sábado, 31 de maio de 2014

UMA INTUIÇÃO

Depois de DARWIN, NIETZSCHE e FREUD (para não dizer História Natural, Filosofia e Psicanálise), nada mais fácil do que considerar hermeneuticamente a Bíblia uma narrativa que não se situa no plano histórico. Nesse sentido, recorro a Eugen Drewermann, que não é ateu, mas teólogo (da estirpe de um Lutero) que merece ser conhecido pelos cristãos do mundo inteiro.
Ao ler na manhã de hoje a passagem do Gênesis em que Jeová expulsa Adão e Eva do jardim do Éden, tive a seguinte intuição: 
o homem não foi expulso (de algum lugar que não tivesse voltado jamais), mas abandonado à sua condição humana - recém alcançada com a primeira escolha que fez, emergindo da animalidade que lhe impusera a natureza.
O paraíso é uma vaga lembrança do passado (sem uma consciência minimamente desenvolvida), uma transcendência reversa. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

DUAS PÁGINAS DE LUC FERRY

"Dizer que o marxismo era uma religião de salvação terrestre, sem dúvida, não estava errado. E é verdade que as grandes utopias deram, durante décadas, sentido à vida dos indivíduos - tanto aos que nela acreditavam, por acreditarem, quanto aos que as combatiam, por combatê-las. Cada qual podia, então, ter seus objetivos e, com isso, situar sua ação dentro de um quadro significante. E ainda seria preciso perceber com clareza em que as diversas variantes do comunismo não puderam fornecer sentido senão graças a uma autêntica estrutura religiosa, hoje em dia revogada: implicavam, mesmo em suas versões materialistas mais bem secularizadas, a ideia de um 'além' da vida presente. Mais ainda, concebiam esse além de maneira teológica, ao mesmo tempo superior aos indivíduos e inscrito dentro de um instante salvador, o da revolução - equivalente leigo da conversão. Elas conferiam uma significação global ao projeto militante de um sacrifício de si em nome de uma causa que, mesmo supostamente material, nem por isso deixava de ser transcendente. 
"Apesar do ateísmo de princípio, o marxismo soube articular essa transcendência absoluta do ideal com a intimidade ou a imanência radical da vida cá embaixo. O militante, é verdade, trabalhava para o futuro, para as próximas gerações, para o advento da sociedade perfeita, do paraíso na Terra, mas essas aspiração ao além se encarnava em uma série de práticas concretas que pretendiam dar uma significação aos menores detalhes da vida terrestre. Por reciprocidade, as tarefas cotidianas mais modestas, como a venda de jornais engajados da saída das fábricas ou a organização de uma reunião, se enraizavam no horizonte imaterial de um mundo melhor. Religião, religare, religar, diz-se muitas vezes, segundo uma etimologia que, mesmo contestada, não deixa de ser eloquente: é essa ligação do aqui com o além que também assegurava o laço entre os militantes. A leituras dos jornais era a reza da manhã. Eles podiam, acontecesse o que fosse, nela desvendar aquele famoso 'sentido da história' da qual suas existências pessoais, mesmo que em nível modesto, faziam parte ativa.
"Foi nesse remanejamento secular do religioso que, em grande parte, residiu o extraordinário poder de fascínio que o comunismo exerceu durante um século e meio. Como, de outra forma, compreender que dezenas, ou mesmo centenas de milhões de homens nele se tenham inteiramente lançado? A religião é insubstituível como fornecedora de sentido. E Deus sabia da necessidade de sentido, nos dias seguintes das Guerras Mundiais. A tal ponto que, após a Segunda, o marxismo pareceu afinal como a única doutrina de peso capaz de inscrever a absoluta falta de sentido dentro de uma visão otimista da história e assim enfrentar as duas novas encarnações do Diabo: o nazismo e o imperialismo colonial. Retrospectivamente, de fato, é difícil ver como um intelectual poderia ainda manter alguma confiança nos valores da democracia liberal e da 'civilização' europeia em 1945! E que se pense isso não para legitimar, mas para tentar compreender a dimensão da ilusão... e das desilusões que viriam.
"Foi essa relação com o sentido, tanto da história mundial quanto da vida pessoal, que esvaneceu sem que nada tenha vindo substituí-la nesse terreno. E foi pela laicização do nosso universo que uma doutrina, ainda de certo modo religioso, naufragou no Ocidente, antes até que a Perestroika lhe desse fim, no campo soviético. Por essa razão, o fim do comunismo implicou um vazio maior do que se disse, um vazio que não poderia ser preenchido por qualquer ideologia substituta, a mesma que possuísse as mesmas virtudes teológicas. Mas é este o ponto sensível: os avanços da laicidade, paralelamente aos do individualismo, criaram por todo lado obstáculo ao retorno dos dogmas e dos argumentos de autoridade. Com o naufrágio do  marxismo, não foram somente as ideias políticas que animaram a vida de milhões de indivíduos que se viram invalidadas, mas também toda uma visão teológica da política."
(Do livro O homem-deus - ou o sentido da vida, de Luc Ferry.)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

COPA DO MUNDO


TODOS os brasileiros devemos saber desde já que o GOVERNO FEDERAL gastará aproximadamente 30 BILHÕES com a COPA e que a FIFA lucrará aproximadamente 15 BILHÕES (sem pagar um centavo de imposto, diferentemente das outras edições). 
A grande dúvida que assalta um grupo de conspiradores: o BRASIL comprou o resultado? No país de LULA e do MENSALÃO, essa compra é factível. 
O grande teste para a seleção brasileira será dia 28 de junho, caso chegar em primeiro lugar em seu grupo, ou dia 29, se chegar em segundo. Prováveis adversários: Espanha e Holanda. 
Nos dias acima referidos, poderemos testemunhar sobre um possível favorecimento para a nossa seleção (o que comprovaria a tese conspiratória). 
Não me incluo entre esses conspiradores.
Para ser mais realista que o rei (Pelé), lidero o grupo de outros, que veem o Brasil com sério risco de ser desclassificado nessa primeira fase do mata-mata, contra a Espanha ou a Holanda. 
Caso isso aconteça, os brasileiros não deveremos chorar - como já aconteceu em 1950, ante o Uruguai. A derrota será mais honrada (sim, ainda há lugar para a honra neste país) do que a vitória comprada com dinheiro público.   

terça-feira, 27 de maio de 2014

VESTIBULAR - ENEM



Além do nome, o que continua o mesmo e o que muda do vestibular para o ENEM?
Ambos continuam sendo um exame aplicado aos concorrentes ao ensino superior. O vestibular para as universidades particulares. O ENEM para as universidades públicas. As provas se assemelham na avaliação dos conteúdos, que continuam os mesmos: ciências humanas, ciências da natureza, linguagens (mais redação) e matemática. Questões de múltipla escolha. O ENEM quadruplicou o número de itens, com um sistema de avaliação diferenciado. A Teoria de Resposta ao Item (TRI) leva em consideração o poder de discriminação, o grau de dificuldade e possibilidade de acerto ao acaso. Todavia, o ENEM não excluirá o decoreba, como pensam seus idealizadores. Tampouco democratizará a seleção dos candidatos, exceto pela isenção da taxa de inscrição. A diferença significativa em favor do ENEM consiste na descentralização da prova, bem como da escolha da universidade e do curso, que fica em aberto. A seleção por intermédio do vestibular era meritocrática, privilegiando as melhores notas. Da mesma forma por intermédio do ENEM, embora este já assimile o programa ditatorial de cotas.  
Sem dúvida, o ENEM reflete um novo paradigma político-educacional. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

FATALIDADE?

Madrugada porto alegrense. 
Dois automóveis disputam um racha na Avenida Ipiranga. 
Os sujeitos da ação, todavia, são dois condutores embriagados, ainda protegidos pela metonímia "dois automóveis". 
Dois rapazes dominados pela mesma pulsão emulativa.
Alta velocidade.
O fator contingente (com o acidente) muda para necessário de uma forma brusca, inesperada.
O resultado imediato é a morte de uma jovem, que ocupava o automóvel impactado por uma árvore.
Como justificar o injustificável?

domingo, 25 de maio de 2014

VISÃO FILOSÓFICA DO MUNDO*

"As massas nunca serão filósofos." Esta frase de Platão é válida também hoje. A maioria dos homens retira a sua visão do mundo de uma tradição religiosa ou de qualquer outra tradição que suga com o leite materno. Mas quem aspira a uma visão do mundo fundada filosoficamente tem que ter a coragem de se apoiar na sua própria razão. Deve duvidar tentativamente de todas as opiniões herdadas e não deve reconhecer nada que não lhe seja pessoalmente inteligível e fundamentável. Apesar de que a filosofia pertence e sempre pertenceu a uma elite que se reúne em torno da personalidade extraordinária de um pensador, a visão do mundo fundada em filosofia não deixa, de forma alguma, de ter uma influência sobre a marcha da história. Pois toda história é essencialmente uma obra das elites e dos seus imitadores. É preciso somente pensar na ação exercida por Platão e Aristóteles sobre as doutrinas da Igreja ou na ação poderosa, abaladora e renovadora do espírito que I. Kant, J.G.Fichte, Schelling e Hegel exerceram sobre a Alemanha das guerras de libertação e sobre os seus líderes políticos e militares, seus poetas e educadores, a fim de ter diante dos olhos um exemplo desta influência de uma elite filosófica.
* Visão filosófica do mundo, de Max Scheler.

PADRÃO BRASIL

Um exemplo claro de má gestão: o aumento no número de sedes para os jogos da Copa no Brasil. A FIFA exige oito. Dois cidadãos brasileiros, respectivamente, nos cargos de presidente da nação e da CBF, pressionaram para doze. Má gestão, cabal e indesculpavelmente. Por excesso (como marca registrada brasileira).

terça-feira, 20 de maio de 2014

LENDO E APRENDENDO

No livro O terceiro chimpanzé, Jared Diamond* escreve um capítulo com este título: "Por que fumamos, bebemos e consumimos drogas perigosas?".
Uma das teses que respondem ao questionamento é de que o consumidor exibe-se indiretamente: sou forte e superior (posso esbanjar saúde). Engana-se: os custos pelo abuso de substâncias químicas superam os benefícios.
Diamond escreve que os arqueólogos que estudaram a civilização maia, que floresceu na América Central, intrigavam-se com uns tubos finos que encontravam nas escavações. "A função dos tubos só foi esclarecida com a descoberta de vasos pintados com cenas em que o tubo era usado: a administração de substâncias químicas por enemas". Isto é, introdução pelo ânus de um líquido, provavelmente contendo álcool ou alucinógenos.
A vantagem do processo: a droga é absorvida pelo intestino, diretamente para a corrente sanguínea, sem provocar náuseas, sem passar pelo fígado.
Lendo e aprendendo.
* Jared Diamond foi eleito um dos dez maiores intelectuais da atualidade (ao lado de Noam Chomsky, Umberto Eco, Richard Dawkins, entre outros).

MACACO?


A designação de macaco para o homem de pele escura denuncia uma ignorância não justificável acerca da evolução biológica dos primatas, que não poderia sequer expressar um preconceito racial. 
Os filósofos gregos da antiguidade clássica estavam certos: a virtude (disposição para fazer o bem) adquire-se com a sabedoria - algo incomum em tempos modernos. 
O racista demonstra um conhecimento limitado e, certamente, não emprega o termo macaco como hiperônimo das espécies concestrais do homem, tampouco como metáfora que rebaixe o ofendido à animalidade. Seu objetivo é a discriminação simples e perversa.
Ele não sabe desses recursos discursivos, bem como da nossa história evolutiva. A espécie comum que deu origem aos macacos, por um lado, e aos grandes primatas, por outro, dividiu-se há 25 milhões de anos. Entre o macaco e o homem, há uma distância pontuada pelo gibão, siamango, orangotango, gorila, bonobo e chimpanzé.
Toda comparação (não pejorativa) deveria ocorrer entre humanos e os grandes primatas, principalmente bonobo e chimpanzé. A comparação com macaco, nas palavras de Richard Dawkins, não passa de um solecismo (erro por desconhecimento do assunto).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

QUEIJO E CANTO

Santiaguenses, evitemos o êxtase do próprio canto, sob pena de deixarmos cair o queijo de "cidade educadora". As raposas se encontram logo abaixo, prestes a abocanhar aquilo que fingem desdenhar com astúcia.
Num sentido contrário ao ideal (ao programa), no plano da realidade, Santiago não se diferencia de outros centros urbanos, também sendo suscetível de todos os problemas que atingem nossa sociedade de maneira geral.
A pequena desordem no trânsito e o crescente consumo de droga são dois exemplos que dificultam uma melhora na qualidade de nossas vidas. O número de veículos em circulação cresce dia após dia, encurtando o espaço, aumentando o ruído, instituindo a pressa... O maior consumo de droga potencializa o crime (de tráfico).
Não demora, corremos o risco de ficar sem queijo e sem canto.

SANTIAGO IMITA O RIO

Nossa cidade foi notícia estadual nesta segunda-feira: ex-zelador do cemitério municipal vendia terrenos ilegalmente. No Rio de Janeiro, funcionários da Santa Casa vendiam - da mesma forma - jazigos dos cemitérios públicos administrados por essa instituição.

domingo, 18 de maio de 2014

SUGESTÕES DE LEITURA


Após ler seis livros do filósofo francês Luc Ferry, retomo a leitura de O terceiro chimpanzé, de Jared Diamond, cuja capa vai acima ilustrada.
Depois de um filósofo atualíssimo, um cientista também atual (biólogo evolucionário).
De Jared Diamond são Colapso e Armas, germes e aço (este um dos melhores livros que li até hoje).

sábado, 17 de maio de 2014

EXCERTOS DO LIVRO DE FERRY

"Ao regime nazista e à vontade pessoal de Hitler devemos ainda hoje as duas legislações mais elaboradas que a humanidade já conheceu em matéria de proteção da natureza e dos animais. 
"Na França, dada a tradição cartesiana, mas também na maior parte dos países católicos do sul da Europa, a ecologia ainda não encontrou teóricos comparáveis aos do mundo anglo-saxão ou germânico.
"O humanismo cartesiano é sem dúvida a doutrina que foi mais longe na desvalorização da natureza em geral e na do animal em particular.
"O ecologista radical se persuade de que seu combate está em total ruptura com o universo que ele quer destruir.
"A modernidade antropocentrista é um total desastre.
"Aristóteles ou Descartes? Eu me pergunto às vezes qual dos dois estaria à frente na reprovação de nossos contemporâneos, se ainda se aventurassem a lê-los. O primeiro, por tem justificado a escravidão 'por natureza', ou o segundo, por ter tanto e tão bem distinguido os homens dos animais que chegou a considerar estes últimos como simples máquinas?
"A posição utilitarista é diferente da ecologia profunda.
"'Pensar como uma montanha': o programa se anuncia delicado para alguns de nós. De uma forma ou de outra, é exatamente nesses termos que Aldo Leopold, aquele que muitos consideram o pai da 'ecologia profundo', nos convida a derrubar os paradigmas que dominam as sociedades ocidentais.
"A deep ecology, ecologia profunda, encontra um verdadeiro eco fora do meio acadêmico, assim como no estrangeiro: ela inspira, por exemplo, a ideologia de movimentos como o Greenpeace ou Earth First, de associações tão poderosas quanto o Sierra Club, mas igualmente de uma fração importante dos partidos Verdes."

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A NOVA ORDEM ECOLÓGICA


No dia 19 de fevereiro, iniciei a leitura de Luc Ferry, filósofo francês da atualidade. O primeiro livro foi O  homem-deus (que o reli). Seguiram-se A tentação do Cristianismo, Depois da religião, O que é uma vida bem-sucedida, Aprender a viver (filosofia para os novos tempos. Hoje leio o sexto livro do pensador: A nova ordem ecológica (a árvore, o animal e o homem). Uma boa crítica à ecologia profunda.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

AONDE ANDAVA O HOMEM?

Aos  que ainda creem na imediata e completa criação do homem por um deus, do homem dotado de uma alma transcendente, sugiro um exercício simples, que deveria ser do conhecimento de todos: acompanhar a linha do tempo desde o princípio.
O ponto mais distante que sabemos da história do Universo (atual) é o Big Bang - não mais uma teoria, mas um fato já incontestável. Essa grande "explosão", ou, para empregar uma fórmula de Aristóteles, transformação da potência em ato em âmbito cosmológico, ocorreu há aproximadamente 14 BILHÕES de anos. Após uma gigantesca inflação, iniciou-se o processo de formação das galáxias, estrelas e planetas (não necessariamente nessa ordem). Até a formação do Sol, decorreriam oito a nove BILHÕES de anos, bagatela de tempo muito superior à existência dessa estrela familiar. 
Aonde andava o homem com sua alam e seu deus transcendentes?
Em torno do Sol, formaram-se os planetas, entre os quais a Terra. Este planeta demoraria aproximadamente 4 bilhões de anos para dar um grande salto vital, chamado de "explosão cambriana". Mais uma vez "explosão". 
Repito o questionamento acima: Aonde andava o homem... nesse tempo todo?
Após a explosão cambriana, Gaia demoraria 300 milhões de anos para produzir a classe dos répteis, cuja extinção ocorreria tão somente há 65 milhões de anos. 
Durante o domínio dos dinossauros, questiono outra vez: Aonde andava o homem...?
Depois da extinção dos répteis, os mamíferos ganharam a chance de se desenvolver por milhões e milhões de anos, até o surgimento da ordem dos primatas.
Nada do homem.
Dezenas e dezenas de milhões de anos se passariam até o surgimento de um antropoide, cujo DNA pouco se distinguia do chimpanzé. 
Entre dois e três milhões de anos se passariam com o projeto de homem andando de quatro sobre as árvores. 
A indagação (já formulada) continua pertinente.
Há 4 MILHÕES de anos, forçado por uma causa qualquer (como a mudança de habitat), o hominídeo começou a se locomover sobre os dois pés. 
A partir dessa primeira "humanização" fisiológica, passar-se-iam dois bilhões de anos para que o homo habilis desenvolvesse os primeiros instrumento de pedra. Até então, seus ancestrais se utilizavam cada vez mais das mãos (desocupadas com o bipedalismo). 
Um milhão a um milhão e meio de anos se passariam para que o fogo fosse descoberto e dominado pelos ancestrais do homo sapiens. Menos de 500 mil anos para a linha do tempo chegar ao fim, a esta sua concepção textual.
Homo de neandertal (antes do sapiens), sapiens e sapiens sapiens, nossos ancestrais evoluíram sem se atribuírem um deus e uma alma sobrenaturais, transcendentes. 
Até 12 mil anos atrás, um intelecto que observasse de fora o desenvolvimento humano, não veria nada além da imanência. Não máximo, ele se encantaria com a linguagem oral e pictográfica. Todavia, há 12 mil anos, o homem passa a domesticar plantas e animais. A excesso de alimento (proteínas) deve tê-lo dotado de novas associações neurogênicas, que o levou a sonhar com a transcendência, com um deus, com a própria imortalidade. No Crescente Fértil, notadamente, um povo das montanhas, de pastores de ovelhas, prestou-se para fazer a inversão fundamental, transformando-se em criação especial do deus criado por ele. 
A partir da consolidação escrita do mito judaico (pelo rei Josias) há dois mil e oitocentos anos, a pergunta acima tem uma resposta. Eis um deus, ao mesmo tempo criador do Universo e pai do homem. Eis o homem, imagem e semelhança de um deus, destinado a viver, morrer e ressuscitar para a eternidade. Apenas os escolhidos, diga-se de passagem.
Obviamente, os criacionistas me dirão que os dias da criação do mundo, narrados no Gênesis, constitui uma metáfora, porque o Criador é eterno, encontra-se fora do tempo (como teologizou Santo Agostinho). 
Fundamentado na minha exposição, outras observações são necessárias:
A metáfora genesíaca incorre num equívoco sequencial, ao narrar que os animais domésticos foram criados antes do homem (que os domesticou sabidamente). A diferença entre o homem e o chimpanzé, repito, é tão somente um par de cromossomos. Mesmo que o corpo físico não interessa (esvaziando a semelhança entre homem e chimpanzé), o Cristianismo acabou vencendo todas a filosofias e religiões da Antiguidade com a promessa de que ele (o corpo) será ressuscitado. Apenas os escolhidos, diga-se de passagem. Por último, como o Big Bang, antes não admitido pelos criacionistas, já começa a ser ajustado por eles ao "Fiat Lux", à medida que a ciência avança na explicação do fenômeno fundador. 

CONSUMISMO E APEGO

Em postagem anterior, escrevi sobre os sentimentos que nos impedem de viver o agora mais intensamente. Por exemplo, a saudade nos prende ao passado, e a esperança nos faz preocupados com o futuro. Nesta postagem, disserto sobre o consumismo e o apego. O primeiro caracteriza um modo de vida (aparentemente) circunscrito ao presente - tempo exclusivo em que podemos viver bem, "fruir e agir" (conforme uma expressão devida a Freud). O que há de errado com o consumismo? A despeito de estarmos até a medula inseridos numa sociedade consumista, como sujeitos da ação de consumir, somos testemunhas e juízes da unânime contradição dessa forma quase irracional de comportamento econômico. Isso é uma deslavada contradição. (O objetivo deste texto, em especial, é que meus leitores reconheçam que tal contradição é deslavada, sem vergonha.) Com o fim das grandes utopias (religiosas e políticas, principalmente), o homem ocidental se voltou para o presente com uma vontade incontrolável de ser feliz sem mais tardar, tomando o "consumo conspícuo" por felicidade. A importância dos bens materiais transferiu a afeição que tínhamos pelas pessoas às coisas. Pronto, assim se constitui o apego pós-moderno. Nunca me esqueço de um poema de Neimar de Barros, cujo título é Homo automobile. O texto capta a essência do processo de coisificação, considerando-se a relação homem - automóvel. Se a sanha por adquirir bens nos compromete com o futuro (pela dívida a pagar), o apego aos mesmos bens nos atrela ao passado. Esse duplo envolvimento é ruim para uma vida simples e feliz. 

sábado, 10 de maio de 2014

TRANSFERÊNCIA DE CULPA

Acidentes de trânsito ocorrem - independentemente das leis que preceituam a conduta correta dos condutores, da estabilidade e segurança dos novos automóveis, bem como das boas condições da via.
Na última conversa que tive com meus colegas sobre o assunto acima, fiz a seguinte provocação: a 80 km/h não haveria acidente. Um deles comentou que é inconcebível fazer uma viagem entre Santiago e Porto Alegre (por exemplo) a uma velocidade de 80 km/h. Outro argumentou que os automóveis são dotados para desenvolver 200 km/h. Um terceiro recorreu a uma desculpa também equivocada, de que as estradas (e rodovias) "não ajudam". 
Na viagem a passeio (de Santiago a Porto Alegre), contra-argumentei, ganha-se pouco tempo com o andar mais rápido, a uma velocidade de risco. Estrada boa acaba sendo aquela que possibilita mais rapidez. 
Nenhum de meus interlocutores admitiu ser o condutor - o sujeito da ação de dirigir - o maior responsável (quase único) pelos acidentes tão frequentes nestes dias. Eles são coerentes com a maioria dos brasileiros, que não reconhece a responsabilidade moral, humana, transferindo a culpa para o automóvel ou para a via. No momento em que é inevitável tal reconhecimento, por qualquer um deles estar envolvido, transfere-se a culpa para o outro. O outro, por sua vez, obedecendo à mesma "lógica", também culpa o outro, aquele que primeiro se eximiu.
As noções de direção defensiva, sem a necessária prática, servem de justificativa para a transferência de responsabilidade. Os outros é que andam errado, ainda que minha velocidade seja de 130 km/h. Não a minha, exatamente, mas a de meus interlocutores. 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

SAUDADE, ESPERANÇA E OUTROS SENTIMENTOS


Já escrevi que a vida pode ser comparada a uma viagem de trem (movido pelo tempo). Dois vagões seguem engatados ao nosso, com acesso negado: o passado (atrás) e o futuro (à frente).
Hoje faço um acréscimo ao texto, incluindo sentimentos que nos forçam a denegar o presente, contrariando uma das grandes lições da Filosofia. Quais sentimentos? Em relação ao passado: a saudade (decorrente de vivências felizes), o ressentimento ou a culpa (decorrentes de vivências ruins). A saudade nos instiga a cotejar o passado ao presente, com inevitável depreciação do último. O ressentimento e a culpa (conta)minam nosso agora, uma vez que somos incapazes de perdoar ao outro ou - o que é mais complicado - a nós mesmos. Em relação ao futuro: a esperança e o medo. Dos males que afetam nossa existência, a esperança é tida como um bem pelo Cristianismo, uma das três virtudes teologais. No dizer de filósofos modernos, ela é da ordem da falta, da "tensão insatisfeita". Em sua quinta potência, a esperança chega a engendrar outro mundo, outra vida, em depreciação desta, que é real. Por outro lado, o medo do futuro é ainda pior, causando maior dano ao presente. Medo de doenças, medo da velhice, medo da morte. A esperança nos faz crer numa transcendência ilusória, o medo nos faz pensar na finitude inexorável.
Por que não nos libertamos do passado? Por que continuamos a nutrir esperança num futuro melhor (sempre adiado)? Por que não perdoamos aos outros e tampouco a nós mesmos? Por que ainda temos medo da morte (a despeito de nos dizermos cristãos)? 
A resposta a tais indagações  nos obriga a reconhecer que não valorizamos a vida presente, não amamos suficientemente as pessoas que viajam conosco, dentro do mesmo vagão, onde cada instante é uma prova de eternidade.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

PAÍS RICO É PAÍS RICO

Às vezes, desconfio que minha capacidade racional regride nestes dias. (Por acaso, não é esse o primeiro sintoma do Alzheimer?)  Seria uma pena para quem, desde muito, buscou o conhecimento, inclusive o autoconhecimento (responsável pela inversão na ordem do objeto a ser estudado). 
Caso meu problema não seja de saúde, então é minha inteligência que mais claramente passa a perceber a ignorância (ou esperteza) que engorda e governa. Fora de mim.
Em 5 de junho de 2011, imediatamente ao lançamento do logo "País rico é país sem pobreza" pelo governo federal, escrevi que se tratava de uma tautologia ridícula, de um discurso demagógico. Uma opinião apenas.
Na Feira do Livro de Santa Maria (que se realiza este ano), foi lançado o livro Análise de Discurso em Perspectiva, cuja organização é de Verli Petri, ex-professora da URI e hoje na UFSM (Laboratório Corpus). O primeiro artigo do livro é de Eni Orlandi, destacada linguista brasileira da análise de discurso. Título do artigo: Uma tautologia ou um embuste semântico-discursivo? Ainda a Propaganda de Estado: país rico é país sem pobreza.
A primeira paráfrase, segundo Orlandi, confirma o discurso tautológico (a partir da igualdade entre "sem pobreza" e "rico"): "País rico é país rico".
Por que "sem pobreza", ao invés de "sem pobres"? A explicação pela AD é extraordinária: "pobreza é nominalização e assim as causas são incertas, indeterminadas; já o pobre é tomado como indivíduo, pode ser identificado... tomado na dimensão da sua existência concreta".
Por que "país", ao invés de "Estado", ou "Nação", ou "Povo"? A explicação é dada por Orlandi, fundamentada em Michel Pêcheux. A posição do sujeito discursivo, no caso Dilma Rousseff, é neoliberal. Pasmem, seletos leitores!
A esperteza é (a inteligência) sem ética.    

domingo, 4 de maio de 2014

O FUTURO CONSUMIDO AGORA


Em alguns hotéis (onde me hospedei), há um pequeno cartaz no banheiro com a ilustração acima. Abaixo do aviso "Pendure suas toalhas que não necessitem ser trocadas", vem a seguinte informação: 
"Estimativa da UNESCO destaca que até 2050, três bilhões de pessoas, em 48 países, enfrentarão problemas de escassez de água.
"O uso racional é a melhor maneira de prevenirmos a falta de água e energia".
O uso racional é... Todo mundo sabe que o uso racional é a melhor maneira de prevenirmos a falta de água (e a falta de qualquer outra coisa que necessitamos hoje e sempre).
Todo mundo sabe, mas porém contudo todavia, ninguém torna uma prática esse saber. Prova disso: daqui a trinta e poucos anos, três bilhões de pessoas sofrerão com a falta de água. O problemão é decorrente do uso irracional que hoje fazemos da água.
Abrir poço artesiano (ou explorar aquíferos) é uma forma irracional de adiantar o problema futuro - consumindo o futuro.