minha tese em HISTÓRIA DA FILOSOFIA. Como um estudante de Filosofia argumentaria sobre o antropomorfismo sem conhecer o que já foi pensado, escrito, repensado e reescrito sobre o tema? Antes disso, como um professor ensinaria o que é antropomorfismo sem remeter àqueles que já pensaram, escreveram, repensaram e reescreveram sobre o tema? Certamente, professor e aluno dariam voltas sem conhecer o diamante da sabedoria (protegido pela redoma do tempo).
XENÓFANES DE CÓLOFON
O primeiro filósofo a criticar a religião tradicional foi XENÓFANES DE CÓLOFON. Entre os pré-socráticos, esse filósofo chama a atenção pela forma que expos suas idéias e, principalmente, pelo conteúdo filosófico das mesmas. Ele escreveu elegias e siloi, poemas satíricos em que, pela primeira vez, coloca o homem como objeto de seu pensamento. Até então, a questão principal que envolvia os primeiros pensadores gregos era descobrir a constituição básico do cosmos. Eram protofísicos. Mais tarde, Sócrates seria antropocêntrico, criaria a moral e seria condenado também por não acreditar nos deuses olimpianos. Mas Xenófanes (570 a.C. - 475 a.C), muito antes, já expressava desta forma sua crítica: Quanto há de vergonhoso e censurável tudo isso atribuíram aos deuses Homero e Hesíodo: roubos, adultérios, mentiras. Contra o antropomorfismo (a tendência do homem criar deus à sua imagem e semelhança): Julgam os mortais que os deuses foram gerados/ que têm os trajes deles, e a mesma voz e corpo. Noutro fragmento: Dizem os Etíopes que [os seus deuses] são negros e de nariz chato, fazem-nos os Trácios de olhos azuis e cabelos ruivos. A divindade de Xenófanes pode ser conhecida a partir do fragmento 23 (não confundir com o salmo 23): Um só deus, dentre deuses e homens o maior, / que não é semelhante aos mortais, de corpo nem de espírito. (Esta explicação é extraordinária e, dois milênios e meio mais tarde, constitui a premissa fundamental do meu ateísmo.) Apenas nos séculos XIX e XX, a inclinação antropomórfica criticada por Xenófanes seria retomada e inteiramente compreendida por Ludwig Feuerbach (em A essência do cristianismo, por exemplo), por Nietzsche, pela Psicanálise, por Bertrand Russel, entre outros.
sábado, 3 de novembro de 2007
ELE CONTESTA DEUS
O caderno Cultura do ZH deste sábado traz o ateísmo como matéria principal. Nas páginas 4 e 5, há uma entrevista com Christopher Hitchens, autor do best-seller mundial Deus não é Grande - Como a Religião Envenena Tudo. Para o jornalista e crítico literário inglês, as crenças atrasam o desenvolvimento do mundo, semeiam guerras e iludem o homem. Transcrevo uma parte da entrevista. Cultura - O senhor concorda com aqueles que dizem que a religião foi a responsável por importantes princípios morais para a construção da civilização? Hitchens - Não, isto está errado. Religião não é a fonte da moralidade, a moralidade vem da solidariedade humana, e ela surge em todas as sociedades desde os tempos antigos. Religião, pelo contrário, prega a imoralidade. Ela conta mentiras paras as crianças sobre céu e inferno, ela cria contos de fada aos adultos. Mente sobre a morte concreta, que é algo inevitável e enescapável. Eles praticam mutilação genital e repressão sexual, que leva à perversão e à hipocrisia. Ou seja, é imoral, vai contra a solidariedade humana e, é claro, é responsável pela subordinação das mulheres. Cultura - A religião pode ser substituída pelo quê na vida das pessoas? Hitchens - Não há um substituto, porque não queremos repetir o erro. Deixar de se impressionar pelas mentiras e imoralidades da religião é algo que não requer substituto. [...] Cultura - Como você imagina politicamente um mundo em que ninguém acredita em Deus? Hitchens - Eu não consigo imaginar, porque não há o perigo de isso acontecer. A espécie humana é programada de certa maneira para ser religiosa porque é uma espécie muito egocêntrica. É facilmente persuadida de que é o objetivo de algum plano divino. Em segundo, é uma espécie muito medrosa, e tem particular medo da morte. Cultura - A religião não pode ter nenhuma utilidade? Hitchens - Não é útil ser enganado.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
HISTÓRIA DA FILOSOFIA
Discordo de quem defende que o estudo da Filosofia prescinde da sua história. Isso equivale a dizer que a parte pode ser conhecida independente do todo (recaindo no mesmo equívoco do mecanicismo cartesiano). Asseguram que basta pensar para fazer filosofia. É o que as escolas oferecerão como currículo a alunos que não conhecem história alguma e não querem pensar tampouco. Há dez anos, fiz esta experiência: passei a me questionar sobre o que é a verdade, independentemente de tudo o que havia lido a respeito. Pois bem, o máximo que consegui foi chegar a meio caminho da "essência da verdade" de Heidegger, longe do símile "verdade é liberdade". Este exemplo pessoal, todavia, não me dará autoridade para dizer que é possível pensar sem conhecer os pensadores, o que eles pensaram. Desde os pré-socráticos aos pós-modernos. A Filosofia se confunde com as ciências atuais (que ainda não apresentam sua necessária sustentabilidade empírica). Foi assim na Grécia de Aristóteles, não será diferente no século XXI. O conhecimento filosófico se constrói sobre as fundações e os arcabouços intertextuais.
RECADO IMPORTANTE
Você que está abrindo meu blog pela primeira vez, não deixe de conferir as postagens anteriores. Essa leitura o/a evitará de fazer uma generalização apressada do que escrevo, como escrevo etc. Minha sugestão não irá decepcioná-lo/a. Aguardo comentários.
NOVA BLOGUEIRA
• Débora Lavarda •
Tudo que penso, sinto, escrevo ou demonstro, num só lugar: aqui
oooo
O que está acontecendo? De uma hora para outra, essas lindas meninas começam a questionar as coisa de seu entorno. Ainda bem que elas, a despeito de sua juventude e beleza, superam a timidez (extremo negativo) e a vaidade (extremo positivo) que caracterizam a idade. Débora tem um rosto de anjo, mas já filosofa, inquiridora.
Para conferir e adicionar: dehnomundo.blogspot.com
O RIO QUE SAÍA DO ÉDEN
O mais famoso pós-darwinista da atualidade é RICHARD DAWKINS. Zoólogo inglês, professor da Universidade Oxford, autor de livros extraordinários, como O relojoeiro cego e O gene egoísta. Gostei mais de O rio que saía do Éden: "Todos os povos têm lendas épicas sobre seus antepassados tribais, e estas lendas muitas vezes tomam a forma de cultos religiosos. [...] De todos os organismos que nascem, a maioria morre antes de atingir a maturidade. Da minoria que sobrevive e se reproduz, uma minoria ainda menor terá um descendente vivo daqui a mil anos. Esta diminuta minoria da minoria, esta elite de progenitores, é tudo o que as gerações futuras serão capazes de chamar de ancestrais. Os ancestrais são raros, mas os descendentes são comuns. [...] Todos os organismos que viveram - todo animal e planta, todas as bacatérias e todos os fungos, toda coisa rastejante, e todos os leitores deste livro - podem olhar para seus ancestrais e afirmar orgulhosamente: nenhum de nossos ancestrais morreu na infância. [...] Nengum de nossos antepassados foi morto por um inimigo, ou por um vírus, ou por um passo mal dado na borda de um penhasco, antes de trazer pelo menos um rebento ao mundo. [...] Como os organismos herdam todos os genes de seus ancestrais, e não dos contemporâneos malsucedidos de seus ancestrais, todos os organismos tendem a possuir genes bem-sucedidos. Eles têm aquilo que é necessário para tornar-se ancestrais - e isto significa sobreviver e reproduzir-se. [...] Esta a razão por que as aves são tão boas no vôo, os peixes tão bons no nado, os macacos tão bons em trepar em árvores, os vírus tão bons em disseminar-se. Esta é a razão pela qual amamos a vida, amamos o sexo e amamos as crianças. É porque todos nós, sem uma única exceção, herdamos nossos genes de uma linhagem contínua de antepassados bem-sucedidos. [...] Os genes não melhoram com o uso, eles são apenas transmitidos, imutáveis, exceto por erros aleatórios muito raros. Não é o sucesso que faz bons genes. São bons genes que fazem o sucesso, e nada que um indivíduo faça durante o seu tempo de vida tem qualquer tipo de efeito sobre eles. Cada geração é um filtro, uma peneira: os genes bons tendem a passar pela peneira para a próxima geração (não gostei desse símile). [...] Alguns indivíduos são irremediavelmente estéreis, ainda assim eles são aparentemente projetados para auxiliar na passagem de seus genes para as gerações futuras. Formigas, abelhas, vespas e térmites operárias são estéreis. Elas trabalham não para tornar-se ancestrais, mas para que seus parentes férteis, usualmente irmãs e irmãos, o consigam. [...] As operárias estéreis trabalham sob a influência dos genes, cópias dos quais localizam-se nos corpos das reprodutoras. [...] O rio do tírulo deste livro é um rio de ADN (ácido desoxirribonucléico, constituinte básico dos genes), e ele corre através do tempo, não do espaço. É um rio de informações, não um rio de ossos e tecidos: um rio de instruções abstratas para a construção de corpos, não um rio de corpos sólidos. [...] A característica que define uma espécie é que todos os seus membros têm o mesmo rio de genes fluindo através deles. [...] O rio de genes bifurca-se no tempo. [...] Por que deveriam duas espécies dividir-se? [...] Os detalhes são controvertidos, mas ninguém duvida de que o ingrediente mais importante é a separação geográfica acidental. [...] Um esquilo cinzento da América do Norte é capaz de reproduzir-se com um esquilo cinzento da Inglaterra, se chegarem a encontrar-se. Mas é pouco provável que se encontrem. O rio de genes do esquilo cinzento da América do Norte está efetivamente separado, por uma muralha do rio de genes, do esquilo cinzento da Inglaterra. [...] "Separação" significa aqui separação não no espaço mas em compatibilidade. [...] Algo parecido com isto está quase certamente por trás da separação mais antiga entre esquilos cinzentos e esquilos vermelhos. Eles não podem cruzar. [...] Seus rios genéticos separaram-se muito, o que quer dizer que seus genes não mais estão bem preparados para colaborar uns com os outros no interior dos corpos. Há muitas gerações, os ancestrais do esquilo cinzento e os ancestrais do esquilo vermelho eram um único e mesmo animal. [...] Há agora talvez 30 milhões de braços originados do rio de ADN, pois este é o número estimado de espécies sobre a Terra. Foi estimado também que as espécies sobreviventes constituem cerca de um por cento das espécies que existiram. Segue que teria havido cerca de 3 bilhões de braços de rio originados do rio de ADN. Os 30 milhões de braços de rio que existem hoje em dia estão irremediavelmente separados. Muitos deles estão destinados a secar. [...] O rio dos genes humanos junta-se com rio de genes do chimpanzé há cerca de 7 milhões de anos. [...] Mais para trás ainda, nossos rios unem-se com aqueles que conduzem a outros grupos importantes de mamíferos: roedores, gatos, morcegos, elefantes. Depois disto, encontramos as correntes que conduzem a vários tipos de répteis, aves, anfíbios, peixes e invertebrados. [...] Mesmo criaturas tão radicalmente diferentes umas das outras como moluscos e crustáceos eram populações da mesma espécie orginalmente separadas apenas de modo geográfico. Por um breve tempo (que pode ser de cem mil, um milhão, dez milões de anos), elas poderiam ter intercruzado se tivessam se encontrado, mas não o fizeram. Após milhões de anos de evolução em separado, elas adquiriram as características que nós, com a visão a posteriori dos zoólogos modernos, agora reconhecemos respectivamente como as dos moluscos e crustráceos. [...] O estudo da biologia molecular mostrou que os grandes grupos de animais estão muito mais próximos uns dos outros do que costumávamos pensar. [...] o código genético é de fato literalmente idêntico em todos os animais, plantas e bactérias observados. Todas as coisas vivas terrestres são certamente descendentes de um único ancestral".
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Tenho dito freqüentemente que o estudo da genética ainda nos revelará um mundo cada vez mais estranho aos nossos preconceitos religiosos. Um mundo verdadeiro, que solapará qualquer resquício de autodivinização humana. Muito obrigado!
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Tenho dito freqüentemente que o estudo da genética ainda nos revelará um mundo cada vez mais estranho aos nossos preconceitos religiosos. Um mundo verdadeiro, que solapará qualquer resquício de autodivinização humana. Muito obrigado!
WASHOE
A chimpanzé Washoe, primeira a aprender a se comunicar pela linguagem de sinais, morre aos 40 anos. Ela chegou a aprender 250 palavras e, inclusive, ensinava-as a três chimpanzés mais jovens. Para Noam Chonsky, os primatas não são capazes de desenvolver realmente capacidades lingüísticas, e que se limitam a imitar os sinais dos humanos. Naturalmente, a linguagem que eles imitam é uma criação humana, que tornou humana a criação.IN MEMORIAM
De todos os dias do ano, o Dia de Finados é dos mais tristes para as pessoas que têm coração – este centro da esfera emocional onde palpitam, entre outros sentimentos, a saudade daqueles que se foram para sempre. Com o coração ainda chorando, incluo-me entre essas pessoas há um ano e meio, desde quando minha mãe não mais resistiu a um câncer que a fez sofrer muito. Até os meus últimos dias, sentirei a sua ausência, porque ela era quem mais próximo esteve do meu mundo, antes, durante e depois de ter me dado à luz. O tempo pode até diminuir as dores, não os sentimentos de filho que evoluíram continuamente para a gratidão e o amor, íntimos e verdadeiros, embora poucas vezes se traduzissem em palavras. Desde que saí de casa para estudar fora, aos 13 anos, passei a autoperceber toda a dimensão afetiva que significava minha mãe. Ela era o principal motivo que me levava com freqüência ao Rincão dos Machado, momento feliz em que também revia meu pai e meus irmãos. Ao longo de três décadas foi assim: a cada reencontro cheio de alegria se seguia a despedida um pouco triste. O derradeiro reencontro que tivemos, no Hospital Santa Rita, houve um pouco de alegria na chegada (de sua parte) e muita tristeza no retorno (em mim). Desde então, basta pensar na sua partida para meus olhos se encherem d’água. A tradição me condiciona a visitar o cemitério neste dia, acender velas e depositar flores sobre seu jazigo. Certamente, irei a Bom Retiro, mas é no âmago do meu ser, no coração que cultuo as melhores lembranças da minha mãe, onde palpitam os sentimentos da gratidão e do amor. De certa forma, ela vive para mim, ainda que sem a perspectiva do reencontro.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
AUSÊNCIA
Talvez eu seja muito presente. Até sofro um pouco com a minha assiduidade. Diariamente, abro meu blog e leio todos os outros, linkados à direita. A expectativa maior é de ler as novas postagens. Alguns continuam sem atualização, contrariando a principal característica deste gênero digital.
Por favor, vamos editar um pensamento, um poema, uma imagem...
Por favor, vamos editar um pensamento, um poema, uma imagem...
JORGE BALEEIRO DE LACERDA
Hoje tive o prazer de conhecer Jorge Baleeiro de Lacerda. Estava no escritório do Dr. Valdir, quando o homem chegou do Paraná (Francisco Beltrão). Ele é autor de Os Dez Brasis, um estudo do nosso país de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Jorge Baleeiro é um pesquisador há trinta e poucos anos, viajante incansável. Falou-nos dos livros raros que possui e das viagens que realizou pelo Brasil e pelo mundo. Perguntei-lhe se já passara por Bojuru - São José do Norte - Rio Grande. Disse-me que sim. Na Serra do Corvo Branco, entre Grão-Pará e Urubici (SC): sim. Em Santiago, veio seis vezes. Diz que controla essas visitas pelas anotações dos livros que ganha do Dr Valdir. Possui uma biblioteca de aproximadamente 10.000 volumes (98 sobre o Getúlio Vargas). Participou cinco vezes do programa de entrevista do Jô Soares. Amanhã, ele e seus amigos irão a Itaqui (fazenda que foi do Osvaldo Aranha), Uruguaiana, Barra do Quaraí (numa ilha do Rio Uruguai). Levamo-lo à Rua dos Poetas, mas se interessou mais pela livraria do Tide Lima, onde pediu livros acerca do tradicionalismo gaúcho. Um admirável bibliófilo.
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