quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UOTISAPÊS


Na edição de ontem, A Razão publicou o anúncio acima, editado por Pubblicità, de Santa Maria. Comentei com a pessoa que me mostrou o erro ortográfico (apontado pela seta), que isso já é uma influência do WhatsApp. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONSIDERAÇÕES NEOATEÍSTAS

Desde o dia 15 de novembro, deixei de publicar no Facebook. A propósito, excluí minha conta duas vezes, mas o sistema a mantém disponível. Não queimarei neurônios para entender isso. Neste tempo, ando ocupadíssimo com meu próximo livro, cujo título provisório é Considerações neoateístas. A temática principal está direcionada para a desmistificação da realidade, fazendo um escaneamento crítico dos livros sagrados, das religiões criadas a partir deles, dos efeitos nefastos que essas religiões causam no âmbito individual e social... O que escrevo não se destina ao presente, ainda dominado pelo mesmo paradigma religioso que atravessou a Idade Média. Das minhas considerações, posso repetir o que Nietzsche escreveu no Prólogo de O anticristo: "Este livro se destina a pouquíssimos. Talvez ainda não viva nenhum deles. [...] Só o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos". 
Meu alvo atual é O livro dos espíritos, de Allan Kardec. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONSUMISMO


Nossa sociedade se regala no auge de um modelo de vida caracterizado pelo consumo, que passou a ganhar status de exclusividade na segunda metade do século XX. Ele é tão cativante e açambarcador (de corpos e mentes), que inibe a tendência crítica de tudo submeter ao juízo.
A prática consumista é considerada, por um lado, como a própria felicidade e, por outro, como um mal (da impossibilidade de controlar os desejos, no âmbito da individualidade, à agressão causada ao meio ambiente, no âmbito coletivo).
Eis um paradoxo a desafiar pessoas inteligentes, ainda com coragem para ir de encontro à torrente humana, que toma as ruas e invade as lojas de todas as cidades do país.
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A chave para compreender essa corrida desenfreada e sem sentido é o desejo.
Aquém da necessidade e do poder de compra vem o desejo, a identificar ricos e pobres.
O budismo, em sua filosofia mais interessante, percebeu essa causa de infelicidade, de dor (segundo seu fundador, Sidarta Gautama), dois milênios e meio AP.
O que é o desejo? Mais especificamente, o que é o desejo de consumir?
Não há por que buscar uma resposta na psicanálise, em Krishnamurti, em Baudrillard, em qualquer autoridade sobre o assunto. Basta a experiência pessoal, a realidade.
O desafio não é fácil: abstrair a si mesmo da condição de objeto do desejo, para assumir-se como sujeito, que observa o desejo no momento imediatamente anterior à sua satisfação.
Esse (auto)percebimento é o que basta para o controle do desejo de consumir em si próprio.
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A época que antecede as festas de Natal e Ano-Novo é uma oportunidade excelente para analisar o desejo de consumir em si próprio e nos outros.
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O comercial de uma joalheria de nossa cidade beira as raias do absurdo, altamente persuasivo: para demonstrar seu amor, dê uma joia de ouro à pessoa amada.
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O consumismo substituiu a religião cristã, a igreja/templo pelo shopping center, Jesus Cristo pelo Papai Noel, o bem espiritual pelos bens materiais…
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“Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). O que deus separou, Edir Macedo uniu, por intermédio da doutrina da prosperidade.
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Tudo o que se encontra no alto de uma trajetória (parábola) tende a cair. Com o consumismo não será diferente. A queda não provocaria dor, caso os consumidores compreendessem seu desejo. Infelizmente, antes desse processo de autoconhecimento, a crise econômica obriga a diminuição do consumo. Ela o faz de uma forma dolorosa, cortando na carne e no espírito.    

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CEM ANOS ANTES DO PRESENTE (AP)


O Correio do Povo de hoje publica na seção "Há um século no Correio do Povo", a informação acima. 
Na época, o subintendente fazia um relatório ao intendente (depois prefeito) de todos os fatos que ocorriam no interior. 
A "zona colonial", referida no texto, diz respeito ao distrito de Ernesto Alves, onde residiam meus avós, Camilo Fiorenza e Maria Colpo.
Em 1915, o distrito produzia 10.000 sacas de trigo e 30.000 de feijão, malgrado o relevo mais pedregoso e acidentado do município de Santiago. 
Qual a tecnologia empregada nessa produção agrícola?
Arado pula-toco e enxada. 
Atualmente, poucos plantam naquelas encostas íngremes. Nada de trigo e feijão apenas para a subsistência. A cultura dominante é a soja, moeda com que os agricultores compram feijão e farinha nos mercados da cidade. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

CEM LIVROS


Com o livro Breviário de decomposição, de E. M. Cioran, fecho os CEM LIVROS adquiridos neste ano. Antes de vir para o computador, dei a primeira lida nesse filósofo:
"GENEALOGIA DO FANATISMO - Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada... Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instintos, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo".
Determinado pelo tempo e pelos olhos, li um terço dos livros adquiridos. Ultimamente, escrevo mais que leio, já pensando no próximo livro (na linha do neoateísmo). Os fragmento publicados abaixo são esboços das principais ideias que me fazem ocupadíssimo nestes dias. 
Hoje tive um insight: alguns livros são sujeitos criadores de mito, mensagens que propagam o mito e objetos de adoração, de mitificação. Por isso, tornam-se sagrados, absolutos para Cioran.
Eis os livros que passaram a constituir minha biblioteca este ano:

Ensaios filosóficos, Bertrand Russel;
Por que não sou cristão*, (Bertrand Russel);
Pensadores da nova esquerda, Roger Scrutton;
Uma era secular, Charles Taylor;
Literatura e psicanálise, diversos autores;
Nietzsche e o problema da civilização, Patrick Wotling;
O capelão do diabo, Richard Dawkins;
Desvendando o arco-íris, Richard Dawkins;
O relojoeiro cego*, Richard Dawkins;
O maior espetáculo da Terra, Richard Dawkins;
A magia da realidade, Richard Dawkins;
A origem do homem, Charles Darwin;
O incandescente, Michel Serres;
Vida líquida, Zygmunt Bauman;
Cegueira moral, Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis;
Cosmos, Carl Sagan;
O mundo assombrado pelos demônios*, Carl Sagan;
Breve história de quase tudo, Bill Bryson;
Deus não é grande, Christopher Hotchens;
Últimas palavras, Christopher Hitchens;
A essência do cristianismo*, Ludwig Feuerbach;
Mentes criminosas, Brian Innes;
Os misteriosos evangelhos apócrifos, Sérgio Pereira Couto;
10 Lições de Hume, Marconi Pequeno;
Manual de ética, João Carlos Brum Torres;
Dicionário Houaiss (grande), Instituto Antônio Houaiss;
O capital no século XX, ThomasPiketti;
Meus filósofos, Edgar Morin;
Os setes saberes, Edgar Morin;
A violência do mundo, Edgar Morin e Jean Baudrillard;
A sociedade de consumo, Jean Baudrillard;
A essência da Filosofia, Wilhelm Dilthey;
Introdución a la Filosofía, Julián Marías;
Historia de la Filosofía, Julián Marías;
Onde a religião termina?, Marcelo da Lu;
Homo aestheticus, Luc Ferry;
A potência de existir, Michel Onfray;
Pseudoproblemas da Filosofia, Rudolf Carnap;
Sapiens - uma breve história da humanidade, Yuval N. Harari;
Origens do totalitarismo, Hannah Arendt;
Filosofia - os autores, as obras, Jacqueline Russ;
A vida secreta de Fidel, Juan Reinaldo Sánchez;
A morte da fé, Sam Harris;
O papel do trabalho, F. Engels;
Código de Hamurabi*;
As consolações da Filosofia, Allan de Botton;
Dicionário filosófico*, Voltaire;
Totem e tabu, S. Freud;
Breviário de decomposição, E. M . Cioran;
História do ateísmo, Georges Minois;
Caderno Nietzsche 5, GEN;
Caderno Nietzsche 9, GEN;
Caderno Nietzsche 12, GEN;
Caderno Nietzsche 15, GEN;
Édipo: mito e complexo*, Patrick Mullahy;
Dicionário de Freud*;
O mínimo que você precisa saber..., Olavo de Carvalho;
Fundamentos da biologia moderna, Amabis e Martho;
Controlar o estresse, Sebastien Tubau;
Pequeno dicionário de arte poética, Geir Campos;
Canto de peixe & outros cantos*, Geir Campos;
Cantigas de acordar mulher, Geir Campos;
Atlas geográfico mundial, Olly Phillipson;
Nietzsche para estressados, Allan Percy;
Qual é a tua obra?, Mário Sérgio Cortella;
Filosofia prática, Márcia Tiburi;
Moderna gramática portuguesa, Evanildo Bechara;
Literatura portuguesa, José de Nicola;
Dicionário de verbos, Felipe Araújo e Lourdes Pinheiro;
Tratado de versificação, Olavo Bilac e Guimarães Passos;
A festa da insignificância, Milan Kundera;
Antes de nascer o mundo, Mia Couto;
Contos do nascer da terra, Mia Couto;
A coleira do cão, Rubem Fonseca;
Diário de um fescenino, Rubem Fonseca;
Urupês, Monteiro Lobato;
Cidades mortas, Monteiro Lobato;
Contos inefáveis, Carlos Nejar;
Jonas Assombro, Carlos Nejar;
Zão, Carlos Nejar;
O selo da agonia, Carlos Nejar;
Tratado do bom governo, Carlos Nejar;
Pedras de Calcutá, Caio Fernando Abreu;
Inventário do irremediávelCaio Fernando Abreu;
Limite brancoCaio Fernando Abreu;
A vida gritando pelos cantosCaio Fernando Abreu;
Agora aqui, Arnaldo Antunes;
Melhores poemas de José Paulo Paes, Davi Arrigucci Jr.;
Claro enigma, Carlos Drummond de Andrade;
A educação pela pedra, João Cabral de Melo Neto;
Luz mediterrânea, Raul de Leoni;
Todas as mulheres, Carpinejar;
Leaves of grass, Walt Whitman;
Tatuagem, Haydée Hostin;
50 Anos de poesia, Jayme Caetano Braun;
Pintura a óleo, Francisco Asensio Cerver;
Pintura e desenho (retrato), Carlos Loures;
Desenho & pintura, Nova Cultural;
Pintura a óleo, Globo;
Matemática (curso prático), Adilson Longen.

* Livros comprados pela segunda vez.
                                      

LIVROS SAGRADOS


Todos os livros sagrados são, ao mesmo tempo, fonte propagadora de mitos e objeto material mitificado. Noutras palavras, constituem-se na prova única de realidades que estabelecem como factuais.

Eles foram transformados em totem pelo homem já civilizado, especialmente o homo religiosus. Para isso, alguns aspectos totêmicos primordiais continuam presentes, o que os distingue dos outros livros.

A Bíblia narra sobre a “árvore da vida”, plantada no meio do Jardim do Éden. O totem para Adão, que não resistiu à tentação de violá-lo. Na cabeça de O livro dos espíritos, foi colocada a cepa de vinha, desenhada pelos próprios espíritos que ditaram a doutrina a Allan Kardec.

Fora do mundo ocidental, no Bhagavad-Gita, por exemplo, o deus Krsna dita a Arjuna: “Existe uma figueira-de-bengala que tem as raízes para cima e seus galhos para baixo… A pessoa que conhece essa árvore é o conhecedor dos Vedas” (Capítulo Quinze, primeiro verso).

Essas metáforas vegetais advêm do espírito do homem (que produz o livro) – como déjà-vu ou reminiscência da era totêmica. A árvore (de acordo com Sigmund Freud) era um dos totens recorrentes. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

CASO DE FÉ (VII)

Cedo ou tarde, o católico não praticante ou insatisfeito com a ortodoxia põe os olhos e as mãos num livro até então desconhecido: O evangelho segundo o espiritismo. A partir da leitura das primeiras páginas, ele se vê cerebralmente envolvido pelo ardil discursivo de Denizard Hipolyte Léon Rivail (Allan Kardec).
O espiritismo parasitou o campo conceitual judaico-cristão, com o fito de parecer autêntico e atrair adeptos. Repito, adeptos egressos do catolicismo. Os evangélicos, cuja denominação não é meramente cognática, são mais fiéis aos evangelhos. E os judeus, à lei mosaica.
Não me interessam as influências da maçonaria e do positivismo no construto teórico de Kardec. Meu objetivo inicial é destacar a maior contradição da doutrina espírita em relação aos Evangelhos: a reencarnação.
Os quatro evangelistas primordiais narram sobre a ressurreição de Jesus (Mt 20.1-10; Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; e Jo 20.1-10). O assunto é esmiuçado por Paulo de Tarso em sua Primeira Carta aos coríntios (15.4-19): “E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou… E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé”.  
A reencarnação prega que a alma passa por várias existências corporais, “depois de deixar um corpo toma outro”, para o seu “aprimoramento progressivo”. É exatamente isso o que está escrito nO livro dos espíritos, capítulo IV, sobre a “Pluralidade das existências”. Neste aspecto, o espiritismo constitui uma ordem teleológica, que aposta na evolução do espírito em direção à perfeição. Não compreendo por que o espírito necessita do aporte material, para evoluir numa dimensão outra, que não a dominada pelo corpo, pelos instintos abomináveis.
O mesmo fato que sustenta a ressurreição, o desaparecimento do corpo de Jesus do túmulo em que fora sepultado, denega a reencarnação. Da mesma forma, Hebreus 9.27: “Aos homens está destinado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo”. 
A ressurreição em três dias se justifica miticamente, porque aconteceu a Jesus, filho de Deus e Deus (a um tempo). Esse caso excepcional apenas aumenta a fé dos cristãos praticantes, que continuarão a esperar pela realização do mito até o fim dos tempos.
Para mim, neoateu, ressurreição e reencarnação são como que variações de um mesmo tema – a vida além da vida. A imortalidade é o sonho do homem. Não há mal sonhar esse sonho, exceto que, para sonhá-lo, é necesário transformar a vida real num pesadelo.
Antes do cristianismo, Sócrates e Platão haviam condenado os sentidos. Depois de Cristo, Paulo de Tarso, Santo Agostinho, a igreja católica, a reforma protestante, a metafísica moderna e Denizard Rivail, com a sua doutrina espírita, tentaram fazer deste mundo uma ilusão, um “vale de lágrimas, um lugar de dor, de pecado e de expiação.
       Definitivamente, necessitamos de uma ordem secular.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

CASO DE FÉ (VI)

A fé que leva ao fundamentalismo vem sempre amparada por um livro único. Tomás de Aquino, o cristão que mais buscou racionalizar suas crenças, já expressou de uma forma hiperbólica algo parecido: “Timeo hominen unius libri”*.
Para evitar distorção semântica, uso fundamentalismo como sinônimo de integrismo, obediência rigorosa aos princípios de uma organização religiosa ou afim. Hoje está em voga associar o termo ao terrorismo. Penso que a ação terrorista é movida também por uma componente política.
A fé de Irineu no Livro de Mórmon e a de meu colega de trabalho na teoria de Zecharia Sitchin confirmam a validade da sentença com que iniciei este texto. Ambos não leram outros livros, mas representam casos individuais de fé, incapazes de levá-la adiante, com suas frequências à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou a algum clube ufológico.
O mesmo não se pode dizer de um inquisidor católico, perseguindo, torturando e executando hereges. O livro em que se guia é um só: a Bíblia. Da mesma forma, um jihadista islâmico, investindo como homem-bomba contra cristãos. O livro em que se guia é um só: o Corão.
A Bíblia principia com um fratricídio (Gênesis) e termina com os sete flagelos (Apocalipse), uma extinção em massa. A ordem expressa pelo próprio Jeová era de matar em nome da fé, para prová-la (Abraão) ou para preservá-la (Moisés). O Corão conta com 164 versículos que exortam os fiéis ao combate. Em caso de não-conversão, a morte.
Esses dois livros orientam mais da metade da população mundial, em torno de 3,7 bilhões de pessoas. Não se trata mais de um leitor obcecado por este ou aquele livro, mas de civilizações.

* "Temo o homem de um livro só".
  

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

OUTRO PARADIGMA

A janela de vidro (grande e transparente) me permite ver um terço do céu azul, como um componente de leveza sobre a paisagem urbana. 
 Numa cadeira de praia, reinicio a leitura de A origem das espécies, de Charles Darwin. Na Introdução, o gênio já se expressa de uma forma desmitificadora: “As espécies não foram criadas independentemente, mas que descenderam, assim como todas as variedades, de outras espécies”.
De antemão, sei que o livro explicará como essa descendência foi (e é) possível, de encontro ao pensamento dos naturalistas vitorianos mais proeminentes.
 Imerso na leitura, sou surpreendido pelo toque do sino da Matriz, a menos de cem metros do edifício Dom Manuel (onde resido). Na sequência, ouço um canto religioso, em cujo ritornelo se destaca a palavra “cruz”.
Hoje é o dia da Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santiago. Por que não o santo que empresta seu nome à denominação do município? A força do paradigma cristão justifica essa afluência de ídolos – nunca suficiente para a demanda da fé.
A maioria dos santiaguenses é católica e, neste dia especial, reúnem-se para sair em procissão, rezando e cantando ao longo das ruas principais da cidade. Essas vozes destoam completamente da harmonia que se improvisava no meio da manhã.
Ato contínuo, faço do ensimesmamento o leitmotiv para esta crônica. Não há janela em frente à mesa onde escrevo, mas uma porta se abre para outro paradigma.   

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

CASOS DE FÉ (V)

O criacionismo ganhou uma variante pós-moderna, cujo mito fundador requer estatuto de ciência: a Ufologia. Alguns visionários creem que seres extraterrestres, superinteligentes, visitavam os homens no passado, com o fito de instruí-los em novas tecnologias. Zecharia Sitchin radicaliza essa influência, atribuindo aos nifilim (habitantes de um planeta que orbitaria o Sistema Solar a cada 3.600 anos) a própria criação do homo sapiens moderno.
A legião de seguidores a repercutir essas ideias estapafúrdias aumenta assustadoramente, à medida que os mitos antigos não resistem à desconstrução filosófica e científica. Dez religiões surgiram no último século, para celebrar os UFOs e seus tripulantes imaginários.
Ao longo de treze anos, tive um colega de trabalho que sabia O 12º planeta de traz para frente. Ele citava o primeiro enunciado do livro de Sitchin como axioma basilar, a partir do qual justificava sua fé: “o homem moderno é um estranho à Terra”.
Entre parêntesis: fé se distingue de convicção, uma vez que independe de provas, até mesmo de provas contrárias.
As conversas entabuladas por nós dois tinham início e término em torno da premissa acima, cuja presunção de verdade contradiz o evolucionismo gradual e cumulativo.
Eis o argumento de Sitchin:
"[…] súbita e inexplicavelmente, há 35.000 anos, uma nova raça de homens – homo sapiens (o “homem pensante”) – apareceu como vinda do nada e varreu o Homem de Neandertal da face da Terra". 
Meu interlocutor repetia o equívoco de seu mestre (que era um estudioso de Arqueologia). A propósito, a dificuldade em conceber o tempo passado constitui uma das limitações do nosso cérebro, deveras ocupado em processar milhões de informações do tempo presente.
Sitchin estabelece uma divisão evolutiva para o homem, ocorrida há 35.000 anos, que não houve. Análises recentes de pinturas rupestres asseguram que tais ocorreram de cinco a dez mil anos antes da data acima estipulada para o surgimento do Homem de Cro-Magnon. Nesse aspecto, Sitchin se assemelha a Erich von Daniken, acusado de fraude na produção de Eram os deuses astronautas?
A expressão “súbita e inexplicavelmente” escancara um reducionismo enganador, com que Sitchin ignora dezenas, centenas de milhares de anos. A “revolução cognitiva”, para seu governo, iniciou-se entre 70.000 e 100.000 mil anos atrás, com a descoberta do uso de símbolos pelos humanos.
A hipótese central de O 12º planeta é de que o homo sapiens moderno resultou de uma melhoria genética, conduzida pelos nifilim. Óvulos de fêmeas antropoides foram fertilizados com espermatozoides de extraterrestres. Manipulação genética interplanetária, ora!
Meu colega não me respondia por que o DNA do homem moderno e o do chimpanzé apresenta uma diferença de apenas 0,6%. A variação de ordem cromossômica que deu origem às duas espécies, sabemos agora, aconteceu entre seis e sete milhões de anos AP. A molécula de DNA, o replicador mais importante para a vida no planeta, tem uma história superior a três bilhões de anos.
Toda vez que lhe fazia alguns questionamentos como esse, meu interlocutor tergiversava (à maneira dos criacionistas cristãos). 

sábado, 5 de dezembro de 2015

ATEUS IMATUROS?

Olavo de Carvalho, que se autoproclama o maior filósofo brasileiro da atualidade, publica, em nota de rodapé (66) do livro O jardim das aflições, a seguinte opinião:

[…] A história do ateísmo militante é uma sucessão prodigiosa de intrujices. É que o ateísmo, em geral, é uma opção de juventude, prévia a qualquer consideração racional do assunto, e uma vez tomada não lhe resta senão racionalizar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. Não se conhece um único caso célebre de pensador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura, por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. […] O ateísmo militante é, por si, um grave sinal de imaturidade intelectual.

Antes de rebater o autor desse libelo, duas considerações são necessárias:
Na história da Filosofia, nunca houve uma hierarquização categórica entre pensadores de uma mesma época, independentemente da “extensão e persistência do influxo do gênio sobre a vida e as ideias dos homens”. Assim se expressa Will Durant, para justificar sua escolha dos dez “maiores” (que ele grafa entre aspas). Destarte, não podemos dizer quem é maior entre Platão e Aristóteles, a despeito da distância histórica que nos separa desses dois filósofos.
A propósito, os gregos distinguiam doxa de episteme, opinião de conhecimento. Nesse sentido, anunciei como “opinião” o excerto de Olavo de Carvalho. Ainda estou para questionar se tais enunciados alcançam esse estatuto.
A primeira frase, “A história do ateísmo militante é uma sucessão prodigiosa de intrujices”, é uma falácia pela generalização, recurso bastante conhecido do autor de Como vencer um debate sem precisar ter razão. Até o século XVIII, o ateísmo não chegou a constituir uma “história” contínua, uma vez que suas maiores expressões individuais não escapavam da perseguição, tortura e execução – práticas dogmatizadas pela igreja católica.Os processos movidos por tribunais inquisitoriais, sim, burlavam prodigiosamente a verdade, com o fito de incriminar indivíduos descrentes. Em várias cidades europeias, como Praga e Amsterdam, há um museu com instrumentos do terror imposto pelos abençoados representantes de Deus neste “vale de lágrimas”. Quem maior mal causou ao teísmo foi um monge católico: Nicolau Copérnico. Sua prova matemática de que a Terra girava em torno do Sol, afastou Deus para “o fundo do espaço sem limites” (conforme Durant).
Olavo de Carvalho não esperaria muito para ver uma verdadeira militância ateísta surgir entre intelectos contemporâneos do porte de um Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett, Sam Harris, entre outros.
A segunda frase do excerto olaviano, “O ateísmo, em geral, é uma opção de juventude, prévia a qualquer consideração racional do assunto”, ainda é menos verdadeira que a anterior. A opção pode se originar na juventude, logo que o indivíduo começa a entender o mundo, como foi meu caso. Ainda participava de um grupo de jovens cristãos, quando passei a ler Krishnamurti, Nietzsche e Freud, que me fizeram balançar na fé. Mais tarde, o livro A origem das espécies, de Charles Darwin, cairia nas minhas mãos de uma forma definitiva, arrebatadora. Salvo exceções, o ateísmo é irreversível. A prova empírica dessa verdade está na lista extensa de homens de cabeça branca (ou careca), que inclui nomes como Albert Einstein, Aldous Huxley, Athur Schopenhauer, Bertrand Russel, Carlos Drummond de Andrade, César Lates, Charles Darwin, Lévi-Strauss, Darcy Ribeiro, David Hume, Émile Durkheim, Heráclito, Isaac Asimov, Jacques Lacan, Jean-Paul Sarte, Jorge Luis Borges, José Saramago, Karl Popper, Monteiro Lobato, Noam Chomsky, Oscar Niemeyer, Pablo Neruda, Pablo Picasso, Stephen Hawking, Umberto Eco, Virginia Woolf, entre outros.
Na relação acima, há filósofos, cientistas, poetas, escritores, etc. Todos idosos, que deveriam ser considerados a regra por Olavo de Carvalho (ao invés de focar no senso comum). Ele insiste no equívoco, todavia: “Não se conhece um único caso célebre de pensador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura”. Nietzsche, filho de protestantes, constitui um exemplo de que a maturidade intelectual e o ateísmo são mais ou menos coincidentes. Sua juventude, certamente, representou uma fase de transição, em que se libertou do condicionamento imposto a ele desde os primeiros anos de vida.   
A racionalização é um processo psicológico em que o indivíduo encontra raciocínios (mais ou menos lógicos) para justificar sua crença, discurso e atitude. Depois da “revolução copernicana”, depois de Hume, depois de Kant, depois de Spinoza, depois de Feuerbach, depois de Darwin, depois de Nietzsche, depois de Freud, depois do Círculo de Viena (especialmente Rudolf Carnap), depois dos neodarwinistas e depois dos filósofos atuais (Luc Ferry, Comte-Sponville e Michel Onfray), o ateu não tem por que racionalizar, necessidade que se tornou um incômodo ao teísta.
Na sequência, lê-se que “toda fé religiosa coexiste, quase que por definição, com as dúvidas e as crises”. Outra falácia. A dúvida contradiz a fé, que se torna mais vulnerável ao espírito filosófico e científico. A crise é uma possível consequência da dúvida (que resiste ao dogmatismo). A consequência da crise é a perda da fé, ou sua recrudescência por intermédio de novas racionalizações.
O autor atribui ao ateísmo a “rigidez cega” das crenças de adolescente. Por acaso, a fé na maturidade evolui para uma menor rigidez?A cegueira persiste. Na maturidade, o ateísmo é esclarecido. Militante ou não.
Por derradeiro, Olavo de Carvalho conclui, a partir de suas premissas não verdadeiras, que o ateísmo é um “grave sinal de imaturidade intelectual”. Grave sinal? É possível um gradiente quantitativo para “sinal”, do insignificante ao grave, por exemplo? Umberto Eco, Stephen Hawking e Richard Dawkins, considerados grandes intelectuais, seriam imaturos, segundo a ótica do “maior filósofo brasileiro”? 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O SAPO E O ESCORPIÃO

A fábula africana do sapo e do escorpião serve de alegoria para o atual momento político brasileiro: Dilma e petistas da silva são representados pelo sapo da história. Eduardo Cunha, representado pelo escorpião. No meio do rio (no meio da crise), o escorpião (EC) cumpre sua natureza e ferroa (acolhe o pedido de impeachment) o sapo (Dilma e petistas da silva). Obviamente, o sapo morre pelo veneno do escorpião. Obviamente, o escorpião morre afogado (ou engolido por um peixe grande). Mas aqui, há uma chance da realidade não fechar com a fábula. De repente, o escorpião salta sobre um objeto qualquer que desce o rio. Para Eduardo Cunha, a salvação pode vir do PMDB. 
Um golpe dentro do próprio governo? 

IMPEACHMENT(?)

A princípio, fui contrário à ideia de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Pensava que seu governo chegaria tão mal em 2018, que não seria possível lembrar o nome de Lula da Silva como candidato à sucessão. 
O segundo argumento que defendi era de que a presidente não poderia ser, sozinha, responsabilizada por todo o mal causado ao país. Antes e por trás dela, há um mal maior: o Partido dos Trabalhadores. Antes e por trás desse partido, há um mal maior ainda: Lula da Silva.
Caso Aécio Neves houvesse ganho a eleição passada, seguramente, Lula da Silva voltaria com tudo em 2018. Neste momento, a crise econômica não depende deste ou daquele governo, mas a culpa recairia inteiramente sobre o Planalto.
Um amigo discordou de mim, com um terceiro argumento mais convincente: o atual governo de Dilma usaria a própria crise para justificar um aperto de cinto generalizado (o que está ocorrendo de fato), para, no último ano, reabrir os cofres públicos e continuar com a política desmascarada pelos escândalos do "mensalão" e do "petrolão" em prol da candidatura de Lula da Silva.
A partir de então, fiquei na dúvida. Respeitar a democracia, a vontade popular há um ano manifesta? Mas qual a diferença entre respeitá-la e ser permissivo com a corrupção, com a fraude, com o desgoverno?
O impeachment de Dilma causará um trauma quase irrecuperável na política brasileira, mas é necessário para levar ao passo seguinte: a culpabilização de Lula da Silva. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

CICLOS VITAIS

O homem, ao criar a história a partir da escrita, ampliou a duração de seus ciclos conhecidos, medidos até então pela passagem dos dias, das fases da Lua, das estações, dos anos, das gerações...
Limitado à oralidade, ao presente, o homem primitivo vivia dentro de uma bolha representada pela própria memória, fora da qual havia apenas esquecimento. Os causos, as lendas e os mitos eram como que uma ponte lançada sobre o desconhecido, sem um tempo e um lugar definidos para sua fixação. 
Ainda há uma dificuldade de se pensar ciclos maiores, malgrado o recurso da história: mil anos, cinco mil anos, um milhão de anos, cem milhões, um bilhão... 
O tempo registrado pela história é quase uma brevidade dentro da evolução da vida humana. Pouca coisa é conhecida dos cinco mil anos anteriores, cujo marco zero coincide mais ou menos com o início do Neolítico. O que aconteceu nos últimos cinco milênios do Paleolítico? Mal sabemos que os humanos passaram a desenvolver o processo de domesticação das plantas e dos animais. Como os homo sapiens modernos viveram entre 20.000 e 15.000 anos AP? Certamente, adaptando-se ao grande degelo. Num recuo maior, o que aconteceu com os nossos ancestrais entre 70.000 e 65.000 anos AP? E entre 200.000 e 195.000 anos AP? 
O período de cinco mil anos é tudo o que conhecemos entre a Suméria, com a invenção da escrita cuneiforme, e o presente.
Qualquer um dos períodos citados acima teve uma importância inimaginável. As atividades humanas ao longo de cinco mil anos vão muito além do provimento de comida, por intermédio da coleta e da caça. Durante a última glaciação, por exemplo, cinco mil anos não foram suficientes para abarcar a extensão do trabalho em construir vestes e abrigos quentes, em manter o fogo aceso - o real e o metafórico (assimilado pelo espírito do homem). 
A falta de conhecimento (e de memória) produz contra o passado um discurso tipo uvas verdes, revelador do menosprezo, do orgulho e da ingratidão do dito homem civilizado. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

HOMO PRIMATA

A maioria das pessoas que conheço considera o homem bastante distinto dos demais seres vivos a habitar Gaia. Um caso único, muito especial, extraordinário.
Mais de 90% dessa maioria têm uma resposta (e creem nela de uma forma inabalável): Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, de acordo com o mito criacionista (judaico-cristão). Outros repercutem ideias da ufologia e da ficção científica: somos filhos do espaço, criaturas gestadas, como elucubra Zecharia Sitchin, a partir do óvulo de uma fêmea homo erectus e do espermatozoide de nefilim, habitante de um planeta que orbitaria pelo Sistema Solar a cada 3.600 anos. 
Ideias extravagantes como essa não faltam para explicar a origem do homo sapiens.
Apenas uma minoria, por intuição ou conhecimento do processo evolutivo da vida na Terra, percebe o homem como partícipe desse processo. Com o avanço da biologia, especialmente da genética, não há mais como negar que a espécie humana descende do gênero homo e da ordem primata. Homem e chimpanzé compartilham 98,4% do mesmo DNA (segundo O terceiro chimpanzé: a evolução e o futuro do ser humano, de Jared Diamond.) Isso significa que as duas espécies tiveram um ancestral comum no passado, entre 6 e 7 milhões de anos AP.
O que impede o criacionista de compreender a verdade sobre nossa evolução? A crença no mito judaico-cristão? O preconceito antropocêntrico? A superestimação especista? 
Alguma coisa é, diferente da ignorância pura e simples.

MÁ EDUCAÇÃO


Na madrugada de domingo, o Banco do Brasil foi pichado (conforme as fotos acima). Antes de considerar o teor discursivo das pichações, deve-se reconhecer a nova modalidade de vandalismo em Santiago, que se associa àqueles que puxam a corda no sentido contrário à "Cidade Educadora". Essa ordem imaginada, cada vez mais, distancia-se de sua efetivação, à medida que cresce assustadoramente o número de pessoas mal-educadas.  

sábado, 28 de novembro de 2015

LINGUADO

Leitor, saberias me dizer por que o linguado tem os dois olhos no mesmo lado da cabeça?

SANTIAGO PAGA(?)

INFELIZMENTE, a cidade assume a culpa pelas coisas erradas que acontecem ou deixam de acontecer dentro de seus limites geo-humanos.
A boa e a má fama parecem disputar cabo-de-guerra num declive, tendo, na ponta da corda que puxa para baixo, todas as pessoas (físicas ou jurídicas) com tendências à negação - dentro de um amplo espectro que vai da ignorância pura e simples à maldade deliberada. 
Coerentes com essa alegoria, os exemplos indesejáveis não param de se constituir no horizonte de eventos do universo santiaguense. 
Nos últimos dias, o nome da nossa cidade esteve mais uma vez na berlinda, porque um indivíduo, ainda não revelado pela Polícia Federal, natural da Terra dos Poetas, liderava uma fraude contra a Previdência Social. Na sequência, uma quadrilha de abigeatários é presa (a partir de seu advogado). 
O show com Fernando e Sorocaba é outro exemplo, malgrado a boa intenção de seus idealizadores, que acabou culpabilizando Santiago - ao frustrar pela segunda vez a expectativa dos fãs do sertanejo universitário.
Uma cidade, segundo uma ideia do historiador Yuval N. Harari, está mais para uma ordem imaginada, intersubjetiva, que uma realidade objetiva, que é a soma de espaço geográfico, povo, cultura etc.
Minha sugestão é que, doravante, sejam declinados os nomes das pessoas/organizações responsáveis pelas coisas certas e pelas coisas erradas que acontecem aqui. O mérito ou a culpa (principalmente a culpa) dessas pessoas/organizações se diluem com a substituição metonímica da parte pelo todo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

CASOS DE FÉ (III)

Ninguém fora do Rincão dos Machado conhece meu pai pelo nome de batismo. Todos o chamam de Vatinho (apelido que derivou da corruptela “atinho”, diminutivo de Átilo).
Octogenário, ainda aplica injeção em gente e bicho com uma delicadeza muito requisitada. Outra fama também o acompanha nas últimas décadas: benzedor. Ele aprendera as palavras indecifráveis com que Manuel Maria, antigo morador do Mato da Erva, fazia levantar vaca prestes a servir de repasto aos urubus.
Numa de minhas visitas ao Rincão, a vizinha veio procurá-lo para que benzesse um boi infestado por uma bicheira horrenda. O pai prometeu-lhe o benzimento assim que saísse para o campo. Ela foi embora, e vim para a cidade – como o faço desde os catorze anos.
Marcos Antônio, meu irmão, contou-me mais tarde que a vizinha bateu à porta três dias depois. Ao avistá-la ao longe, o pai levou as mãos à cabeça, inconformado: esquecera-se de benzer o boi abichado.
Ela entrou na casa, despejando palavras de agradecimento ao compadre Vatinho. Segundo seu testemunho, a bicheira caíra num instante, feito um milagre. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

CASOS DE FÉ (II)


Alguns indivíduos, condicionados pelo Corão (com seus 164 versículos jihadistas), armados com o fuzil “kalashnikov”, invadem casas noturnas de Paris e matam 129 pessoas.
A metade ocidental do mundo se horroriza com o massacre, classificado como selvageria ou barbárie – nunca como ato deliberado da nossa civilização (que precisa ser preservada em seu princípio teleológico).
Oriundos do bairro Molenbeek de Bruxelas, os assassinos são (ou eram) uns jovens marginalizados, românticos, vítimas fáceis do fundamentalismo político-religioso. A responsabilidade de suas ações foi transferida para a organização terrorista que os recrutara clandestinamente.
Entre os atingidos emocionalmente pelas mortes, todos com a presunção de uma consciência evoluída, inclui-se o Papa Francisco, como figura mais proeminente do universo cristão.
O que ele disse não vem ao caso (por sua obviedade discursiva), mas a sua presença midiática faz-nos lembrar de outro massacre ocorrido em Paris, na noite de São Bartolomeu, em agosto de 1572. Não se sabe ao certo o número de mortos, entre dois mil e setenta mil protestantes. Seus algozes católicos foram autorizados pelo rei Carlos IX (com a idade dos rapazes de Bruxelas).
O fundamentalismo religioso daquela época centrava-se no Vaticano. O papa de então, Gregório XIII, mandou organizar preces festivas e contratou Giorgio Vasari, para pintar um afresco em homenagem à carnificina.
O paralelo macabro nos leva facilmente à conclusão a que chegou Sam Harris: “Parece haver um sério problema com algumas de nossas crenças e convicções mais caras acerca do mundo: elas estão nos levando, inexoravelmente, a matar uns aos outros”.     

CASOS DE FÉ (I)


Sócrates, o “Pai da Filosofia”, era religioso. Platão não faltaria com a verdade no princípio de A República: “Fui ontem ao Pireu com Glauco, filho de Aríston, para orar à deusa”.
A fala de Sócrates denuncia um dos motivos por que o condenaram á morte: a apresentação de ouros deuses à juventude de Atenas. Essa atitude do filósofo foi considerada um desrespeito aos deuses oficiais da pátria, Zeus e Cia.
A deusa, referida acima, tratava-se de Bêndis, levada à Ática pelos trácios. O povo grego a identificou com Ártemis, como ocorreria dois milênios mais tarde, no Brasil, com a Nossa Senhora dos Navegantes (catolicismo) e Iemanjá (candomblé).
A forma de conhecimento sistematizada por Sócrates e Platão (não necessariamente nessa ordem), somando-se à ciência fundada por Aristóteles, criariam um paradigma novo, que continua a excluir os deuses criados por todas as religiões.
Hoje sabemos que Zeus e sua trupe olimpiana não passavam de mito, de ficção. Bêndis, a deusa cultuada por Sócrates também uma criação da fantasia religiosa (que ainda dizem ser necessária ao homem). Há 25 séculos, todavia, caso um cidadão afirmasse a não existência desses deuses, sua vida valeria uma taça de cicuta.
Por que Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, santos e orixás continuam sendo cultuados como reais? Por que Jeová ainda vige? Por que Alá? Eles seriam animados pela fé de bilhões de pessoas? 
No futuro, saberemos que sim. 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

INEFICAZ, LENIENTE

O Brasil, por sua posição deslocada do eixo primeiro-mundista, não figura como alvo provável do terrorismo político-religioso.
Presentemente, nosso inimigo é outro: a droga. Muito mais perigoso, na medida em que sua cabeça, ao contrário do terror, encontra-se dentro do território nacional, agindo sob os olhares pusilâmines das autoridades.
Os traficantes continuam a comandar as atividades criminosas de dentro dos presídios, com maior segurança.
Esses absurdos são possíveis por duas razões muito simples: o estado ineficaz e a sociedade leniente (parte dela constitui todo o mercado consumidor da droga).

UBÍQUO, NEFASTO

O século XXI está mais para pacífico que belicoso. A amostra significativa destes 15 anos assim o caracteriza empiricamente. Da mesma forma o será, segundo perspectivas traçadas por uma prancheta inteligente.
As guerras hediondas, que registra a história recente, não mais se repetirão, malgrado o armamento nuclear desenvolvido a partir de Alamogordo, no Novo México. Os catastrofistas de plantão se calam ante a postura mais civilizada dos estados-nações.
O inimigo novo a ser rechaçado é o terrorismo. Não podemos classificá-lo como externo, uma vez que ele recruta seus soldados dentro do território a ser atacado. A cabeça do mal é facilmente localizada, mas seus braços são ubíquos.
O terrorismo é a síntese do que há de mais nefasto na política e na religião, ordens imaginadas que se revesaram na organização das guerras mais sangrentas dos últimos cinco mil anos.
O marco inicial deste século são os ataques conjugados nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001. (Do século passado fora o início do conflito mundial de 1914). 

domingo, 22 de novembro de 2015

CRIACIONISTA VERSUS EVOLUCIONISTA



O criacionista (judeu, cristão, muçulmano e espírita) encontra uma dificuldade insuperável para compreender o contraponto evolucionista, que desconstrói toda ficção religiosa, todo mito. Ele pertence, segundo Christopher Hitchens, à “infância de nossa espécie”, porque teima no que acredita. O máximo que consegue articular discursivamente sobre a evolução da vida pela seleção natural se resume a algumas anedotas que ridicularizam Darwin e sua descoberta (r)evolucionária.
À maneira de uma criança, ele responde afirmativamente ao questionamento  proposto por Richard Dawkins em O relojoeiro cego: “O olho humano poderia ter surgido diretamente de olho nenhum, em um único passo?”. O sim denuncia sua incapacidade de entender o não como resposta. Na sequência, tampouco se interessa pela outra questão, cuja resposta é sim: “O olho humano poderia ter surgido diretamente de algo ligeiramente diferente de si mesmo?”.
Tempo houve suficiente para que o olho humano evoluísse, gradual e continuamente, de um olho rudimentar – que não é o ponto inicial da trajetória evolutiva. Antes dele, preexistia uma forma de vida sem olho algum. Em certas espécies atuais, esse órgão dos sentidos continua pouco desenvolvido, cumprindo a única função, por exemplo, de identificar a direção da luz. Mas essa limitação é incomparavelmente melhor que a escuridão completa. Uma variação genética que permitisse ao indivíduo identificar a luz com um pouco mais de nitidez, certamente o dotaria de melhores condições de sobreviver e de passar adiante seu gene.
Eis, na essência, a evolução pela seleção natural.
O olho humano é citado, com frequência, pelo adepto do design inteligente, como exemplo de complexidade incapaz de ter sido gerado pela seleção natural. Aliás, o homem como um todo, feito a imagem e semelhança do próprio criador concorre para o fundamento de sua religião.
 Segundo a História Natural, o homem encontra-se classificado como pertencente ao reino animalia, filo chordata, subfilo vertebrata, classe mammalia, ordem primata, subordem antropoidea, superfamília hominoidea, família hominidea, gênero homo, espécie homo sapiens. A águia, por exemplo, pertence ao mesmo reino, filo e subfilo do homem, distinguindo-se a partir da classe. A águia é uma ave, e o homem, um mamífero. As duas espécies evoluíram de ordens distintas, de famílias distintas, de gêneros distintos, de espécies ancestrais distintas, as quais apresentavam um olho com X-1 de capacidade. Nem por isso, o olho deixava de cumprir suas funções.
Malgrado o caminho diferente na evolução anterior ao surgimento das duas espécies em pauta, criacionista e evolucionista são unânimes em julgar que o olho do homem e o olho da águia são “perfeitos”. A concordância entre os dois, todavia, não ultrapassa esse juízo.
A “perfeição” do olho (no homem e na águia), para o criacionista, constitui o resultado (e a prova) de um ato único de Deus – o designer inteligente. Assim encontra-se narrado nas Escrituras Sagradas, assim ele acredita inabalavelmente. Para o evolucionista, o olho evoluiu de um modelo um pouco menos desenvolvido, que, por sua vez, evoluíra de um modelo anterior um pouco menos desenvolvido. O recuo no tempo chega ao olho rudimentar (e deste, a olho nenhum).
As aspas colocadas nos termos “perfeição” e “perfeitos”, nos parágrafos acima, têm o propósito de dizer uma coisa ainda mais surpreendente: a evolução do olho em qualquer espécie viva não chegou ao fim. A natureza continua a fazer a seleção dos indivíduos que veem melhor. Exceto com a interferência humana, dando oportunidade aos menos aptos e conduzindo espécies inteiras à extinção. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

DOIS ARGUMENTOS


        Num diálogo de Os irmãos Karamázov, de F. Dostoiévski, Mítia fala a Aliocha:

– O único problema que me atormenta é Deus. E se por acaso Ele não existisse? Então, se ele não existisse, o homem seria o senhor da terra, da criação do mundo. Magnífico! Mas como o homem seria virtuoso sem Deus?

Smerdiakov, outro personagem do romance acima, parece responder na sequência: “Se Deus eterno não existe, tampouco existe virtude”.
Sartre, ao atribuir a frase “Se Deus não existisse, tudo seria permitido” a Dostoiévski, caracterizava o existencialista como o primeiro teísta saudoso de Deus, obrigado a viver num mundo laicizado.
A partir do questionamento de Mítia (“como o homem seria virtuoso sem Deus?”) e da angústia existencialista, aproximo-me do senso comum (para quem Dostoiévski e Sartre são dois estranhos), dando-lhe a oportunidade de conhecer dois argumentos que denegam sua crença (como responsável por conduzir o homem no caminho da moral necessária).
O primeiro argumento é de que a moralidade precede a criação dos deuses e das organizações religiosas. O homo sapiens do paleolítico foi capaz de sobreviver dezenas de milhares de anos em grupos cada vez maiores, graças a uma ordem social. Christopher Hitchens acertou em cheio: “A decência humana não deriva da religião – é anterior a ela”.
Antes de expressar o segundo argumento, saliento que o budismo, a despeito de ser uma religião, não tem deus. Nenhuma outra ordem imaginada conseguiu dar à criatura humana maior doçura e felicidade.
Assim como houve moralidade antes de deus (e de todas as formas de culto a ele dirigidas), passou a haver depois, com o processo de secularização. O primeiro alvor da era secular que estava por vir foi contemplado no ano de 1543, com a publicação do livro Da revolução de esferas celestes, de Nicolau Copérnico. Sua claridade aumentou com o empirismo e o racionalismo (não metafísico). O sol despontou com o iluminismo, aumentando seu brilho com Charles Darwin, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Albert Einstein, Edwin Hubble, Círculo de Viena, Richard Dawkins, os filósofos ateus contemporâneos… No âmbito político, ela se configura na laicização do estado moderno.
A era expressa nesse segundo argumento, diferente da New Age, evolui para um ateísmo absoluto, ao contrário do que vislumbrou André Malraux para o século XXI, sem as concessões feitas por Charles Taylor à multirreligiosidade. A civilização ocidental marcha a passos largos para se libertar dos mitos do sobrenatural.