domingo, 21 de março de 2010

HERÁCLITO E SEU (DIS)CURSO

Nos jornais, canais de televisão e sites noticiosos, diariamente, leio e vejo centenas de informações. Já ando meio enojado de tudo o que circula na grande mídia, principalmente acerca da política. As viagens do Presidente Lula ao Oriente Médio, por exemplo. Perdi meu tempo com o Zero Hora e o Correio do Povo deste domingo. Nada de positivo a destacar. Vou à estante e apanho um livro extraordinário: Heráclito e seu (dis)curso, de Donaldo Schüler. Uma coisa boa é retomar a leitura já realizada: consigo entender melhor o autor (que me parecera um pouco obscuro na primeira vez). Transcrevo O fogo:
"Heráclito move-se num espetáculo de máscaras. Arranca as que, vulgarizadas pelo uso, já nada exprimem. Investe contra a imprecisão da linguagem convencional, sem poupar a sagrada nomenclatura do mito. E reveste noções evasivas com símbolos como o fogo, cintilante de sugestões. Sempre que tentamos traduzir o símbolo em outra linguagem, a busca da clareza agrega perdas. Corramos o risco. O fogo, ao sobrevir, há de separar e compreender todas as coisas. (B 66) Será fogo (pyr) a luz do olhar? Não recomendou Heráclito às psiques a secura do brilho? Persigamos a hipótese. Separar e compreender são atos de quem observa. A luz não sobrevém no fim do processo. No trabalho de separar e compreender, devemos procurá-lo ao longo do trajeto, do projeto. Resistimos à sedução de um fogo apocalíptico incumbido de iluminar o cenário no instante em que os atores se retiram. Não será mais plausível pensar que o pensador do fluir tenha refletido no acontecer enquanto coisas acontecem? O verbo krino, traduzido por separar, significa também julgar. As duas acepções apoiam-se: quem julga separa. Nenhuma dessas operações se efetua sem critério. Por separar e julgar, o observador desencadeia crise: rompe vínculos consagrados, submete a exame o que a tradição legitimou. O olhar criticamente iluminado arde como presença temida. No separar e no recolher transcorre o Discurso. Quem julga absolve ou condena. Katalepsetai significa compreende, condena. De todas as impressões, retemos umas e condenamos outras ao esquecimento temporário ou definitivo, amparados pela razão ou sem ela. Quando alguém vem sobrevém o fogo. Os rios em que entramos ardem em chamas".

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