sábado, 27 de setembro de 2008

FLAGRANTE DE UMA PAIXÃO


Fernanda alisa seu cabelo em frente ao espelho. Sentada na cama, demora-se longos minutos a movimentar a escova de cima para baixo, imaginando como seria a mãe que ela não conhece.
O pai a observa, afastado da porta, querendo adivinhar os pensamentos da filha.
“Cada vez mais elas se parecem.”
Não esconde uma paixão antiga, fixada desde o dia em que, numa declaração de rebeldia, cortou a franja bem cuidada da irmãzinha.
Quarenta anos depois, destaca o que um grande pensador:
Quando penso em mulheres, começo por imaginar a sua cabeleira. A minha principal idéia de feminino é uma tempestade de cabelo – cabelo preto, ruivo, castanho, dourado.
“Cada vez mais elas se parecem.”
Avança alguns passos, até ser percebido:
– Teu cabelo seria mais bonito se me deixasses tocá-lo.
Não é só o cabelo castanho que lembra a mãe. Os olhos de mel.
Fernanda guarda um segredo a sete chaves. Sabe o que os irmãos ignoram: ela é filha de outra mulher. Certo dia, o pai contou-lhe a verdade num banco do parque. Na volta, deu-lhe algumas cartas para guardar muito bem.
A mãe encontrou essa prova no roupeiro da enteada. Sempre respeitou o marido, aceitando que ele trouxesse para dentro de casa o fruto de uma relação espúria. No entanto, alimenta um ciúme que anda no limite de seu controle.
A menina adquiriu corpo e deixou crescer o cabelo.
“Cada vez mais elas se parecem.”
O outro repete a frase, lembrando a situação que colocou em risco o próprio casamento. Há catorze anos, uma criança foi deixada no berçário do hospital para ser entregue a ele. A mulher chegou a pedir a separação, mas voltou atrás. Desde então, Fernanda é a única pessoa da casa capaz de doçura.
Por isso, adentra-se no quarto da filha, toma sua escova da mão e repete o movimento de cima para baixo.
– Cada vez mais te pareces com ela.
Na porta, a mulher ouve esse comentário e fuzila os dois com um olhar cheio de veneno.

(Em 2003, escrevi esse começo de um conto)

3 comentários:

Alberto Ritter disse...

Obrigado pela leitura!

De acordo.

'Preconceito' não foi mesmo um bom termo. Devia ter ficado quieto, sempre me arrependo de falar!

Mas, o que interessa é que na hora que eu escrevi isso, eu sentia alguma coisa, pra mim isso basta!

Mas achei mesmo a comparação que fizestes.

e mantenho minha idéia de que Beethoven ouviria rock! hehe


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Ah, quanto ao meu tio.

Se puder me falar um pouco sobre ele, por email (albertoritter@gmail.com), eu agradeceria. Sempre tive curiosidade, pouco sei sobre ele. Diga-me algo sobre a palestra.

Diego Neves disse...

É verdade.
Tenho mesmo notado certas idéias sendo expostas por aí, as quais são, no mínimo, provas de um grande retrocesso.
De alguma forma, é o "pagamento" pela liberdade até exagerada de expor certos pontos de vista como se bem entende.

Agradeço, ainda, pelo comentário a meu respeito no outro post. Vindo de ti, é algo extremamente gratificante.

Mudando de assunto, e ao mesmo tempo voltando a um que já comentei antes...
Quem é responsável pela organização da parte das apresentações artísticas na Feira do Livro? Se ainda houver algum espaço, gostaria de lançar meu trabalho como opção nessa parte. Como "Santo de Casa", vamos dizer assim. Se puderes me ajudar a conseguir um espacinho no evento, serei grato. Tu conheces a dificuldade que existe em se conquistar um espaço quando o assunto é arte.
Outro assunto é o teu livro, sobre o qual já ouvi diversos comentários, mas ainda não tive a oportunidade de ler. Como eu posso adquiri-lo? Claro que, se não for pedir demais, gostaria de ter um exemplar autografado comigo. O problema é que, morando em Santa Maria, fica complicado conseguir encontrar.

Um abraço!

Alberto Ritter disse...

Mas achei mesmo ruim a comparação que fizestes*