as palavras secam feito
espinhos
e cravam no poema
já sem carne
onde se desnuda
a semente
pronta para a nova estação
que há de
engendrar
um fruto
doce como nunca fora
as palavras apaixonadas
feito flores
terça-feira, 20 de novembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
UM FENÔMENO COMUM
AUTO-RETRATO

Pintei esse Auto-retrato com uma camisa amarela em 1985, usando os dedos para espalhar a tinta e os pincéis para o acabamento. Naquele ano, mudara para Curitiba, até então a melhor entre as capitais brasileiras. Logo comprei o material e saía para pintar no fim de semana, encantado com a beleza das praças, das avenidas, dos parques... Como sempre gostei de pessoas, dava as minhas telas. O auto-retrato acima é uma exceção. Sempre ligado aos livros, aos pouco uma outra arte arrebatou minha alma.
QUANDO NIETZSCHE CHOROU
Algumas pessoas me perguntam sobre esse romance. Só agora me dei conta que o título está incompleto, lacuna que o autor deixa para o leitor preencher. Quando Nietzsche chorou pela primeira vez. Mais famoso é o choro do filósofo abraçado ao pescoço de um cavalo que fora maltratado pelo seu dono. Esse pode ser considerado o último choro de Nietzsche, antes de ser internado numa clínica manicomial. No texto em itálico, abaixo do título, lê-se: Cem anos após sua morte, Nietzsche é o principal personagem deste romance magnífico sobre o nascimento da psicanálise. Para brindar os leitores deste blog, transcrevo a página do romance que narra o momento em que Nietzsche chorou. "Passivamente, Nietzsche retornou à sua cadeira e, fechando os olhos, respirou profundamente várias vezes. Depois, abriu os olhos e confessou: - O problema, Josef, não é que você possa me trair; é que eu venho traindo você. Tenho sido desonesto com você. Agora, quando você me convida para sua casa, ao nos tornarmos mais íntimos, meu engodo está me atormentando. Chegou a hora de mudar isso! Chega de logro entre nós! Permita que me desabafe. Ouça minha confissão, amigo.
Virando a cabeça para o outro lado, Nietzsche fixou o olhar em um pequeno arranjo floral no tapete persa e, com uma voz trêmula, começou:
- Vários meses atrás, envolvi-me profundamente com uma notável jovem russa chamada Lou Salomé. Antes disso, jamais me permitira amar uma mulher. Talvez por ter sido inundado de mulheres no início da vida. Depois que meu pai faleceu, vi-me cercado de mulheres frias e distantes: minha mãe, minha irmã, minha avó e minhas tias. Algumas atitudes profundamente nocivas devem ter sido inoculadas em mim, pois desde então tenho encarado com horror uma ligação com uma mulher. A sensualidade, o corpo de uma mulher, me parece a pior distração, uma barreira entre mim e minha missão de vida. Mas Lou Salomé era diferente, ou assim pensei. Embora fosse bonita, também parecia uma verdadeira alma gêmea. Ela me compreendia, inidicava-me novas direções... a alturas estonteantes que eu jamais tivera coragem de explorar. Pense que se tornaria minha aluna, minha protegida, meu discípulo. Mas aí, catástrofe! Minha lascívia emergiu. Ela a usou para me jogar contra Paul Rée, meu amigo íntimo que nos apresentara. Ela me fez acreditar ser eu o homem a quem estava destinada, mas quando me ofereci, ela me rejeitou. Fui traído por todos: por ela, por Rée e por minha irmã, que tentou destruir nosso relacionamento. Agora tudo são cinzas e vivo exilado de todos os que outrora estimei.
- Em nossa primeira conversa - interrompeu Breuer -, você aludiu a três traições.
- A primeira foi de Richard Wagner, que me traiu faz muito tempo. Essa ferida já cicatrizou. As outras foram de Lou Salomé e Paul Rée. Sim, fiz menção a elas. Mas fingi que havia resolvido a crise. Esse foi meu logro. A verdade é que jamais, até o presente momento, a resolvi. Essa mulher, essa Lou Salomé, invadiu minha mente e nela se instalou. Não consigo desalojá-la. Não se passa nenhum dia, às vezes nenhuma hora, sem que eu pense nela. Na maioria do tempo, odeio-a. Penso em atacá-la, em publicamente humilhá-la. Quero vê-la rastejando aos meus pés, implorando-me que volte para ela! Às vezes, dá-se o contrário: desejo-a, penso em segurar a mão dela, em nossos passeios de barco no Lago Orta, em saudarmos um nascer do sol no Adriático juntos...
- Ela é sua Bertha!
- Sim, ela é minha Bertha! Sempre que você descrevia sua obsessão, sempre que tentava extirpá-la da mente, sempre que tentava entender seu significado, estava falando por mim também! Estava realizando um trabalho dobrado: o meu tanto quanto o seu! Eu me escondi como uma mulher e, depois que você partiu, saí de fininho, pisei nas suas pegadas e tentei seguir sua trilha. Covardemente, agachei-me atrás de você e deixei-o enfrentar sozinho os perigos e as humilhações do caminho.
Lágrimas desciam pela face de Nietzsche e ele as secava com um lenço."
ooo
Nietzsche e a psicanálise são minhas leituras preferidas (desde 1984).
domingo, 18 de novembro de 2007
MOTOQUEIROS

Um grupo de motoqueiros chegou à cidade ontem. Com suas máquinas potentes, entraram pela Pinheiro como senhores de si, senhores da liberdade. Neles se justificaria o orgulho de mandar o sedentarismo às favas, este sistema existencial que nos aprisiona à realidade. O asfalto é uma ponte sobre seus destinos, uma linha pontuada pela aventura. Ao observá-los, pensei em fazer o mesmo algum dia. Jaqueta, calças e botas de couro, num grupo ainda maior, cruzarei cidades, cruzarei um vasto mundo. Você, aí, sentadinho(a) numa cadeira confortável, vai me acompanhar nesta?
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
INFÂNCIA...
ooooPor duas ocasiões, postei textos de outros blogueiros, surpreso com o que se produzira neste gênero digital. O primeiro foi uma crônica poética da Vívian Dias, sobre sua afinidade com os pássaros, e o segundo, do Júlio Prates, uma reflexão belíssima quanto um poema. Há pouco, lendo o blog da Cristina Cogo Michelon, amiga de Nova Esperança, fiquei encantado com INFÂNCIA:
ooo
ooooFecho os meus olhos e me remeto a um passado encantado, minha infância, posso sentir seu cheiro, um cheiro de doce, de chuva, de bolo quente saindo do forno, de terra, cheiros que se misturam em um só, o cheiro bom da minha inesquecível infância....
ooooEra uma época realmente mágica em que eu acreditava em Papai Noel o que tornava meu Natal ainda mais colorido, acreditava em conto de fadas, tinha amigos imaginários, brincava livre pela rua, corria na chuva, nadava pelada na sanga....Lembro-me da primeira vez que fui ao circo e o grande fascínio que aquele mundo de ilusões representou para mim, lembro dos lanches da tarde na casa da minha avó, acompanhado de bolo de fubá, ovo quente e pão com banha, das brincadeiras no quintal, das escaladas nas árvores, das gargalhadas estridentes, das histórias infantis que minha mãe me contava, dos abraços apertados que meu pai me dava quando eu sentia medo de alguma coisa e a sensação de que com aquele abraço nada de ruim iria me acontecer.....Lembro também das canções de Vinicius de Morais no “Arca de Noé, canções que tiveram um significado especial na minha vida, sinto tanta saudade, uma saudade gostosa, que aquece o meu coração e acalenta minha alma.
ooooEssas lembranças estão marcadas em mim, não só nas cicatrizes dos tombos levados mas dentro de mim, bem lá no fundo da minha alma são marcas que nunca irão se apagar, nunca ninguém vai me tirar pois elas me pertencem। Vou levá-las comigo como um tesouro precioso, para todo sempre...
ooooTudo que vivi na infância hoje sei, com certeza, que se transformou em uma fundamental peça, do grande quebra cabeça que eu sou !!
ooooMinha infância, travessa, inocente, curiosa e repleta de sonhos, sonhos de criança !!
ooo
ooooFecho os meus olhos e me remeto a um passado encantado, minha infância, posso sentir seu cheiro, um cheiro de doce, de chuva, de bolo quente saindo do forno, de terra, cheiros que se misturam em um só, o cheiro bom da minha inesquecível infância....
ooooEra uma época realmente mágica em que eu acreditava em Papai Noel o que tornava meu Natal ainda mais colorido, acreditava em conto de fadas, tinha amigos imaginários, brincava livre pela rua, corria na chuva, nadava pelada na sanga....Lembro-me da primeira vez que fui ao circo e o grande fascínio que aquele mundo de ilusões representou para mim, lembro dos lanches da tarde na casa da minha avó, acompanhado de bolo de fubá, ovo quente e pão com banha, das brincadeiras no quintal, das escaladas nas árvores, das gargalhadas estridentes, das histórias infantis que minha mãe me contava, dos abraços apertados que meu pai me dava quando eu sentia medo de alguma coisa e a sensação de que com aquele abraço nada de ruim iria me acontecer.....Lembro também das canções de Vinicius de Morais no “Arca de Noé, canções que tiveram um significado especial na minha vida, sinto tanta saudade, uma saudade gostosa, que aquece o meu coração e acalenta minha alma.
ooooEssas lembranças estão marcadas em mim, não só nas cicatrizes dos tombos levados mas dentro de mim, bem lá no fundo da minha alma são marcas que nunca irão se apagar, nunca ninguém vai me tirar pois elas me pertencem। Vou levá-las comigo como um tesouro precioso, para todo sempre...
ooooTudo que vivi na infância hoje sei, com certeza, que se transformou em uma fundamental peça, do grande quebra cabeça que eu sou !!
ooooMinha infância, travessa, inocente, curiosa e repleta de sonhos, sonhos de criança !!
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
TIPOS DE VERSO
MONOSSÍLABO:
Rua
torta.
ooo
Lua
morta.
oo
Tua
porta.
oo
DISSÍLABO:
Quem dera
que sintas
as dores
de amores
que louco
senti!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
ooo
TRISSÍLABO:
Sempre viva...
que padece...
ooo
TETRASSÍLABO:
Na noite negra...
Do nosso amor...
ooo
PENTASSÍLABO (REDONDILHA MENOR):
Luz dos olhos meus!
Ao romper da aurora...
ooo
HEXASSÍLABO:
Desse calado irreal....
De me inclinar aflito...
ooo
HEPTASSÍLABO (REDONDILHA MAIOR):
Velha, grande, tosca e bela.
O luar no mar espraia.
ooo
OCTOSSÍLABO:
O campanário do deserto
Cheio de lúgubre mistério
ooo
ENEASSÍLABO:
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.
ooo
DECASSÍLABO:
O tempo arrasta mil vagões por hora
num tiquetaque que de longe vem.
ooo
HENDECASSÍLABO:
Alvas pétalas do lírio de tua alma...
Estas cartas - estas flores desfolhadas...
ooo
DODECASSÍLABO (ALEXANDRINO):
Bailando no ar gemia inquieto vaga-lume:
quem me dera que fosse aquela loura estrela...
Rua
torta.
ooo
Lua
morta.
oo
Tua
porta.
oo
DISSÍLABO:
Quem dera
que sintas
as dores
de amores
que louco
senti!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
ooo
TRISSÍLABO:
Sempre viva...
que padece...
ooo
TETRASSÍLABO:
Na noite negra...
Do nosso amor...
ooo
PENTASSÍLABO (REDONDILHA MENOR):
Luz dos olhos meus!
Ao romper da aurora...
ooo
HEXASSÍLABO:
Desse calado irreal....
De me inclinar aflito...
ooo
HEPTASSÍLABO (REDONDILHA MAIOR):
Velha, grande, tosca e bela.
O luar no mar espraia.
ooo
OCTOSSÍLABO:
O campanário do deserto
Cheio de lúgubre mistério
ooo
ENEASSÍLABO:
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.
ooo
DECASSÍLABO:
O tempo arrasta mil vagões por hora
num tiquetaque que de longe vem.
ooo
HENDECASSÍLABO:
Alvas pétalas do lírio de tua alma...
Estas cartas - estas flores desfolhadas...
ooo
DODECASSÍLABO (ALEXANDRINO):
Bailando no ar gemia inquieto vaga-lume:
quem me dera que fosse aquela loura estrela...
OUTRAS NOÇÕES
Ninguém é poeta (no sentido estrito do termo) se não tem essas noções de versificação. Elas são indispensáveis. Há outros fenômenos que devem ser observados na feitura do verso: ELIPSE, HIATO, SINÉRESE, DIÉRESE, AFÉRESE, SÍNCOPE, APÓCOPE, CESURA e CAVALGAMENTO. Basta digitar qualquer um dos nomes acima no Google e...
SINALEFA, ELISÃO E CRASE
(Retomando os estudos poéticos, transcrevo Celso Cunha/ Lindley Cintra.)
Comparemos estes versos de Olavo Bilac, todos com dez sílabas métricas:
ooo
Che / guei./ Che /gas / te./ Vi / nhas / fa / ti / ga / (da)
E / tris / te, e / tris / te e / fa / ti / ga / do eu / vi / (nha.)
Ti / nhas / a al / ma / de / so / nhos / po / vo / a / (da.)
e a al / ma / de / so / nhos / po / vo /a / da eu / ti / (nha.)
o1oooo 2ooo 3ooo 4ooo 5ooooo6ooo7oo8ooo9oooo10
ooo
Verificamos que no primeiro verso haverá sempre, de qualquer forma que o leiamos, dez sílabas até a última tônica. Nele a fronteira das sílabas é coincidente, seja numa leitura pausada ou acelerada, seja na prosa ou no verso, seja, enfim, numa emissão isolada das palavras, se abandonarmos a última sílaba átona.
Já não sucede o mesmo com os três outros versos, que só atingem aquela medida pela leitura numa só sílaba da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte. Assim:
a) no segundo verso, temos de juntar numa só emissão de voz o e final de triste e a vogal da conjunção aditiva (duas vezes), bem como o o de fatigado e o ditongo do pronome eu;
b) no terceiro verso, ligamos o artigo a à vogal inicial de alma;
c) no quarto, finalmente, fundimos numa só sílaba as vogais da conjunção e, do artigo a, e a inicial do substantivo alma; e, também, a vogal final do adjetivo povoada e o ditongo constituído pelo pronome eu.
Na leitura destes versos, sentimos que há três soluções para obtermos a contração numa sílaba de duas ou mais vogais em contato:
1ª) A primeira vogal pode perder a sua autonomia silábica e tornar-se uma semivogal, que passa a formar ditongo com a vogal seguinte. É o que se observa, por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dwew / [ = fatigado eu]
ooo
Dizemos que, neste caso, há SINALEFA.
ooo
2ª) A primeira vogal pode desaparecer na pronúncia diante de uma vogal de natureza diversa. Por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dew / [ = fatigada eu]
ooo
A este fenômeno chamamos ELISÃO.
ooo
3ª) A primeira vogal pode ser igual à seguinte e com ela fundir-se numa só. É o que se dá, por exemplo, com a emissão:
ooooooooooooooooo Ti / nhas / al / ma / [ = Tinhas a alma]
ooo
Neste caso, verifica-se o que denominamos CRASE.
Comparemos estes versos de Olavo Bilac, todos com dez sílabas métricas:
ooo
Che / guei./ Che /gas / te./ Vi / nhas / fa / ti / ga / (da)
E / tris / te, e / tris / te e / fa / ti / ga / do eu / vi / (nha.)
Ti / nhas / a al / ma / de / so / nhos / po / vo / a / (da.)
e a al / ma / de / so / nhos / po / vo /a / da eu / ti / (nha.)
o1oooo 2ooo 3ooo 4ooo 5ooooo6ooo7oo8ooo9oooo10
ooo
Verificamos que no primeiro verso haverá sempre, de qualquer forma que o leiamos, dez sílabas até a última tônica. Nele a fronteira das sílabas é coincidente, seja numa leitura pausada ou acelerada, seja na prosa ou no verso, seja, enfim, numa emissão isolada das palavras, se abandonarmos a última sílaba átona.
Já não sucede o mesmo com os três outros versos, que só atingem aquela medida pela leitura numa só sílaba da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte. Assim:
a) no segundo verso, temos de juntar numa só emissão de voz o e final de triste e a vogal da conjunção aditiva (duas vezes), bem como o o de fatigado e o ditongo do pronome eu;
b) no terceiro verso, ligamos o artigo a à vogal inicial de alma;
c) no quarto, finalmente, fundimos numa só sílaba as vogais da conjunção e, do artigo a, e a inicial do substantivo alma; e, também, a vogal final do adjetivo povoada e o ditongo constituído pelo pronome eu.
Na leitura destes versos, sentimos que há três soluções para obtermos a contração numa sílaba de duas ou mais vogais em contato:
1ª) A primeira vogal pode perder a sua autonomia silábica e tornar-se uma semivogal, que passa a formar ditongo com a vogal seguinte. É o que se observa, por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dwew / [ = fatigado eu]
ooo
Dizemos que, neste caso, há SINALEFA.
ooo
2ª) A primeira vogal pode desaparecer na pronúncia diante de uma vogal de natureza diversa. Por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dew / [ = fatigada eu]
ooo
A este fenômeno chamamos ELISÃO.
ooo
3ª) A primeira vogal pode ser igual à seguinte e com ela fundir-se numa só. É o que se dá, por exemplo, com a emissão:
ooooooooooooooooo Ti / nhas / al / ma / [ = Tinhas a alma]
ooo
Neste caso, verifica-se o que denominamos CRASE.
PERCUSSÃO
o vento
a soprar
o fio
ooo
o fio
a cortar
o vento
ooo
tenso
fio
ooo
lasso
vento
ooo
asso
vio
ooo
Esse poeminha fonético do meu livro Ponteiros de palavra abedece a um ritmo perfeito:
o / ven / to a / so / prar / o / fi / o oooo(2 - 5 - 7)
o / fi / o a / cor / tar / o / ven / to oooo(2 - 5 - 7)
ten / so / fi / o oooo(1 - 3)
la / sso / ven / to oo(1 - 3)
a / sso / vi / o ooooo(1 - 3)
oooo
Salvo algumas exceções, os poemas do livro são rítmicos.
a soprar
o fio
ooo
o fio
a cortar
o vento
ooo
tenso
fio
ooo
lasso
vento
ooo
asso
vio
ooo
Esse poeminha fonético do meu livro Ponteiros de palavra abedece a um ritmo perfeito:
o / ven / to a / so / prar / o / fi / o oooo(2 - 5 - 7)
o / fi / o a / cor / tar / o / ven / to oooo(2 - 5 - 7)
ten / so / fi / o oooo(1 - 3)
la / sso / ven / to oo(1 - 3)
a / sso / vi / o ooooo(1 - 3)
oooo
Salvo algumas exceções, os poemas do livro são rítmicos.
CARLOS NEJAR
A poesia de Carlos Nejar é ritmo puro, originalíssima pelo seu teor filosófico, rica por sua vastidão metafórica. Como um todo considerada, épica, lírica e dramática ao mesmo tempo. O ritmo nesse "encantador de imagens e palavras" não é só conseguido pela recorrência métrica e acentual, mas pela repetição por meio de anáforas e de epíforas (recurso que o aproxima de um Fernando Pessoa).
000
Silbion,
Silbion,
inferno é ter nascido.
Inferno é ter vivido como as plantas.
Inferno é desfolhar-se
lentamente
sem saber onde estamos.
ooo
(Anáfora é a repetição de termos no início do verso.)
000
Eram só pedra de pedra
os deuses eram de pedra,
os homens eram de pedra
na eternidade de pedra
000
(Epífora é a repetição de termos no final do verso.)
oooo
No Livro do tempo, temos o exemplo do belo ritmo nejariano:
O vento lavou as pedras,
mas ficaram as palavras.
O vento lavou as pedras
com sabor de madrugada.
ooo
O vento lavou a noite
mas ficaram as estrelas.
oooo
O vento lavou a noite
com água límpida e mansa.
ooo
Mas não lavou a salsugem.
ooo
O vento lavou as águas,
mas não lavou a inocência
que amadurece nas águas.
ooo
Desespero de horizonte.
Desespero de ser ventre.
Desespero de ser terra.
ooo
Desespero de ser homem
sobre a montanha desnuda.
ooo
Os homens eram sombrios,
esfinges de solidão.
ooo
Os homens eram sombrios.
Quiseram tecer de sonhos
a água verde dos rios.
ooo
Os homens eram amargos.
Quiseram compor o cisne
nas águas verdes dos lagos.
ooo
Os homens eram ardentes
como tochas de amaranto.
Sobre o rosto do poente
deixaram rosas de pranto.
...
Todos os versos com sete sílabas. Acentos que se equilibram entre a segunda, a terceira e a quarta sílabas. A última estrofe, por exemplo:
os / ho / mens / e/ ram / ar / den /... 2 - 4 - 7
co / mo / to / chas / de a / ma / ran / ... 3 - 7
so / bre o / ros / to / do / po / en / ... 3 - 7
dei / xa / ram / ro / sas / de / pran / ... 2 - 4 - 7
RECITAL DE SONETOS
Quando o Márcio Brasil me falou de uma feira de artes em Santiago, passeando pelos corredores da ExpoSantiago, fiquei bastante entusiasmado com o projeto. Pela primeira vez, pensamos em fazer um evento com despesa zero. O lucro que teremos não pode ser quantificado, uma vez que seu valor é artístico (muito acima do mercado). Entre as diversas atrações da 1ª Feira de Artes Santiaguense, a mais modesta será um recital dos 10 sonetos mais belos de nossa literatura que fará este blogeiro, sábado, às 19 horas.quarta-feira, 14 de novembro de 2007
RITMO
O que falta aos poetas da Terra dos Poetas? Ritmo. O ritmo é o principal elemento que caracteriza o verso, diferenciando-o da prosa. Inclusive o verso livre, sem a regularidade métrica. Nossos poetas não dão a devida importância aos aspectos sonoros, a despeito do uso da rima. Armindo Trevisan, em A POESIA - UMA INICIAÇÃO À LEITURA POÉTICA, cita Edward Sapir, poeta imagista e lingüista americano: "Muito da incompreensão a respeito das formas de verso mais livres bem pode ser devido à mera incapacidade de pensar, ou antes de imaginar, em termos puramente auditivos". Os nossos poetas, salvo algumas exceções, compõem seus poemas com versos pretensamente isossilábicos (mesmo número de sílabas). Como a evolução histórica da arte poética ocorreu da forma fixa, clássica, para o verso livre, assim deve ser a trajetória de cada poeta, individualmente. A liberdade é uma conseqüência do domínio que se consegue sobre a versificação. Sem o conhecimento técnico na produção desse gênero textual, o resultado se evidencia numa miscelânia confusa e feia (que acaba não fazendo bem ao olhos e tampouco aos ouvidos). Um verso de pé quebrado condena todo o poema. A rima é menos importante do que o ritmo, coisa que não parece ser compreendida por aqueles que se iniciam na arte. Principalmente, tratando-se de rimas pobres, óbvias, enxertadas, como a demonstrar a deficiência lexical. A esses poetas, recomendo um tratado de versificação, muito dicionário e leitura dos grandes, como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.
MORRO DO CHAPÉU
No início dos anos oitenta, morei em Porto Alegre. Trabalhava e estudava de segunda a sexta, comia pouco, desenhava e lia muito. Resultado: era supermagro e cheio de idéias contraditórias na cabeça. Todos os sábados, pegava o trensurb para Sapucaia. Lá reencontrava meus parentes, matava a fome, jogava futsal e, principalmente, participava de um grupo de jovens na igreja São Pedro. Nossas reuniões ocorriam no sábado, quando nos preparávamos para animar a missa no domingo. A igreja lotava e nós cantávamos com alegria. Em certas ocasiões festivas, como Páscoa, Dia das Mães, Aniversário do JUNS - Jovens Unidos Nova Sapucaia (17 maio), Dia dos Pais, eu recitava meus poemas no altar. Liderávamos campanha do agasalho, fazíamos visitas a outras comunidades e passeios nos pontos turísticos da Grande Porto Alegre. Nunca me esqueço de uma tarde ensolarada, quando o grupo foi ao Morro do Chapéu (Morro de Sapucaia), bem próximo da cidade. Foi um tempo que marcou indelevelmente minha alma, dos mais felizes. Por que será que não voltei mais a esse lugar?
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
AINDA UM ROMÂNTICO
Os românticos, especialmente os poetas românticos, entediados com a realidade, fugiam para o passado ou para o futuro. Para isso, transformavam a infância ou a morte em objeto temático da poesia que os imortalizou. Saudade e angústia eram dominantes entre outros sentimentos que arrebatavam suas almas. Eles representavam uma, duas ou três gerações de indivíduos, todos vivendo no limite desse arrebatamento. Poucos conseguiam transcendê-lo (por intermédio de um eu-lírico), embora partissem em plena mocidade desta vida. A despeito de toda evolução filosófica, científica e estética que ocorreu depois, até e durante o século XX, os poetas ainda se debatem com as palpitações existenciais. Como bem expressou Ezra Pound, eles continuam sendo a “antena” sensível dos demais humanos. Não é o reconhecimento disso e a conseqüente enunciação que me tornam poeta, mas um desejo de viver além do que delimita a realidade. Nestas manhãs azuis, sou instado pelo pensamento e pela vontade a sair para o campo, cruzar colinas e restingas, respirar fundo a frescura do mato, enfim, reencontrar o menino que fui um dia. Ou, nestas tardes solares, movido por uma lembrança extremamente doce, ir ao encontro de pessoas que conheci em algum momento feliz e que não as vejo há muito. Anteriormente, a mera desconfiança de ser o único a sentir essa necessidade de fuga e de reencontro me causava uma certa angústia. Com a maturidade e empatia (que é apreciação emocional do sentir alheio), agora percebo que outros se assemelham a mim. Mesmo inserido na pós-modernidade, um sentimento nostálgico ainda me faz romântico.
SAUDADES DE MIM
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
oooo
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de maio de 1890 — Paris, 26 de 1916), foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu. A estrofe acima é do poema Dispersão.
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
oooo
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de maio de 1890 — Paris, 26 de 1916), foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu. A estrofe acima é do poema Dispersão.
domingo, 11 de novembro de 2007
ASAS PARTIDAS
Passados 25 anos, ainda me lembro da história de amor contada por Gibran, escritor libanês. Morava numa pensão em Porto Alegre e fazia Artes Plásticas,
mas todos os fins de semana eu fugia para um lugar,
onde reencontrava minha essência
de menino do interior.
Havia um morro nesse lugar distante (quase mágico)
e as manhãs solares e as tardes solares eram cartões de visitas.
A saudade bate quando não dimensiono o infinito.
POVOAR A SOLIDÃO
Dos três grandes colunistas do caderno DonnaZH, não escondo minha preferência por Martha Medeiros. Seu enunciado é mais direto, cotidiano, numa linguagem que me instiga a responder de alguma forma. Talvez o faça em alguma postagem acima. Por enquanto, transcrevo a crônica publicada neste domingo: Povoar a solidão.
"A sua é de que tamanho? Difícil encontrar alguém que tenha uma solidão pequena, ajustada, do tipo baby look. Geralmente, a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso. E costuma ser com outros corpos que se tenta combatê-la, mas combatê-la por quê?
"Se nossa solidão pudesse ser visalizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Talvez seja por aí que devamos reavaliá-la: no reconhecimento do que há de belo na sua amplitude.
"A solidão não precisa ser aniquilada, ela só precisa de um sentido. Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica há para isso do que livros. Uma biblioteca com mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.
"A solidão costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um órgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela sua vida nenhum respeito. Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, hospedar, convidar para o almoço, cozinhar com afeto, revelar-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as histórias das solidões dos outros, já que todos possuem seus descampados.
"A solidão não precisa se valer apenas do monólogo. Pode aprender a dialogar e deve exercitar isso também através da arte. Há sempre uma conversa silenciosa entre o ator no palco e o sujeito no escuro da platéia, entre o pintor em seu ateliê e o visitante do museu, entre o escritor e o seu leitor desconhecido. Ah, os livros, de novo. De todos os que preenchem nossa solidão, são os livros os mais anárquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silêncio ganhará voz.
"Às vezes, tratamos nosso isolamento com certa afetação. Acendemos um cigarro na penumbra da sala, botamos um disco dilacerante e aguardamos pelas lágrimas. Já fizemos essa cena num final de domingo - tem dia mais solitário? É comum que a gente entre na fantasia de que nossa solidão daria um filme noir, mas sem esquecer que ela continuará conosco amanhã e depois de amanhã, deixando de ser charmosa e nos acompanhando até com mau humor, mas não a despreze.
"Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Não a cultive como uma doença, e sim como uma circunstância. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estética, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada. Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão, escreve Baudelaire.
"Ah, os livros, outra vez."
"A sua é de que tamanho? Difícil encontrar alguém que tenha uma solidão pequena, ajustada, do tipo baby look. Geralmente, a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso. E costuma ser com outros corpos que se tenta combatê-la, mas combatê-la por quê?
"Se nossa solidão pudesse ser visalizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Talvez seja por aí que devamos reavaliá-la: no reconhecimento do que há de belo na sua amplitude.
"A solidão não precisa ser aniquilada, ela só precisa de um sentido. Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica há para isso do que livros. Uma biblioteca com mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.
"A solidão costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um órgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela sua vida nenhum respeito. Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, hospedar, convidar para o almoço, cozinhar com afeto, revelar-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as histórias das solidões dos outros, já que todos possuem seus descampados.
"A solidão não precisa se valer apenas do monólogo. Pode aprender a dialogar e deve exercitar isso também através da arte. Há sempre uma conversa silenciosa entre o ator no palco e o sujeito no escuro da platéia, entre o pintor em seu ateliê e o visitante do museu, entre o escritor e o seu leitor desconhecido. Ah, os livros, de novo. De todos os que preenchem nossa solidão, são os livros os mais anárquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silêncio ganhará voz.
"Às vezes, tratamos nosso isolamento com certa afetação. Acendemos um cigarro na penumbra da sala, botamos um disco dilacerante e aguardamos pelas lágrimas. Já fizemos essa cena num final de domingo - tem dia mais solitário? É comum que a gente entre na fantasia de que nossa solidão daria um filme noir, mas sem esquecer que ela continuará conosco amanhã e depois de amanhã, deixando de ser charmosa e nos acompanhando até com mau humor, mas não a despreze.
"Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Não a cultive como uma doença, e sim como uma circunstância. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estética, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada. Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão, escreve Baudelaire.
"Ah, os livros, outra vez."
sábado, 10 de novembro de 2007
MIL VISITAS
NORMAN MAILER
Um dos maiores escritores vivos dos Estados Unidos, NORMAN MAILER, faleceu neste sábado. O autor abordava em seus romances a violência, sexo e crimes famosos. Mailer foi dos mais influentes no chamado jornalismo literário. Entre suas principais obras, estão: "Os Nus e os Mortos", 1948
"Parque dos Cervos", 1955
"Cartas abertas ao presidente", 1963
"Um Sonho Americano", 1966
"Canibais e cristãos", 1967
"Os Exércitos da Noite" ou "Os Degraus do Pentágono", 1968
"Miami e o cerco de Chicago", 1968
"O Prisioneiro do Sexo", 1971
"Marilyn: uma biografia", 1973
"A luta", 1975
"A canção do carrasco" ou "O evangelho segundo o filho", 1979 (Prêmio Pulitzer de Ficção)
"Noites Antigas", 1983
"Homem que é homem não dança", 1984
"O Fantasma da Prostituta", 1991
"A história de Lee Oswald - um mistério americano", 1995.
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