terça-feira, 31 de março de 2009

A DESEDUCAÇÃO

A deseducação é um fenômeno novo em nossa sociedade, não fazendo diferença entre as parcelas menos educadas e as (supostamente) mais educadas. Noutras palavras, a população adulta, em que fora depositada a esperança de um futuro melhor para o país, demonstra o fracasso dessa perspectiva ao deseducar suas crianças e adolescentes. Os lares sempre foram condicionadores do mais racionalizado egoísmo, desenvolvendo, paralelamente, outros caracteres psicossociais, como o narcisismo e a agressividade. A escola, mais do que revelar a deseducação que o indivíduo traz de casa, acrescenta-lhe o desencanto e a ojeriza pelos estudos regulares. A instituição escolar não consegue competir com a rua, com a vida extramuro. Aqui, acaba prevalecendo o que foi deseducado na família e na escola. A realidade nega o que é, tautologicamente, discursado como educação. O fenômeno da deseducação evidencia sua consequência imediata: a violência. No âmbito da família, a agressão é velada em relação aos pais e declarada em relação aos filhos (diferente da deseducação vertical que preponderou até o século passado). No âmbito escolar, o comportamento agressivo é conhecido por bullying - levado a efeito por alunos e professores indistintamente. No âmbito da sociedade, a agressividade se manifesta amiúde, sem uma coordenada dominante. Cada indivíduo é "rio que tudo arrasta" e é margem que comprime outros rios. A corrupção também prova a deseducação generalizada que começou com a Lei de Gérson e hoje movimenta bilhões de reais. Dinheiro suficiente para comprar pessoas que se supunham incorruptíveis. Todavia, há professor que ainda acredita na educação. Trágico, à semelhança de Sísifo, continua a rolar para cima sua pedra.

GARCÍA MÁRQUEZ


O escritor Gabriel García Marquez durante feira literária em Guadalajara, México, em 2007
.
García Márquez não voltará a escrever, diz agente literária
A agente literária Carmen Balcells, uma das mais atuantes no meio literário de língua espanhola, previu o silêncio definitivo do escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982. "Acho que García Márquez não voltará a escrever nunca mais", disse Balcells em entrevista ao jornal chileno "La Tercera", na qual assegurou que o escritor representava 36,2 % do faturamento de sua agência literária.
O escritor Gerald Martin, autor da única biografia autorizada de García Márquez, concordou com Balcells. "Eu também acho que (García Márquez) não escreverá mais livros, mas isso não me parece lamentável. Como escritor, foi seu destino ter uma trajetória literária totalmente coerente", declarou Martin.
No mês passado, durante a Feira do Livro de Guadalajara, no México, o autor de "Cem Anos de Solidão" chegou a declarar que "escrever livros dá trabalho". Segundo Martin, García Márquez tem alguns livros completos guardados, mas ainda não decidiu se vai ou não publicá-los.
(Publicado no UOL, 31 de março de 2009)

segunda-feira, 30 de março de 2009

RECUERDO POÉTICO

A postagem abaixo me fez retornar no tempo, para o final da década de setenta mais precisamente. Depois das aulas noturnas no Cristóvão Pereira, dirigia-me ao bar/restaurante da Venâncio Aires, onde hoje há uma loja de produtos para festa, em frente à casa do seu Arno Gieseler. Nunca fui boêmio ou noctívago, faltava-me dinheiro para tal. Também não tinha vocação para vagabundo. Seria a verve artista, a me levar àquele bar de uma rua que ninguém sonhava um dia homenagear os poetas? Ali conheci um bêbado que me recitou Duas Almas, de Alceu Wamosy. Seu nome era Luisinho, inteligente e bondoso (uma vez que me ditou o soneto do simbolista gaúcho com todas as sílabas). Desde lá, venho recitando Duas Almas com esta emoção que me faz poeta.
.
DUAS ALMAS

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra e, sob este teto, encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

domingo, 29 de março de 2009

CAFÉ DO POETA


Café do Poeta será a mais nova opção gastronômica em Santiago, especialmente para aqueles que se deliciam com a bebida escura e aromática. O empreendimento é de um jovem porto-alegrense, psicólogo, recém-chegado à nossa cidade. O local não poderia ser outro: Rua dos Poetas. In down town, ao lado das mais belas lojas de roupa, dos principais restaurantes (Mário e A Gaúcha), da única livraria e de outros estabelecimentos comerciais, o Café do Poeta constituir-se-á num ponto de encontro ao final da tarde e início da noite, onde as pessoas poderão falar, ler e ouvir poesia, enquanto saboreiam a deliciosa infusão.

quarta-feira, 25 de março de 2009

NOVA ANTOLOGIA

A Academia Santa-Mariense de Letras organiza mais uma antologia de seus membros, a qual será lançada na próxima feira do livro de Santa Maria. Ontem recebi um e-mail de Lígia Militz da Costa, atual presidente da ASL, pedindo-me que enviasse os poemas com urgência.
Já o fiz com uma alegria renovada. Como é bom manter essa conexão com uma entidade cultural mais abrangente, regionalizada, fora de Santiago (longe de drogados e pulhas que se consideram em nível superior, ainda não alcançado por mim).
Hoje recebi o retorno da professora Lígia (doutora em Teoria da Literatura):
Salve, Froilam!
Recebi com satisfação teu e-mail e já encaminhei teus lindos textos para a Comissão de Poesia. No correr dos dias, conversaremos novamente.
Um abraço,
Lígia
Não bastasse a expectativa de publicar meu segundo livro de poemas, Espigas de luz, a antologia da ASL é um estímulo significativo para que eu continue na senda literária, a produzir poeticamente.

terça-feira, 24 de março de 2009

FILINTO CHARÃO

SURGE ET AMBULA

Um mês Dionéia faz que não te vejo,
Que te não ouço e tu de mim tão perto...
Que atroz martírio em tudo que planejo,
Para em ti ver se uma ilusão desperto.


Tento chegar, falar-te, espreito o ensejo;
Tarda, não vens, tudo é vazio e incerto...
Que desconsolo invade o meu desejo:
- Cantar amor a coração deserto...


Mulher, desperta, vem, te faz amada!
Essa beleza, morta e sem fulgores,
Carece de outra luz, outra alvorada.

Expande essa alma em flor, não desagrades
Quem te fará sentir, no peito amores,
No coração, do coração saudades!

.
Esse soneto de Filinto Charão, homenageado na Rua dos Poetas, não foi incluído na antologia organizada pela Erilaine Perez, uma vez que chegou às suas mãos depois de concluído o trabalho. A inclusão de Surge et Ambula, certamente, traria mais incômodo a um poeta de nossa cidade.

A PEDRA SAPATO


os sapatos
me aprisionam
feito grilhões

todas as manhãs
devo amarrá-los
..............aos pés

qualquer fim de tarde
hei de (a)tirá-los
para sempre

a liberdade
é andar descalço
na beira-mar

domingo, 22 de março de 2009

DIA MUNDIAL DA ÁGUA


Cedo aprendemos que a matéria se apresenta em três estados: sólido, líquido e gasoso (diferenciados, principalmente, pela quantidade e arranjo das partículas elementares em cada substância). Mais tarde, estudando o Sol, ensinam-nos sobre um quarto estado, o plasma, com os átomos completamente ionizados (sem elétrons). Na Grécia antiga, os estudiosos se debatiam para encontrar a substância fundamental que constitui o universo apreendido pelos sentidos. Não obstante as controvérsias, o consenso apontou para estes quatro princípios básicos: água, terra, ar e fogo. Tales de Mileto, o primeiro filósofo da nossa civilização, considerava a água a origem de todas as coisas. Essas quatro substâncias são, respectivamente, hipônimos dos estados físicos. Sabemos que o Sol é constituído por gases (fotosfera) e plasma (camadas interiores). Ele concentra, aproximadamente, 98% (noventa e oito por cento) de toda a massa existente no sistema. Em volta dessa estrela, encontram-se os pequenos planetas rochosos: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte. A seguir, vem os gigantes gasosos: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Em Júpiter, por exemplo, caberiam mil planetas como a Terra. Depois de expor tudo isso, é inevitável a seguinte indagação: ONDE ESTÁ O LÍQUIDO (A ÁGUA)? O senso comum responderá prontamente: em todos os rios, lagos, mares, oceanos e continentes polares. Os sentidos, principalmente o da visão, sempre consideraram que há mais água do que terra em nosso planeta. Uma ingênua, irresponsável e agora nefasta ilusão! Toda a água existente não passa de uma película sobre os elementos sólidos da Terra.
Pensem no que acabo de escrever neste dia Dia Mundial da Água.
Para cumprir com a promessa de dar evidência à poesia, à bela arte da palavra, tomo a liberdade de transcrever um poema de Alessandro Reiffer. A propósito, sou um admirador desse gênero muito bem produzido pelo poeta santiaguense.

Águas do Fim

águas em marcha
fúnebre
águas de março
seco
águas alvas
brancas
águas claras
de espuma: de ter gente
águas belas?
águas plásticas
chuvas ácidas
gotas trágicas

água da vida?
água da morte
dá medo
dá peste
e morre

a humanidade
e a água:
perdida
acabada.
e o que tu fazes?
fezes,
sem mágica...
e que água que resta?
a Lágrima.

sábado, 21 de março de 2009

CONSTITUIÇÃO

toda pedra
traz dentro
o fogo
que a ordena

todo fogo
a pedra
que o alimenta

pedra
e fogo

trago em mim:

duro
ilumino
.
(Do livro Espigas de luz, que será publicado ainda este ano.)

ATIRADOR

minha lucidez
é preciso
tiro de fuzil
(entra fundo
na carne

do discurso)

minha lucidez
é incômodo
raio de sol
(ofusca
pela claridade
)

[...]

tenho cunhetes
de fogo
atilhos de luz
e comandamento

quem há
de?

.
(Do livro Espigas de luz, que publicarei ainda este ano.)

sexta-feira, 20 de março de 2009

SIMPLESMENTE, UM GRILO

Há dois dias, um grilo transita neste apartamento. Mais precisamente, na área de serviço e na cozinha. Sempre gostei de grilos dentro de casa, nunca fiz com eles o que faço com as baratas que encontro de vez em quando. Ainda que elas sejam silenciosas, ao contrário deles (que irrompem com um cri-cri insistente e ubíquo). Esta noite, ao retornar para casa, ouvi o canto do bichinho que se encerrara aqui. À tarde, parecia quase morto. Mas a noite escura (nenhuma luz fica acesa) criou o ambiente propício para que ele entoasse seu canto de uma claridade indescritível.

MUDANÇA


o mundo muda
menina
aos olhos da poesia
a vida
se regozija
na companhia
das musas
.
o mundo medra
e ilumina
toda palavra
madura
a vida faz-se
metáfora
que se desfaz
em doçura
.
o mundo muda
menina
na companhia
das musas
.
(Do livro Ponteiros de palavra, ilustração de Henri Matisse, Alegria de Viver.)

ROLDANAS


as roldanas
rodavam
rodando
no meu sonho
.
com assombro
as roldanas
giravam
e me prendiam
girando
.
sobre o duro
travesseiro
dentro
do estômago
.
as roldanas
rodavam
num pesadelo
quando
.
(Do livro Ponteiros de Palavra, um exemplo da influência nejariana em minha poesia.)

quarta-feira, 18 de março de 2009

AGRIDOCE

no amanho
da manhã
colho fruto
bivalve

amargo
numa parte
(se te queixas)
e doce
noutra parte
(se me beijas)

primeiro
a parte
amarga
pela tarde

a parte doce
até alta

madrugada

o que me cabe

domingo, 15 de março de 2009

ADEUS ÀS DIATRIBES

Estou decepcionado com a nossa blogosfera, cujos comentaristas anônimos são alguns dos próprios blogueiros. Sempre fizeram isso, ao extremo de usarem meu nome para comentar zombeteiramente um erro de português de terceiro. Distorcem o que escrevo, tomam essas distorções como verdadeiras. São ridículas as postagens desses maus leitores (condicionados por autores maus). Pseudoinimigos políticos, andam juntos depois, dizendo-se amigos uns dos outros. Após deletá-los do blogroll, limitarei minhas postagens à poesia, à arte. Voltei a jogar xadrez no Internet Xadrez Clube. Não perderei mais tempo com diatribes.

SHOW DE RENATO BORGHETTI

Renato Borghetti fez um show no centro de Santiago ontem, patrocinado pela AES SUL. Uma hora de música executada por esse virtuose da gaita ponto. Ele toca e permite que os outros músicos façam o mesmo: Daniel Sá no violão; Pedrinho Figueiredo na flauta e sax; e Vitor Peixoto no piano. Borghetti falou pouco, disse que a música instrumental é própria para os espaços fechados, mas que a disposição do público em frente à prefeitura lembrava um teatro. Disse que Santiago tem a Rua dos Poetas, onde foi homenageado um grande artista: Eurides Nunes. Na hora, pensei naqueles que, morando aqui, foram contra a inclusão do gaiteiro, bem como de Aureliano F. Pinto e de outros nomes. Continuam sendo contra a que nossa cidade seja chamada de Terra dos Poetas. Está para ser aprovada no poder legislativo estadual uma lei que reconhece esse epíteto para Santiago. Alguns desses enpedernidos críticos terão que engolir seus discursos zombeteiros e aceitar as realizações pelo enobrecimento da nossa cultura. Apenas um pensamento que me tomou de assalto, enquanto os aplausos do público agradeciam pela referência a Eurides Nunes. Ouvindo e vendo o show, lembrei do santiaguense Gilberto Monteiro, considerado por muitos como superior a Borghetti. Antes da 'saideira', um menino que imitava o artista com uma gaitinha de brinquedo foi convidado para subir ao palco. Muito simpático esse Borghetti. Fizemos fila para comprar seu cd Fandango, que ouço agora, escrevendo esta postagem.

sábado, 14 de março de 2009

AS DUAS ETAPAS DA PRODUÇÃO POÉTICA

"De uma forma esquemática, o processo de produção poética é composto de duas etapas, as quais podem estar nitidamente separadas, podem fundir-se uma na outra ou seguir-se uma à outra em intermitências rápidas ou lentas. [...] A primeira etapa é caracterizada pelo sentimento de se estar tomado por uma forma de 'êxtase'; na segunda, predomina o autocontrole de uma elaboração premeditada e a intenção de dar arremate a um projeto em andamento. [...] De acordo com o testemunho dos poetas, a fase da produção comumente chamada inspiração contém o impulso inicial altamente motivado, e a fase concomitante, ou posterior, a da elaboração, representa a operação, com técnica e cuidado, de uma 'lapidação' do material 'bruto' produzido na fase anterior. À primeira fase aplica-se com maior definição o conceito de estado poético, caracterizado pela consciência intensificada, em que a dicotomia entre experiência subjetiva e a realidade objetiva é superada, abrindo o espaço para a profusão de 'imagens' como reveladoras de novos significados. É um estado do êxtase, qualidade emocional que impõe a superação temporária da distinção entre o sujeito e o objeto. Esse estado, e não a 'imaginação', preside o ato criador; o estado poético não é uma região da consciência, nem uma instância do 'ser', mas uma dada situação configurada, a partir de uma percepção da fantasia, por um conjunto de fatores, entre os quais a linguagem."
(Excerto do livro O fenômeno da produção poética, de Orlando Fonseca.)

CONSTATAÇÃO


outro céu
nesta manhã?
.
outros olhos
o percebem?
.
retórica
heraclitiana
.
mesma coisa
e mesmo ser
.
outro apenas
o azo a vez

FONÉTICA

.
a-b
..........surdos
não
se son
..........oros
são

sexta-feira, 13 de março de 2009

TÁ NA CARA


Nenhuma pessoa pode dizer de si mesma que é boa, pela suspeição de egolatria (essa tendência natural de puxar a brasa para o próprio assado). Mais ainda: nenhuma pessoa pode parecer que é boa em determinadas circunstâncias, sob pena de cair em contradição, passar por hipócrita ou mal-intencionada. Nenhuma pessoa conhece suficientemente a si para dizer que é boa. Quando se autoconhece, não o diz. Quem pode fazer uma melhor apreciação dela são os outros. Quem são os outros? Todos os que convivem com ela em determinado tempo e lugar: pais, irmãos, filhos, vizinhos, colegas de trabalho, de estudo e de lazer. Os pais, geralmente, excedem pela corujisse, mas os irmãos os corrigem dessa distorção apreciativa, os vizinhos e colegas corrigem as distorções familiares. Quando não há qualquer senão acerca de uma pessoa, quando passa incólume pela prova das relações interpessoais, então, poder-se-á dizer coisas boas dela. A pessoa ruim é, em contrapartida, malfalada pelos colegas, vizinhos e conhecidos; pelos parentes em casos de ruindade inegável. Na maioria das vezes, a infeliz acaba amargando a solidão, que é diferente do estar-só. Solidão é sofrimento indesejado; estar-só é escolha, refúgio para uma melhor contemplação de si mesmo. Uma pessoa boa pode, excepcionalmente, querer estar-só, mas quase ninguém é capaz de perceber esse seu modo de existência (de curta duração, ainda que recorrente). Uma pessoa ruim, contrariamente, não consegue esconder que sofre, o que se evidencia na própria fisionomia ou no discurso maledicente que vomita. Nenhuma delas, todavia, sabe de si que é ruim, pelo menos o suficiente para admitir que os outros estão certos.

A POÉTICA MODERNA

"A poética moderna radica na tensão entre propostas teóricas e concomitante prática poética, no modo como a linguagem do poema organiza os elementos sonoros e imagéticos. A poesia modernista abandona a feição mágica e redentora, para se converter em arte lúdica, caracterizando-se pelo experimentalismo. Da estética da destruição futurista à escrita automática dos surrealistas, diminui a importância do verso como caráter de unidade do poema, e com ele as convenções rítmicas e rímicas, pela valorização da linguagem enquanto tema e objeto da própria arte. No rastro das invenções modernistas, o Formalismo Russo formula teorias da produção poética, privilegiando a autotelicidade do objeto literário, baseada no papel da novidade, da surpresa - o 'estranhamento'. Chklovski aborda a poesia como 'tornando estranha' a linguagem, pela estilização dos elementos. Para o formalista russo, a arte libera o objeto do automatismo perceptivo, transferindo-o para uma esfera de nova percepção, num procedimento de singularização. Obscurecendo a forma, sugere Chklovski, o artista aumenta a dificuldade e a duração da percepção."
.
Trecho extraído do livro O fenômeno da produção poética, de Orlando Fonseca.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O FENÔMENO DA PRODUÇÃO POÉTICA

O livro ao lado resultou de uma tese de doutorado de seu autor, o santa-mariense Orlando Fonseca. De tudo o que li nestes anos dedicado às letras, considero O fenômeno da produção poética a compilação do que de melhor se publicou entre os nossos estudiosos. O dito popular de que "santo de casa não faz milagres", cuja genealogia remonta ao âmbito religioso, não é válido para a Literatura, seja na produção dos gêneros estéticos, seja na crítica a essa produção. Orlando Fonseca, como registra seus editores, "realiza o desvendamento da situação ontológica da criação na consciência de seu criador, o poeta". Isso é ratificado na apresentação feita pelo autor: "buscar a elucidação dos atos prévios à constituição da obra, observando o próprio 'objeto' a se constituir". Poucos se atreveram a tanto. Na parte 1, A consciência e objeto intencional, o autor cita Husserl, o grande fenomenologista. Na parte 2, A obra de arte como objeto intencional, o principal argumento de autoridade recorrente é o discípulo de Husserl: Roman Ingarden. Outros reforços: Mikel Dufrenne, Merleau-Ponty, V. Chklovski... Na parte 3, A produção poética, Orlando Fonseca comenta o testemunho dos grandes poetas sobre o processo de criação (Valéry, Octavio Paz, Neruda, T.S.Eliot, Pessoa, Borges, Quental, Pound, João Cabral, Whitman, Rilke, Baudelaire, Maiakóvski, Trevisan, Novalis, Poe, Ungaretti, Quintana, Prudhomme, entre outros). Ao finalizar o capítulo, cita Bachelard, Chklovski, Husserl e Paviani. Na conclusão, Orlando Fonseca escreve: "Em uma das epígrafes anotadas neste trabalho, o poeta Fernando Pessoa diz escrever versos 'num papel que está' no seu 'pensamento'. A partir dos depoimentos dos poetas, demonstrou-se que o fenômeno da produção poética, no âmbito da modernidade, é um ato da consciência do poeta, derivado de sua capacidade de percepção diversificada, em relação à consciência natural e ingênua. Para tanto, tomou-se a descrição da consciência feita pela fenomenologia de Husserl. Para este, como se constatou na relação sujeito-objeto, o 'objeto' e o próprio 'mundo', onde se encontra, são constituídos na consciência. Constituir, para Husserl, não significa 'criar', no sentido mítico ou teológico. De acordo com essa noção, entende-se que o poeta não 'cria' ex nihilo, mas produz a sua obra a partir da percepção de um objeto cuja unidade sintética é modificada pela fantasia, e que encaminha um estado diverso da experiência cotidiana".

terça-feira, 10 de março de 2009

FALA, DOUTOR

"Não há, da pré-escola à pós-graduação, nenhum outro evento mais importante em termos de transformação do que a capacidade de ler e escrever."
Orlando Fonseca

segunda-feira, 9 de março de 2009

SEM TÍTULO


as coisas inexistentes
ganham forma
provisória
durante o sono
.
as existentes,
engendradas
na vigília,
tornam-se autônomas
.
um demiurgo
enquanto dorme,
um alienado
diurno o homem

RESPOSTA

O silêncio é o melhor arrazoado contra as provocações de espíritos tacanhos.

sexta-feira, 6 de março de 2009

LOUCURAS

Antes de ler filósofos e cientistas, entre os quais Voltaire, Feuerback, Nietzsche, Russel, Darwin, S.J.Gould e Dawkins, vivi alguns anos como frequentador de uma igreja católica. Desde os sete anos, quando fui condicionado a confessar um pecado para o padre que conduziu minha primeira comunhão. Continuo a ler a Bíblia, mas não acredito na palavra revelada. Penso que o arcebispo de Pernambuco não representa a voz da moral cristã, mas a de um louco (que acaba de considerar o aborto pecado mais grave do que o estupro, excomungando a mãe da menina grávida e a equipe médica que realizou o aborto). Qual o pecado de uma criança inocente que é estuprada por um indivíduo adulto dominado pela libido sexual? A igreja católica (com letra minúscula, sim) está cheia desses líderes desastrosos. José Cardoso Sobrinho, o arcebispo de Olinda e Recife, é desse time a que pertence um Richard Williamson (que afirmou não ter existido o holocausto).

RESPOSTA AO ZOMBETEIRO

Alguns de meus visitantes anônimos (entre os quais Sátiro, que comenta minha postagem anterior), não se cansam de me fazer provocações. Nessa arte, excedem-se em ignorância, ainda que na presunção de representarem o contrário, a verdade. O comentarista citado entre parênteses, diante do que escrevo sobre a Internet refletir a noção equivocada e antropocêntrica do senso comum, pergunta "que noção não cometeria tal equívoco". Elementar: todas as outras noções que calculassem menos bilhões de anos para a duração das pequenas estrelas (em vista do Universo ter uma idade aproximada de 15 bilhões, bem menor que uma centena de bilhões). O equívoco persistiria, mas não o disparate editado na enciclopédia. Para tornar procedente sua sátira (escrito maledicente, zombeteiro), Sátiro deveria deletar o demonstrativo "tal". A despeito de conhecer a mitologia, sequer tem noção de lógica discursiva.
.
O verbo costumar é estranho ao âmbito científico. Está na boca do senso comum.

quinta-feira, 5 de março de 2009

WIKIPÉDIA - ENCICLOPÉDIA LIVRE (E NÃO-CONFIÁVEL)

Um dos meus passatempos preferidos é ler sobre as estrelas. Desde Uma breve história do tempo, de Stephen Hawking, passando pelo O mundo assombrado pelos demônios e Cosmos, de Carl Sagan, bem como de A dança do Universo e O fim da Terra e do Céu, de Marcelo Gleiser, às revistas do gênero. O hipertexto digital, como metáfora de uma nova babel, não é confiável em se tratando de conhecimento científico. A Wikipédia, por exemplo, edita o seguinte absurdo: Pequenas estrelas (chamadas de anãs vermelhas) queimam seu combustível lentamente e costumam durar dezenas a centenas de bilhões de anos. No fim de suas vidas, elas simplesmente vão apagando até se tornarem anãs negras. A Internet é fiel, uma vez que reflete a noção equivocada e antropocêntrica do senso comum com relação ao tempo (e ao espaço).

RIO SEM MARGENS


a fac(a)funda
na carne
onde abre
um rio
sem margens
para a dor
ou para o esquecimento

quarta-feira, 4 de março de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

CRIME ANUNCIADO


A destruição da estátua de Aureliano de F. Pinto (recém-inaugurada na Rua dos Poetas) não foi acidental. O ciclista bêbado não passa de um álibi, real ou imaginário, ou para descriminalizar o ato vandálico, ou para ridicularizá-lo ao extremo. Somando-se aos criminosos comuns, surge um novo tipo em nossa cidade: o manipulador (ou malfeitor?) de informações, inclusive com o auxílio dos meios digitais. Entre eles, há os que rejeitam publicamente o epíteto Terra dos Poetas para Santiago. Entre outros santiaguenses, saudosistas na aparência, há os que são visceralmente dominados pelo instinto de destruição (tânatos). Como não podem agir contra a vida de seus concidadãos, insurgem-se contra as obras realizadas por estes. O monumento ao poeta fora antes destruído diversas vezes. Fulano chegou a dizer que, quando fosse autoridade, mandaria arrancar o Aureliano da Rua dos Poetas. Sicrano quase enfartou porque queria outro autor ali homenageado. Beltrano defendeu que Aureliano não merecia tão pobre e mal-acabada homenagem. Fulanos, sicranos e beltranos difamam os poetas mortos e ridicularizam os vivos. A destruição anunciada demoraria alguns dias, no máximo dois meses para se consumar efetivamente. Era uma questão de tempo. Ninguém se manifestou a favor desse vandalismo, mas que o ato fez a felicidade daqueles que criticam o projeto de aculturação da Rua dos Poetas isso é inegável. Infelizmente, as criaturas humanas são metade anjo e metade demônio. Elas não podem mandar seus demônios embora, como escreveu um pensador existencialista: seus anjos iriam também. Em Santiago, a recíproca não parece verdadeira. Há demônios soltos por aí.

INACREDITÁVEL!

Agora fazem comentário em blogs de terceiros com o meu nome. Nunca critiquei erros ortográficos de ninguém, apesar de corrigi-los onde quer que eles se encontrem. Neste aspecto, penso ter atingido o nível profissional. Por isso, procurarei me desviar dessas cobras que invadiram nossa blogosfera, comentando anonimamente na maioria das vezes.
Agora já sei quem é a lavadeira principal, criada a toddy. Mudarei o poema abaixo para "a lavadeira lava..."