segunda-feira, 7 de novembro de 2016

RAZÃO, PARA QUÊ?

Diferente de Zaratustra (de Nietzsche), que desceu da montanha para ir ao encontro dos homens carentes de sabedoria, deixo a cidade e me refugio no campo – onde o canto dos pássaros contraponteia o silêncio destas manhãs azuis. 
Por longos anos a observar a realidade de centros urbano (Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba, Santiago, entre outros), constatei, com certa tristeza, que os homens não necessitam de saber para levar a vida que escolheram para si próprios. Da forma como a vivem, bastam-lhes as pulsões, os desejos e as crenças. As pulsões não os diferenciam dos outros animais (irmãos de ADN). As crenças os tornam vulneráveis à ilusão de uma vida além da morte. Os desejos os prendem, todavia, a esta vida, ao desfrute dos bens terrenos, à vaidade e ao consumismo. 
A razão não se desenvolveu suficientemente para o controle das forças instintuais e concupiscentes. A propósito, essa incapacidade se revela inclusive na maneira de pensar da maioria dos homens, ainda dependente de emoção. 
O sol que subia à caverna do sábio nietzschiano me ilumina na mesma janela, por intermédio da qual o contemplava nos primeiros momentos do dia. 
Não vim para acrescentar algo ao que já sei, senão para esvaziar a taça com esse mel que as abelhas não fazem (rejeitado por aqueles que se diziam meus próximos, no entanto). 

sábado, 29 de outubro de 2016

TEMPO DE PITANGA

          

    
      O ano demorava mais a passar ao longo da minha infância, marcado por ciclos sazonais – reconhecidos pelas frutas que davam em volta de casa, no campo e mata do Rincão dos Machado.
        O ano iniciava-se com a melancia e o melão, tão apreciados à sombra do cinamomo. Entre março e abril, a natureza produzia goiaba do campo e ariticum (foi uma decepção saber mais tarde o nome correto dessas frutas silvestres: feijoa e araticum). Logo depois, vinha a vergamota, consumida ainda verde. Depois da geada, ela ficava mais doce (como a laranja).
         A próxima estação, profusa em flores, produzia a pitanga. Nas cores laranja, vermelha e preta. Eram demasiadamente doces as pitangas daquele tempo. Meus lábios tingiam-se com o seu suco dulcíssimo.
     Minha concepção do tempo mudou, mudei também. A impressão é de que o ano passa mais depressa agora. O sabiá, todavia, continua a cantar nas pitangueiras da redondeza, e estas continuam a produzir seus frutos coloridos e doces.
        Nesta manhã, fui ver meu irmão plantar soja com o trator (plantio direto). Passei por um bosque de pitangueiras no retorno, deliciando-me com as mais maduras. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

CRÔNICA DO RINCÃO DOS MACHADO

Os galos cantam a qualquer hora da madrugada. Para não ligar as luzes da casa, vou ao banheiro com uma lanterna (que deixo em pé ao lado da cama). Por volta das seis horas, o pai se levanta, liga o rádio, ascende o fogo e toma chimarrão até clarear o dia. Logo também me levanto, porque já dormi o suficiente. No campo, deita-se cansado e se acorda maravilhosamente bem. Na cidade, vai-se para a cama maravilhosamente bem e se levanta cansado. Depois dos galos e do pai, os pássaros trazem a manhã com o som de seu canto diverso e encantador.  Um vento frio sopra da serra, de onde residiam Colpo e Fiorenza (meus ascendentes maternos). O céu ainda traz a profundidade azul de outubro, com nuvens em forma de tufo a cruzá-lo levadas pelo vento. Há paz para meus ouvidos, para meus olhos, para minha mente e coração. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O MELHOR DO PENSAMENTO UNIVERSAL

Com a mudança para o Rincão dos Machado, minha biblioteca ficou reduzida a uma estante especial (num total de cento e poucos livros). O critério para a eleição dos melhores ficou por conta das últimas (re)leituras: Richard Dawkins (11 títulos), Sam Harris (1), Daniel Dennett (1), Luc Ferry (8), Comte-Sponville (4), Michel Onfray (3), Wittgenstein (4), Ludwig Feuerbach (1), Baudrillard (2), Christopher Hitchens (2), Zygmunt Bauman (6), Cioran (1), Karl Popper (1), Darwin (2), Thomas Nagem (2), Hannah Arendt (1), Will Durant (2), T. Kuhn (1), Carl Sagan (2), Bertrand Russel (4), Theodor Adorno (2); Jared Diamond (3), Freud (28), Nietzsche ou escrito sobre (38)... Outros autores e títulos respectivos: S. Jay Gould, O polegar do panda; Roger Scruton, Pensadores da Nova Esquerda; Jim Holt, Por que o mundo existe?; José Ortega y Gasset, A rebelião das massas; Raymond Aron, O ópio dos intelectuais; Eric Vorgelin, Reflexões autobiográficas;  Georges Minois, História do ateísmo; Charles Taylor, Uma era secular; Brian Greene, O universo elegante; Stephen Hawking, O universo numa casca de noz... Não é coisa pouca, tampouco o é de pouca importância. O Rincão dos Machado, que tremia com a chegada do livro Olavo e Élida (há 50 anos), agora treme com o que há de melhor no pensamento universal. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

CHOVE CHOVE



Lá fora chove, chove...
chove aqui dentro,
onde aparento 
a maior secura.
Já estou cheio,
quase afogando
na própria água.
O céu, lá fora,
desaba, cinzento,
me fazendo raso
e triste como quem chora 
por dentro.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

DUAS PALAVRAS



          Na condição de internauta assíduo, penso sobre o ethos que emerge das redes sociais online, especialmente as de relacionamento. Essa predisposição intelectual não exclui a autocrítico, fazendo-me evoluir do solipsimo para a alteridade.

          Solipsismo e alteridade.

          Eis as duas palavras, dois significantes.

          Primeiramente, transcrevo seus significados (de acordo com Houaiss):


solipsismo s.m. 1 FIL doutrina segundo a qual só existem, efetivamente, o eu e suas sensações, sendo os outros entes (seres humanos e objetos), como partícipes da única mente pensante, meras impressões sem existência própria 2 P. EX. vida ou conjunto de hábitos de um indivíduo solitário.

alteridade s.f. 1 natureza ou condição do que é outro, do que é distinto 2 FIL situação, estado ou qualidade que se constitui através de relação de contraste, distinção, diferença.



          O indivíduo solipsista constrói o mundo ao seu redor a partir de suas experiências pessoais, não necessitando do outro para a afirmação do próprio eu. O outro e tudo mais representam o segundo o segundo termo da relação sujeito–objeto, oposição que acaba em conflito entre dois solipsistas. O (auto)isolamento é uma saída para esse tipo de indivíduo, geralmente atenuado com algum bichinho de estimação.

          A alteridade, ao contrário, caracteriza o indivíduo que se coloca no lugar do outro, que o considera como definidor de sua individualidade, “espelho” ontológico da interdependência. O outro também é sujeito, condição mínima para a sociabilidade, para o diálogo (respeitando-se as diferenças). Essa qualidade se aproxima de outras duas, que são fundamentais para um relacionamento humano saudável: empatia e altruísmo.

          Em vista do acima exposto, penso contribuir com meus amigos internautas em dois aspectos: a apresentação elucidativa de solipsismo e alteridade; e a (auto)crítica em relação ao comportamento nas redes sociais, questionando-o sobre uma inclinação solipsista.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

BOB DYLAN GANHA O NOBEL DE LITERATURA



A Academia Sueca surpreende (mais uma vez), conferindo o Prêmio Nobel de Literatura ao cantor BOB DYLAN.
Justificativa: Dylan criou novas expressões poéticas dentro da tradicional canção americana.

BLOG LIGADO

No dia 17 de agosto, postei aqui o que se segue:
O ASSASSINATO é um crime cada vez mais frequente em Porto Alegre, Santa Maria e noutras cidades brasileiras.
A família vitimada pede por justiça, reivindica por políticas públicas que priorizem mais segurança.
Tempo perdido (na dor extrema), quando a lei do crime hediondo, por exemplo, segue na contramão de todo protesto (involuindo no sentido de beneficiar o criminoso).
Pergunto aos meus amigos
Luiz Antonio Barbará Dias e Flávio Machado, por que isso acontece no Brasil. Não é um engano (ontológico) pensar que o avanço civilizacional ocorre na medida em que haja redução da pena, mais investimento no apenado, ao invés de haver mais paz em nossa sociedade?
A Constituição de 1988 não legisla pró-bandidagem, negando a cidadania à qual se remete pelo cognome?
Hoje leio num site noticioso:
"O Governo Michel Temer quer aumentar o tempo de cumprimento de pena em regime fechado de condenados por corrupção ativa e passiva e por crimes praticados com violência. O Ministério da Justiça prepara proposta que altera a Lei de Execução Penais para endurecer a progressão da pena".
Este blog está ligado.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

"A RELIGIÃO CONSISTE NUMA PROJEÇÃO ANTROPOMÓRFICA"


O edifício onde moro se localiza a menos de cem metros dos fundos da Igreja Matriz de Santiago. Nesta quarta-feira, 12, ouço uma missa sendo rezada em decorrência do dia de Nossa Senhora Aparecida. Oração, canto e locução do padre (não necessariamente nessa ordem). Às vezes, sem o ruído dos automóveis, identifico as palavras da oração, do canto e do que diz o padre. Noutro momento, o sabiá se sobressai com seu gorjeio natural. Aqui dentro, (re)leio os livros de Luc Ferry, na expectativa de encontrar um excerto e empregá-lo como argumento de autoridade numa análise crítica que devo produzir do livro Teoria U, de Otto Scharmer. Marcel Gauchet, que dialoga com Ferry, escreve esta frase perturbadoramente verdadeira: “A religião consiste fundamentalmente numa projeção antropomórfica”, fazendo alusão a Feuerbach, Durkeim e Freud. A missa continua, como um monumento discursivo à alienação dos cristãos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

REFLEXÃO EXISTENCIAL

A vida continua num ritmo inconstante, ora acelerado, ora vagaroso. O passado se acumula, com as experiências que pesam sobre o meu ser agora. O futuro se torna mais imediato a cada dia, com suas perspectivas em aberto, sem ponto de fuga. Entre ontem e amanhã, vivo num ritmo inconstante.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CRISE É(N)SINA

Leio a última postagem do blog do Júlio Prates, que expõe com objetividade um dos mil problemas da educação no Brasil. A chancela "federal" já não mais certifica um ensino de qualidade. 
Sobre os IFETS, Júlio assim se expressa: 
"Os IFETs não mostraram para o que vieram. Os resultados dos indicadores que medem qualidade de ensino são ridículos. O desempenho dos alunos dos IFETs são pífios. Não há entrosamento e nem projetos com a sociedade civil. Ora, com Mestres e Doutores tão bem pagos, com tanto dinheiro público enterrado nessa concepção de ensino, há indícios claros de que algo está muito errado. É uma mamação sem precedentes e sem se preocuparem em ofertar uma contrapartida para a sociedade. Assim, fica difícil até de sustentar a defesa dos IFETs".

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

IMPASSE


Do meu livro Vozes e vertentes.

AJUDANTE IMAGINÁRIO

O candidato a um cargo público é eleito e agradece a Deus em primeiro lugar, em segundo lugar aos eleitores que "depositaram" confiança em sua proposta de governo (ou melhor, em suas promessas).
O candidato não é eleito e também agradece a Deus em primeiro lugar, em segundo lugar aos eleitores que "depositaram" confiança em sua proposta de governo (ou melhor, em suas promessas).
Ambos são demasiadamente honestos em afirmar que não gastaram muito com a campanha, que o voto recebido foi por confiança pura em sua pessoa, podendo ser qualificado como voto politicamente correto.
Fico matutando... como é possível eles acreditarem num deus que interfere no processo eleitoral, independentemente do resultado ser positivo ou negativo. 
Não foi Deus que os interpelou, dizendo: "Fulano, te candidata nas próximas eleições! Pela fé com que todos agradecem, a impressão é que Deus os interpelou realmente. 
No lugar de Deus, pergunto do alto (ou do baixo) de meu ateísmo, não foi uma decisão pessoal, avalizada pelo seu partido. Antes de a decisão pessoal ser expressa e colocada para aprovação, não foi um ego?
Desde a descoberta do inconsciente por Freud, como é possível o homem continuar mentindo para si mesmo, colocando um deus no meio (no papel de um ajudante imaginário)?  

domingo, 2 de outubro de 2016

TOQUE DE SILÊNCIO

Em Capão do Cipó, foi determinado o "toque de recolher", como medida legal para a manutenção da ordem pública. Em Santiago, necessitamos de uma medida semelhante, que nos assegure o silêncio após as 22 horas. A lei existe, mas não é cumprida pelos notívagos.

sábado, 1 de outubro de 2016

UM PARADOXO

A grande PROMESSA do candidato A é a de trazer universidade pública para a nossa cidade. Ele deverá ganhar votos da juventude que deseja fazer um curso superior e não pode (uma vez que pertence à classe baixa). O discurso de A vai de encontro ao establishment, bastante representado pelo candidato B, que é elo entre o poder executivo municipal e a universidade privada com campus aqui.
Isso é paradoxal. Os analistas avaliam com correção que o candidato A é apoiado pelas classes média e alta. O candidato B, por sua vez, apoiado pela classe com menos recursos econômicos.

BALA & PALAVRA

Eleições em cidades pequenas do interior é momento em que a paixão se excede. Nos tempos em que meu avô era moço, a disputa também se efetivava na bala, a bala de estanho, quando a palavra, malgrado seu valor, não resolvia nada. Hoje ainda há bala, mas é a palavra que resolve(r), ou que tenta resolver às vezes e outras vezes abala mais as relações. A palavra imita a bala (em sua duplicidade funcional): há bala que adoça e outra que abala.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

SOCIALISMO OU BARBÁRIE?

Ao fazer 80 anos, Luis Fernando Veríssimo repete um chavão anticapitalista: "socialismo ou barbárie?". Socialista caviar, o escritor faz em Paris seus passeios mais regulares (onde tem um apartamento, frequenta a boa mesa, visita exposições, assiste a concertos).
Depois de Rosa Luxemburgo, ISTVÁN MÉSZÁROS, filósofo húngaro marxista, intitulou um de seus livros de O século XX - Socialismo ou Barbárie?. O autor reúne as mais estapafúrdias teorias conspiratórias contra o "imperialismo" norte-americano, contra o capital, em favor do socialismo.
Fiz várias anotações às margens do livro, quando o li em 2006, todas contrárias às ideias do filósofo.
Alguns absurdos produzidos por István:
"O capital não vai ajudar nem fazer tamanho favor à classe trabalhadora pela simples razão de que é incapaz de fazê-lo";
"O extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital "...
Catastrofista, István relaciona a destruição a uma possível hecatombe nuclear, não a uma degradação ambiental (por exemplo).
Conclui seu livro em dezembro de 1999 desta forma: "Por isso, o século à nossa frente deverá ser o século do 'socialismo ou barbárie'".
Hoje Zero Hora publicou um artigo de opinião de Denis Lerrer Rosenfield (professor de Filosofia),que baixa a lenha nesse dualismo criado por Rosa Luxemburgo. O articulista pergunta ironicamente se a Alemanha dividida do século XX poderia ser exemplo desse dualismo: a ocidental como bárbara (errada), e a oriental, socialista (correta). Quem tem mais de 40 anos de idade sabe como terminou a separação pelo Muro de Berlim. Os trabalhadores da Ásia e África, com a desculpa de fugir da guerra, querem ir para a Alemanha ultracapitalista.
Por que será?
A esquerda caviar deveria saber a resposta.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CARREIRAS/ELEIÇÕES


A paixão pela política chega ao seu clímax nestes dias, momento em que os debates se acirram com os candidatos no partidor e a massa de eleitores alinhada ao longo do andarivel. A agitação é geral, comparável às carreiradas de outros tempos. 
No domingo, com os parelheiros/candidatos em suas caixas/partidos, ocorrerá a largada. A velocidade de cada um deles será determinada pelo número de apostas/votos, hoje verificado eletronicamente. Em vista desse uso tecnológico, o resultado se saberá no final da tarde. 
A maioria dos apostadores/eleitores é convicta em quem apostar/votar, embora não consiga justificar tal convicção. 
O gosto pelas carreiras, a fé nesta ou naquela religião, a torcida para este ou aquele time de futebol, entre outras idiossincrasias, são decorrentes da instintualidade característica da grei humana. A razão ainda não consegue controlá-la, absolutamente. 
Para uma minoria, em contrapartida, a escolha recai no parelheiro/candidato que está à frente nas apostas/pesquisas. Estas são indesejáveis, na medida em que influenciam quem joga/vota nos favoritos. 
Mesmo que não se ganhe dinheiro com as eleições, diferentemente das corridas de cavalo, ganha-se o status da representatividade. A democracia é o ideal que move a paixão pela política, cuja culminância acontece neste dia 2 de outubro. 
Tão ou mais exaltados que a média dos brasileiros, encontram-se os santiaguenses. 
Boa sorte a todos (o que é prática e tecnicamente impossível).

sábado, 24 de setembro de 2016

MUSIQUINHAS DE CAMPANHA


A ignorância política de uma sociedade se expressa na forma escolhida pelos seus líderes para ganhar o voto (de crença e) de fato.
Essas musiquinhas, que poluem o dia todo para cima e para baixo, são da pior qualidade, rebotalho de uma degeneração estética sem precedente. Elas refletem o nível dos candidatos, sempre equivalente ao nível do populacho que os elege a um cargo público.
Toda música produzida no Brasil está em decadência, assim como a política.
Desafio você a me dizer o contrário.