terça-feira, 30 de dezembro de 2014

NATAL E RÉVEILLON - DUAS CONSIDERAÇÕES

I - Natal e Réveillon estão destinados a se transformarem numa festa única. Em alguns aspectos, a "fusão" já pode ser observada nestes dias (na ceia e no foguetório, por exemplo). A religiosidade do primeiro cede espaço para o profano, a ponto do Papai Noel quase eclipsar a figura do Menino Jesus. A secularização do segundo passa a adquirir um caráter religioso pós-moderno: as pessoas fazem um balanço mais ou menos espiritual de suas vidas.

II - Natal e Réveillon se sustentam em mitos, autoenganos, mentiras. De uma forma bastante resumida: o Natal é de origem pagã; o Menino Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro; ele não é o que os cristãos acreditam ser; o cristianismo é uma religião ultrapassada; o Papai Noel não existe; a maior função dessa representação nórdica é comercial; o amor entre familiares é provisório (uma ilha cercada de distâncias); o 1º do ano foi instituído pelo senado romano (recuando de 1º de março a 1º de janeiro por um motivo meramente político); o próprio calendário é parcial, cheio de erros (limitado pela mítica cristã); o rito de passagem é exclusivo da civilização ocidental (nenhum fenômeno natural o delimita no espaço-tempo); toda esperança no novo ciclo contradiz o pouco de gratidão que os festeiros expressam pelo ciclo passado. O dia 31 de dezembro não é o dia 31 de dezembro. O dia 1º de janeiro não é o dia 1º de janeiro. Noutras palavras, a vida continua presa à mesma marcha de Cronos. Esses dois dias são apenas dois dias, como qualquer outros dois dias do ano. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

DESABAFO

Postar sobre livros? Inútil. Não há leitor interessado. Sobre ideias? Memes perdidos. Ninguém está interessado em ideias. 
A desculpa é que escrevo difícil. Que difícil, que nada. 
Hoje, lendo A ESCALADA DO MONTE IMPROVÁVEL, livro de Richard Dawkins (um dos três maiores intelectos vivos do planeta), fui tomado pela autocrítica depreciativa: para que ler? 
Para que apostar no conhecimento científico e filosófico -arcabouço intelectual do paradigma da modernidade. O saber me leva ao isolamento, uma vez que a maioria das pessoas próximas a mim obedece a outro paradigma, cujo arcabouço é o cristianismo (da mesma forma que soía acontecer na Idade Média). 
Fechei o livro, decidido a parar um pouco, mudar de leitura, sei lá. 
Adianta compreender a fundo a verdade do evolucionismo, para, na hora de debater com um criacionista, ficar em pé de igualdade com a sua opinião? 
Santiago, se ninguém ainda disse com acerto, digo agora, constitui uma sociedade atrasadíssima, quase medieval. 
Não é apenas pela falta de leitura, pela falta de conhecimento... 
As comemorações de Natal (discursos e hábitos) provam esse atraso.

domingo, 28 de dezembro de 2014

PONDÉ



No livro Contra um mundo melhor, Luiz Felipe Pondé faz uma longa e complexa descrição de si mesmo. 
Desde o início, o autor repete que é cético e trágico. No final, confessa-se ser filosoficamente ateu que passou a não ateu. Viu-se obrigado a estudar os deístas, para melhor definir o que ele vê "escorrer pelo céu" - a misericórdia.
Um cético que experimenta a "sensação de que o mundo é sustentado pelas mãos de uma beleza que é também uma presença que fala" (tipo o Javé dos judeus). Isso é crença num ser transcendente.
Um trágico não crê na misericórdia, denegação da tragédia.
Tais contradições colocam o filósofo (e agora místico) no torvelinho da pós-modernidade.   

sábado, 27 de dezembro de 2014

TRÂNSITO: CÁLCULOS

Um dos argumentos contrários a obediência dos 80 km/h (em algumas rodovias com pistas duplicadas, a velocidade já é de 100 ou 110 km/h), consiste em defender a morosidade da viagem. Ao relatar a proeza de ir de Santiago a Curitiba (saindo pela RS-377), obedecendo ao regulamentado pela sinalização, meu interlocutor emendou que, certamente, minha viagem demorara dois dias. Na hora, não dispunha de uma calculadora (ou de caneta e papel) para mostrar-lhe o seguinte cálculo: 
1) a 80 km/h (se fosse possível essa velocidade constante), a viagem de 900 quilômetros demoraria 11,25 horas;
2) a 120 km/h (mantendo essa velocidade constante), o mesmo percurso seria percorrido em 7,5 horas.
A leitura dos números acima indica que o tempo ganho com a velocidade maior foi de três horas e pouco. 
Essa diferença se justificaria em caso de urgência efetiva (não  de urgência desnecessária, sempre racionalizada pelo sujeito da ação de dirigir). 
Os riscos de acidente aumentam numa razão diretamente proporcional à velocidade. Ninguém elaborou uma equação para tal. O risco zero - isto é inquestionável - só ocorre com a velocidade zero. O risco 1, proponho, correspondeu à velocidade de 10 km/h. O risco 2, a 20. O risco 8, a 80. Essa relação só é verdadeira até o que foi determinado pela sinalização. Num trevo, por exemplo, onde a velocidade máxima permitida é de 40 km/h, o valor 4 só vale para uma velocidade igual a 40. A partir dessa velocidade, o risco de acidente aumenta numa proporção aritmética. Nesse trevo hipotético, 50 km/h representa um acréscimo de 4 (e não 1). A 80 km/h, o acréscimo é de 64. E assim por diante. Nas rodovias, cuja velocidade máxima regulamentada é de 80 km/h, a velocidade de 120 representa 64. A 130, esse risco dobra. A 150, o risco é de 256. 
Esses cálculos consideram a trafegabilidade da pista e a estabilidade do veículo, que devem ser satisfatórias.  


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TRÂNSITO: ANOTAÇÕES

No estudo de como o homem se comporta no trânsito, aproveito todas as oportunidades para melhor conhecer o sujeito da ação de dirigir. A princípio, ele se caracteriza por comportamentos que redundam desde a observância moral à transgressão irresponsável, da normalidade à loucura. 
Em Santiago, os motoristas se dividem em diurnos e notívagos. À luz do Sol, alguns deles chegam a ser educados, outros ainda “barbeiros”. Depois da meia-noite, os ases do volante despertam, predispostos ao suicídio. Menos mal que são poucos. 
Ao viajar até Curitiba (semana passada), constatei uma melhora significativa do gaúcho nas rodovias. Raras vezes, anotei ultrapassagens em local não permitido. Outras vezes, velocidade alta. Penso que essa transgressão será a última a ser coibida. O prazer propiciado por ela é pulsional. 
Nenhum dado negativo em Santa Catarina, ao longo da BR153 ou dentro da cidade de Concórdia (onde dirigi à noite, procurando hospedagem). 
Ao entrar no Paraná, percebi que a polícia se faz mais presente (blitz, teste do bafômetro, leitura dos documentos de todos os viajantes). Próximo à capital, o fluxo de veículos se intensifica assustadoramente. A altíssima velocidade só diminui em frente aos controles eletrônicos. Placas de 60 e 80 km/h são inúteis. Ao obedecê-las, ouvi buzina de reclamação (ou de troça). O certo andando errado. 
Em Curitiba, ainda de dia, repete-se o que ocorre à noite em Santiago: mudança brusca de faixa, disputa emulativa e o escambau. Muitos automóveis rodando amassados. Uma carreta tombada e uma moto dentro de um riacho, os dois acidentes dentro do perímetro de Curitiba. 
A BR101 é um excelente laboratório para ampliar meu conhecimento, descendo a Serra do Mar com chuva até Itajaí (onde fui ver um amigo). À exceção de alguns caminhoneiros, corre-se menos perigosamente sobre a pista com sentido exclusivo. (Cont.) 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CASSAL, UMA REFLEXÃO

O blogueiro Cassal posta sobre um dos problemas que mais afetam a existência humana:
"A pergunta mais óbvia deve ser qual o sentido da morte, daí, sim, saberemos qual é o sentido da vida. Às vezes, para ver melhor um desenho, é necessário nos afastarmos um pouco".
O homem é o único ser consciente que vai morrer um dia. Esse conhecimento é o ônus de ter adquirido consciência. 
Se considerarmos a lógica da correspondência, para cada ônus um bônus, saber que vai morrer deve oferecer alguma vantagem ao homem, em relação à alimária.
Os mitos e as religiões, desde tempos primevos, ofereceram explicações sobre o significado da morte. Nesse aspecto, minoraram o sofrimento causado pelo medo, angústia, sentimento de perda... O dogma cristão, por exemplo, prega uma vida transcendente, prazerosa e eterna, o que eliminaria o problema da morte. Em contrapartida, a vida real foi eivada pela culpa (pelo pecado), transformada em algo ruim. Nietzsche acertou em cheio: "A decisão cristã de fazer este mundo feio e mau, fez este mundo feio e mau". 
Alinho-me a Luc Ferry, filósofo da atualidade, que pensa sobre a "divinização do humano" ou "humanização do divino", considerando a vida algo de extraordinária beleza, momento exclusivo de felicidade. A morte não me assombra mais. Qualquer sentido dado a ela não pode depreciar o valor da vida.  

SURDEZ ANTINATURAL

No verão, não ouvimos o estrídulo desesperado da cigarra macho. Certamente, isso não ocorre porque o espécime homóptero desapareceu sob a soalheira da tarde (sem encontrar a fêmea correspondente), mas porque, para ouvi-lo, não temos mais o sentido suficientemente apurado. Não temos mais o que nossos antepassados tinham no mais alto grau. 
A mente destes dias passa a sofrer de uma perda crescente de sensibilidade, causada pelo barulho que fazemos artificiosamente. Isto mesmo! Nosso dia a dia é movido pelo artifício, o grande paradigma que nos distancia das vozes da Natureza. 
O estrídulo da cigarra é apenas uma dessas vozes, entre milhares de outras (desde a emitida por um simples inseto à música das esferas). 
A nossa surdez é um fato. 
À exceção do relógio, que tiquetaqueia em algum lugar da casa, e do sino da Matriz, que marca o meio-dia e a Hora do Ângelus, tudo mais agride pela falta de ritmo. Ouvimos das coisas seus descompassos, seus ruídos pela forma aleatória com que se arranjam no tempo e no espaço. 
Ouvimos do coração sua arritmia, não o ritmo natural. Por isso, os versos que produzimos são tão ruins, a despeito de reivindicarmos a condição de poeta. Por isso, os nossos desejos e frustrações ocorrem com a mesma intensidade e revelia - sístole e diástole de um individualismo que beira a enfermidade. 
Não apenas apresentamos problemas de audição, mas também de memória (efetiva e afetiva), a ponto de nos esquecermos do outro, ainda que ele seja nosso pai num asilo, ou nosso filho fechado num automóvel. 
A primeira prova dessa verdade consiste em não ouvirmos o estrídulo desesperado da cigarra macho no verão.

(Do meu livro Palavras de fogo, página 73)

domingo, 14 de dezembro de 2014

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

A evolução das espécies por intermédio da seleção natural foi uma das maiores descobertas de todos os tempos, a qual forçou a decadência do paradigma que resistia ao iluminismo da razão, do conhecimento filosófico e científico. 
Um dos mal-entendidos propalados pelos criacionistas contra o darwinismo é de que a evolução ocorreria por puro acaso, aleatoriamente. Não é assim.
Para melhor compreendê-la, transcrevo um exemplo de Richard Dawkins (dado por ele para se referir à impossibilidade de as mutações anteciparem as necessidades do organismo, o oposto do acaso). 
Vamos imaginar que uma idade do gelo esteja se abatendo sobre uma região antes temperada e que a população local de cervos esteja perecendo devido ao pelame leve (pouco espesso). O frio não é o agente provocador da mudança na genética dos ungulados, no sentido de eles criarem mais pelos. O clima será responsável por eliminar os filhotes que nascerem com os pelos mais ralos, em favor daqueles que, ao contrário, nascerem mais peludos. A fêmea do cervo pode produzir dois filhotes (entre oito e nove meses de gestação). Em mil anos de frio crescente, dez, vinte, cinquenta gerações de cervos ocorrerão até que filhotes com pelame espesso passam a ser a regra.
No exemplo acima, a glaciação fez a seleção, não o acaso (como insistem os detratores do evolucionismo). 
    

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PRIMEIRO CÍRCULO INTERATIVO

O Centro Cultural de Santiago está organizando o Primeiro Círculo Interativo, baseado nos temas autorreveladores do meu livro Palavras de fogo. O debate faz parte das comemorações de aniversário do Centro Cultural, que ocorrerá no dia 13 de dezembro de 2014 (sábado), às 20 horas. A ideia partiu da D. Enadir Vielmo e teve a aceitação de Márcio Brasil, atual presidente da instituição. Os debates incluirão temas pertinentes: educação, drogas, consumismo, individualismo radical, felicidade, justiça, ecologia (questão da água), livros, trânsito etc. 
Antecipadamente, agradeço pela deferência, pelo reconhecimento.   

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CAMPANHA SANTIAGO SOLIDÁRIO

A campanha Santiago Solidário propunha arrecadar um real de cada habitante santiaguense. Os beneficiários não poderiam ser mais merecedores de nossa solidariedade: os idosos que vivem no Asilo Santa Isabel.
Depois de dois meses de execução da campanha, as urnas foram recolhidas para a contagem do dinheiro arrecadado. A princípio, pensava-se que as doações acima de um real compensariam as abstenções, que haveriam por conta dos motivos seguintes: desconhecimento da campanha, dificuldade para acessar uma urna, indiferença, livre decisão de não colaborar, desconfiança...
Os três últimos requerem uma atenção especial, uma vez que não são autojustificáveis.
A indiferença, para alguns estudiosos do comportamento humano, constitui a verdadeira antípoda do amor. Ela passa a caracterizar o novo modo de existência determinado pelo individualismo radical. A pessoa indiferente não ouviu sobre a campanha e tampouco viu urna coletora em algum lugar, embora não faltasse oportunidade para tal. Ela não tomou conhecimento simplesmente.
Outros tomaram conhecimento e decidiram que não colaborariam por um motivo pessoal, sem racionalização. Essa atitude, perante o bem auspiciado pela campanha, decorre de um mau uso da liberdade.
Uma das racionalizações consiste na desconfiança que o todo arrecadado não seria utilizado na restauração do asilo. Essa desconfiança é uma das consequências éticas da corrupção que se torna cultural no Brasil, não excluindo os governos em todos os âmbitos da administração pública.
As doações acima de um real não foram suficientes para compensar as abstenções. O arrecadado mal ultrapassou a metade de cinquenta mil, numa demonstração inequívoca de que o espírito solidário não é uma característica da nossa sociedade.
P.S.: E 99% de nossa sociedade são cristãos (católico ou evangélico) e espíritas, que têm na filantropia (caridade) um dos dogmas mais religiosamente corretos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

LIVROS E LIVROS




Na segunda-feira, recebi Planeta favela, um livro de Mike Davis (um estudo detalhado sobres as favelas no mundo). Já li a metade.
Hoje me chegou A escalada do Monte Improvável, de Richard Dawkins. "Monte improvável" é uma metáfora para ilustrar a evolução da vida em nosso planeta. Outros livros de Dawkins que compõem minha biblioteca: O gene egoísta, O rio que saía do Éden, O relojoeiro cego, A evolução e Deus - um delírio. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PAPA PÓS-MODERNO

Desde a Revolução Francesa, o Estado, cada vez mais racionalmente organizado, aproxima-se de uma laicidade completa. Com a ascensão do papa Francisco, inclusive o Vaticano passa a aceitar algumas verdades estabelecidas pelo paradigma que ele tanto combateu nos últimos séculos. Recentemente, essa autoridade católica admitiu ser o Big Bang e a (teoria da) evolução das espécies compatíveis com a existência de um criador. A despeito de já idolatrarem a figura franciscana do novo papa, os fiéis católicos ainda são criacionistas(não tão radicais quanto seus coirmãos evangélicos). Em São Paulo, por exemplo, a sociedade se organiza em torno do contraponto a Darwin, o "design inteligente". Seu líder, Marcos Eberlin, professor de química da Unicamp, defende que os seres vivos (incluindo o homo sapiens) são os mesmos desde que foram projetados e trazidos ao mundo.
  
Seria essa relativização, um papa científico e um cientista bíblico, uma característica da pós-modernidade? A sociedade continua, como escrevi na postagem anterior, fortemente condicionada pelos memes medievais.  

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MEMES MEDIEVAIS

Fim de tarde muito quente em São Luiz Gonzaga. 
O cenário na praça central e seu entorno está para confirmar uma ideia que venho desenvolvendo sobre a sociedade desta região (não diferente de outros lugares do nosso Estado, do país, da América Latina). 
Aqui ainda não se vive a evolução cultural oferecida pelo Iluminismo há mais de dois séculos. Esta sociedade continua mais próxima da Idade Média do que da modernidade, não obstante as mudanças de paradigma, fundamentadas no conhecimento científico e filosófico elaborados desde o Renascimento. 
Ao chegar a São Luiz, deparo-me com a Feira do Livro às moscas e uma megaestrutura sendo preparada para o show de abertura do mês natalino na cidade. 
Em duas horas, não vejo um único visitante procurar por um livro em qualquer uma das livrarias, repetindo-se o que ocorrera nos dias anteriores, segundo o testemunho dos livreiros. As queixas destes têm um destinatário certo: os organizadores (gente da Prefeitura). 
Patrocinada pela Endesa Cien, empresa fornecedora de energia elétrica, a feira não têm a atenção merecida, tanto das autoridades municipais quanto do público. Um fracasso completo, que pode ser sintetizado a uma história triste. Mãe e filha passam em frente à Magia das Letras. A menina corre e apanha um livro infantil, cujo preço era de dez reais. A mãe chama-lhe a atenção: “Solta essa porcaria!”. 
Concluo que o desprestígio do livro, ou dito com outras palavras, a falta de leitura, reflete o modus vivendi que não inclui a razão como instrumento de construção social, ou a inclui apenas como poder de racionalizar as próprias crenças (cristãs). O estado laico é uma coisa não compreendida e não aceita pela sociedade, ainda dominada pelos memes medievais.    

domingo, 30 de novembro de 2014

MODA, MODISMO...

A maneira mais ou menos semelhante de as pessoas se vestirem - em determinado tempo e lugar - constitui  a moda, a qual representa, desde sempre, um fator de agregação social. Nos últimos anos, todavia, ela involui do igualitário para o tendencioso, individualizante. 
No Bom Retiro, nas décadas de sessenta e setenta, os pais compravam o tecido na cidade, e as mães costuravam as roupas, que vestiam os filhos. Às vezes, coincidia a compra do mesmo tecido entre duas ou três famílias, uniformizando a criançada, que rumava feliz para a Festa de Março. As crianças que iam da cidade, mais espertas, apontavam o dedo e riam dos simplórios, cascas-grossas, usando camisas, calças ou vestidos iguais. No campo, a moda não era vista como tal, determinada pela escassez da oferta e igual condição da procura (por motivo econômico). 
Neste ano, o modismo é a confecção de diferentes peças com o mesmo tecido. Isso pode ser visto nas butiques mais chiques de Santiago. 
Obviamente, essas peças feitas com o mesmo tecido se destinam a um único usuário. Nada é mais escandaloso no universo feminino que duas mulheres com vestes iguais. 
O modismo, mais que agregar socialmente, denuncia o individualismo radical, que passa a caracterizar a moral pós-moderna.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

EGOLATRIA OU DESENCANTO

"Numa cidade com poucos leitores", escrevi há três anos, "toda publicação textual requer certa ousadia". Obviamente, mais que coragem ou temeridade, o autor deve ter em alta conta sua produção intelectual. A falta de quem lê, por um lado, comprime o sujeito da enunciação contra seu próprio centro, e por outro, impossibilita o feedback crítico, tão necessário contra a superestimação própria. No primeiro caso, o enunciador corre o risco do desencanto. No segundo, da egolatria. 

NOTA 10


Em 1972, no Rincão dos Machado, meus pais resolveram me mandar para a cidade, com o objetivo de continuar com os estudos regulares. Até aquele momento, os filhos permaneciam no campo, após concluir o Primário (até o 5º ano). Concomitantemente com a necessidade de mão de obra para cultivar a lavoura, havia a dificuldade de manter alguém da família na cidade (a despeito da escola pública). Uma das possibilidades era hospedá-lo na casa de um parente, onde pudesse trabalhar nos turnos opostos às aulas. Foi o que aconteceu comigo no ano seguinte. Minha predisposição para os estudos, demonstrada desde criança, trouxe-me para Santiago. Na casa de meus tios, fazia de tudo, como varrer o pátio, lavar roupas, vender doces na Zona etc. No Colégio Polivalente, as melhores notas continuavam a figurar no boletim. Logo descobri a biblioteca, forçado pela vontade de conhecimento e pelo bolso (que me impedia de frequentar a cantina da escola). Naquele recanto tão silencioso (e vazio), iniciei minha vida de leitor, devorando romances e enciclopédias. Nunca mais deixei de ler, hábito saudável que me fez cursar Letras e, agora, Filosofia (cursos que estão longe de abranger o conhecimento que adquiri autodidaticamente). 
A ilustração acima é da página da Universidade Sul de Santa Catarina, print screen das notas de duas avaliações (a distância e presencial), que fiz na disciplina de Cenários Contemporâneos.    

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUIZ GONZAGA


Ontem estive presente na abertura da 38ª Feira do Livro de São Luiz Gonzaga, ondem lançarei meu Palavras de fogo no domingo, às 18 horas.
O lema e o período de duração da feira constam no folder acima. O patrono é Jauri Gomes de Oliveira, que foi prefeito da cidade e idealizador do evento cultural em 1977 (primeira edição da feira).
A feira é patrocinada pela ENDESA CIEN, empresa de energia elétrica, que "apoia e desenvolve programas de educação, saúde, criação de renda e democratização do acesso à cultura própria de cada comunidade".
Na livraria Inove, eu e Erilaine encontramos Danci Caetano Ramos, neta de Laurindo Ramos, poeta homenageado na Rua dos Poetas, em Santiago. Danci reside em Porto Alegre, tem vários livros publicados. Ela declamou seus últimos poemas e disse-nos quais seus autores preferidos, entre os quais Aureliano de Figueiredo Pinto.
Uma feira de livro, pensava durante o retorno para Santiago, está no caminho para transformar nossa sociedade, que ainda não viveu seu estágio iluminista. A rodovia entre São Luiz e Bossoroca também contribui para que continuemos um pouco atrasados (quase medievais, considerando-se o domínio religioso). 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

SUPERINTERESSANTE


A Superinteressante oferece aos assinantes uma edição especial sobre o Universo, com as melhores reportagens publicadas ao longo de 27 anos da revista. A primeira delas é ilustrada por infográficos e subdivide-se em três partes: Como nasceu o Sistema Solar; A história da Terra; e O fim da odisseia terrestre. Nesta última, há a previsão mais realista sobre a vida: a fusão de Hidrogênio no interior do Sol provoca explosões de energia "que hoje torna a Terra habitável, mas não por muito tempo". 
Outra matéria, Segundas dimensões, traz a ilustração acima, a qual tira a minha dúvida quanto à seguinte questão: Considerando-se que o Universo está em expansão acelerada, como explicar que nossa galáxia, a Via Láctea, aproxima-se de Andrômeda?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

QUANDO COMO POR QUÊ?

– Minha bisavó fugiu de casa há cem anos. Para ser mais preciso, há cento e poucos anos. Cem anos fazia na primeira vez que calculei há quanto tempo ela havia fugido de casa. De lá para cá, passaram-se oito anos. Nas outras vezes, os cem anos redondos eram suficientes. Não mais agora.
         A Cristina me pergunta qual é a importância do tempo na história de minha bisavó.
         – É importante. Antes dos cem anos, sua história era o escândalo da família. Depois dos cem, cento e poucos, caiu no domínio literário, pronto para ser narrado como um conto de aventura.
         Afinal, a vida imita a arte.
         – Num belo dia – para quem? – Fermina criou asas na ponta do coração. Enquanto o marido trabalhava na costa do rio, deixou os dois filhos pequenos sozinhos, montou a cavalo e desapareceu por vinte e cinco anos.
         – Vinte e cinco anos?!
         A Cris está ansiosa.
         – Ela fugiu com quem?
         – Nos cochichos de domingo à tarde, na casa do vovô, permitia-se uma resposta curta e fantasiosa: a bisavó fugiu com um mascate. Não. O mascate era um subterfúgio para o silêncio. A menina que fora abandonada pela mãe aos três anos de idade transformara-se na anfitriã das reuniões de domingo. O assunto era tabu, cuja violação provocava a ira do vovô. Tia Cela me contou antes de falecer quem foi o rapaz que levou minha bisavó. Ele também era casado, morador do Rincão. Vi sua foto na casa do irmão ainda vivo, que nada me falou, em razão da idade avançada e do Alzheimer.
         – O senhor me diz que eles fugiram a cavalo...
         – A bisavó saiu de casa a cavalo. Alguém a viu no dia da fuga. Essa foi a única informação dada ao desesperado e infeliz do meu bisavô. Após seu retorno da lavoura, Antônio a procurou noite adentro, enquanto Fermina fugia madrugada afora rumo a Cruz Alta. Ele esperava encontrá-la a qualquer hora, dia, semana, mês e ano. Em sonho, acordou algumas vezes com a volta da mulher. A ferida aberta de alto a baixo em sua alma cicatrizou com o tempo, como uma rocha amalgamada ao corpo.
         – Por que ela fugiu?
         – Querida, agora estás me perguntando muito. Um conto consegue responder pelo quando e, não satisfatoriamente, pelo como. Um romance inteiro é necessário para responder por quê. Um romance rico em imaginação. Os dados de referência são escassos, com fontes não confiáveis (do tipo diz-que-diz-que). Não se trata de transpor metaforicamente a realidade, mas de recriá-la a partir de outros elementos da narrativa.
         A grande oportunidade de se saber por que minha bisavó fugiu com outro, disso tenho certeza, foi perdida com a visita que ela fez à filha vinte e cinco anos mais tarde. Tia Cela tinha cinco anos de idade, quando aconteceu essa visita. Ao ver o avô chegar do campo, correu ao seu encontro para dar-lhe a notícia. Antônio já desencilhara o cavalo no momento em que a neta perguntou-lhe para adivinhar quem estava na casa. A menina disse-lhe o nome sem esperar pela resposta. Ato contínuo, ele tornou a encilhar o animal, pisou no estribo, alçou a perna, montou em seu cavalo e saiu para o campo outra vez. 

domingo, 16 de novembro de 2014

ANTROPOMORFISMO

O antropomorfismo, por minimamente que se expresse, prova a vontade, a fé e a razão de elevar o sujeito humano a uma condição extraordinária, ao invés de provar essa condição extraordinária.
No  âmbito religioso, principalmente cristão, o assemelhar deus e pai prova o desejo humano dessa semelhança, não a existência de deus feito pai.
No âmbito (pseudo)científico, a descoberta de exoplanetas renova a possibilidade de existência de vida fora da Terra. Por que essa forma de vida imaginada deveria ser de uma civilização - mais ou menos inteligente em relação a nós?
O nosso planeta já tem quatro bilhões e meio de anos, mas tão somente há seis milhões há a espécie de humanos, que continua submetida ao processo evolutivo.
Nenhum (pseudo)cientista levanta a hipótese de que a vida lá fora, se é que há, pode estar num estágio anterior ao desenvolvimento da consciência - das bactérias aos vertebrados, dos musgos e líquens às florestas.
Basta o assunto de vida extraterrestre vir à baila, para o homem desejar, crer ou racionalizar que há civilização em algum exoplaneta.
Isso é antropomorfismo, quase uma esquizofrenia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL DE BARROS


Manoel de Barros faleceu hoje em Campo Grande, MS. 
Li pela primeira vez o poeta das coisas que o ampliavam para menos, quando morei no Pantanal, transitando entre Corumbá e a capital. 
O que mais chama a atenção em Manoel de Barros é a construção semântica de impacto, como pode ser observada no fragmento de poema abaixo:

Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

Dois poetas atuais revelam a influência do sul-mato-grossense: Carpinejar e Viviane Mosé.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

REAÇÕES DIFERENTES


Pascal, que se tornou cristão depois de ser matemático, escreveu o seguinte fragmento: "O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora"
Comte-Sponville parafraseia o autor de Pensamentos: "O silêncio eterno desses espaços infinitos me tranquiliza".
Depois de me tornar ateu, vou mais além: O silêncio eterno desses espaços infinitos me causa admiração.
Para Pascal, um sentimento comum à religião cristã (o temor); para Comte-Sponville, ataraxia ou pax; para mim, estética. 

sábado, 8 de novembro de 2014

SANTIAGO SOLIDÁRIO

Semanalmente, venho participando de uma reunião com representantes de diversas instituições locais, para fazer uma análise de como está indo a campanha Santiago Solidário e de traçar uma estratégia para melhor executá-la em vistas de seu objetivo: arrecadar R$ 1,00 por habitante de nossa cidade. Todo o dinheiro da coleta será destinado ao Asilo Santa Isabel, que necessita de reparos em suas velhas instalações, bem como de ampliação da capacidade para atender ao número crescente de pessoas asiladas. Urnas não mais empregadas pelo Sistema Eleitoral servem de receptáculo físico da campanha dentro de cada entidade/organização institucional. Depois de um mês, algumas dessas urnas foram abertas pelos coordenadores do Santiago Solidário. O coletado por elas não é nada animador, aquém da expectativa inicial (muito otimista). Anônimos santiaguenses depositam cédulas no valor de cinco, dez, cinquenta e cem vezes acima de um real (numa demonstração de alto espírito de solidariedade humana). Essas doações compensarão a atitude contrária daqueles que se abstêm de colaborar mais por falta de vontade do que por mesquinhez obviamente. A falta de vontade, nesse caso, confunde-se com indiferença e aponta para o sentido oposto da alteridade, o do individualismo radical. Sem o retorno midiático, que inclua seu nome ou sua imagem, o indivíduo não se engaja nessas campanhas beneficentes com anônima espontaneidade. Na próxima reunião, proporei que façamos outra campanha paralela e coerente com a que está em andamento: adesão ao grupo denominado Amigos do Asilo, hoje com apenas oito integrantes. Essas pessoas vêm trabalhando pelo asilo, fundamentadas na única virtude que persistiria no paraíso cristão: a caridade (uma vez que a esperança e a fé não são mais necessárias). 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SACANAGEM*

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apresentou dados que apontam um aumento do número de pessoas que vivem na extrema pobreza.
Onde está a falcatrua?
O Instituto reteve os dados para não interferir negativamente na campanha para a presidência de Dilma Rousseff.
A pesquisa desconstrói o discurso petista de que os pobres teriam saído da pobreza com o Bolsa Família.
* Sinônimos de sacanagem: malefício, safadeza, jogo sujo, pilantragem, falcatrua...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

TRÂNSITO MAIS UMA VEZ

Uma kombi escolar passou por mim na Rua Pinheiro Machado (ao lado do 19º GAC) numa velocidade muito acima da permitida, que é de 40 km/h. Eu transitava a 40, quando fui obrigado a dar passagem ao "bólito". Em razão do horário (7h 30min), julguei que o endiabrado condutor estaria atrasado para apanhar as crianças. Os pais deveriam saber que entregam seus filhos a um irresponsável. Depois que acontece o acidente, dizem que é uma tragédia, uma fatalidade. 
Na hora, queria ser militar da Polícia, para ir atrás do mau condutor e dar-lhe uma bronca sem tamanho. 


domingo, 2 de novembro de 2014

PEQUENA LIÇÃO DE FILOSOFIA

Muito se fala em pós-modernidade, uma nova denominação para definir a cultura presente. Entre os autores que  pensam sobre esse assunto, cito Terry Eagleton, David Lyon (com quem mais me identifico), Antony Giddens, Barry Smart, entre outros. Zygmunt Bauman, o que mais li, não é adepto da divisão "modernidade versus pós-modernidade". O sociólogo prefere designá-las de "modernidade sólida" e "modernidade líquida". 
O grande pensador da pós-modernidade, que veio muito antes dela acontecer no tempo e no espaço, é NIETZSCHE. Por quê? Foi o primeiro pensador a fazer uma crítica da razão. 
Filosoficamente, a modernidade, desde Descartes, passando pelo ILUMINISMO, e chegando ao século XX, foi uma aposta na razão, como o único instrumento da verdade. Economicamente, havia duas possibilidades para o progresso da civilização ocidental: o capitalismo e o socialismo. 
Com a "guerra fria", acirrou-se o conflito mais ideológico que bélico entre as duas potências que representavam o capitalismo e o socialismo: Estados Unidos e União Soviética. 
Os capitalistas, diga-se de passagem, nunca fizeram promessa para a melhora de vida das pessoas. O desenvolvimento científico e tecnológico propiciou esse desenvolvimento. Os marxista, em contrapartida, prometiam que os pobres do mundo se tornariam ricos, tomando e dividindo entre si os bens dos ricos.
Em 1989, com a queda do Muro de Berlin e a debaclê soviética, acabava a utopia. O socialismo, definitivamente, não conseguira cumprir com as promessas de paraíso terreno. 
Para Lyon, essa data demarca a passagem da modernidade para a pós-modernidade. Um século depois de Nietzsche ter escrito que a humanidade (especialmente nossa civilização) não evoluía para algum fim maravilhoso. 
O estado laico é o suprassumo da modernidade. Por isso, na pós-modernidade, vemos a retomada religiosa, com o movimento New Age, o fundamentalismo cristão, islâmico e o escambau.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

PALAVRAS DE FOGO


Eis a capa do meu próximo livro, Palavras de fogo, que será lançado na 16ª Feira do Livro de Santiago, dia 7 de novembro de 2014, às 20h30min. Desde já o leitor deste blog está convidado a visitar a nossa feira, que mais uma vez ocorrerá na Estação do Conhecimento. 
O livro é a consolidação dos melhores textos que produzi em mil dias, desde O fogo das palavras. O trocadilho dos títulos se justifica pela significação da metáfora ígnea, o fogo: brilho, inspiração criadora e paixão (no sentido laico do termo). O brilho pode ser visto no estilo (que estou descobrindo agora); a inspiração criadora equivale ao insight, ideia que se textualiza com beleza e originalidade; e paixão, denominada por Nietzsche de "instinto de conhecimento", pode ser contemplada no discurso.
Cada uma das cinco partes é identificada com o número ordinal correspondente e traz (como epígrafe) um excerto, que identifica a temática principal do capítulo: educação, filosofia, ecologia, leitura e trânsito. 
Claro que disserto sobre outros assuntos: agressividade, arte, astronomia, consumismo, economia, evolucionismo, justiça, política, relacionamento, televisão... Esse ecletismo, todavia, não corresponde a um excesso de cultura. Absolutamente. Em algumas áreas do conhecimento, sou apenas um principiante, entusiasmado com seus fundamentos gerais. 
Em relação à Astronomia, por exemplo, lamento a falta de instrumento óptico e de uma melhor compreensão da Matemática e da Física. Em síntese, escrevo sobre as estrelas, porque leio sobre elas - e leio sobre elas, porque gosto de contemplá-las (desde minha infância). Vistas da Terra, são centelhas instáveis de um fogo maior que constrói e desconstrói o Universo. 


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O BRASIL DIVIDIDO

A democracia divide politicamente o Brasil: uma parte azul, constituída pelos estados sob e ao sul do Trópico de Capricórnio; uma parte vermelha, constituída pelos estados do Norte e Nordeste. Entre uma e outra, localizam-se algumas unidades neutras da Federação, que se investem da função de anular diferenças e antagonismos futuros.
Por trás desse feito (ainda inconcluso), desponta o Partido dos Trabalhadores, cuja orientação ideológica prende-se à ideia marxista, já tornada historicamente obsoleta, de que as sociedades se dividem em burgueses e proletários, classe média e classe de trabalhadores, "nós e eles". Por isso, o governo petista realinhou-se com países que foram, aspiram ser ou são socialistas: Rússia, China, Venezuela, Cuba...
Diferentemente das revoluções do século XX, quando alguns líderes recrutavam exércitos (entre os proletários), pegavam em armas e executavam seus compatriotas, o PT substituiu a violência e o confisco pela tributação alta e a transferência direta de renda. Com essa política socioeconômica, atinge o bolso da classe média (sem contrapartida) e beneficia a classe baixa (com exclusividade). A estratégia arrivista desse governo, exteriorizada como “programa social”, cujo feedback continua positivo (para a manutenção do poder), não foi ainda avaliada como uma forma de injustiça.
O desenvolvimento das famílias beneficiadas, o eixo mais falacioso do programa, pressupõe apenas a capacidade de consumo de cada uma delas, não a capacidade de produção. A propósito, uma das primeiras manifestações da presidente reeleita foi de sobre-exaltar a importância desse assistencialismo, em vista de promover o ingresso dos mais pobres à classe média. Há um exagero no discurso de Dilma Rousseff, por um lado, e uma inequívoca contradição, por outro. O BF está muito longe de propiciar à classe baixa o salto econômico mais repentino e extraordinário de nossa história. A classe média não poderia ser uma referência social, na medida em que ela é ideologicamente odiada pelos intelectuais (amantes de Cuba), do tipo Marilena Chauí.
A versão mais aproximada de proletariado no Brasil, o miserável, ao receber o abono-prole, permanece no estado de miserabilidade, não alcançando a condição de trabalhador em potencial. Sem essa condição, ele jamais chegará à classe média – por mais que queiram achatá-la os antiburgueses.
Com fundamentação no exposto acima, evidencia-se algo mais que exagero e contradição no discurso petista. Há intenções sub-reptícias, como estruturar uma base eleitoral e dividir a sociedade, ambas podem ser inferidas pelo resultado da última eleição.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

MEU ARTIGO NO ZH


Meu artigo publicado no Zero Hora, seção de artigos, dia 22 de outubro de 2014. 
O imperativo determina que o eleitor deve pensar muito bem antes de escolher um candidato. As opiniões são unânimes em superestimar a importância do eleitor nesta hora,  a importância do voto válido, quintessência da democracia e o escambau. 
Depois, com o desgoverno dos eleitos, diz-se que a culpa é do eleitor que não votou bem. A sociedade é culpada, como discursou um ex-presidente do Supremo Tribunal Eleitoral.
Os sujeitos desse discurso têm uma ótima oportunidade agora de apontar qual o candidato é o certo.
Desde 1994, os partidos que ora disputam a presidência já governaram o país. Se há algo errado com um e com outro, então a culpa não pode ter sido do eleitor. Se Dilma e Aécio, como mandatários, fizeram coisas erradas, muitas das quais denunciadas nos próprios debates, então, como conta uma história gauchesca, toque a carreta! Adianta pensar muito bem? Há outra opção que não seja as duas? 
Dessa forma, o eleitor é obrigado a votar errado, engambelado a achar que sua vontade é o suprassumo do processo democrático, versão laicizada do direito divino dos reis (como escrevi no artigo acima). 

sábado, 18 de outubro de 2014

NOVIDADE NA INOVE

O sábado não estava azul pela manhã, mas saí assim mesmo. Na Inove, vi algumas novidades, entre as quais, resolvi destacar O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura. 
Li esse romance entre junho e julho deste ano. Recomendo-o aos leitores.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CRÔNICA SANTIAGUENSE

Duas adolescentes atravessam a rua Júlio de Castilhos (em frente ao QG), à meia tarde. dirigem-se à Praça Franklin Frota. Uma delas usa short curtíssimo, rosto quase oculto num Ray-Ban desproporcionalmente grande, cabelos longos... Perfil de modelo. A outra não chama a atenção.
Em seguida, retornam, atravessam a rua outra vez. A modelo tem os olhos presos no display do celular (com total desatenção ao trânsito). Dobram a esquina e descem a Rua Eudócio Pozzo, em direção à Estação do Conhecimento. 
Numa distância de uns 20 metros, aproximadamente, vem um rapaz, o mesmo que depredava automóvel no centro da cidade e que, noutra ocasião, foi preso com droga. Ele também atravessa a rua mexendo no celular, provavelmente fazendo uma ligação para seu comparsa (responsável por levar o "produto" à jovem consumidora).
Mais uma vez, pergunto ONDE ESTÃO OS PAIS. Cabe aqui uma outra pergunta: ONDE ESTÁ O ESTADO? 
Como estou atrasado nesses questionamentos!
Os pais não têm culpa, já perderam completamente a autoridade sobre os filhos. Moralmente, nossa sociedade descamba ladeira abaixo.
E o Estado?



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PORTA BRANCA

A porta entre a sala e a cozinha encontra-se fechada, uma porta branca. Muito estranho, uma vez que ela nunca fora fechada. Ato contínuo, chamo pela mulher que dorme no quarto, para indagar-lhe se fechou a porta à noite.
Sua resposta não diminuiria o mistério: a porta branca.
A impressão é de que meu chamado não sai da boca, por mais que faça um grande esforço.
Neste instante de aflição, desperto do sono (e do sonho).
Antes de dormir, começara a leitura de O espírito do ateísmo, de André Comte-Sponville. Ancorado nesse filósofo, ocorre-me o seguinte insight: o paraíso, se existisse, não poderia permitir à pessoa recém-chegada a mínima lembrança desta vida, a mínima consciência de sua individualidade, sob pena de transformar esse lugar numa prisão (com portas brancas), ao contrário de uma libertação.
Na hipótese de não haver essa lembrança, com a perda da individualidade, qual a relação que existiria entre a vida terrena e a vida eterna?
Num sentido inverso, a vida terrena não propicia a mínima lembrança de uma vida anterior, denegando a crença do espiritismo.
Os sonhadores, que creem em vidas aquém e além, sustentam que a vida real não passa de um sonho. O sonho, para eles, constitui a realidade. Nossos sentidos seriam “demônios” que nos enganam o tempo todo. Herança maldita de Platão.
Em coma, provavelmente não teria acordado de madrugada, e a porta branca do meu sonho ganharia em realidade.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

DALVA


A foto acima é de minha mãe, DALVA COLPO FIORENZA, aos 16 anos. Em 1953, ela era uma jovem muito bonita (de olhos indescritivelmente azuis).

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

MEUS FILÓSOFOS


Hoje me chegaram mais três livros dos filósofos que mais li no corrente anos: 
A Filosofia, de André Comte-Sponville;
O espírito do ateísmo, de André Comte-Sponville;
A sabedoria dos modernos, de André Comte-Sponville e Luc Ferry.
Essas obras vêm se juntar a
Valor e verdade, de André Comte-Sponville;
Pequeno tratado das grandes virtudes, de André Comte-Sponville;
O que é uma vida bem-sucedida, de Luc Ferry;
Aprender a viver, de Luc Ferry;
O homem-deus, de Luc Ferry;
Depois da religião, de Luc Ferry e Marcel Gauchet;
A tentação do Cristianismo, de Luc Ferry e Lucien Jerphagnon;
A nova ordem ecológica, de Luc Ferry.
O livro (a que pertence a capa acima ilustrada) tem 500 páginas e foi editado em Lisboa. 
As dez questões são:
- Como se pode ser materialista? Como se pode ser humanista?
- Neurobiologia e filosofia: existirão fundamentos naturais da ética?
- Humanitarismo e bioética: na direção da sacralização do humano?
- O dever e a salvação: da moral à ética;
- A busca do sentido: uma ilusão?
- Esperança ou desespero: Jesus e Buda;
- Existe uma beleza moderna?
- A sociedade mediática;
- O filósofo e o político;
- Entre ciências e culturas: para que serve a filosofia contemporânea?
Quantos interrogações? 
Filosofar é inquirir.

VATINHO E IRMÃOS


Vatinho (centro) e seus irmãos, João Carlos, Guilherme, Nélson, Paulo, Suzana e José Maria. Foto tirada na Festa do Passo da Cruz, dia 11 de outubro de 2014 (depois de um churrasco macio e saboroso). 
Essas festas são excelentes oportunidades para o reencontro entre parentes, amigos e conhecidos. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

SEGUNDO TURNO


Marina Silva deve apoiar Aécio, como a forma mais educada de rebater todas as mentiras elaboradas pelo PT para inviabilizar sua campanha à presidência. Os mesmos detratores arrivistas que destruíram a candidatura de Marina se voltarão agora contra Aécio, que sofrerá em dobro.   

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A LÓGICA DO PORTUGUÊS

A placa que indica o bairro Itu, em Santiago, tem um erro ortográfico: o "u" está grafado com acento agudo.
A regra diz que o "u" deve ser acentuado toda vez que:
- for tônico;
- vir precedido de vogal;
- formar sílaba sozinho ou seguido de "s".
Também é acentuado em palavras paroxítonas terminadas em l, n, r, x, ps, ã(s), ão(s), i(s), un(s), u(s) e ditongo, bem como em todas as palavras proparoxítonas.
Na palavra ITU, o "u" é tônico, mas não vem precedido de vogal e tampouco constitui sílaba sozinho. 
Em JAÚ, por exemplo, o "u" atende às três primeiras condições, fundamentais para levar o acento.
Sem o acento no "u" de JAÚ, a palavra poderia ser pronunciada com o "a" tônico, como em MAU, PAU... O hiato se transformaria em ditongo. 
Em ITU não há outra pronúncia. Na hipótese do "i" ser tônico, exigiria acento agudo (porque se trataria de uma paroxítona terminada em "u" não seguido de "s". 
Desafio: encontrar uma palavra paroxítona terminada em "u" (sem o "s"). 

PESQUISAS - O QUE HÁ DE ERRADO?

As principais pesquisas ATÉ ÀS VÉSPERAS das eleições colocavam Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves. Marina à frente de Aécio. 
Para governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, Ana Amélia e José Ivo Sartori. Ana Amélia à frente de Sartori.
Para Senador do Rio Grande do Sul, Olívio, Lasier Martins e Pedro Simon. Olívio sempre à frente dos demais.
ATÉ ÀS VÉSPERAS das eleições. 
À exceção de Dilma para presidente, os demais resultados das pesquisas extrapolaram a chamada "margem de erro". 
Qual a leitura que faço dos equívocos na realização das pesquisas, que podem apresentar duas causas: incompetência ou tendenciosidade? 
(Independentemente da causa, o resultado das pesquisas é sempre falacioso, pela generalização apressada. Noutras palavras, a pequena amostra entrevistada jamais representará o todo.)
Ao cotejar a colocação dos candidatos apontados pelas pesquisas e o resultado final das eleições, percebo que havia um objetivo oculto nas pesquisas, uma intenção de ludibriar o eleitor. 
Qual essa intenção?
Marina deveria ganhar de Aécio. Ana Amélia deveria ganhar de Sartori. Olívio deveria ganhar de Lasier. 
Quem seria o maior beneficiado com esses resultados hipotéticos?
Para mim, é óbvio: Dilma e Tarso porque estariam na frente e enfrentariam adversários mais fracos; Olívio porque estaria na frente. 
O caso de Tarso é mais evidente. 
Amanhã ou depois, as pesquisas (incompetentes ou tendenciosas?) dirão que Sartori e Tarso estão "tecnicamente empatados". Uma ova!



domingo, 5 de outubro de 2014

PESQUISAS

Hoje, às 15 horas, postei o seguinte pedido no Facebook: 
Após a apuração das eleições deste domingo, cotejar o resultado final com o que apontavam as pesquisas até ontem. 
Minha tese: as pesquisas não são válidas (para não dizer mentirosas). 

sábado, 4 de outubro de 2014

POLÍTICA E FILOSOFIA

Política e filosofia sempre estiveram mais ou menos juntas, sem alcançar o ideal de Platão, de que a cidade-estado (polis) deveria ser governada por um filósofo. Entre os melhores exemplos dessa aproximação, cito Roma com Marco Aurélio e A Revolução Francesa. 
Amanhã os gaúchos poderão votar num candidato formado em Filosofia e que já administrou uma de nossas cidades mais desenvolvidas: JOSÉ IVO SARTORI. Ele é distanciadamente o melhor candidato para ocupar o Piratini. 
  


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

TRÂNSITO (MAIS UMA VEZ)

Os acidentes de trânsito continuam a ocorrer nas ruas da pequena Santiago. Em razão do tamanho de nossa cidade (pequena, graças ao acaso), não se pode aceitar essa forma de violência - associada ao mau emprego de veículos automotores no ir e vir dos santiaguenses. 
Mais uma vez retorno à ideia de que o maior número de veículos  e a condição das vias não são os fatores que mais contribuem para o acidente. O argumento contrário é evasivo, tem o objetivo de aliviar a responsabilidade do sujeito da ação de dirigir. Na BR287, por exemplo, onde o número de veículos não é relevante, os pínus passam a ser culpados pelas mortes frequentes. 
Outro equívoco consiste em denominar de "tragédia" os acidentes graves. O objetivo oculto nas entrelinhas desse discurso também é de proteger o sujeito da ação de dirigir. A tragédia decorre do inevitável, que está além da capacidade de controle ou de domínio do homem. Os acidentes de trânsito poderiam ser evitados, portanto...
Dentro do perímetro urbano de Santiago, pergunto, há placa de regulamentação que permite velocidade acima dos 40 km/h. 


Não há. Inclusive na Alceu Carvalho, na Aparício Mariense, na Pinheiro Machado, na Osvaldo Aranha... 
Minha conscientização não tem a duração de uma semana. Há alguns anos venho pensando sobre o trânsito. A pergunta acima, modéstia à parte, vale por um estudo inteiro. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

ATÉ DOMINGO

Discurso recorrente neste país: "Os brasileiros não sabem votar", "a sociedade é culpada pelo governo que tem", ad nauseam
Ignorantes e culpados (uma aporia filosófica) têm até domingo para provar que sabem, votando no candidato certo, que fará um governo irrepreensível. 
Minha sugestão é que os sujeitos desse discurso indiquem até domingo qual é o candidato certo: Dilma? Marina? Aécio? ...? ...?


NOVA INOVE


Um irrecusável aconchego as novas instalações da Livraria & Café Inove na Av. Getúlio Vargas, nº 1542 (em frente ao relógio eletrônico da Praça Franklin Frota). 
A loja pode ser vista da janela da Seção da Comunicação Social da 1ª Bda C Mec, onde trabalho de segunda à sexta.
A Inove inovou com a mudança, oferecendo café e salgado aos clientes que a visitam nesse novo endereço. 
Foi-se o tempo de justificar a não leitura pela falta de livros comercializáveis em Santiago.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SENSACIONALISMO BURRO

Num site noticioso, leio a seguinte matéria (apenas a introdução dela):
Um estudo apresentado nesta quinta-feira (25) indica que metade da água do planeta talvez seja mais antiga do que o Sistema Solar, o que aumenta a possibilidade de existir vida fora de nossa galáxia, a Via Láctea.
Pergunto ao leitor se podemos considerar séria essa informação.
É óbvio que não.
O que há de errado?
O salto hiperonímico entre o Sistema Solar para a galáxia. 
O texto pode ser facilmente corrigido trocando o termo "fora" por "em".

O QUE É O HOMEM?


PROTÁGORAS: "O homem é a medida de todas as coisas"

PLATÃO: "O homem é corpo e alma"

ARISTÓTELES: "Animal racional", "Animal político"

SANTO AGOSTINHO: "O homem é a imagem de Deus" 

FRANCIS BACON: "O homem é aquilo que sabe"

DESCARTES: "Ser pensante"

PASCAL: "Ser obscuro"

HOBBES: "O lobo do homem"

ROUSSEAU: "Ser bom por natureza"

KANT: "Ser que julga"

HEGEL: "Espírito subjetivo"

SCHOPENHAUER: ""Ser egoísta"

MARX: "Instinto econômico"

NIETZSCHE: "Ser que manifesta a vontade de potência"

FREUD: "Ser da libido"

FROMM: "O homem é o produto de princípios culturais e biológicos"

MAX SCHELER: "Ser aberto ao mundo"

HEIDEGGER: "Ser-no-mundo", "Ser-aí"

SARTRE: "O homem é o resultado de suas escolhas"

CASSIRER: "Ser simbólico"

FROILAM: "Criador de deus(es)"


domingo, 21 de setembro de 2014

LEITURA INCÔMODA

        Uma coisa me incomoda ao ler Descartes, o “pai do racionalismo”: o salto que ele propõe de seu princípio de racionalidade, o cogito, para a metafísica.
A ideia de Deus prova sua existência.
(O termo “existência” aqui não tem a acepção heideggeriana, dada com exclusividade ao homem.)
Não é estranho que até hoje ninguém limitou essa prova de Descartes aos deuses vigentes, cultuados pelas religiões ainda ativas? Deuses que vigem: Jeová (que passou a ser denominado de “Deus” por etnocentrismo da cultura judaico-cristã), Alá, Vixnu, entre outros.
Os deuses que vigeram também eram a ideia de homens, povos e civilizações, não menos vivos em seu tempo do que somos hoje, os ocidentais.
Ninguém que vivesse na Grécia Antiga defenderia a não existência de Zeus (e dos Olimpianos). Mais que coragem, faltar-lhe-ia argumentos para convencer seus concidadãos. Séculos ou milênios mais tarde, todavia, o deus poderoso dos gregos acabou relegado ao mito. Crença, culto, conceito, imagem, tudo não passava de uma ilusão milenar, civilizatória.
Em relação a nossa civilização, Nietzsche ainda é o melhor exemplo de coragem e argumentação. Depois dele, o século XX se encheu de filósofos e cientistas a prolongar seu discurso.
Da parte que me cabe, modéstia à parte, já vislumbro um tempo em que judaísmo e cristianismo (grafados com minúsculas) não passarão de mito, e a Bíblia, a expressão escrita de uma mitologia.
A laicização aponta para esse tempo.
Ela não será páreo para o fundamentalismo islâmico, que se intromete na Europa sem qualquer resistência. Para deter esse avanço, penso que a cruz ainda se fará necessária a partir de sua última cidadela (na América).
Essa tergiversação sobre uma leitura de Descartes também me incomoda.  

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

NOVA BABEL

         Uma nova babel ergue seu edifício nestes dias com uma rapidez que logo comprometerá a própria sustentação. Com o mesmo instrumento, a língua, sujeitos diferentes conseguem elaborar uma diversidade tão grande de discursos, que já dificulta o entendimento recíproco, a interlocução.
            Um “tijolo” (ou “pérola”) dessa construção babélica foi oferecido pela juíza Cármen Lúcia Antunes Rocha, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal: “Tenho muita fé em que os cidadãos vão entender com clareza cada vez maior que qualquer condenação que ultrapasse o direito é vingança, não justiça. E vingança se tem na barbárie, não na civilização” (VEJA, 17 Set 14).
         Dos conceitos primitivos empregados pela juíza, proponho uma análise de vingança, justiça, barbárie e civilização. Os dois últimos fazem referência a estágios de desenvolvimento da humanidade. A barbárie se encerrou com o surgimento da escrita, há seis mil anos aproximadamente, quando teve início a civilização.
            Certamente, não foi essa significação que a juíza Cármen Lúcia deu aos termos, reduzindo-os a seus hipônimos atuais: vingança (para barbárie) e justiça (para civilização).
         A denominação de barbárie ao ato de crueldade é de uso corrente, que não distingue os “babelianos”, da elite intelectualizada ao senso comum. O uso falacioso dessa inversão tem o objetivo de preservar a nossa civilização, por intermédio do mito teleológico, que atribui a ela uma evolução contínua para melhor. Ao ato de boa educação, fraternidade e amor, diz-se que é civilizado.
         (Segundo a frequência com que ocorrem esses antípodas do comportamento humano, o mal continua identificando-se à realidade, e o bem, à idealização. Não obstante o gigantesco imperativo moral ou religioso.)
         Ao associar uma condenação mais dura à barbárie, não à civilização, a juíza reduz coisas opostas numa coisa única, com graus diferentes de intensidade na ação de punir quem tenha sido condenado. Ela saberia explicar melhor (ou “desbabelizar”) em que consiste uma “condenação que ultrapasse o direito”? Em contrapartida, há um “ficar aquém” do direito? Neste caso, continuaria havendo justiça? Na confusão instituída pela nova babel, a impunidade é barbárie ou civilização? Ou esta só existe dentro da exata medida do Direito?
          O magistrado que “ultrapasse o direito” de punir não cometeria um exagero, uma severidade, um equívoco. Por que vingança (julgando-se crimes do chamado “colarinho branco”)?
         Afinal, o que realmente disse a juíza Cármen Lúcia? Suas opiniões (publicadas na VEJA) contribuem para aumentar a algaravia discursiva que levanta uma babel às avessas nestes dias.