domingo, 30 de setembro de 2007

EXEMPLO DE "PARECER"

Alguns santiaguenses "empilham" versos na obrigação de parecer um legítimo filho da Terra dos Poetas. Acreditam deveras numa hereditariedade cultural, que não existe, no lugar de ler, ler e ler os grandes poetas. Mais do que isso, estudar a arte poética (o som das palavras, o valor das palavras, o significado das palavras, o segredo do ritmo, a versificação, a estrofação, a forma do poema). O candidato a poeta precisa ampliar seu conhecimento lexical, sempre com bons dicionários. Escrever frases cheias de locuções verbais que rimam pobremente entre si (com verbos no infinitivo, no gerúndio e no particípio) não é suficiente para que seu autor queira a-parecer poeta.

TER OU SER?

Erich Fromm, filósofo e psicanalista, escreveu um livro para analisar a dicotomia ter ou ser da nossa existência. Antes de expressar a sua concepção, ele cita os grandes mestres da vida: "Buda ensina que, para chegarmos ao mais elevado estágio do desenvolvimento humano, não devemos ansiar pelas posses". Com relação a Jesus, escolho outra citação, a passagem do jovem rico, Mt 19.21: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me". Fromm continua: "Mestre Eckhart ensinava que ter nada e tornar-se aberto e 'vazio', e não colocar o eu no centro, é a condição para conseguir riqueza e robustez espiritual". Marx dizia que "o luxo é tanto um mal como a miséria, e que nosso ideal deve consistir em ser muito, e não ter muito". Nas palavras do próprio pensador: "Ter e ser são dois modos fundamentais de experiência, cujas respectivas forças determinam as diferenças entre os caracteres dos indivíduos e vários tipos de caráter social". Dessa forma, como "modos fundamentais de experiência", não haveria a estanqueneidade entre o ter e o ser, radicalizada pelos mestres. O século XX revelou uma preponderância crescente pelo ter, em todas as instância do mundo ocidental. O ter poder, por exemplo, fez da primeira metade do século um tempo de beligerância e conflitos devastadores. O ter coisas gerou o que ficou conhecido como "sociedade de consumo". Atualmente, há reações contra o exagero da riqueza material, apontando para uma aditiva "e", no lugar da alternativa "ou": ter e ser. Vislumbro um novo modo de existência, entretanto, que resultará de uma síntese forçada dos anteriores: o parecer. O parecer é tão recente que não me arrisco a analisá-lo. Mais adiante, talvez.

A GENÉTICA EXPLICA

Uma conversa insuportável (para mim) é que a ciência não explica tudo. Na mesma linha, só que em sentido contrário, quando dizem que a ciênca está comprovando ser verdadeira essa ou aquela crença. Não sei qual é o pior desses argumentos. Alguns cientistas, condicionados pela onda sensacionalista que tomou de roldão o século XXI, fazem o jogo da mídia e dos supersticiosos. Há pouco tempo, menos de dois séculos, o gato acima estaria condenado ao sacrifício. A cor diferente de seus olhos, diriam os homens, só pode ser coisa do demônio. Ainda bem que a ciência resistiu a todos os ataques começados na Idade Média e que ainda sofre. Hoje a genética explica o que era assombração. Minha tese é de que em 20/ 30 anos, essa ciência explicará coisas que mudarão inteiramente nossa visão do mundo. Para isso ocorrer, os governos não poderão interferir no avanço científico, mesmo que seja para desmistificar todos os deuses e demônios críveis e incríveis.

DIA DO TRADUTOR

A grande questão é saber o quanto a tradução para o português altera o texto original, escrito em alemão, por exemplo. Na poesia, por seus próprios elementos internos, como o ritmo dado pelo som das palavras, deduzo que a alteração é devastadora, criando um novo texto. A prosa também é alterada, um pouco menos, mas é. Duvido que um tradutor alemão, por mais conhecedor da língua portuguesa, consiga preservar a beleza rítmica da primeira página de Iracema, de José de Alencar. As palavras e as estruturas sintáticas serão outras. As metáforas não farão sentido. O inverso é também verdadeiro. Não há solução para esse problema. Por mais que eu aprenda o alemão, nunca saberei tanto quanto aquele que traduz do alemão. Para não perder nada de um poema de Goethe, por exemplo, eu teria que ler em alemão, compreender em alemão, contemplar em alemão, sem o auxília da minha língua materna (o português). Não há outra alternativa senão confiar no tradutor, sabendo de antemão que perdemos um pouco do texto original.

PARABÉNS, RAQUEL

Muito criativa a ilustração para a 10ª Feira do Livro de Santiago. A firmeza e economia dos traços revelam o domínio de quem a elaborou artisticamente. Tão importante quanto à beleza do desenho é a leitura (interpretação) que podemos fazer dele. Fruição e conhecimento. Uma pessoa lê - sentada num banco da praça, sob as lâmpadas da Rua dos Poetas. Parabéns, Raquel Gorski!

TERRA DOS POETAS

De norte a sul, de leste a oeste, estrada
de muitos rumos trouxe o carreteiro,
no rastro de quem cavalgou primeiro,
para encontrar aqui descanso e aguada.

oooMais tarde, com a vinda do estancieiro
oooInácio Gomes, nesta encruzilhada,
ooode vez a vida urgiu urbanizada,
oooporque é do homem o sonhar povoeiro.

ooooooO sonho transformou-se em realidade,
ooooooque, no presente, ufana o citadino
oooooo(sob o luzeiro da Universidade).

oooooooooA terra, em que passaram as carretas
oooooooooum dia, traça seu melhor destino
ooooooooo- o de gerar e de acolher os poetas.
oooo
oooo
Escrevi o soneto acima para a I Coletânea de Poemas Santiago - Terra dos Poetas, livro publicado pela URI.

sábado, 29 de setembro de 2007

ZERO HORA DE DOMINGO

CAPA: De Sertão Santana a Nova York - Assim nasce uma modelo. Sobre a trajetória de Luana Teifke, 16 anos. Quase um terço dos prefeitos gaúchos buscará a reeleição (sou contra). Como vencer a muralha do São Paulo (duvido). Clássico de opostos na Serra. Um Estado a caminho do declínio (pág. 14), o Rio Grande do Sul, claro. EDITORIAIS Crise de confiança (nas instituições brasileiras) e Um voto importante (para conselheiro tutelares de Porto Alegre). ARTIGOS: A era do deleite (sobre a era do Homo estheticus), de Ani Mari Hartz Born; Dizer sera fazer?, de Flávio Tavares; O fracasso de uma nação, de Percival Puggina; Fair Play, de Marcos Rolim. EXTERIOR: Batata vira questão de Estado na Argentina; Brasil sabia que haveria "novas regras de jogo", diz boliviano; Bélgica, um país à beira da secessão (quem diria?); Chávez, verdades e mentiras. GERAL: Fronteira - Pampa de areia (sobre os areais entre Livramento e Quaraí); Obras na BR-101, Trechos prontos no verão. POLÍCIA: Crime sobre duas rodas - ocultos pelo capacete. ESPORTES: Abaixo o muro, caminho do gol; DNA sobe a Serra (Grêmio contratou jogadores altos); A fada da camisa 10 - Marta Vieira da Silva. TV: Sem comentário. DONNA ZH: Meio esquisito (a crônica sem graça do L.F.V.); O tempo está ao lado delas (sobre as mulheres que ficam mais bonitas com o passar dos anos, isto é, Sarah Jessica Parker, Demi Moore e Jennifer López); Poderes na sombra (livro relata os jogos políticos e amorosos das rainhas e amantes dos reis franceses do Antigo Regime); Do chão batido à passarela (trajetória da gaúcha Luana Teifke como modelo); Moda et modelos (que tema para Moacyr Scliar?); Amo você quando não é você (Martha Medeiros).

NOVO CAMPEÃO MUNDIAL DE XADREZ

Há pouco, o mundo ficou conhecendo seu novo campeão de xadrez: o indiano VISHWANATAN ANAND, com 9.0 pontos dos 14 disputados. Em segundo lugar, empatados: o russo Vladimir Kramnik (ex-campeão) e o israelense Boris Gelfand, com 8.0 pontos.
oooo
Meu interesse pelo xadrez vem desde os 14 anos, quando aprendi o melhor jogo do mundo. Nunca passei de um jogador mediano, por ter começado muito tarde e fazer um milhão de outras coisas.

BEM-VINDO, JOÃO OTÁVIO

O GUARDADOR DE REBANHOS
CUIDADO, NOBRE, AO VOLTAR ESTA PÁGINA! AQUI DISSIPA-SE O MUNDO VISIONÁRIO E PLATÔNICO. VAMOS ENTRAR NUM MUNDO NOVO, TERRA FANTÁSTICA, VERDADEIRO ALÉM-MAR DE ANNABEL LEE, ONDE POE É REI; E VIVEM AUGUSTO, FERNANDO, VINÍCIUS E TODO O ENCANTO "DE ASSIS": - A PÁTRIA DOS SONHOS DE EINSTEIN, BEETHOVEN, SHAKESPEARE. AGORA BASTA. FICARÁS TÃO ADIANTADO AGORA, MEU NOBRE, COMO SE NÃO LESSES ESSAS PÁGINAS DESTINADAS A NÃO SER LIDAS. DEUS ME PERDOE! ASSIM É TUDO! ATÉ OS PREFÁCIOS!
ooooo
Outra bela surpresa! João Otávio Cadó é um adolescente, mas já demonstra em seus (hiper)textos o domínio da linguagem e vasto conhecimento. Basta o título e a apresentação de seu blog para percebermos uma autoria diferenciada. Como isso é possível? A Kátia já havia falado do Cadó, aluno destaque, alguém que escreve como gente adulta. Não há exagero nesta avaliação, a diferença é notável em seus posts.

TRAÍDO PELO SOM

Ante a palavra "óbolo", para evitar a repetição de "esmola", escrevi "óbulo". Percebi o erro agora, ao postar o texto escrito para a prova da professora Sandra. Caso típico em que o erro de ortoépia, embora "óbulo" soe melhor, induz o erro ortográfico.

PONTES PARA A ALTERIDADE


ooooooAs pessoas se dividem entre o dar e o não-dar esmola, segundo suas opiniões. Na prática, elas acabam atendendo o pedinte, ainda mais quando o argumento deste é a fome.

ooooooA solidariedade crescente, penso, não se explica apenas pelo sentimento de culpa do doador, que se aliviaria com o óbolo. O aumento da miséria, a condição subhumana, a aproximidade física do miserável batendo à nossa porta, são realidades que despertam um novo sentimento (algo acima do egoísmo velado). A evolução psíquico-emocional dos indivíduos, ao contrário do que pregam os arautos do endeusamento pessoal, egolátrico, tem lançado pontes para a alteridade. No momento de darmos esmola, estamos pensando no outro, sentindo-o empaticamente. A alegria dele é o que realmente nos importa.

ooooooNão há utopia, não há idealização acerca desse comportamento altruísta. Percebo-o em mim e na maioria dos que dão esmolas (caracterizadas nas roupas e calçados que ainda usamos, na comida que fazemos ao meio-dia, no trocado, inclusive).
oooooo
oooooo
Escrevi o texto acima hoje de manhã para responder uma questão avaliativa da professora Sandra Nascimento. O tema a ser desenvolvido era sobre o dar ou não dar esmola. A ilustração é o "signo emblemático da alteridade". Alteridade significa "natureza ou condição do que é outro" (Houaiss). Uma das palavras mais bonitas da nossa língua.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A BELA PROSTITUTA

Os brasileiros, com o pão sobrando na mesa, estão carentes de circo, p'ra não dizer "daquilo". Diante do televisor, perdem completamente a criticidade, transformam-se em vidiotas. Poucos se deram conta que a quase heroína de Paraíso Tropical é uma "garota de programa", p'ra não dizer "prostituta". Nelson Rodrigues diria: Nem toda Bebel será castigada.

O GRANDE VILÃO

Até que enfim, a novela chega ao seu final. O autor optou por concentrar todo o mal num único personagem, entregando-o para a execração dos telespectadores. Uma pena que a realidade não imita a ficção. Qual será o próximo suspense? Afinal, o brasileiro não vive só de pão.

VI SEMINÁRIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO

Outro evento ocorrerá na próxima semana, concomitantemente à 10º Feira do Livro e à inauguração da Rua dos Poetas: VI SENED. Com abertura prevista para quarta-feira, 3, no Salão Paroquial da Igreja Matriz, o seminário tem a chancela da URI - Campus Santiago. Em 1999, participei do segundo seminário. As conferências foram as seguintes: Motivação e auto-estima, com Joel Adriano Maciel; Valorização profissional, com Ana Maria Ribeiro; Felicidade e sucesso - uma opção de vida, com Sérgio Kehl; Inteligência emocional, com Deroni Sabbi. (Tenho anotado na minha agenda.) Não fosse outros compromissos, participaria desta vez.

BEM-VINDA, ADRIANA

...somos quem queremos ser...
oooooo
Nossa blogosfera recebe mais um toque de poesia com a Adriana. Aqui é um excelente lugar para curtirmos a Primavera (com todo esse céu a inundar nossos olhos contemplativos).

DOÇURA E SOBREVIVÊNCIA

Ao formular a teoria acerca da evolução das espécies, Charles Darwin colocou a força como fator principal no processo seletivo. A sobrevivência como uma prerrogativa do mais forte. Com "mais forte", o cientista fazia uma generalização, incluindo outras qualidades, como mais inteligente, mais veloz etc. Em se tratando de árvore frutífera, mais doce. Como seria o pessegueiro (ou seu ancestral imediatamente anterior) há dez mil anos? Os frutos que produzia, provavelmente, eram muito amargos, mas suficientemente doces para despertar o gosto num primata que nunca deixou de ser frugívoro. Por determinantes externas, entre as quais o solo e o clima, um pessegueiro passa a dar frutos um pouco mais doces. Nalgum sítio da Ásia (de onde o pessegueiro é originário), duas árvores dessa espécie frutificam ao mesmo tempo. Para surpresa do homem, que há pouco descobrira a agricultura, dois pêssegos com grau de doçura diferente. A tendência natural de quem distinguisse os dois sabores era carregar o pêssego mais doce. Os genes dos vegetais, impossibilitados de locomoção, criaram estratagemas ao longo de milhões de anos para assegurar sua sobrevivência. A polpa dulcíssima que envolve algumas sementes pesadas não passa de engambelação (e como funciona!) . O que aconteceu com o pessegueiro um pouco mais amargo? Seus frutos, maduros, caíram em volta do próprio caule, não alcançando seus genes outras glebas. Com a interferência contínua do homem, hoje os pêssegos são muito doces. Consumidos in natura, fervidos em calda, transformados em geléia e chimia. Todos os frutos comestíveis, como o pêssego, foram melhorando gradativamente. Uma pena que o responsável por essa melhoria genética não consiga, também ele, pautar sus sobrevivência pela doçura. Ao contrário, tem sido cada vez mais agressivo, mais violento.
oooo
(Publicado na coluna do Expresso Ilustrado em 08 de dezembro de 2006.)

FEIRAS E FEIRAS

Na coluna de hoje do Expresso, escrevo sobre a feira do livro que ocorrerá em Santiago. Minha preocupação é se ela atrairá o público? O ano passado, a visita das escolas preenchia o vazio dos espaços da praça Moysés Viana. Os políticos comparecerão à feira? Na edição anterior, mais distante de qualquer eleição, eles não compareceram. À exceção dos representantes do executivo municipal. Livro é conhecimento, cultura refinada... Não é o tipo de produto que os santiagunses estão acostumados a consumir. Outras feiras ocorrerão no mesmo mês de outubro que, mal ou bem, reflete a importância dada pela nossa sociedade à economia, ao negócio. Certamente, o Ginasião lotará todas as noites. Vejo com bons olhos o enriquecimento material, na medida que ele impõe outras necessidades humanas, como a produção literária, por exemplo. O romance nasceu da burguesia endinheirada e... ociosa. (Necessariamente nessa ordem.) Exagerei ao escrever que a feira do livro é um acontecimento. Futuramente, sim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

MUTAÇÃO INTERIOR

OOOOO O propósito da autocrítica consiste em examinar tudo o que faço, independentemente da freqüência e magnitude dos meus gestos e obras. O que está feito fui eu que fiz. Sou responsável por minhas ações, que são o objeto de análise de mim mesmo.

OOOOOO pensar sem agir, o falar por falar, pouco importância tem como matéria-prima disponível para me conhecer como realmente sou, além das aparências. As palavras não constituem a realidade. Elas se prestam para figuração do real, principamente atavés da POESIA - a arte de dizer o insolito com beleza e originalidade.O pensamento me interessa sob o aspecto prático, quando ele conduz à ação.

OOOOOHá como que um abismo entre os meus atos pensados, refletidos, e o que em mim obedece a uma força instintiva, desconhecida, comum à espécie a que pertenço. Por megalomania ou orgulho, sustento que as acões que realizo são o produto acabado do meu gosto, da minha vontade, do meu "eu". Num estágio inicial jamais me defino como egoísta, mas basta uma pequena introspecção para vir à tona a negação do meu ideal altruísta - o meu egoísmo. Mais ao fundo, continuando com a introspecção, reconheço que sou apenas um veículo do egoísmo específico, um gene da vontade racial, filogenética. Conquanto o resultado do conhecimento tenha coincidido com a crença , de que não sou egoísta, a descoberta provoca uma mutação interior.

OOOOOA partir do momento em que me determino a desvendar esse abismo, a partir dos primeiros passos em sua direção, começo a conhecer a natureza que está na origem do que faço, consciente ou inconscientemente. Na alegoria platônica, o indivíduo precisava sair da Caverna, para perceber a realidade. Todavia, para perceber a si mesmo, a realidade mais tangível, ele deve entrar para o lado obscuro, incompreensível até então.

OOOOOO desafio que é conhecer a mim mesmo, exige, inicialmente, muita coragem. Ainda ignoro o poder deste conhecimento, as vantagens dele conseqüentes, entre as quais a liberdade. Os obstáculos surgem tão logo percebo a estrutura psíquica de autodivinização. O sutil vislumbramento da mesma traz o germe filosófico que destruirá toda a mitologia individualizada, internalizada. De repente, vejo-me cair das alturas, sabendo ser uma queda nescessária para a conquista da identidade própria, livre dos preconceitos morais e religiosos, livre da Grande Ilusão.

OOOOOÀ medida que avanço na compreensão de mim mesmo, o caos se transforma em ordem, a treva em claridade. Deixo de representar: Sou o que sou, sem a grandeza ilusória que julgava ter antes desta aventura autocognitiva. Hoje o que penso, o que falo (e escrevo), já não entra tanto em contradição com a realidade daquilo que faço, gestos e obras, e do que realmente sou.

OOOOOEis a minha evolução, o meu autoconhecimento, e é tudo o que me torna perfectível!
OOO
OOO
(Esse é o meu texto que a D. Renita guarda consigo e que seu neto me mandou por e-mail.)

DONA RENITA ANDRETTA

No final da tarde, D. Renita me ligou para contar que acabara de ler "Mutação Interior". De cara, disse-lhe Krishnamurti? E ela Não, o teu texto. Leu o final p'ra mim. Mais tarde, vou procurá-lo nas minhas pastas. D. Renita é uma das pessoas mais carinhosas que conheço. Guarda e relê as cartas que lhe escrevi do Rio de Janeiro, de Curitiba, do Pantanal. Elogia os quadros que pintei p'ra ela. Quando comecei a escrever para o Expresso, mandou uma correspondência para o jornal, parabenizando-o pelo novo colaborador. Sempre que vou a Porto Alegre, faço-lhe uma visita. D. Renita é daquelas pessoas que nos fazem acreditar ser possível o paraíso na Terra.

(D. Renita reside no edifício isolado, à esquerda da foto acima, próximo ao Largo dos Açorianos, na Av. Borges de Medeiros.)

EXCERTOS DO CAIO ABREU

“Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga
mede-se mais exatamente pela dor que provocou,
e para sempre perdeu-se

no momento em que cessou de doer,
embora lateje louca nos dias de chuva.”


“Quando partiu, levava as mãos no bolso,
a cabeça erguida.Não olhava para trás,

porque olhar para trás era uma maneira de ficar
num pedaço qualquer para partir incompleto,
ficado em meio para trás.
Não olhava, pois,
e, pois não ficava.
Completo,
OOOOOOOOOOOOOOOOpartiu.”

"Não choro mais. Na verdade,
nem sequer entendo porque digo mais,
se não estou certo se alguma vez chorei.
Acho que sim, um dia. Quando havia dor.
Agora só resta uma coisa seca.
Dentro, fora."

A REPRESENTAÇÃO DE UM MITO

O João Lemes me ligou há pouco. Ele está indignado com a grossura de certas pessoas que (não) atenderam minha amiga Fabiane no Coxilha de Ronda. Tentei acalmá-lo, dizendo-lhe que essas pessoas não são grossas no seu dia-a-dia. Pelo contrário, noventa e nove por cento do ano são cordiais, pacíficas, humildes... Até que a circunstância as transforma do dia pra noite. Chegada a Semana Farroupilha, pilcham-se e se comportam de uma maneira estranha. Na personificação do mito, além das bombachas, do prato típico, do falar impostado, não pode faltar o ademane, a rusticidade, enfim, todo um comportamento que essas pessoas imaginam caracterizar o gaúcho de outrora. Para justificar tais mudanças repentinas, dizem obedecer a um estatuto. Mas ali, na imperatividade das letras, não consta que devem tratar grosseiramente o outro, porque ele não está pilchado, por exemplo. A propósito, o velho Gildo cantava "Porém sei tratar a qualquer cidadão / até representa que eu tenho cultura".

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

PÓS-MODERNA

Minha estante necessita de uma melhor organização. Ao procurar o livro de Pierre Lévy, Cibercultura, olha o que encontrei: eles eram muitos cavalos,
de Luiz Ruffato.
Narrativa pós-morderna.



(a combinação de cores torna o post mais agradável)

HIPERTEXTO E GÊNEROS DIGITAIS

Ontem recebi o livro Hipertexto e gêneros digitais (foto). Já li capa, orelhas, apresentação e o primeiro artigo, de Marcuschi (um dos organizadores, ao lado de Antônio Carlos Xavier). A relação de artigos é a seguinte: Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital (L. A. Marcuschi); E-mail: um novo gênero textual (Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva); A conversa na web: o estudo da transmutação em um gênero textual (Júlio César Rosa de Araújo); Blogs e as práticas de escrita sobre si na internet (Fabiana Cristina Komesu); Linguagem da Internet: um meio de comunicação global (Fernanda Correa Silveira Galli); A análise do discurso em contraponto à noção de acessibilidade limitada da Internet (Cristina Teixeira Vieira de Melo); A comunicação interativa em ambiente hipermidia: as vantagens da hipermodalidade para o aprendizado no meio digital (Denise Bértoli Braga); Mapeamento e produção de sentido: os links no hipertexto (Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante); Leitura, texto e hipertexto (Antonio Carlos Xavier). Marcuschi escreve: "Com as novas tecnologias digitais, vem-se dando uma espécie de 'radicalização do uso da escrita' e nossa sociedade parece tornar-se 'textualizada', isto é, passar para o plano da escrita". Tenho um propósito com essa leitura: escrever a monografia de Pós-Graduação (Leitura, Produção, Análise e Reescrita Textual). Outro livro que deverei fazer uma nova leitura é Cibercultura, de Pierre Lévy.

A LÓGICA DO PIOR

Os filósofos racionalistas discursam em torno da lógica formal, da lógica material, lógica disto, lógica daquilo. Para mim, o que interessa é a lógica do pior. A lógica do pior que levou CLÉMENT ROSSET a escrever sobre um novo papel para a Filosofia: afirmar o acaso, a desordem, o recuo da razão ante o real... Uma filosofia que tem em NIETZSCHE seu grande pensador.

PARADOXO EVOLUTIVO


na época do australopiteco
o australopiteco
era o que mais
se parecia
com um homem

OOOOOOna época do pitecantropo
OOOOOOo pitecantropo
OOOOOOera o que mais
OOOOOOse parecia
OOOOOOcom um homem

OOOOOOOOOOOOna época do neandertal
OOOOOOOOOOOOo neandertal
OOOOOOOOOOOOera o que mais
OOOOOOOOOOOOse parecia
OOOOOOOOOOOOcom um homem

OOOOOOOOOOOOOOOOOOna época do homo sapiens
OOOOOOOOOOOOOOOOOOo homo sapiens
OOOOOOOOOOOOOOOOOOé o que mais
OOOOOOOOOOOOOOOOOOse diferencia
OOOOOOOOOOOOOOOOOOdo homem


(Poema escrito em cinco minutos vagos hoje à tarde.)

SURPRESA!!!

Você aí, do outro lado, abra o Google e digite
POEMAS DO CAIO ABREU.
Surpresa!!!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

MUNDIAL DE XADREZ

O enxadrista nº 1 da Fide, o indiano Vishwanathan Anand, continua liderando o atual campeonato mundial, que se realiza na Cidade do México. Com sete pontos e meio, é seguido pelo israelense Boris Gelfand, com seis. O atual campeão do mundo, o russo Vladimir Kramnik, difilmente manterá esse título.

UM ELOGIO VERDADEIRO

Um elogio autêntico é aquele que é feito sem a presença do elogiado. Na presença também o é, dependendo das palavras. Há um risco de ser exagerado ou de resvalar para a ironia. Nas aulas de Literatura dessa terça-feira, no Sinapse, Carol cochichou para a colega Edimara que meu blog é... qualquer predicativo como muuuito bom. Conheço meu ego o suficiente, razão por que permito que ele se exalte um pouco diante do superego, excessivamente crítico com seu irmão menor. Obrigado, Carol!

SIC ET SIMPLICITER

Sic é um termo da língua latina cuja tradução literal é "assim". A palavra Sic é usada freqüentemente em português para indicar é desta forma (Sic et simpliciter).
É possível, de facto, que a palavra "sim" do português tenha origem neste termo.
O "sic" é usado por
editores, numa citação, para evidenciar que determinada palavra ou frase foi utilizada no texto original escrito ou falado por outrem, não sendo um erro de tipografia ou ortografia daquele último autor (por vezes como forma de ironia).
Por exemplo:
"O ministro Antônio Rogério Magri afirmou ontem que Fernando Collor é imexível [sic]."
Note-se que a palavra "sic" usualmente é reportada entre
colchetes ou parênteses - evidenciando, assim, que não faz parte do texto original, cuja citação é feita - podendo ser posposta ou intercalada nesta.
Transcrevi, ipsis litteris, o texto da Wikipédia.
É importante frizar que não se deve colocar sic em erros de digitação ou de ortografia. Recomenda-se a correção e pronto. Foi o que fiz amiúde na antologia que organizei dos autores que serão homenageados na Rua dos Poetas. Neste blog, há alguns dias, grafei universidade, sem o "r". Pois bem, um leitor não perdeu a oportunidade de me tripudiar pernosticamente, tascando um sic após a palavra acima citada.
Dois ensinamentos são pressupostos da filosofia socrática, transmitida por Platão e Xenofonte:
1) a importância do autoconhecimento e 2) alcançar a humildade na sabedoria. Sócrates personificou isso.

DOIS GRANDES EVENTOS

Santiago se prepara para dois eventos significativos: a 10ª Feira do Livro e a inauguração da Rua dos Poetas. O primeiro, cíclico, representa mais uma passo dado pela sociedade santiaguense rumo a sua evolução cultural. O segundo se destaca pela relevância histórica, um marco para a nossa cidade (merecedora do belo epíteto Terra dos Poetas). O primeiro, como veiculou no Jornal da Feira, é feito “para que o público tenha acesso ao mundo encantado dos livros e contato direto com seus escritores” atuais. O segundo é uma excelsa homenagem aos nossos artistas da palavra, que fizeram literatura ao longo do século XX: Manuel do Carmo, Zeca Blau, Ramiro Frota Barcelos, Túlio Piva, Antonio Carlos Machado, Sílvio Duncan, Carlos Humberto Aquino Frota, Jaime Medeiros Pinto e Caio Fernando Abreu. O primeiro tem como patrono Oracy Dornelles, poeta, artista plástico e bibliófilo. O segundo contará com a presença de um filho ilustre desta terra, José Santiago Naud, poeta, conferencista, co-fundador da Universidade de Brasília. O primeiro terá diversas atividades culturais, entre as quais (re)lançamento de obras, roda de poesia, oficinas literárias, apresentações de dança e de teatro. O segundo será prestigiado pelos familiares dos poetas e prosadores homenageados na Rua dos Poetas. O primeiro semeará, como cantava Castro Alves, “livros a mancheia”. O segundo lançará um livro apenas: Ruadospoetas – Antologia 1. O primeiro terá início no dia 2 de outubro, às 10 horas, na Praça Moysés Viana, encerrando-se no dia 6, às 18 horas. O segundo ocorrerá também no dia 2, às 19 horas, na Rua dos Poetas/ Clube União. Os dois eventos são muito significativos para Santiago.

LITERATURA ESQUECIDA

Qual a ligação de Sherlock Holmes com a Amazônia? Uma pergunta estranha, cuja resposta denuncia certo descaso da mídia e nosso atraso cultural. Pouco sabemos sobre a literatura feita no Norte ou ambientada nessa grande região. Exceção para Galvez, Imperador do Acre, de Márcio Souza, dramatizado pela Rede Globo. Dalcídio Jurandir escreveu dez romances: Chove nos Campos de Cachoeira; Marajó; Três Casas e um Rio; Belém do Grão Pará; Passagem dos Inocentes; Primeira Manhã; Ponte do Galo; Os Habitantes; Chão dos Lobos; e Ribanceira. Nascido na Ilha de Marajó, foi comunista convicto em pleno governo de Vargas. Por isso, foi preso duas vezes. Acabou indo embora para publicar seus livros. Milton Hataum escreveu Dois Irmãos e Cinzas do Norte. Márcio Souza reside em Manaus e Hataum, em São Paulo. Autores de fora que escreveram histórias ambientadas na Amazônia: El Príncipe de los Caimanes, de Santiago Roncagliolo (peruano); Green Mansions, de W. H. Hudson; Pantaleão e as Visitadoras, A Casa Verde e O Falador, de Mario Vargas Llosa; e O Mundo Perdido, de Conan Doyle. O criador de Sherlock Holmes narra em O Mundo Perdido a história do Professor Challenger, cientista que descobre dinossauros no interior da Floresta Amazônia.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O USO DA VÍRGULA

O uso correto da vírgula é um dos grandes problemas do produtor de texto escrito. Para solucioná-lo, esse usuário necessita conhecer a sintaxe. Toda a sintaxe. Os TERMOS ESSENCIAIS da oração não se separam por vírgula. Para separar os núcleos do sujeito composto antes do penúltimo, emprega-se essa "pequena vara". Os TERMOS INTEGRANTES - objetos diretos ou indiretos, complementos nominais e agente da passiva - também não se separam dos nomes e verbos a que integram o significado, mesmo com a inversão na ordem sintática da oração. Os TERMOS ACESSÓRIOS ainda não oferecem maiores dificuldades: adjuntos adnominais não se separam dos substantivos a que se referem; os adjuntos adverbiais, quando deslocados de sua posição lógica, ou seja, em seguida ao verbo que modificam, devem ser separados por vírgula; e o aposto, anteposto ou posposto ao termo a que se refere, sempre é separado por vírgula. O vocativo, que é termo independente, segue o aposto nesse particular. A partir de agora, o estudo se aprofunda com as orações coordenadas, com as orações subordinadas substantivas, adjetivas e adverbiais. Uma boa gramática, como a de José de Nicola/ Ulisses Infante, significa o primeiro passo para aprender o uso da vírgula. O segundo, mais necessário ainda, é escrever, escrever e escrever.

NOVA BLOGUEIRA

Nossa blogosfera está com a cara desse céuzão que inunda nossos olhos nesta tarde. Dois motivos: a Cristina Cogo Michelon, de Nova Esperança, acaba de criar seu blog; e Rebeca voltou atrás em sua decisão de nos deixar, numa atitude de sensatez.
Blog da Cristina: www.cogomichelon.blogspot.com
(só para rimar).

LÍGIA, UM FILME IMPERDÍVEL

Hilary Swank, duas vezes premiada com o Oscar, atua nessa instigante história, envolvendo adolescentes criados no meio de tiroteios e agressividade, e a professora que oferece o que eles mais precisam: uma voz própria. Quando vai parar numa escola corropida pela violência e tensão racial, a professora Erin Gruwell combate um sistema deficiente, lutando para que a sala de aula faça uma diferença na vida dos estudantes. Agora, contando suas próprias histórias, e ouvindo as dos outros, uma turma de adolescentes supostamente indomáveis vai descobrir o poder da tolerância, recuperar suas vidas desfeitas e mudar seu mundo. O diário produzido por eles foi publicado em 1999.
Hilary foi agraciado com o Oscar de Melhor Atriz por Meninos não choram (2000) e Menina de Ouro (2004). No início do filme, a professora Erin Gruwel chega à Escola Wilson em Long Beach e expõe seu pensamento à coordenadora do curso de Inglês (uma cobra): [...] Escolhi a Wilson por causa do programa de integração. Acho que o que está acontecendo aqui é muito empolgante [...]? Meu pai participou do movimento pelos direitos civis. E na época em que vi os tumultos de Los Angeles na TV, eu planejava fazer Direito. Eu pensei: "Céus, quando se defende um garoto no tribunal já se perdeu a guerra". A verdadeira luta deveria acontecer aqui na sala de aula. Você vai chorar vendo esse filme.

PRIMEIRO CANTO

eu canto
a primavera
nestas manhãs

com os olhos
apanhadores
de pássaros

com os dedos
molhados
de brisa

com o coração
floriforme

nestas manhãs
a primavera
eu canto


(Hoje posso editar o poema acima, deletando o que era seu esboço. Para compô-lo, empreguei um único verbo e um único adjetivo. Essas duas classes de palavras empobrecem o texto poético.)

TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ

Nossa civilização não nasceu na Grécia, como nos ensinaram os professores de História. Nossa civilização nasceu um pouco mais ao oriente, num pequeno reino chamado Judá. Nada tem sido mais influente no mundo ocidental do que a tradição judaico-cristã, cuja quintessência é transformar a Terra num "vale de lágrimas".
Com este escrito, declaro algo jamais pensado por alguém (que a nossa civilização nasceu em Judá). O terceiro período acima já revela a clara influência de Nietzsche.
O antropocentrismo, por exemplo, vejo também como conseqüência da auto-divinização do homem, não o contraponto.

O VIÉS HUMANO

Num dos posts abaixo, escrevo que os homens estão errados ao pensar que as florestas existem para que eles vivam. O mesmo preconceito antropocêntrico, a mesma vaidade, pode ser observada na relação humana com o clima. Ela é fundamentada por um princípio hedonista, que preconiza a obrigatoriedade das temperaturas variarem conforme o desejo e a conveniência dos homens. (Não emprego a primeira pessoa do plural para ser coerente com o meu percebimento do equívoco, o que me faz mais adaptável ao meio.) Exemplo social desse comportamento especista ocorre nas grandes cidades construídas às margens de um rio, cujas áreas de alagamento em tempo de cheia foram sendo ocupadas para urbanização. Quando os pequenos dilúvios acontecem, a população ribeirinha chora e esbraveja que o rio invadiu suas casas e que o governo precisa urgentemente fazer alguma coisa. Em Curitiba, o então prefeito Roberto Requião resolveu o problema no âmbito dialético: as casas invadiram primeiro o leito do rio. Quente ou frio, seco ou úmido, o clima existe independentemente das necessidades humanas, apesar de estas já interferirem naquele de uma forma nefasta para a própria vida.

PREVISÕES METEOROLÓGICAS

As previsões meteorológicas não falham. Todas a frentes frias previstas se confirmaram. Pela primeira vez não fez agosto no mês de agosto. O inverno foi extenso e intenso (mais do nunca). As chuvas marcaram o fim da estação no Rio Grande do Sul (para incômodo da gauchada que foi para avenida festejar a Semana Farroupilha). Pois, bem, a meteorologia prevê uma Primavera seca e quente, 2ºC acima da média. Aqueles que perguntavam pelo aquecimento (tiritando de frio), como a pilheriar com o tempo, terão a resposta nos próximos meses.

domingo, 23 de setembro de 2007

CHUVA E ENSIMESMAMENTO

Hoje passei o dia no velório de um tio na Cerca de Pedras. A chuva não deu trégua desde manhã, intensificando na hora do sepultamento. Em certo momento, afastado das conversas, contei os presentes na capela. Constatei que, à exceção dos netos(as) do meu tio, todos os demais eram pessoas acima de 40 anos. Mais tarde, sob um enorme guarda-chuva, andei por vários corredores do cemitério, vendo a fotografia de quem ali "descansa" para sempre. Outra constatação: raras crianças e jovens. A maior certeza, a morte, constitui, igualmente a mais angustiada incerteza de nossas vidas. Sabemos quê, mas não sabemos quando. Outras reflexões me fazem ensimesmado ainda, enquanto ouço os pingos de chuva cair lá fora.

VAMOS POSTAR

O que está acontecendo com os nossos blogueiros? Passam-se umdoistrêsquatrocinco dias e nada de novo no blog. À exceção de umaduastrêsquatrocinco atualizações, tudo mais é silêncio (para frustração dos leitores). Repito o que diz uma personagem dO Pequeno Príncipe, de Exupéry: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Para ficar mais realista, deleto "eternamente" (um hipérbole desnecessário).

sábado, 22 de setembro de 2007

CAMPEONATO MUNDIAL DE XADREZ

O Campeonato Mundial de Xadrez 2007 está ocorrendo na Cidade do México.
Participantes:
- Vishwanathan Anand (1) - Índia;
- Vladimir Kramnik (2) - Rússia;
- Alexander Morozevich (5) - Rússia;
- Peter Leko (7) - Hungria;
- Levon Aronian (8) - Armênia;
- Peter Svidler (12) - Rússia;
- Boris Gelfand (13) - Israel;
- Alexander Grischuk (14) - Rússia.
O número entre parêntesis significa a colocação no ranking da Federação Internacional de Xadrez. Anand, de camisa clara na foto acima, lidera o atual campeonato com 5 pontos. Término previsto: 30 set 2007.

O QUE É INTERTEXTUALIDADE?

Intertextualidade é a superposição de um texto literário a outro 1. influência de um texto sobre outro que o toma como modelo ou ponto de partida, e que gera a atualização do texto citado 2. utilização de uma multiplicidade de textos ou de partes de textos preexistentes de um ou mais autores, de que resulta a elaboração de um novo texto literário (Houaiss).
Tipos de intertextualidade:
- Epígrafe - designa os fragmentos de textos que servem de lema ou divisa de uma obra, capítulo, ou poema. Pode ocorrer logo abaixo do título de um livro, ou ainda à entrada de um capítulo, ou composição poética. Por vezes, não existindo vínculo entre ela e o conteúdo da obra, funciona como mero enfeite ou demonstração pueril de conhecimento (Massaud Moisés).
- Citação - transcrição do texto alheio, marcada por aspas.
- Paráfrase - reprodução do texto do outro com as palavras do autor, muitas vezes para torná-lo mais claro. Ela é diferente do plágio, pois o autor deixa claro sua intenção e a fonte.
- Paródia - Designa toda composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema ou/e a forma de uma obra séria. O intuito da paródia consiste em ridicularizar uma tendência ou um estilo.
- Pastiche - diz-se de uma obra que, imita servilmente a outra, ou mistura canhestramente trechos de várias procedências. De sentido pejorativo, corresponde, até certo ponto, à paródia.
- Tradução - a versão de uma língua para outra está no campo da intertextualidade porque emplica em recriação do texto traduzido.
- Referência - nota informativa de remissão em uma publicação.
- Alusão - referência vaga, de maneira indireta, a um autor ou obra.

PASSAGEM ESTELAR DE REBECA SASSO

Em plena euforia com a mais nova blogueira em nosso meio virtual, merecedora de todos os elogios, eis que ela trava seu blog. Diz-se cansada... Vamos respeitar a menina. Nossa blogosfera sentirá falta de sua presença instigante.

A "RAZÃO" NA FILOSOFIA

NIETZSCHE, em seu Crepúsculo dos Ídolos, "baixa o martelo":
Quereis que vos diga tudo que é peculiar aos filósofos?... Por exemplo, sua falta de sentido histórico, seu ódio à idéia do devir, seu egipcismo. Crêem honrar uma coisa despojando-a de seu aspecto histórico, sub specie aeterni... quando fazem dela uma múmia. Tudo com que os filósofos se ocupam há milhares de anos são idéias - múmias; nada real saiu vivo de suas mãos. Esses senhores idólatras das idéias quando adoram, matam e empalham: tudo é posto em perigo de morte quando eles adoram. A morte, a evolução, a idade, tanto quanto o nascimento e o crescimento, são para eles não só objetções, como até refutações. O que é não se torna, não se faz, e o que se torna ou se faz não é. Todos acreditam desesperadamente no ser. Porém não podem apoderar-se dele, buscam as razões segundo as quais ele lhes escapa: "É forçoso que haja aí uma aparência, um engano por efeito do qual não podemos perceber o ser - onde está o impostor?" Já o apanhamos - gritam alegremente - são os sentidos! Os sentidos, que por outro lado são tão imorais... Os sentidos são quem nos enganam acerca do mundo verdadeiro.
Resultado: mister se faz desprender-se da ilusão dos sentidos, do devir, da história, da mentira. Conseqüência: negar tudo o que supõe fé nos sentidos, negar todo o resto da humanidade; isso pertence ao povo; é necessário ser filósofo, é necessário ser múmia [...]. E acima de tudo que pereça o corpo, essa lamentável idéia fixa dos sentidos, o corpo contaminado por todos os defeitos que a lógica pode descobrir, refutado, até impossível, se se quer, ainda que tão impertinente que se porta como fosse real!
Um filósofo fazendo a análise dos próprios filósofos - eis a grandeza de Nietzsche.
Esse ódio ao devir, explico, advém da herança aristotélica.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O TEMPO


O portão azul, entre esta casa e a rua, separa-me das pessoas que passam num ritmo determinado muito mais pelos sonhos de cada uma delas. Às vezes, sinto compaixão pela realidade que deve manter tais pessoas presas inexoravelmente à vida. Ainda bem que a pressa não lhes permite olhar para trás destas grades de ferro com igual empatia ou indiscrição: apiedar-se-iam dos meus sonhos. Os transeuntes não imaginam o que seja minha faculdade de pensar o tempo, de senti-lo presente. Algo que não sei explicar sem o auxílio da alegoria. Um imenso comboio que roda, o tempo conduz a todos nós, quer percebamos seu movimento ou não. Muitos de meus contemporâneos têm certeza do deslocamento de uma estação a outra, mas dificilmente se reconhecem como simples passageiros. No interior desse trem, tudo está imóvel, pelo menos na aparência, dos objetos mais corriqueiros às estrelas no céu (vistas pela janela). A ilusão de imobilidade ocorre, inclusive, com o observador em relação a si mesmo. Por isso dizemos que o tempo passa. São ainda mais raros os que sabem o aspecto mais perturbador da "viagem": dois vagões seguem atrelados ao nosso, cujo acesso nos é negado sempre. Do que vem atrás, temos a nítida lembrança de que já o conhecemos. Ali estão as imagens de pessoas, lugares e eventos que marcaram alguns momentos de nossas vidas. Quanto ao vagão da frente, a despeito de toda pressa e desejo, logramos alcançá-lo única e exclusivamente através do sonho. Passado e futuro. Certamente, as pessoas que sobem e descem a Bento Gonçalves não estão interessadas em saber tais coisas. Para elas, a pressa é sinônimo de responsabilidade, nunca o sintoma de uma doença moderna, a qual tem sua origem na relação desastrada que temos com o tempo: o estresse. Assim sendo, dirijo minhas reflexões ao leitor solidário que, neste instante, olha para dentro de si e descobre quê.


(Nesta meia-noite, brindo os leitores com uma das melhores crônicas que escrevi nestes anos.)

PRÉ-SOCRÁTICOS

tales

na água
o mundo
flu~~tua
a terra
o sol
a lua

na água
tudo tem
origem
e de
oooos
ooooooágua


xenófanes

o grande engenho
do homem
que o levaria
aos céus
montado
oooooooosobre
o abdômen...

foi deus

heráclito

fogo logos
divindade
três nomes
identificam
no múltiplo
a unidade
do mundo
que sempre
foi e sempre
será aceso
ou extinto
com medida
dos contrá
oooo(rios)
num fluir
constante
e necessário


leucipo

na grande
orden(ação)
do cosmos
o ser
ooe
o não ser
ooooooooooooooooooooooooooosão

(Do meu livro Ponteiros de Palavra)

CRÍTICA DA RAZÃO TUPINIQUIM

Roberto Gomes é um escritor brasileiro, com vários romances publicados, livros de contos e crônicas. Sua primeira obra, no entanto, foi Crítica da Razão Tupiniquim (1977), que versa sobre a Filosofia no Brasil. Um livro que conquista o leitor, extraordinário. Fechando com o que Olavo de Carvalho denuncia em seu estilo hiperbólico, Roberto Gomes escreve: "[...] Mergulhado num escafandro greco-romano - embora não seja nem grego nem romano -, o brasileiro foge de sua identidade. Tem sido na Filosofia que o espírito humano tem buscado sua auto-revelação. Porém, autocomplacente e conformista, sujeito sério, o brasileiro ainda não produziu Filosofia. Assim, é necessário advertir que um pensamento brasileiro jamais esteve lá onde tem sido procurado: teses universitárias, cursos de graduação e pós-graduação, revistas especializadas - e logo se verá por quê. [...] Além do palavrório aridamente técnico e estéril, das idéias gerais, das teses que antecipadamente sabemos como vão concluir, das idéias bem pensantes, nada encontramos que possa denunciar a presença de um pensamento brasileiro entre nossos 'filósofos oficiais', vítimas de um discurso que não pensa, delira. [...] Um pensamento brasileiro deverá brotar de uma realidade brasileira [...]. Deve inventar seus temas, ritmo, linguagem. [...] Obras como as de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Machado de Assis, Lima Barreto, Sérgio Buarque de Holanda, Chico Buarque, além daquilo que se tem feito no campo das ciências humanas nos últimos anos, têm mais a nos dizer do que as maçantes teses universitárias nas quais a Filosofia se mascara no Brasil".
Os nossos filósofos são meros interpretadores de Kant, Hegel, Marx, Gramsci, Husserl, Wittgenstein, Heidegger... Quanto mais obscuro, melhor. Por isso, a preferência pelos dois últimos. Um artigo de José Oscar de Almeida Marques (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas), sobre o Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein, não passa de tautologia, blablablá que não acaba mais para dizer e não diz sobre a essência da proposição. Na relação elaborada por Roberto Gomes dos expoentes da nossa Literatura que dizem muito através de suas obras, eu acrescentaria outros poetas: Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Carlos Nejar...

PARA SUFOCAR O JOIO

Para evitar o joio, preservando a qualidade do trigo, preciso sufocar a semente ruim que nos últimos dias teima em germinar na lavoura que cultivo. A partir de agora, peço aos leitores que façam seus comentários para este e-mail: froilamo@bol.com.br

OLAVO DE CARVALHO

Olavo de Carvalho responde sobre a seguinte questão: Atualmente, as faculdades em geral formam realmente filósofos? Ou são só professores de Filosofia? "Ninguém pode dar o que não tem nem ensinar o que não sabe. Não há um só filósofo no nosso meio acadêmico, e a prova é que esse meio rejeita, por medo e preconceito, todo filósofo autêntico que apareça dentro ou fora dele. Dizer que uma Marilena Chauí, um Leandro Konder sejam filósofos é um ultraje à filosofia. A primeira é uma professora de ginásio, o segundo é um propagandista barato. Mas é só esse tipo de gente que a universidade aceita. Já o Villém Flusser, um gênio espantoso, acabou desistindo do Brasil e foi publicar seus livros na Alemanha, onde imediatamente foi reconhecido como um dos pensadores mais originais das últimas décadas. No Brasil aqueles entojadinhos da USP faziam pouco dele, empinavam o nariz diante dos seus escritos porque eram publicados em jornal – como se Gabriel Marcel ou Ortega y Gasset também não tivessem sido eminentemente jornalistas. Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva também foram postos para escanteio, e até Miguel Reale, reitor da USP, era discriminado dentro da sua própria universidade. Agora, com quarenta anos de atraso, a USP decidiu absorver o prof. Reale, concedendo ao mestre um lugarzinho modesto ao lado de quinze micos na coletânea Conversas com Filósofos Brasileiros, na qual ele é obviamente o único filósofo presente. Ora, esses quatro nomes – Flusser, Reale e os dois Ferreiras – perfazem o essencial da filosofia brasileira deste século – o que vale dizer que a filosofia esteve rigorosamente fora da universidade, por obra de medíocres e invejosos que se empoleiraram como urubus nas chefias de departamentos. O que a universidade brasileira tem feito contra a filosofia é simplesmente criminoso."
Olavo de Carvalho é filósofo.

IDÉIA EQUIVOCADA

A Floresta Amazônica é o "pulmão" do mundo! Muitos ecologistas de plantão também dizem isso. As autoridades, então, exploram essa imagem preconteituosa, especista, antropocêntrica. O que faz o pulmão? Transforma o oxigênio em dióxido de carbono, isto é, polui o ar (para si mesmo). O que faz as plantas? Absorvem esse gás e, através da fotossíntese, devolvem oxigênio gasoso. É errado pensar que as florestas fazem essa reciclagem para que o homem viva. Elas começaram a se desenvolver na Era Paleozóica, há quase 500 milhões de anos. Os primeiros hominídeos surgiram há 2,5 milhões de anos (no máximo). O homem é tão novinho e já se acha dono do planeta.

DIA DA ÁRVORE E DIA DO FAZENDEIRO?

Hoje, 21 de setembro, é consagrado como Dia da Árvore, Dia do Radialista, Dia Internacional da Paz, Dia Nacional da Luta dos Portadores de Deficiência e Dia do Fazendeiro. Um dia cheio de homenagens, duas delas reveladoras de um mau gosto, de um equívoco, de uma incoerência muito grande: Dia da Árvore e Dia do Fazendeiro. O fazendeiro, sabe-se, trabalha com a agricultura também. Ele foi o primeiro a desmatar para o cultivo das lavouras e para a formação de pastagens. A prática agrícola constitui a maior agressão ao meio ambiente, hoje não mais justificada para a sobrevivência apenas. As fazendas nos estados do Norte continuam desmatando áreas enormes, exclusivamente para o enriquecimento de seus proprietários. Até aonde vai a hipocrisia humana? Depois que passamos longos meses de inverno queimando lenha em nossas lareiras, em todas as lareiras do Sul, rendemos homenagens a uma árvore solitária no meio da praça.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

CÍRCULO

o barro
se fez
homem

ooooooo homem
oooooocons
oooooooooociência

oooooooooooooooa consciência
ooooooooooooooose fez
ooooooooooooooodeus

ooooooooooooooooooo(a mais
ooooooooooooooooooodoida
oooooooooooooooooootranscendência)

ooooooooooooooooooooooooooo deus
oooooooooooooooooooooooooose fez
oooooooooooooooooooooooooohomem

ooooooooooooooooooooooooooooooooo homem
oooooooooooooooooooooooooooooooobarro
oooooooooooooooooooooooooooooooooutra vez

(Do meu livro Ponteiros de Palavra)

QUAL É O QUADRO?

Durante algum tempo o interesse de Oskar Kokoschka variou entre a pintura de retratos e a composição figurativa com incidência nos temas religiosos, aos quais acrescentava um fundo paisagístico. Para conseguir obter as dimensões do espaço pintava uma rede prismática de linhas e planos coloridos sobre a superfície dos seus quadros. Sobre esta experimentava a cor, não apenas como meio de moldar o espaço ou simples modo de expressão, mas como elemento sensual. O mais importante quadro desse período é.......... (também chamado de A Tempestade), de 1914, trabalho que conseguiu uma extraordinária força de expressão apenas por meio da cor.

"UMA ESTRELA CINTILANTE"

Os últimos posts do Júlio Prates são extraordinários, revelam uma evolução holística admirável. Como já fiz com um poema em prosa da Vivian, transcrevo Rumo do meu amigo, considerando a parcela de leitores distintos. "Um dos aspectos mais trágicos da vida é a consciência do convívio com a morte e com a dor. Lastimo - nos seres humanos - a presença de dor. Confesso que nunca senti tanta dor em meu corpo como no dia de hoje. Não sei explicar a origem, a dor parece que caminha, formiga, impede o movimento dos braços e gera uma ansiedade e um pavor sem precedentes. Fico inquieto, quero calar-me, mas não consigo. O simples fato de não poder teclar e nem desenvolver meu livro angustia-me ainda mais. Estou muito triste.Também vejo em ruínas uma instabilidade que me acompanhou nos últimos tempos. Não temo as ruínas, pois não temo o caos, assim como não temo os labirintos do pavor da busca, do medo e da incerteza. Ante a convivência do convívio contrariado, não se deve perder a perspectiva que, mesmo na incerteza, paira algum fundamento de certeza. O fundamento de certeza que ronda nossas almas pode ser um tênuo fio que conduz ao absurdo, ao nada, ao caos e ao abismo, mas nem por isso deixa de ser certeza. Agora isso, o tudo mais apresenta-se como perspectiva edificadora, afinal, depois do caos só pode mesmo desabrochar uma estrela cintilante. Eu temo o caos, eu não temo o caos. Quero dormir um pouco e sonhar que vou acordar sem dor ou com a dor mais aliviada. E que outros tormentos tomem o rumo de uma latrina." Esta crônica, pungente por seu tom confessional, possui uma beleza rara (própria de uma supernova). Nietzsche estava muito certo: a existência do mundo (e a do próprio ser pensante) não se pode justificar senão como fenômeno estético.

INACREDITÁVEL...

Outra vez às páginas do Expresso, sofro o impacto de uma notícia ruim. De repente, a foto de um homem me chama a atenção. O texto ao lado informa a morte de seu Polimar. Na quinta e sexta passadas, conheci esse senhor, conversei muito com ele, enquanto corríamos de automóvel pela cidade, ultimando os trabalhos da antologia da Rua dos Poetas. Como estava sem condições de dirigir ainda, a Secretaria de Educação e Cultura colocou um carro à minha disposição, cujo motorista era seu Polimar. Muito gentil e bom de prosa, contou-me de sua vida, da aposentadoria iminente, da mudança de residência que pretendia fazer... Segundo o jornal, seu Polimar sofreu um infarto enquanto dançava com a esposa.

A VISÃO DE UM ACIDENTE

Hoje me levantei cedo para revisar as provas que trouxera do Expresso. Como a manhã estava fechada, ameaçando chuva, abri as cortinas da janela para ler melhor. De repente, um ruído de freada me fez olhar para fora. Uma moto girava no ar (como se fosse em slow-motion, porque faço malabarismos com copo, xícara, faca etc.). Ao mesmo tempo em que a moto rodopiava, seu condutor sofria uma queda no rápido e pesado vôo, duramente interrompida pelo asfalto. A primeira coisa que pensei, ao sair manquitolando pelo portão, foi de saber o que provocara o acidente. Havia muitos cavaleiros subindo para o desfile. Ainda bem que o acidentado estava com o capacete, foi a segunda coisa que pensei. Em frente à parada do ônibus, no meio da rua, um cão agonizava sem qualquer atendimento. Por instinto especista, todos se dirigiam ao rapaz primeiramente. Em alguns minutos, chegou a ambulância. Voltei para dentro, imaginando o quanto de adrenalina uma pessoa libera entre o momento em que percebe a inevitabilidade do acidente e o momento em que perde os sentidos. As supra-renais devem responder tão rapidamente quanto o impulso cerebral, produzindo o máximo de hormônio. Esse aspecto físico-químico, no entanto, não tem a menor relevância ante o fato de um jovem ser conduzido ao hospital e um cão estrebuchar sobre o meio-fio (completamente ignorado).

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

RECICLAGEM

oooooooooooooooooalém daquelas
oooooooooooooooooestrelas
oooooooooooooooooburacos negros
oooooooooooooooooconvexos
ooooooooooooooooosão aberturas
oooooooooooooooooque viram
oooooooooooooooooeste universo
oooooooooooooooooosseva oa

ooooooooooooooooodo lado
oooooooooooooooooque se desvira
ooooooooooooooooomatéria-prima
ooooooooooooooooopo..e..i..ra....................
ooooooooooooooooonovo universo
oooooooooooooooooexpandido
ooooooooooooooooopós-reciclado
oooooooooooooooood i s p e r s o

(Do meu livro Ponteiros de palavra)

NOS TRIGAIS

nos trigais
da manhã
o vento
se desenha
em ondas
que vêm
ooooooooo e vão
e vêm
ooooooooo e vão
oooooooooooooooooooooooooo o vento
oooooooooooooooooooooooooo em vão
oooooooooooooooooooooooooo in venta
oooooooooooooooooooooooooo à luz
oooooooooooooooooooooooooo das praganas
oooooooooooooooooooooooooo o movimento

(Do meu livro Ponteiros de palavra)

VAMOS COMER O QUÊ?

Alicia Silverstone tira a roupa por uma boa causa: o vegetarianismo.
Cadê o pé de alface? Vamos comer o que agora?
Em Curitiba, 1988, consegui ficar meio ano sem comer carne. Por motivos éticos. Não resisti, dominado pelo prazer gastronômico (pero no mucho).

TRÊS GRANDES POETAS BRASILEIROS








oooooooooooooooooooooooooooooooooCarlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Carlos Nejar

TRÊS GRANDES ROMANCISTAS BRASILEIROS







OOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOMachado de Assis, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa.

UM BRASIL SEM FILÓSOFOS

Quais são os nossos filósofos mais expressivos? Poucos responderão a essa pergunta. A maioria dos brasileiros ficará em silêncio, com um ponto de interrogação quase materializado no alto da cabeça. O fato de não saber, pergunto, infere um atraso intelectual de nossa gente? Não, absolutamente. Quando falta uma resposta satisfatória, incontestável, o silêncio é prova de sabedoria também. A imprudência de citar dois ou três nomes, como o fez Vilém Flusser em seu artigo "Há Filosofia no Brasil?", demonstra a confusão, a ignorância dos que sabem. Agora um outra pergunta: quais são os romancistas mais expressivos da nossa Literatura? As mesmas pessoas que silenciaram ante a pergunta anterior, não terão dificuldade para citar muitos nomes. A justificativa é que existem bons romancistas.
Você sabe de quem é a foto acima? Como não? Não conhece Vicente Ferreira da Silva?

...(SIC) ...(SIC) ...(SIC)

O senhor Marcelo da Silva Duarte, mestrando em Filosofia na UFRGS, sentencia que eu não entendo nada de lógica formal. Se isso fosse verdadeiro, inferiria que ele sabe tudo, o que é questionável. De que adianta todo seu entendimento de lógica, se é incapaz de ler o que escrevi no post-causa de sua tréplica? Ali expresso com clareza que a UFRGS, UFSM, entre outras são exceção. Meu interlocutor, todavia, encasquetou de que afirmo ser o Instituto de Filosofia da UFRGS regra da generalização já esclarecida. Somando-se a essa sua querela forçada, fica subentendida certa arrogância acadêmica de sabichão (em seu comentário), tão contrária à humildade dos grandes filósofos. O senhor Marcelo também generaliza com a seguinte assertiva: "... note que o senhor não está escrevendo para leitores de sua coluna no Expresso Ilustrado". Qual o pressuposto disso? Que os leitores deste blog (atrás dos quais surge sua pernóstica figura) pertencem a uma esfera intelectual mais elevada. Não havia pensado nessa distinção, uma vez que passei a esboçar nesta página as colunas que publico no Expresso. Sou um autoditada, plenamente sabedor de que toda a leitura por mim realizada em Filosofia ainda é pouco para me considerar alguém capaz de cotejar conhecimento com um futuro mestre. Minha intenção inicial era de atribuir a falta de tradição filosófica de nossas universidades à falta de tradição filosófica no Brasil, não independente da Mãe-Europa, mas isso é uma polêmica tão grande que sequer nossos melhores pensadores conseguiram resolvê-la. Álvaro Lins, por exemplo, enfatiza o seguinte: "Nunca se explicará com suficiente exatidão o que determina a ausência de um verdadeiro filósofo no Brasil". O que fará o professor Luiz Henrique Lopes dos Santos no minicurso que fará no IFCH da UFRSG? Uma mera interpretação de Wittgenstein, não fugindo à verdadeira tradição brasileira de papaguear. O senhor Marcelo deve se preocupar em romper com essa tradição, mas não será querelando com um blogueiro de Santiago que ele evoluirá filosoficamente. Por derradeiro, a partir deste post não mais considerarei os comentários do senhor Marcelo. Vade-retro, bruxa da filosofia! A fada da poesia merece uma estada mais tranqüila.

UM GAÚCHO AUTÊNTICO

Um gaúcho autêntico mora no interior, numa casa rodeada de arvoredo. Cinamomos na frente, para fazer sombra. Laranjeiras, pessegueiros, entre outras árvores frutíferas nos fundos. Para fora da cerca que delimita o pátio, o campo. Ele levanta antes de clarear o dia, acende o fogo, toma chimarrão, ouve rádio, ferve o café no bule, toma o café com pão e meio palmo de salame, encilha o cavalo e sai para a lida. Depois do meio-dia, tira uma "séstia" à sombra do cinamomo, sobre uma cadeira virada e pelegos. Qual a lida do gaúcho autêntico? Ou é na fazenda, como peão, ou na lavoura, com um gadinho para a própria subsistência. A maioria dos gaúchos que empobreceram (os romances de Cyro Martins são retratos pungentes desse drama rural) se foi pra cidade, deixou de ser autêntica. A minoria que enriqueceu, também foi morar nos centros urbanizados, também perdendo a autenticidade. Pobres e ricos, abandonaram o campo e hoje referenciam o passado, como uma forma de narcisismo tardio, saudosista e fantasioso. Ao longo de uma semana do ano, compram lenços, bombachas e botas, encilham cavalos, andam pelas ruas da cidade com uma garrafa etílica na mão e desfilam no último dia. De volta à realidade , devolvem o cavalo ao campo, penduram os arreios e não falam mais em tradição. Enquanto isso, o gaúcho autêntico continua sua vida de sempre. Há muitos anos, ele tropeava (até vir o asfalto e o caminhão boiadeiro). Seu gosto pela carne mal passada, quase crua, vem desse tempo. Nos domingos, vai jogar bocha ou carta no clube, a cavalito sempre, num assobio, repontando lembranças. Um gaúcho autêntico mora no Rincão dos Machado, antes do Rosário ser poluído pelo Pilão. Meu pai.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

DIREITO DE RESPOSTA

Uma pessoa (msilvaduarte) comenta meu post O ENSINO DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA, inicialmente com uma pergunta: "Quais instituições de ensino o senhor tem em mente quando afirma que as universidades não dispõem de um quadro docente capacitado nas ciências humanísticas?". Acresce que eu não estaria me referindo ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Num primeiro momento, faço mea culpa por não citar nossas principais universidades (UFRGS, UFSM...) como exceção. Referia-me às universidades regionalizadas que vicejam nos últimos 10/15 anos, que, pela mesma falha da generalização apressada, deixei de nomificá-las. Numa outra forma de enunciado, obviamente, não incorreria nessa generalização. Num segundo momento, penso que não estou de todo errado ao generalizar. Fundamentando minhas razões no próprio argumento do meu interlocutor, pergunto se o Instituto teria condições de atender a carência de professores no menor prazo possível, i. é., 4 para 5 anos, no âmbito estadual. Claro que não. O quadro não é capacitado pelo seu número, não pela qualidade (em se tratando do Instituto da UFRGS). O problema da transição persite. E aprofundando ainda mais essa questão, qual é a tradição filosófica das nossas universidades brasileiras?

PERCEPTÍVEL EVOLUÇÃO

O que aconteceu de ontem p'ra hoje? De repente, os blogueiros resolveram editar novos posts com uma qualidade que me surpreende. O blog do Gui Damian está imperdível: o internauta faz a Web. O blog do Júlio, um passo além com o post Basta de Mentira. O blog da Rebeca: a primeira reivindicação por mais livros em Santiago (pura sensatez). A Patrícia faz umas observações interessantes, além de seus limites. A Vivian, inteligentemente, alterna suas crônicas intimistas com considerações pertinentes sobre nossa política. A Elisandra usa a mesma estratégia da Vivian. A Kátia defende o tradicionalismo gaúcho. A Lígia transcreve Cecília Meirelles (mas ela é apaixonada por Shakespeare). O João Lemes escreve o intigrante O livro e a cigana (obrigado por me colocar entre os três poetas). O Márcio aprimora cada vez mais suas crônicas e contos. A Cassal sempre antenado com as últimas. A Eliziane foi a única que não fez atualização. Diniz Cogo é o mais novo blogueiro. Número e qualidade.

LEITURA E CONHECIMENTO

No dia 15 de setembro de 2006, minha coluna no Expresso Ilustrado versou sobre o retorno da Filosofia ao ensino médio. Portanto, a criança já fez um ano. Alguns dias mais tarde, recebi e-mail de um professor de Filosofia, encantado com o meu texto Leitura e conhecimento. Transcrevo seu último período: Assim, penso que haverá uma vulgarização da Filosofia e um conseqüente desinteresse por ela.

UM RACIOCÍCIO FUNDAMENTAL


Futuramente, os nossos educadores saberão que o retorno da Filosofia ao currículo do ensino médio não tornou o aluno mais crítico como fora idealizado. Mas essa constatação não será suficiente para banir outra vez a disciplina (nome inadequado para designar a Filosofia). Como autoridades hipercríticas, retomarão o raciocínio desenvolvido pelo Padre Antônio Vieira em seu Sermão aos Peixes: “Qual a causa da corrupção de uma terra cheia de pregadores? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar”. O problema, dar-se-ão conta, não é o conhecimento filosófico, o conteúdo em si. Resta aquele que o transmite, o professor, e aquele que o recebe, o aluno. Não obstante ter formação universitária e aplicar uma didática-show, o primeiro nunca compensará sua falta de leitura. O segundo, por sua vez, continuará não receptivo à Filosofia, avesso à contemplação de si mesmo e do mundo que o rodeia. A criticidade é um atributo racional que não faz mais feliz aquele que o possui, na medida em que não interfere no emocional, essa esfera do ser muito acessível à arte, à poesia.