sexta-feira, 30 de novembro de 2007

FORMAÇÃO CRÍTICA DO LEITOR

Na disciplina Formação Crítica do Leitor, a professora Sandra do Nascimento nos pediu para apresentarmos um painel de uma realidade de Santiago (e de São Francisco de Assis para os pós-graduandos assisenses). O grupo da LÍGIA, LUCAS e CATIANE apresentou sobre o nosso Hospital de Caridade. O grupo da KÁTIA, ELOÁ e JANETE, uma excelente apresentação sobre o lixo produzido em Santiago (com um viés sociológico). ANA PAULA, ADRIANA e BELÂNIA apresentaram sobre o uso de anúncio pela Loja Tamiosso. DILZA, EDGAR e TACIANE mostraram um amplo painel sobre a Querência do Bugio, seus principais pontos turísticos. CRISTIANE e DALVA focalizaram o programa social Banco do Brasil Educar em São Francisco. ELIZIANE, JÚLIO, GISELE e eu apresentaremos amanhã uma crítica sobre o difícil processo industrial santiaguense.

VERSOS PARA UM POEMA MAIOR

o vento dentro
da noite
com suas crinas
molhadas
dispara
pelas coxilhas
sob as estrelas
prateadas
ooo
cavalo solto
se esconde
na escuridão
das quebradas
onde o silêncio
é que pasce
vertentes
de madrugadas

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

POEMA A DUAS MÃOS

Quando tu me amas
Sentidos ganham sons.
Entregue a ti
Despeço-me de mim
Para dançar
A valsa das horas
Em teu corpo...
Nossas almas unidas

Em sombras
Visitam a aleluia celeste
Transluminada de estrelas...
Já não temos sexos
Nem idades
Não conhecemos os dias
Nem as horas,
E o poema surge
A duas mãos
Escrito na carne
Sem nenhuma palavra.

OOO
Desafio aos blogueiros: quem escreveu o poema acima? Uma dica apenas: constitui uma das mais belas promessas na poesia produzida em Santiago. Sem exagero. Veja a beleza e profundidade destes excertos:
ooo
...
devolve na cruz
ao vate
a voz
santa vigília
na noite
da criação
depois do cansaço
eleva teus braços
em rendição
abre tuas palmas
e bebe no
cálice
o orvalho copioso
de tua paixão!

...


lábios que tocaram
o elo de um
pacto sagrado...

ooo
lembrei de
outros tempos
em que via
beleza poética
até nos naufrágios...

ooo
agora, o espanto...
na cólera violenta
das ondas
quando rebentam
nas pedras!

oooo
Poesia tem que ser assim: com metáforas, metáforas e metáforas.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

EVENTO ESPECIAL

Santiago se enriquece de cultura. Apenas nos meses de outubro e novembro: Feira do Livro, Inauguração das Rua dos Poetas, Festival da Música Crioula, Santiago Encena, Feira dos Artistas Santiaguenses (no último fim de semana) e lançamento do livro da Lise Fank (hoje).
O evento ocorreu na loja Obino Top, que ficou pequena. Mais do que número, qualidade humana. A Lise era o centro das atenção. Poeta tímida, como a maioria dos poetas, não falou ao público. O importante é que a poesia dela fala, como escreveu o Oracy. Ainda não é meia-noite, no entanto já li todos os seus poemas editados no livro. Destaco dois:
ooo
O vigia
ooo
Na madrugada
da selva de pedras
um Silva
desafiando tempestades.
Na madrugada
da selva de pedras
um silvo
silvando, insone,
salvando sonos
e patrimônios
que não são seus.
ooo
ooo
O Homem-Aranha
000
O homem mente pela primeira vez
e uma segunda que alicerça a primeira
e uma terceira que remenda a segunda
e uma quarta que mascara a terceira
e uma quinta que justifica a quarta
e uma sexta que reforça a quinta
e ainda uma sétima que extrapola a todas.
E assim, de teias em teias,
cai enredado,
confuso e cansado
sobre os sete degraus
dos pecados capitais.
Mas nunca é tarde demais!

OLHOS AVELÃ

a tarde traz
o excedente
de pássaros
ooooooo(da manhã)
ooo
por isso canto
a doçura
dos teus olhos
ooooooooooooavelã

terça-feira, 27 de novembro de 2007

LISE FANK

Hoje sai mais um lançamento do projeto Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são? do curso de Letras da URI. Lise Fank, minha doce amiga, será o centro das atenções às 20:30 horas, na Obino Top, esquina da Rua dos Poetas. O livro 2 fará mais conhecida uma poesia feita com a cabeça e o coração - inteligente e sensível.

ILHA BELLA SHOPPING

(García Lorca escribió)
oooooooooooooA las cinco de la tarde
oooooooooooooeran las cinco en punto de la tarde
e o shopping reunia umas cem almas, para assistirem a um espectáculo inusitado que só uma feira da arte poderia oferecer. Pela primeira vez, um recital dos mais belos sonetos da literatura brasileira. Fundo musical: Sonata em Dó Menor (Patética), Adagio Cantabile, de Beethoven.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A MAIOR PISCINA DO MUNDO




Um amigo me mandou e-mail com essas fotos da maior piscina do mundo, assegurando-me que irá ao Chile como turista. A piscina pertence ao Resort San Alfonso del Mar. Ela está no Guinness: equivalente a 8 campos de futebol, 250.ooo metros cúbicos, 1 km de extensão, 35 metros de profundidade, custou US$ 1,5 bilhão para ser construída e gasta US$ 4 milhões por ano de manutenção. Um lugar desse me faria muito bem. A diária é de...


RETROSPECTIVA E ESPERANÇA

Entra ano e sai ano e uma coisa não muda em nós, humanos: o balanço retrospectivo em dezembro e a recorrência profética em janeiro. Esse comportamento precede a feitura do próprio calendário e sua origem recua para a pré-civilização, quando o homem teve consciência dos ciclos naturais. Sem exigir muito da imaginação, podemos dizer que esse costume pode se associar à prática da agricultura, entre 10 e 12 mil anos atrás. No século XX, depois de uma explosão belicosa (primeira metade), assistimos a uma explosão midiática, tudo adquirindo novos contornos antropocêntricos. O ano não é mais determinado pelo movimento da Terra em torno do Sol, mas por algo abstraído e internalizado de nossas atividades, eufemisticamente chamado de tempo psicológico.

domingo, 25 de novembro de 2007

JARDIM DO CÉU

A Lua cheia sempre foi um motivo para a contemplação dos humanos mais evoluídos em apreender a beleza do Universo, das flores às estrelas. Os poetas são essencialmente contempladores. Seus olhos percebem o objeto diante de si e internalizam a imagem do mesmo. No âmago de seu ser é processada uma apreciação estética que retorna ao objeto pelo olhar. O ato de contemplar ocorre instantaneamente, que se pode descrevê-lo partindo do observador para o objeto e vice-versa. No momento da contemplação, ambos se fundem, o objeto se humaniza e o sujeito se plasma no objeto. O poeta é o sujeito que vivencia a experiência. O fenômeno da criação é sua tentativa de reproduzir lingüisticamente a experiência vivida. Por isso, ele acaba personificando quase tudo o que vê ao redor, como um ousado demiurgo. As pessoas avessas à poesia não vêem a Lua como algo mais que uma lua simplesmente. Demoram a entender uma prosopopéia ou uma metáfora que atribui às coisas, seres e fenômenos da Natureza um sentimento próprio do poeta. Dessa forma, não sabem o quanto é belo o luar, ainda mais quando refletido nos olhos da pessoa amada. Nas noites sem Lua, não vêem as estrelas, incapazes de conceber que estas são flores no jardim do céu.


sábado, 24 de novembro de 2007

PÓS-GRADUAÇÃO, RECITAL, ESTERIÓTIPO...

Um dia cheio. Aulas da disciplina METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR com a mestre Elaine Maria Dias de Oliveira. Lizi, Júlio e eu apresentamos um trabalho sobre o professor e as novas tecnologias. Muito debate. Excelentes observações da professora Elaine. Final de curso, uma corrida para entregar os trabalhos nos prazos.
Às 16:00 horas, vim para o Ilha Bella Shopping, onde fiz um recital de sonetos. Foram 140 versos recitados de memória (performance que chamou a atenção de alguns conhecidos que não sabiam desta minha prova de amor à poesia). O verso RAIA SANGÜÍNEA E FRESCA A MADRUGADA, do soneto As pombas, de Raimundo Correia, era considerado o mais belo da nossa literatura por Manuel Bandeira. Para mim, MAS QUE SEJA INFINITO ENQUANTO DURE, do Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes.
À tarde, saí de branco (calça e camisa). Falaram na sala em "pai de santo". Outro me perguntou na rua se eu era médico ou enfermeiro. A maioria das pessoas seguem um esteriótipo, isto é, idéia ou convicção preconcebida sobre alguém ou algo, resultante de expectativa, hábitos de julgamento ou falsas generalizações (segundo Houaiss). Coerente com o nome deste blog, gosto de quebrar esteriótipos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

RECITAL DE SONETOS

Neste sábado, farei um recital dos mais belos sonetos da literatura brasileira. Local: Ilha Bella Shopping. Horário: 16:30 horas. Evento: I Primeira Feira de Artistas Santiaguenses. Durante o curso de Letras na URI, por ocasião da Semana Acadêmica, fiz vários recitais poéticos: Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto); La vida es sueño (Pedro Calderón de la Barca); Ponteiros de palavra (meus poemas); Os mais belos sonetos (diversos poetas). Já recitei noutros lugares: Monsenhor Assis, Lucas Araújo de Oliveira, Manuel Abreu, Eron Ribeiro, Geraldina Bitencourt, Medianeira, Círculo Militar, Centro Cultural, Salão 25 de Agosto, Ruínas de São Miguel (encontro de estudantes dos Colégios Medianeira, 1980), Igreja São Pedro (Sapucaia do Sul, 1981), Churrascaria da Gaúcha Car (Porto Alegre, 1982), Universidade Tuiuti (Curitiba, 1988)... Nas salas de aula, tenho feito da poesia quase um método para ensinar Literatura. Na terça-feira passada, antes de passar as datas de nascimento e morte de Camões, narrando lances da vida do poeta português, recitei estrofes de Os lusíadas (épico) e o soneto Amor é fogo que arde sem se ver (lírico).
O recital de hoje incluirá os seguintes sonetos:
LÍNGUA PORTUGUESA e
VIA LÁCTEA, Olavo Bilac;
AS POMBAS, Raimundo Correia;
VELHO TEMA, Vicente de Carvalho;
OS CISNES, Júlio Salusse;
DUAS ALMAS, Alceu Wamosy;
FORMOSA, Maciel Monteiro;
CÍRCULO VICIOSO, Machado de Assis;
VERSOS ÍNTIMOS, Augusto dos Anjos;
SONETO DA SEPARAÇÃO e
SONETO DA FIDELIDADE, Vinícius de Moraes.

SABIÁ CANTOR

Hoje despertei às 5:15 horas, antes do sabiá cantor de todas as madrugadas. Abri a janela para ouvi-lo cantar às 5:38 horas. Preciso dessa ligação com o natural. O canto do sabiá provoca em minha cabeça uma paz que as idéias, já desde cedo, começam a mandar embora. Com o pensamento mais leve, aliviado do peso das idéias, ouço mais forte o próprio coração.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

CRONOS APRISIONADO E AS TRÊS FRUSTRAÇÕES DA HUMANIDADE

Hoje falei para 15 companheiros reunidos numa sala, convidados para ouvir sobre Cronos aprisionado e As três frutrações da humanidade. Com a primeira metáfora, eu quis pontuar o tempo mensurável pelo homem desde o Big Bang ao presente. Um rápido comentário sobre os principais acentecimentos. Para chegar ao Big Bang, por exemplo, foi necessário falar primeiro de uma descoberta feita por Edwin Hubble em 1929: a Expansão do Universo. Cronos era um titã na mitologia grega, pai dos deuses, representante do tempo (por isso cronologia, cronômetro etc.). Com aprisionado quero significar que o tempo é mais ou menos mensurado pelo homem (filho e pai dos deuses), quantificado em sua finitude passada. Mesmo assim, devido a uma interferência antropocêntrica, as noções sobre o tempo são completamente confusas ou distorcidas. O surgimento e evolução da consciência, por exemplo, ocorreu ao longo dos últimos dois milhões de anos. Por uma influência nefasta da tradição judaico-cristã, a consciência humana autodivinizou-se, criou uma imagem poderosa e agora se diz a suprema e apoteótica criação dessa imagem. Até que, em 1543, Nicolau Copérnico provasse matematicamente que a Terra não passava de um planetinha girando em torno de uma estrela. Tal constatação provocou a primeira grande frustração da humanidade. A segunda veio em 1859, com Charles Darwin e sua descoberta. Nenhum obra produzida pelo homem foi tão verdadeira quanto A origem das espécies. Nossa origem é animal, somos animais. Animais racionais. Até que surgisse Sigmund Freud para fazer uma descoberta avassalaradora para a razão: o inconsciente. (Mais tarde, continuo...)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

OUTRO COMENTÁRIO

''Olha o céu, azul, disseste. Olho o céu: está grisalho como um velho encapotado; de azul, mal uma nesga. E só então me dou conta, o azul estava em tua voz: e num milagre, eu, meus olhos e o dia fulguram sol.''

COMENTÁRIO ANÔNIMO

Alguém comenta na postagem que fiz do romance Quando Nietzsche Chorou o seguinte: "As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem, mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física". Esse aforismo é de Nietzsche, segundo o(a) autor(a) do comentário, que pede minha opinião. Se é uma armadilha para me pegar pelas palavras, adianto que leio Nietzsche não por sua misoginia. Com relação a Schopenhauer também. Quanto ao aforismo, penso que está faltando alguma coisa, uma explicação sobre a antipatia, se é mútua, se é a mulher que deve senti-la com relação ao "amigo". Para ser sincero, a frase parece uma daquelas generalizações do tipo "Cristo disse", mas Cristo não disse. Ando com problema de falta de memória, talvez em decorrência das diversas atividades intelectuais que desenvolvo, para lembrar de ter lido isso no filósofo, principalmente em A gaia ciência (onde ele escreve sobre o relacionamento entre os gêneros). Antipatia física é provocada pelo feio, antiestético. A não ser que tal sentimento seja fundamental para impedir que a amizade se transforme num sentimento mais forte, com desejo objetal (ou não inibido em seu objetivo, como definiria Freud). Amizade, pra mim, depende de simpatia, falando holisticamente.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

CAMÕES, BÁRBARA, JÉSSICA...

Hoje dei uma aula de Literatura que, modéstia à parte, cativou a turma do PEIES. Do Trovadorismo ao Renascimento, com um destaque para o Luís, aquele que escreveu o maior poema épico da Língua Portuguesa (que não admito ser grafada com iniciais minúsculas, isso não pode ocorrer com o nome da minha pátria e do Fernando). Recitei a famosa estrofe dOs lusíadas
ooo
Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
ooo
Uma aluna não resiste e comenta que eu deveria ser ator também. Jéssica pede um poema lírico de Camões. Agora sou eu que não resisto e
ooo
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dóis e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
ooo
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder:
ooo
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata a lealdade.
ooo
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
OOO
Bárbara confessa que adora teatro e que vai representar numa peça de Shakespeare. Julieta, claro. Tiago acusa o sumiço do ursinho dele. Letícia e Tayane estão impossíveis. Tamara é tão quietinha, doce menina. Eduardo é inteligente e namorador, conheço-o de outras aulas. Jaíne é encantadora. De certa forma esses adolescentes são assim: inteligentes e encantadores. Saí da sala feliz.

NOVAS PALAVRAS

as palavras secam feito
espinhos
e cravam no poema
já sem carne
onde se desnuda
a semente
pronta para a nova estação
que há de
engendrar
um fruto
doce como nunca fora
as palavras apaixonadas
feito flores

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

UM FENÔMENO COMUM


O BIG BANG É UM FENÔMENO COMUM, OU VOCÊ ACHA QUE EXISTE APENAS ESTE UNIVERSO?

Essa afirmação - que devo registrar como exclusivamente minha - é

absurda ( ) ou científica ( )

AUTO-RETRATO


Pintei esse Auto-retrato com uma camisa amarela em 1985, usando os dedos para espalhar a tinta e os pincéis para o acabamento. Naquele ano, mudara para Curitiba, até então a melhor entre as capitais brasileiras. Logo comprei o material e saía para pintar no fim de semana, encantado com a beleza das praças, das avenidas, dos parques... Como sempre gostei de pessoas, dava as minhas telas. O auto-retrato acima é uma exceção. Sempre ligado aos livros, aos pouco uma outra arte arrebatou minha alma.

QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Algumas pessoas me perguntam sobre esse romance. Só agora me dei conta que o título está incompleto, lacuna que o autor deixa para o leitor preencher. Quando Nietzsche chorou pela primeira vez. Mais famoso é o choro do filósofo abraçado ao pescoço de um cavalo que fora maltratado pelo seu dono. Esse pode ser considerado o último choro de Nietzsche, antes de ser internado numa clínica manicomial. No texto em itálico, abaixo do título, lê-se: Cem anos após sua morte, Nietzsche é o principal personagem deste romance magnífico sobre o nascimento da psicanálise. Para brindar os leitores deste blog, transcrevo a página do romance que narra o momento em que Nietzsche chorou. "Passivamente, Nietzsche retornou à sua cadeira e, fechando os olhos, respirou profundamente várias vezes. Depois, abriu os olhos e confessou:
- O problema, Josef, não é que você possa me trair; é que eu venho traindo você. Tenho sido desonesto com você. Agora, quando você me convida para sua casa, ao nos tornarmos mais íntimos, meu engodo está me atormentando. Chegou a hora de mudar isso! Chega de logro entre nós! Permita que me desabafe. Ouça minha confissão, amigo.
Virando a cabeça para o outro lado, Nietzsche fixou o olhar em um pequeno arranjo floral no tapete persa e, com uma voz trêmula, começou:
- Vários meses atrás, envolvi-me profundamente com uma notável jovem russa chamada Lou Salomé. Antes disso, jamais me permitira amar uma mulher. Talvez por ter sido inundado de mulheres no início da vida. Depois que meu pai faleceu, vi-me cercado de mulheres frias e distantes: minha mãe, minha irmã, minha avó e minhas tias. Algumas atitudes profundamente nocivas devem ter sido inoculadas em mim, pois desde então tenho encarado com horror uma ligação com uma mulher. A sensualidade, o corpo de uma mulher, me parece a pior distração, uma barreira entre mim e minha missão de vida. Mas Lou Salomé era diferente, ou assim pensei. Embora fosse bonita, também parecia uma verdadeira alma gêmea. Ela me compreendia, inidicava-me novas direções... a alturas estonteantes que eu jamais tivera coragem de explorar. Pense que se tornaria minha aluna, minha protegida, meu discípulo. Mas aí, catástrofe! Minha lascívia emergiu. Ela a usou para me jogar contra Paul Rée, meu amigo íntimo que nos apresentara. Ela me fez acreditar ser eu o homem a quem estava destinada, mas quando me ofereci, ela me rejeitou. Fui traído por todos: por ela, por Rée e por minha irmã, que tentou destruir nosso relacionamento. Agora tudo são cinzas e vivo exilado de todos os que outrora estimei.
- Em nossa primeira conversa - interrompeu Breuer -, você aludiu a três traições.
- A primeira foi de Richard Wagner, que me traiu faz muito tempo. Essa ferida já cicatrizou. As outras foram de Lou Salomé e Paul Rée. Sim, fiz menção a elas. Mas fingi que havia resolvido a crise. Esse foi meu logro. A verdade é que jamais, até o presente momento, a resolvi. Essa mulher, essa Lou Salomé, invadiu minha mente e nela se instalou. Não consigo desalojá-la. Não se passa nenhum dia, às vezes nenhuma hora, sem que eu pense nela. Na maioria do tempo, odeio-a. Penso em atacá-la, em publicamente humilhá-la. Quero vê-la rastejando aos meus pés, implorando-me que volte para ela! Às vezes, dá-se o contrário: desejo-a, penso em segurar a mão dela, em nossos passeios de barco no Lago Orta, em saudarmos um nascer do sol no Adriático juntos...
- Ela é sua Bertha!
- Sim, ela é minha Bertha! Sempre que você descrevia sua obsessão, sempre que tentava extirpá-la da mente, sempre que tentava entender seu significado, estava falando por mim também! Estava realizando um trabalho dobrado: o meu tanto quanto o seu! Eu me escondi como uma mulher e, depois que você partiu, saí de fininho, pisei nas suas pegadas e tentei seguir sua trilha. Covardemente, agachei-me atrás de você e deixei-o enfrentar sozinho os perigos e as humilhações do caminho.
Lágrimas desciam pela face de Nietzsche e ele as secava com um lenço."
ooo
Nietzsche e a psicanálise são minhas leituras preferidas (desde 1984).

domingo, 18 de novembro de 2007

MOTOQUEIROS


Um grupo de motoqueiros chegou à cidade ontem. Com suas máquinas potentes, entraram pela Pinheiro como senhores de si, senhores da liberdade. Neles se justificaria o orgulho de mandar o sedentarismo às favas, este sistema existencial que nos aprisiona à realidade. O asfalto é uma ponte sobre seus destinos, uma linha pontuada pela aventura. Ao observá-los, pensei em fazer o mesmo algum dia. Jaqueta, calças e botas de couro, num grupo ainda maior, cruzarei cidades, cruzarei um vasto mundo. Você, aí, sentadinho(a) numa cadeira confortável, vai me acompanhar nesta?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

INFÂNCIA...

ooooPor duas ocasiões, postei textos de outros blogueiros, surpreso com o que se produzira neste gênero digital. O primeiro foi uma crônica poética da Vívian Dias, sobre sua afinidade com os pássaros, e o segundo, do Júlio Prates, uma reflexão belíssima quanto um poema. Há pouco, lendo o blog da Cristina Cogo Michelon, amiga de Nova Esperança, fiquei encantado com INFÂNCIA:
ooo
ooooFecho os meus olhos e me remeto a um passado encantado, minha infância, posso sentir seu cheiro, um cheiro de doce, de chuva, de bolo quente saindo do forno, de terra, cheiros que se misturam em um só, o cheiro bom da minha inesquecível infância....
ooooEra uma época realmente mágica em que eu acreditava em Papai Noel o que tornava meu Natal ainda mais colorido, acreditava em conto de fadas, tinha amigos imaginários, brincava livre pela rua, corria na chuva, nadava pelada na sanga....Lembro-me da primeira vez que fui ao circo e o grande fascínio que aquele mundo de ilusões representou para mim, lembro dos lanches da tarde na casa da minha avó, acompanhado de bolo de fubá, ovo quente e pão com banha, das brincadeiras no quintal, das escaladas nas árvores, das gargalhadas estridentes, das histórias infantis que minha mãe me contava, dos abraços apertados que meu pai me dava quando eu sentia medo de alguma coisa e a sensação de que com aquele abraço nada de ruim iria me acontecer.....Lembro também das canções de Vinicius de Morais no “Arca de Noé, canções que tiveram um significado especial na minha vida, sinto tanta saudade, uma saudade gostosa, que aquece o meu coração e acalenta minha alma.
ooooEssas lembranças estão marcadas em mim, não só nas cicatrizes dos tombos levados mas dentro de mim, bem lá no fundo da minha alma são marcas que nunca irão se apagar, nunca ninguém vai me tirar pois elas me pertencem। Vou levá-las comigo como um tesouro precioso, para todo sempre...
ooooTudo que vivi na infância hoje sei, com certeza, que se transformou em uma fundamental peça, do grande quebra cabeça que eu sou !!
ooooMinha infância, travessa, inocente, curiosa e repleta de sonhos, sonhos de criança !!

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

TIPOS DE VERSO

MONOSSÍLABO:
Rua
torta.
ooo
Lua
morta.
oo
Tua
porta.
oo
DISSÍLABO:
Quem dera
que sintas
as dores
de amores
que louco
senti!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
ooo
TRISSÍLABO:
Sempre viva...
que padece...
ooo
TETRASSÍLABO:
Na noite negra...
Do nosso amor...
ooo
PENTASSÍLABO (REDONDILHA MENOR):
Luz dos olhos meus!
Ao romper da aurora...
ooo
HEXASSÍLABO:
Desse calado irreal....
De me inclinar aflito...
ooo
HEPTASSÍLABO (REDONDILHA MAIOR):
Velha, grande, tosca e bela.
O luar no mar espraia.
ooo
OCTOSSÍLABO:
O campanário do deserto
Cheio de lúgubre misrio
ooo
ENEASSÍLABO:
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.
ooo
DECASSÍLABO:
O tempo arrasta mil vagões por hora
num tiquetaque que de longe vem.
ooo
HENDECASSÍLABO:
Alvas pétalas do lírio de tua alma...
Estas cartas - estas flores desfolhadas...
ooo
DODECASSÍLABO (ALEXANDRINO):
Bailando no ar gemia inquieto vaga-lume:
quem me dera que fosse aquela loura estrela...

OUTRAS NOÇÕES

Ninguém é poeta (no sentido estrito do termo) se não tem essas noções de versificação. Elas são indispensáveis. Há outros fenômenos que devem ser observados na feitura do verso: ELIPSE, HIATO, SINÉRESE, DIÉRESE, AFÉRESE, SÍNCOPE, APÓCOPE, CESURA e CAVALGAMENTO. Basta digitar qualquer um dos nomes acima no Google e...

SINALEFA, ELISÃO E CRASE

(Retomando os estudos poéticos, transcrevo Celso Cunha/ Lindley Cintra.)
Comparemos estes versos de Olavo Bilac, todos com dez sílabas métricas:
ooo
Che / guei./ Che /gas / te./ Vi / nhas / fa / ti / ga / (da)
E / tris / te, e / tris / te e / fa / ti / ga / do eu / vi / (nha.)
Ti / nhas / a al / ma / de / so / nhos / po / vo / a / (da.)
e a al / ma / de / so / nhos / po / vo /a / da eu / ti / (nha.)
o1oooo 2ooo 3ooo 4ooo 5ooooo6ooo7oo8ooo9oooo10
ooo
Verificamos que no primeiro verso haverá sempre, de qualquer forma que o leiamos, dez sílabas até a última tônica. Nele a fronteira das sílabas é coincidente, seja numa leitura pausada ou acelerada, seja na prosa ou no verso, seja, enfim, numa emissão isolada das palavras, se abandonarmos a última sílaba átona.
Já não sucede o mesmo com os três outros versos, que só atingem aquela medida pela leitura numa só sílaba da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da palavra seguinte. Assim:
a) no segundo verso, temos de juntar numa só emissão de voz o e final de triste e a vogal da conjunção aditiva (duas vezes), bem como o o de fatigado e o ditongo do pronome eu;
b) no terceiro verso, ligamos o artigo a à vogal inicial de alma;
c) no quarto, finalmente, fundimos numa só sílaba as vogais da conjunção e, do artigo a, e a inicial do substantivo alma; e, também, a vogal final do adjetivo povoada e o ditongo constituído pelo pronome eu.
Na leitura destes versos, sentimos que há três soluções para obtermos a contração numa sílaba de duas ou mais vogais em contato:
1ª) A primeira vogal pode perder a sua autonomia silábica e tornar-se uma semivogal, que passa a formar ditongo com a vogal seguinte. É o que se observa, por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dwew / [ = fatigado eu]
ooo
Dizemos que, neste caso, há SINALEFA.
ooo
2ª) A primeira vogal pode desaparecer na pronúncia diante de uma vogal de natureza diversa. Por exemplo, na pronúncia:
ooooooooooooooooo fa / ti / ga / dew / [ = fatigada eu]
ooo
A este fenômeno chamamos ELISÃO.
ooo
3ª) A primeira vogal pode ser igual à seguinte e com ela fundir-se numa só. É o que se dá, por exemplo, com a emissão:
ooooooooooooooooo Ti / nhas / al / ma / [ = Tinhas a alma]
ooo
Neste caso, verifica-se o que denominamos CRASE.

PERCUSSÃO

o vento
a soprar
o fio
ooo
o fio
a cortar
o vento
ooo
tenso
fio
ooo
lasso
vento
ooo
asso
vio
ooo
Esse poeminha fonético do meu livro Ponteiros de palavra abedece a um ritmo perfeito:
o / ven / to a / so / prar / o / fi / o oooo(2 - 5 - 7)
o / fi / o a / cor / tar / o / ven / to oooo(2 - 5 - 7)
ten / so / fi / o oooo(1 - 3)
la / sso / ven / to oo(1 - 3)
a / sso / vi / o ooooo(1 - 3)
oooo
Salvo algumas exceções, os poemas do livro são rítmicos.

CARLOS NEJAR

A poesia de Carlos Nejar é ritmo puro, originalíssima pelo seu teor filosófico, rica por sua vastidão metafórica. Como um todo considerada, épica, lírica e dramática ao mesmo tempo.
O ritmo nesse "encantador de imagens e palavras" não é só conseguido pela recorrência métrica e acentual, mas pela repetição por meio de anáforas e de epíforas (recurso que o aproxima de um Fernando Pessoa).
000
Silbion,
Silbion,
inferno é ter nascido.
Inferno é ter vivido como as plantas.
Inferno é desfolhar-se
lentamente
sem saber onde estamos.
ooo
(Anáfora é a repetição de termos no início do verso.)
000
Eram só pedra de pedra
os deuses eram de pedra,
os homens eram de pedra
na eternidade de pedra

000
(Epífora é a repetição de termos no final do verso.)
oooo
No Livro do tempo, temos o exemplo do belo ritmo nejariano:
O vento lavou as pedras,
mas ficaram as palavras.
O vento lavou as pedras
com sabor de madrugada.
ooo
O vento lavou a noite
mas ficaram as estrelas.
oooo
O vento lavou a noite
com água límpida e mansa.
ooo
Mas não lavou a salsugem.
ooo
O vento lavou as águas,
mas não lavou a inocência
que amadurece nas águas.
ooo
Desespero de horizonte.
Desespero de ser ventre.
Desespero de ser terra.
ooo
Desespero de ser homem
sobre a montanha desnuda.
ooo
Os homens eram sombrios,
esfinges de solidão.
ooo
Os homens eram sombrios.
Quiseram tecer de sonhos
a água verde dos rios.
ooo
Os homens eram amargos.
Quiseram compor o cisne
nas águas verdes dos lagos.
ooo
Os homens eram ardentes
como tochas de amaranto.
Sobre o rosto do poente
deixaram rosas de pranto.
...
Todos os versos com sete sílabas. Acentos que se equilibram entre a segunda, a terceira e a quarta sílabas. A última estrofe, por exemplo:
os / ho / mens / e/ ram / ar / den /... 2 - 4 - 7
co / mo / to / chas / de a / ma / ran / ... 3 - 7
so / bre o / ros / to / do / po / en / ... 3 - 7
dei / xa / ram / ro / sas / de / pran / ... 2 - 4 - 7

RECITAL DE SONETOS

Quando o Márcio Brasil me falou de uma feira de artes em Santiago, passeando pelos corredores da ExpoSantiago, fiquei bastante entusiasmado com o projeto. Pela primeira vez, pensamos em fazer um evento com despesa zero. O lucro que teremos não pode ser quantificado, uma vez que seu valor é artístico (muito acima do mercado). Entre as diversas atrações da 1ª Feira de Artes Santiaguense, a mais modesta será um recital dos 10 sonetos mais belos de nossa literatura que fará este blogeiro, sábado, às 19 horas.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

RITMO

O que falta aos poetas da Terra dos Poetas? Ritmo. O ritmo é o principal elemento que caracteriza o verso, diferenciando-o da prosa. Inclusive o verso livre, sem a regularidade métrica. Nossos poetas não dão a devida importância aos aspectos sonoros, a despeito do uso da rima. Armindo Trevisan, em A POESIA - UMA INICIAÇÃO À LEITURA POÉTICA, cita Edward Sapir, poeta imagista e lingüista americano: "Muito da incompreensão a respeito das formas de verso mais livres bem pode ser devido à mera incapacidade de pensar, ou antes de imaginar, em termos puramente auditivos". Os nossos poetas, salvo algumas exceções, compõem seus poemas com versos pretensamente isossilábicos (mesmo número de sílabas). Como a evolução histórica da arte poética ocorreu da forma fixa, clássica, para o verso livre, assim deve ser a trajetória de cada poeta, individualmente. A liberdade é uma conseqüência do domínio que se consegue sobre a versificação. Sem o conhecimento técnico na produção desse gênero textual, o resultado se evidencia numa miscelânia confusa e feia (que acaba não fazendo bem ao olhos e tampouco aos ouvidos). Um verso de pé quebrado condena todo o poema. A rima é menos importante do que o ritmo, coisa que não parece ser compreendida por aqueles que se iniciam na arte. Principalmente, tratando-se de rimas pobres, óbvias, enxertadas, como a demonstrar a deficiência lexical. A esses poetas, recomendo um tratado de versificação, muito dicionário e leitura dos grandes, como Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade.

MORRO DO CHAPÉU

No início dos anos oitenta, morei em Porto Alegre. Trabalhava e estudava de segunda a sexta, comia pouco, desenhava e lia muito. Resultado: era supermagro e cheio de idéias contraditórias na cabeça. Todos os sábados, pegava o trensurb para Sapucaia. Lá reencontrava meus parentes, matava a fome, jogava futsal e, principalmente, participava de um grupo de jovens na igreja São Pedro. Nossas reuniões ocorriam no sábado, quando nos preparávamos para animar a missa no domingo. A igreja lotava e nós cantávamos com alegria. Em certas ocasiões festivas, como Páscoa, Dia das Mães, Aniversário do JUNS - Jovens Unidos Nova Sapucaia (17 maio), Dia dos Pais, eu recitava meus poemas no altar. Liderávamos campanha do agasalho, fazíamos visitas a outras comunidades e passeios nos pontos turísticos da Grande Porto Alegre. Nunca me esqueço de uma tarde ensolarada, quando o grupo foi ao Morro do Chapéu (Morro de Sapucaia), bem próximo da cidade. Foi um tempo que marcou indelevelmente minha alma, dos mais felizes. Por que será que não voltei mais a esse lugar?

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

AINDA UM ROMÂNTICO

Os românticos, especialmente os poetas românticos, entediados com a realidade, fugiam para o passado ou para o futuro. Para isso, transformavam a infância ou a morte em objeto temático da poesia que os imortalizou. Saudade e angústia eram dominantes entre outros sentimentos que arrebatavam suas almas. Eles representavam uma, duas ou três gerações de indivíduos, todos vivendo no limite desse arrebatamento. Poucos conseguiam transcendê-lo (por intermédio de um eu-lírico), embora partissem em plena mocidade desta vida. A despeito de toda evolução filosófica, científica e estética que ocorreu depois, até e durante o século XX, os poetas ainda se debatem com as palpitações existenciais. Como bem expressou Ezra Pound, eles continuam sendo a “antena” sensível dos demais humanos. Não é o reconhecimento disso e a conseqüente enunciação que me tornam poeta, mas um desejo de viver além do que delimita a realidade. Nestas manhãs azuis, sou instado pelo pensamento e pela vontade a sair para o campo, cruzar colinas e restingas, respirar fundo a frescura do mato, enfim, reencontrar o menino que fui um dia. Ou, nestas tardes solares, movido por uma lembrança extremamente doce, ir ao encontro de pessoas que conheci em algum momento feliz e que não as vejo há muito. Anteriormente, a mera desconfiança de ser o único a sentir essa necessidade de fuga e de reencontro me causava uma certa angústia. Com a maturidade e empatia (que é apreciação emocional do sentir alheio), agora percebo que outros se assemelham a mim. Mesmo inserido na pós-modernidade, um sentimento nostálgico ainda me faz romântico.

SAUDADES DE MIM

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

oooo
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de maio de 1890Paris, 26 de 1916), foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do Modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu. A estrofe acima é do poema Dispersão.

domingo, 11 de novembro de 2007

ASAS PARTIDAS

Passados 25 anos, ainda me lembro da história de amor contada por Gibran, escritor libanês.
Morava numa pensão em Porto Alegre e fazia Artes Plásticas,
mas todos os fins de semana eu fugia para um lugar,
onde reencontrava minha essência
de menino do interior.
Havia um morro nesse lugar distante (quase mágico)
e as manhãs solares e as tardes solares eram cartões de visitas.
A saudade bate quando não dimensiono o infinito.

POVOAR A SOLIDÃO

Dos três grandes colunistas do caderno DonnaZH, não escondo minha preferência por Martha Medeiros. Seu enunciado é mais direto, cotidiano, numa linguagem que me instiga a responder de alguma forma. Talvez o faça em alguma postagem acima. Por enquanto, transcrevo a crônica publicada neste domingo: Povoar a solidão.
"A sua é de que tamanho? Difícil encontrar alguém que tenha uma solidão pequena, ajustada, do tipo baby look. Geralmente, a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso. E costuma ser com outros corpos que se tenta combatê-la, mas combatê-la por quê?
"Se nossa solidão pudesse ser visalizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Talvez seja por aí que devamos reavaliá-la: no reconhecimento do que há de belo na sua amplitude.
"A solidão não precisa ser aniquilada, ela só precisa de um sentido. Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica há para isso do que livros. Uma biblioteca com mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.
"A solidão costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um órgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela sua vida nenhum respeito. Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, hospedar, convidar para o almoço, cozinhar com afeto, revelar-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as histórias das solidões dos outros, já que todos possuem seus descampados.
"A solidão não precisa se valer apenas do monólogo. Pode aprender a dialogar e deve exercitar isso também através da arte. Há sempre uma conversa silenciosa entre o ator no palco e o sujeito no escuro da platéia, entre o pintor em seu ateliê e o visitante do museu, entre o escritor e o seu leitor desconhecido. Ah, os livros, de novo. De todos os que preenchem nossa solidão, são os livros os mais anárquicos, os mais instigantes. Leia, e seu silêncio ganhará voz.
"Às vezes, tratamos nosso isolamento com certa afetação. Acendemos um cigarro na penumbra da sala, botamos um disco dilacerante e aguardamos pelas lágrimas. Já fizemos essa cena num final de domingo - tem dia mais solitário? É comum que a gente entre na fantasia de que nossa solidão daria um filme noir, mas sem esquecer que ela continuará conosco amanhã e depois de amanhã, deixando de ser charmosa e nos acompanhando até com mau humor, mas não a despreze.
"Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Não a cultive como uma doença, e sim como uma circunstância. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estética, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada. Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão, escreve Baudelaire.
"Ah, os livros, outra vez."

sábado, 10 de novembro de 2007

MIL VISITAS

EM 18 DIAS, ESTE BLOG RECEBEU MIL VISITAS.
VIVA O GÊNERO DIGITAl! VIVA A INTERNET!
VIVA A SOCIEDADE COMUNICATIVA!
UM BRINDE À MEMÓRIA DE HABERMAS!

NORMAN MAILER

Um dos maiores escritores vivos dos Estados Unidos, NORMAN MAILER, faleceu neste sábado. O autor abordava em seus romances a violência, sexo e crimes famosos. Mailer foi dos mais influentes no chamado jornalismo literário. Entre suas principais obras, estão:
"Os Nus e os Mortos", 1948
"Parque dos Cervos", 1955
"Cartas abertas ao presidente", 1963
"Um Sonho Americano", 1966
"Canibais e cristãos", 1967
"Os Exércitos da Noite" ou "Os Degraus do Pentágono", 1968
"Miami e o cerco de Chicago", 1968
"O Prisioneiro do Sexo", 1971
"Marilyn: uma biografia", 1973
"A luta", 1975
"A canção do carrasco" ou "O evangelho segundo o filho", 1979 (Prêmio Pulitzer de Ficção)
"Noites Antigas", 1983
"Homem que é homem não dança", 1984
"O Fantasma da Prostituta", 1991
"A história de Lee Oswald - um mistério americano", 1995.

ZERO HORA DE DOMINGO

O Zero Hora de amanhá já chegou. A primeira coisa que faço ao apanhar o jornal é jogar fora o ZHClassificados, guardando os cadernos TV+Show e Donna. A segunda coisa (como enumera o Presidente Lula): abro nos editoriais e artigos, páginas 20, 21 e 22. No editorial Virtudes e desvios do ENADE, destaca-se como ponto positivo a avaliação das instituições de ensino universitário, possibilitando novos projetos de "melhoria geram ou de correção de rumos". Como ponto negativo, surge a monetarização do exame, com algumas faculdades oferecendo prêmios de R$ 300 a R$ 600 para os alunos que participarem da prova. No outro editorial, O bandido aplaudido, o tema versa sobre os aplausos de moradores da Vila Areia ao traficante que matou um policial e baleou outros dois. A conclusão do texto é a seguinte: "Os aplausos aos bandidos devem ser vistos não como aprovação dos crimes que eles cometem, mas como um apelo desesperado ao poder público para que se faça presente com seus serviços essenciais". No artigo Os meios e os fins, o jornalista e escritor Flávio Tavares disserta sobre o lucro de 13 bilhões que os dois maiores bancos privados do país já lucraram este ano. Percival Puggina, em Montesquieu de bombachas, escreve sobre os conflitos entre os poderes no Rio Grande do Sul. Marcos Rolim, em Infiel, tece elogios ao livro de mesmo nome, que conta a história de Ayaan Hirsi, filha de muçulmanos na Somália que, aos cinco anos, sofre a clitorectomia, procedimento de mutilação das meninas realizado em nome do Islã. Rolim confessa que poucas vezes leu algo tão arrebatador, tão radical. A autora do livro é Ayaan Hirsi Ali.

ORIGEM DO CONTO DO VIGÁRIO

Afinal, qual é o verdadeiro conto do vigário?
São várias as versões da origem do termo "cair no conto do vigário". O que todas guardam em comum é que tem como tema principal um golpe de esperteza e um vigário. Uma das histórias mais conhecidas, e defendida pela pesquisadora Denise Lotufo, teria como palco uma disputa entre dois vigários em Ouro Preto, ainda no século XVIII. De acordo com Denise, tudo começou com a disputa entre os vigários das paróquias de Pilar e da Conceição pela mesma imagem de Nossa Senhora. Um dos vigários teria proposto que amarrassem a santa num burro que estava solto na rua. Pelo plano, o animal seria solto entre as duas igrejas. A paróquia que o burro tomasse a direção ficaria com a imagem. O animal foi para a igreja de Pilar, que acabou ganhando a disputa. Mais tarde teria sido descoberto que o burro era do vigário dessa igreja. Segundo a pesquisadora, essa é uma das possíveis origens da palavra vigarista.

DIA DO TRIGO

A monocultura que predominava na década de sessenta era o trigo. No Rincão dos Machado, todos sobreviviam economicamente com o gadinho e a planta. A paisagem ganhava uma tonalidade amarelada, que contrastava com o verde dos campos e matas. Gostava de ver os belos trigais amadurecendo sob o céu azul, movimentados como ondas de luz ao vento suave das manhãs de outubro e novembro. Essas cores e ritmos alimentavam meu espírito contemplativo, que desenvolveria uma inclinação apaixonada pela expressão pictórica e poética. Antes de vir para a cidade, com um pouco de tristeza, testemunhei a substituição do trigo pela soja. Nunca mais os campos cultivados foram os mesmos, os quais passaram a produzir mais dinheiro e menos beleza.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

SEMINÁRIO DA UNOPAR

Fui convidado para a abertura do II Seminário Semestral de Educação e Letras da UNOPAR e marquei presença no auditório do Colégio Medianeira, ontem, às 18:40 horas. A palestra foi ministrada por um professor do Paraná, Fernando Barroso Zanluchi: A importância social do professor. Hoje à tarde, Lígia Rosso, minha colega no Pós, falaria sobre MotivAção - tornando melhor o nosso caminho na arte de educar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

CALÇADO NÃO PAGA

A notícia mais comentada pelos nossos blogueiros é a de que Santiago Calçados não paga seus funcionários em dia. A priori, tenho uma dúvida: os proprietários (empregadores) da fábrica são velhacos ou o setor da produção calçadista encontra-se em crise? As duas coisas não podem ocorrer concomitantemente, uma vez que há pouco tempo tal não ocorria. Com isso não estou insinuando que a causa do problema esteja na China. O efeito borboleta também se verifica na economia e na ética. Da teoria do caos para os calos (nas mãos de quem trabalha de graça).

O CAMINHO DO MEIO

(Texto que sairá amanhã no Expresso Ilustrado)
Alguns leitores desta coluna, conhecidos meus, reclamam que escrevo difícil, usando palavras que exigiriam uma consulta ao dicionário. Suas críticas amigáveis são relevantes para que eu evolua desde o primeiro texto editado neste espaço (12 dez 2003). Elas me forçam a buscar o caminho do meio, entre o popular e o culto. Na condição de um estudioso das linguagens, entre as quais a língua portuguesa, preciso me adequar ao seu principal fundamento: a interação comunicativa. Não é fácil, uma vez que há pessoas recém-alfabetizadas e doutores entre meus leitores. Pergunto-me se Carlos Humberto Aquino Frota, colunista do A Razão nos meados do século passado, tinha esta preocupação de ser compreendido. Penso que ele escrevia para um leitor do meio jornalístico, político, universitário etc. Só uma elite intelectual dispunha do conhecimento de mundo e do mundo de conhecimento (leitura) para compreendê-lo em toda a pujança estilística que o fez um escritor e tanto. Na sua época, outros escreviam coloquialmente para um público maior. Para se saber o nome deles, basta uma pesquisa nos arquivos do jornal. Não estou sendo irônico, insinuando que só a glória me interessa. Outra vez, reporto-me ao caminho do meio (tema recorrente no discurso da minha colega e amiga Lígia Rosso). Ao mesmo tempo em que elimino algo inerente à própria morte com a escrita (conforme Jean Cocteau), não posso me afastar do momento presente, como muitos fazem se refugiando numa “torre de marfim”. Neste âmbito é que vivo, entre pessoas que quero bem, leitores ou não. Antes de ser um escritor, sou um homem.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

DESCONECTADO

Desde segunda-feira, estou sem linha em casa. Uma "cegonha" subiu a Pinheiro, enroscando suas asas metálicas nos condutos de sinais eletrônicos (fios do telefone). Cansei de ligar para a Telecom e nada. Assim, espero que meus ilustres visitantes compreendam o porquê de não haver editado novas postagens neste âmbito que é, certamente, o melhor dos gêneros digitais.

domingo, 4 de novembro de 2007

FORMA E CONTEÚDO

Algumas pessoas me pedem freqëntemente para eu avaliar o que escrevem. Há dois aspectos a serem analisados: o que se diz (conteúdo) e o como se diz (forma). Obviamente, o que e o como são intrínsecos à língua, interdependentes. Carlos Drummond de Andrade tornou-se um dos maiores poetas brasileiros em grande parte pelo conteúdo de seus textos, ainda que em Lições de coisas o poeta tenha valorizado os aspectos visuais e sonoros (como). Os concretistas, percebendo uma certa "crise no verso", que se aproximava da prosa, recriaram a forma (sempre engessada nos modelos clássicos), transformando-a em conteúdo. Essa é a grande lição da poesia concreta, a partir da qual surgiram grandes poetas da produção contemporânea. Paulo Leminski é um deles.
Ali
ooo
ali

ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece
oooo
(Também poeta, Alice era a mulher do poeta.)
oooo
Quando leio um poema, percebo as duas coisas ao mesmo tempo (forma e conteúdo). Assim, recomendo àqueles que se iniciam na arte de dizer o quase inédito), que digam algo com conteúdo (que a forma não será relevante), ou criem uma forma de dizer o inaudito (mas o conteúdo sempre será relevante).

URI X ASSOEVA

Ontem estava cansado de ler, revisar o livro do Júlio, ficar ao computador olhando o céu maravilhosamente azul além da janela, por isso fui ao Ginasião assistir à URI vencer por 3 a 2 a equipe da Assoeva de Venâncio Aires. Com a vitória, o futsal santiaguense segue na competição da série Prata (entre os seis melhores). A partida foi uma peleia, onde a agressividade substituiu com freqüência as belas jogadas. Dentro e fora da quadra, observa-se que o esporte serve como estímulo aos impulsos que seriam teoricamente sublimados com a ludicidade. O juiz, então, constitui-se numa vítima em potencial, cuja integridade física e moral está sempre na iminência de ser atingida. Gostei do futebol apresentado em alguns momentos. Por isso, irei ver as próximas.

A PROPÓSITO

A última postagem abaixo, XENÓFANES DE CÓLOFON, justifica minha tese em HISTÓRIA DA FILOSOFIA. Como um estudante de Filosofia argumentaria sobre o antropomorfismo sem conhecer o que já foi pensado, escrito, repensado e reescrito sobre o tema? Antes disso, como um professor ensinaria o que é antropomorfismo sem remeter àqueles que já pensaram, escreveram, repensaram e reescreveram sobre o tema? Certamente, professor e aluno dariam voltas sem conhecer o diamante da sabedoria (protegido pela redoma do tempo).

XENÓFANES DE CÓLOFON

O primeiro filósofo a criticar a religião tradicional foi XENÓFANES DE CÓLOFON. Entre os pré-socráticos, esse filósofo chama a atenção pela forma que expos suas idéias e, principalmente, pelo conteúdo filosófico das mesmas. Ele escreveu elegias e siloi, poemas satíricos em que, pela primeira vez, coloca o homem como objeto de seu pensamento. Até então, a questão principal que envolvia os primeiros pensadores gregos era descobrir a constituição básico do cosmos. Eram protofísicos. Mais tarde, Sócrates seria antropocêntrico, criaria a moral e seria condenado também por não acreditar nos deuses olimpianos. Mas Xenófanes (570 a.C. - 475 a.C), muito antes, já expressava desta forma sua crítica: Quanto há de vergonhoso e censurável tudo isso atribuíram aos deuses Homero e Hesíodo: roubos, adultérios, mentiras. Contra o antropomorfismo (a tendência do homem criar deus à sua imagem e semelhança): Julgam os mortais que os deuses foram gerados/ que têm os trajes deles, e a mesma voz e corpo. Noutro fragmento: Dizem os Etíopes que [os seus deuses] são negros e de nariz chato, fazem-nos os Trácios de olhos azuis e cabelos ruivos. A divindade de Xenófanes pode ser conhecida a partir do fragmento 23 (não confundir com o salmo 23): Um só deus, dentre deuses e homens o maior, / que não é semelhante aos mortais, de corpo nem de espírito. (Esta explicação é extraordinária e, dois milênios e meio mais tarde, constitui a premissa fundamental do meu ateísmo.) Apenas nos séculos XIX e XX, a inclinação antropomórfica criticada por Xenófanes seria retomada e inteiramente compreendida por Ludwig Feuerbach (em A essência do cristianismo, por exemplo), por Nietzsche, pela Psicanálise, por Bertrand Russel, entre outros.

sábado, 3 de novembro de 2007

ELE CONTESTA DEUS

O caderno Cultura do ZH deste sábado traz o ateísmo como matéria principal. Nas páginas 4 e 5, há uma entrevista com Christopher Hitchens, autor do best-seller mundial Deus não é Grande - Como a Religião Envenena Tudo. Para o jornalista e crítico literário inglês, as crenças atrasam o desenvolvimento do mundo, semeiam guerras e iludem o homem. Transcrevo uma parte da entrevista. Cultura - O senhor concorda com aqueles que dizem que a religião foi a responsável por importantes princípios morais para a construção da civilização? Hitchens - Não, isto está errado. Religião não é a fonte da moralidade, a moralidade vem da solidariedade humana, e ela surge em todas as sociedades desde os tempos antigos. Religião, pelo contrário, prega a imoralidade. Ela conta mentiras paras as crianças sobre céu e inferno, ela cria contos de fada aos adultos. Mente sobre a morte concreta, que é algo inevitável e enescapável. Eles praticam mutilação genital e repressão sexual, que leva à perversão e à hipocrisia. Ou seja, é imoral, vai contra a solidariedade humana e, é claro, é responsável pela subordinação das mulheres. Cultura - A religião pode ser substituída pelo quê na vida das pessoas? Hitchens - Não há um substituto, porque não queremos repetir o erro. Deixar de se impressionar pelas mentiras e imoralidades da religião é algo que não requer substituto. [...] Cultura - Como você imagina politicamente um mundo em que ninguém acredita em Deus? Hitchens - Eu não consigo imaginar, porque não há o perigo de isso acontecer. A espécie humana é programada de certa maneira para ser religiosa porque é uma espécie muito egocêntrica. É facilmente persuadida de que é o objetivo de algum plano divino. Em segundo, é uma espécie muito medrosa, e tem particular medo da morte. Cultura - A religião não pode ter nenhuma utilidade? Hitchens - Não é útil ser enganado.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Discordo de quem defende que o estudo da Filosofia prescinde da sua história. Isso equivale a dizer que a parte pode ser conhecida independente do todo (recaindo no mesmo equívoco do mecanicismo cartesiano). Asseguram que basta pensar para fazer filosofia. É o que as escolas oferecerão como currículo a alunos que não conhecem história alguma e não querem pensar tampouco. Há dez anos, fiz esta experiência: passei a me questionar sobre o que é a verdade, independentemente de tudo o que havia lido a respeito. Pois bem, o máximo que consegui foi chegar a meio caminho da "essência da verdade" de Heidegger, longe do símile "verdade é liberdade". Este exemplo pessoal, todavia, não me dará autoridade para dizer que é possível pensar sem conhecer os pensadores, o que eles pensaram. Desde os pré-socráticos aos pós-modernos. A Filosofia se confunde com as ciências atuais (que ainda não apresentam sua necessária sustentabilidade empírica). Foi assim na Grécia de Aristóteles, não será diferente no século XXI. O conhecimento filosófico se constrói sobre as fundações e os arcabouços intertextuais.

RECADO IMPORTANTE

Você que está abrindo meu blog pela primeira vez, não deixe de conferir as postagens anteriores. Essa leitura o/a evitará de fazer uma generalização apressada do que escrevo, como escrevo etc. Minha sugestão não irá decepcioná-lo/a. Aguardo comentários.

NOVA BLOGUEIRA


• Débora Lavarda •
Tudo que penso, sinto, escrevo ou demonstro, num só lugar: aqui
oooo
O que está acontecendo? De uma hora para outra, essas lindas meninas começam a questionar as coisa de seu entorno. Ainda bem que elas, a despeito de sua juventude e beleza, superam a timidez (extremo negativo) e a vaidade (extremo positivo) que caracterizam a idade. Débora tem um rosto de anjo, mas já filosofa, inquiridora.
Para conferir e adicionar: dehnomundo.blogspot.com

O RIO QUE SAÍA DO ÉDEN

O mais famoso pós-darwinista da atualidade é RICHARD DAWKINS. Zoólogo inglês, professor da Universidade Oxford, autor de livros extraordinários, como O relojoeiro cego e O gene egoísta. Gostei mais de O rio que saía do Éden: "Todos os povos têm lendas épicas sobre seus antepassados tribais, e estas lendas muitas vezes tomam a forma de cultos religiosos. [...] De todos os organismos que nascem, a maioria morre antes de atingir a maturidade. Da minoria que sobrevive e se reproduz, uma minoria ainda menor terá um descendente vivo daqui a mil anos. Esta diminuta minoria da minoria, esta elite de progenitores, é tudo o que as gerações futuras serão capazes de chamar de ancestrais. Os ancestrais são raros, mas os descendentes são comuns. [...] Todos os organismos que viveram - todo animal e planta, todas as bacatérias e todos os fungos, toda coisa rastejante, e todos os leitores deste livro - podem olhar para seus ancestrais e afirmar orgulhosamente: nenhum de nossos ancestrais morreu na infância. [...] Nengum de nossos antepassados foi morto por um inimigo, ou por um vírus, ou por um passo mal dado na borda de um penhasco, antes de trazer pelo menos um rebento ao mundo. [...] Como os organismos herdam todos os genes de seus ancestrais, e não dos contemporâneos malsucedidos de seus ancestrais, todos os organismos tendem a possuir genes bem-sucedidos. Eles têm aquilo que é necessário para tornar-se ancestrais - e isto significa sobreviver e reproduzir-se. [...] Esta a razão por que as aves são tão boas no vôo, os peixes tão bons no nado, os macacos tão bons em trepar em árvores, os vírus tão bons em disseminar-se. Esta é a razão pela qual amamos a vida, amamos o sexo e amamos as crianças. É porque todos nós, sem uma única exceção, herdamos nossos genes de uma linhagem contínua de antepassados bem-sucedidos. [...] Os genes não melhoram com o uso, eles são apenas transmitidos, imutáveis, exceto por erros aleatórios muito raros. Não é o sucesso que faz bons genes. São bons genes que fazem o sucesso, e nada que um indivíduo faça durante o seu tempo de vida tem qualquer tipo de efeito sobre eles. Cada geração é um filtro, uma peneira: os genes bons tendem a passar pela peneira para a próxima geração (não gostei desse símile). [...] Alguns indivíduos são irremediavelmente estéreis, ainda assim eles são aparentemente projetados para auxiliar na passagem de seus genes para as gerações futuras. Formigas, abelhas, vespas e térmites operárias são estéreis. Elas trabalham não para tornar-se ancestrais, mas para que seus parentes férteis, usualmente irmãs e irmãos, o consigam. [...] As operárias estéreis trabalham sob a influência dos genes, cópias dos quais localizam-se nos corpos das reprodutoras. [...] O rio do tírulo deste livro é um rio de ADN (ácido desoxirribonucléico, constituinte básico dos genes), e ele corre através do tempo, não do espaço. É um rio de informações, não um rio de ossos e tecidos: um rio de instruções abstratas para a construção de corpos, não um rio de corpos sólidos. [...] A característica que define uma espécie é que todos os seus membros têm o mesmo rio de genes fluindo através deles. [...] O rio de genes bifurca-se no tempo. [...] Por que deveriam duas espécies dividir-se? [...] Os detalhes são controvertidos, mas ninguém duvida de que o ingrediente mais importante é a separação geográfica acidental. [...] Um esquilo cinzento da América do Norte é capaz de reproduzir-se com um esquilo cinzento da Inglaterra, se chegarem a encontrar-se. Mas é pouco provável que se encontrem. O rio de genes do esquilo cinzento da América do Norte está efetivamente separado, por uma muralha do rio de genes, do esquilo cinzento da Inglaterra. [...] "Separação" significa aqui separação não no espaço mas em compatibilidade. [...] Algo parecido com isto está quase certamente por trás da separação mais antiga entre esquilos cinzentos e esquilos vermelhos. Eles não podem cruzar. [...] Seus rios genéticos separaram-se muito, o que quer dizer que seus genes não mais estão bem preparados para colaborar uns com os outros no interior dos corpos. Há muitas gerações, os ancestrais do esquilo cinzento e os ancestrais do esquilo vermelho eram um único e mesmo animal. [...] Há agora talvez 30 milhões de braços originados do rio de ADN, pois este é o número estimado de espécies sobre a Terra. Foi estimado também que as espécies sobreviventes constituem cerca de um por cento das espécies que existiram. Segue que teria havido cerca de 3 bilhões de braços de rio originados do rio de ADN. Os 30 milhões de braços de rio que existem hoje em dia estão irremediavelmente separados. Muitos deles estão destinados a secar. [...] O rio dos genes humanos junta-se com rio de genes do chimpanzé há cerca de 7 milhões de anos. [...] Mais para trás ainda, nossos rios unem-se com aqueles que conduzem a outros grupos importantes de mamíferos: roedores, gatos, morcegos, elefantes. Depois disto, encontramos as correntes que conduzem a vários tipos de répteis, aves, anfíbios, peixes e invertebrados. [...] Mesmo criaturas tão radicalmente diferentes umas das outras como moluscos e crustáceos eram populações da mesma espécie orginalmente separadas apenas de modo geográfico. Por um breve tempo (que pode ser de cem mil, um milhão, dez milões de anos), elas poderiam ter intercruzado se tivessam se encontrado, mas não o fizeram. Após milhões de anos de evolução em separado, elas adquiriram as características que nós, com a visão a posteriori dos zoólogos modernos, agora reconhecemos respectivamente como as dos moluscos e crustráceos. [...] O estudo da biologia molecular mostrou que os grandes grupos de animais estão muito mais próximos uns dos outros do que costumávamos pensar. [...] o código genético é de fato literalmente idêntico em todos os animais, plantas e bactérias observados. Todas as coisas vivas terrestres são certamente descendentes de um único ancestral".
0000
Tenho dito freqüentemente que o estudo da genética ainda nos revelará um mundo cada vez mais estranho aos nossos preconceitos religiosos. Um mundo verdadeiro, que solapará qualquer resquício de autodivinização humana. Muito obrigado!

WASHOE

A chimpanzé Washoe, primeira a aprender a se comunicar pela linguagem de sinais, morre aos 40 anos. Ela chegou a aprender 250 palavras e, inclusive, ensinava-as a três chimpanzés mais jovens. Para Noam Chonsky, os primatas não são capazes de desenvolver realmente capacidades lingüísticas, e que se limitam a imitar os sinais dos humanos. Naturalmente, a linguagem que eles imitam é uma criação humana, que tornou humana a criação.

IN MEMORIAM

De todos os dias do ano, o Dia de Finados é dos mais tristes para as pessoas que têm coração – este centro da esfera emocional onde palpitam, entre outros sentimentos, a saudade daqueles que se foram para sempre. Com o coração ainda chorando, incluo-me entre essas pessoas há um ano e meio, desde quando minha mãe não mais resistiu a um câncer que a fez sofrer muito. Até os meus últimos dias, sentirei a sua ausência, porque ela era quem mais próximo esteve do meu mundo, antes, durante e depois de ter me dado à luz. O tempo pode até diminuir as dores, não os sentimentos de filho que evoluíram continuamente para a gratidão e o amor, íntimos e verdadeiros, embora poucas vezes se traduzissem em palavras. Desde que saí de casa para estudar fora, aos 13 anos, passei a autoperceber toda a dimensão afetiva que significava minha mãe. Ela era o principal motivo que me levava com freqüência ao Rincão dos Machado, momento feliz em que também revia meu pai e meus irmãos. Ao longo de três décadas foi assim: a cada reencontro cheio de alegria se seguia a despedida um pouco triste. O derradeiro reencontro que tivemos, no Hospital Santa Rita, houve um pouco de alegria na chegada (de sua parte) e muita tristeza no retorno (em mim). Desde então, basta pensar na sua partida para meus olhos se encherem d’água. A tradição me condiciona a visitar o cemitério neste dia, acender velas e depositar flores sobre seu jazigo. Certamente, irei a Bom Retiro, mas é no âmago do meu ser, no coração que cultuo as melhores lembranças da minha mãe, onde palpitam os sentimentos da gratidão e do amor. De certa forma, ela vive para mim, ainda que sem a perspectiva do reencontro.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

AUSÊNCIA

Talvez eu seja muito presente. Até sofro um pouco com a minha assiduidade. Diariamente, abro meu blog e leio todos os outros, linkados à direita. A expectativa maior é de ler as novas postagens. Alguns continuam sem atualização, contrariando a principal característica deste gênero digital.
Por favor, vamos editar um pensamento, um poema, uma imagem...

JORGE BALEEIRO DE LACERDA

Hoje tive o prazer de conhecer Jorge Baleeiro de Lacerda. Estava no escritório do Dr. Valdir, quando o homem chegou do Paraná (Francisco Beltrão). Ele é autor de Os Dez Brasis, um estudo do nosso país de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Jorge Baleeiro é um pesquisador há trinta e poucos anos, viajante incansável. Falou-nos dos livros raros que possui e das viagens que realizou pelo Brasil e pelo mundo. Perguntei-lhe se já passara por Bojuru - São José do Norte - Rio Grande. Disse-me que sim. Na Serra do Corvo Branco, entre Grão-Pará e Urubici (SC): sim. Em Santiago, veio seis vezes. Diz que controla essas visitas pelas anotações dos livros que ganha do Dr Valdir. Possui uma biblioteca de aproximadamente 10.000 volumes (98 sobre o Getúlio Vargas). Participou cinco vezes do programa de entrevista do Jô Soares. Amanhã, ele e seus amigos irão a Itaqui (fazenda que foi do Osvaldo Aranha), Uruguaiana, Barra do Quaraí (numa ilha do Rio Uruguai). Levamo-lo à Rua dos Poetas, mas se interessou mais pela livraria do Tide Lima, onde pediu livros acerca do tradicionalismo gaúcho. Um admirável bibliófilo.